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Firipe Beruberu, O Quixote Moçambicano

Escrito por  Marcelo Pacheco Soares
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«E nisto acudiu o barbeiro:

– Peço a Vossas Mercês que me dêem licença

para narrar um breve caso que (...), por vir aqui

de molde, sinto vontade de contar»

(Dom Quixote - Miguel de Cevantes)

 

«E nisto acudiu o barbeiro:

– Peço a Vossas Mercês que me dêem licença

para narrar um breve caso que (...), por vir aqui

de molde, sinto vontade de contar»

(Dom Quixote - Miguel de Cevantes)

«Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu», conto do moçambicano Mia Couto, tem como personagem central um pobre barbeiro da década de 60 que, em virtude das reclamações de alguns clientes insatisfeitos, para comprovar o seu prestígio, apresenta um postal com a foto do ator de cinema americano Poitier, alegando que aquele corte de cabelo é obra sua.

A narrativa se divide em três partes: a primeira apresenta o barbeiro Firipe Beruberu e expõe as circunstâncias que o levam à mentira; a segunda inclui na narrativa o assistente do barbeiro, Gaspar Vivito, e evidencia a boa relação entre os dois; a terceira traz à tona a conseqüência da mentira criada pelo barbeiro: os agentes da Pide o confundem com um politizado envolvido com Eduardo Mondlane, fundador da Frelimo, e prendem Beruberu.

O conto traz ao término da segunda parte o trecho que desperta a nossa atenção para diálogos com o clássico Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes:

E corriam os dois atrás de imaginários inimigos. Acabavam por se tropeçarem, sem jeito para se zangarem. E cansados, ofegavam um ligeiro riso, como se perdoassem ao mundo aquela ofensa. (COUTO, 1990) (Grifos nossos)

Os «imaginários inimigos» em questão são supostos morcegos que comem frutos na maçaniqueira. Ora, o personagem literário mundialmente conhecido por correr atrás de inimigos imaginários é Dom Quixote, sempre escudeirado pelo fiel Sacho Pança. E podemos dizer que «se tropeçarem» é corriqueiro nas peripécias dessa dupla no romance de Cervantes. Aliás, os dois personagens do fragmento acima são o barbeiro e seu assistente; não é casual que apresentem a mesma relação mestre/aprendiz encontrada entre Quixote e Sancho.

O trecho que destacamos no conto, portanto, desperta-nos para uma reinterpretação das duas primeiras partes, que se mostrarão em diversos aspectos uma releitura do clássico de Cervantes, e prepara para um entendimento mais amplo da parte final.

Reimaginar o real é a particularidade fundamental do personagem de Cervantes. Em Beruberu – cujo o primeiro nome, Firipe, modificado em relação ao seu original em espanhol, Felipe, revela-se mais um indício do diálogo que propomos – essa também é uma característica latente. A barbearia é quase imaginária, se considerarmos que «o tecto era a sombra da maçaniqueira» e que «paredes não havia». Tal qual, o que Beruberu faz com a foto de Poitier, tentando enganar aos outros e até certo ponto a si mesmo, nada mais é do que recriar a realidade ao seu bel-prazer. Outra característica comum a ambos está em seus discursos imodestos: enquanto Dom Quixote se apresenta como o último representante digno dos membros da cavalaria andante, porque os demais de sua época apenas «se molestam com os damascos», Beruberu (ainda menos discreto) se intitulará «mestre dos barbeiros». Além disso, ao fim da segunda parte, dá-se ênfase a um sentimento de tristeza que Firipe procurava esconder, mas que, em certos momentos, revelava – «se confessava triste»” para Vivito – assim como Quixote era «o cavaleiro da triste figura”. E até mesmo o amor platônico está presente na narrativa, representado pela vendeira Rosinha que atiça o «olhar ansioso» de Beruberu ao passar na rua todas as tardes: esta mulher com quem tem apenas um contato visual seria a sua Dulcinéia.

Além da esfera semântica, averiguamos em nossa análise algumas características comuns às estruturas das duas obras aqui comparadas. Uma delas se refere à citada divisão do texto de Mia Couto, que apresentada os mesmos saltos cinematográficos que Arnold Hauser observa em Dom Quixote. Além do mais, Mia Couto baseia os diálogos do conto nas conversas de todos os dias e Cervantes foi o primeiro romancista a fazer uso de tal estratagema. E é inevitável pensar que em ambos descobrimos o inusitado surgimento do trágico dentro cômico.

Percebemos ainda que o conto em análise e a obra-prima de Cervantes apresentam o mesmo caráter social. Dom Quixote «é essencialmente um sintoma do incipiente predomínio das formas de governo autoritárias» (HAUSER, 1994) e é justamente isso que será denunciado na parte final de «Firipe Beruberu...», quando a Pide impõe seu julgamento e prende não apenas o barbeiro, mas também seu assistente e Jaimão, o vendedor de tabaco a que Firipe pagara para confirmar a sua mentira. O trecho em que as circunstâncias fazem a Pide concluir o envolvimento político de Beruberu está longe de ser um julgamento justo com direito à defesa.

– Onde está a fotografia do estrangeiro (...) que você recebeu aqui na barbearia. (...) – Mas senhor agente, isso do estrangeiro é história que inventei, brincadeira... (...) – (...) Então explica lá o que é isso aqui: “Cabeçada com dormida: mais 5 escudos”. Explica lá o que é essa dormida... – Isso é por causa de alguns clientes que dormecem na cadeira. (...) – Este aqui também adormeceu na cadeira, hein? – Mas esse nunca esteve aqui, juro. (...) Essa foto é a do artista do cinema. Nunca viu nos filmes, desses dos americanos? – Americanos, então? Está visto. Deve ser companheiro do outro, o tal Mondlane que veio da América. Então este também veio de lá? – Mas esse não veio de nenhuma parte. Isso tudo é mentira, propaganda. – Propaganda? Então deves ser tu o responsável da propaganda da organização... (COUTO, 1990)

E os equívocos prosseguem, cada vez mais incriminando Beruberu e os que o rodeiam. É o fim da ilusão do barbeiro, que o condena à morte (apenas subentendida ao término do conto), tal qual acontece com o fidalgo espanhol, que mortalmente adoece quando recupera a sanidade e perde de vista a miragem que era sua vida de cavaleiro andante.

Por fim, assim como Dom Quixote, «Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu» consegue conciliar a cor local de seu país de origem com uma inegável dimensão universal. Esta leitura comparativa parece descabida se pensarmos que Mia Couto busca a moçambicanidade em seu fazer literário. No entanto, recriar um personagem clássico estrangeiro aos moldes da cultura de um país é naturalizá-lo neste país. E, no caso de Moçambique, escolher justamente o maior nome da ficção espanhola, nação que mantém uma eterna rivalidade com o país que foi por séculos para a terra natal de Mia Couto o dominador (Portugal), é reafirmar com boa dose de ironia a independência moçambicana.

«– Então é este o conto, senhor barbeiro – disse Dom Quixote –, que, por vir de molde, não podia deixar de se narrar? Ah! Senhor tosquiador, senhor tosquiador! Cego é quem não vê por entre os fios de seda! E é possível que Vossa Mercê não saiba que as comparações que se fazem de engenho com engenho, de valor com valor, de formosura com formosura, e de linhagem com linhagem, são sempre odiosas e mal recebidas?” (Dom Quixote - Miguel de Cervantes)

Referências bibiográficas:

COUTO, Mia. «Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu». In: Cada homem é uma raça. Lisboa: Caminho, 1990, p. 141 – 158.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. Trad. Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1994, 2v., p. 527 – 31, 1079, 1104.

AUERBACH, Erich. A Dulcinéia Encantada. In: Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 299 – 320.

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