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A Gotinha Rebolinha: Uma Narrativa Infantil Angolana Juraci Coutinho de Pina

Escrito por  Juraci Coutinho de Pina
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É uma das mais árduas tarefas que conheço

colocar-se a gente no nível da criança; e é

característico de um espírito bem formado e

forte condescender em tornar suas as idéias

infantis, a fim de melhor guiar a criança.

Montaigne *

 

É uma das mais árduas tarefas que conheço

colocar-se a gente no nível da criança; e é

característico de um espírito bem formado e

forte condescender em tornar suas as idéias

infantis, a fim de melhor guiar a criança.

Montaigne *

Literatura Infantil é, antes de tudo, «literatura», isto é, mensagem de arte, beleza e emoção. No entanto, se destinada à criança, nada impede que agrade ao adulto, assim como nada modifica a sua característica «literária» se escrita para o adulto, agradar e emocionar a criança. Com ela, aprendemos todos os valores: o amor, a amizade, a inveja, o ódio, a mágoa, as traições, os porões da mente, os belos ideais, os corações imensos voltados para o que permanece, e os pequenos voltados para o transitório, para o efêmero.

Convém salientar, que para cativar a atenção da criança, a Literatura Infantil deve ter a presença marcante e irrefreável do imaginário e do sonho. E, mesmo que o assunto seja sério, o tema deve ser abordado de forma leve e singela, permitindo que a criança imagine e sonhe. Nela, o sonho é realidade e realidade é sonho. Nela, o imaginário é realidade e a realidade é imaginário. Nela, quem «fala» é a Linguagem e não a língua, porque «a língua não é a prova de nada mais senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros.» (CABRAL, s.d., p. 139)

A função primeira do livro infantil é a estético-formativa, a educação da sensibilidade, pois reúne a beleza da palavra e a beleza das imagens. O essencial é a qualidade de emoção e a sua ligação verdadeira com a criança. Cada conto infantil é um tesouro infinito, um tesouro de mil possibilidades. Com o auxílio do livro infantil podemos influir sobre a vida afetiva e estética da criança: o livro infantil ocupa um lugar privilegiado, pois é o ponto de encontro entre duas artes, a da palavra e a da forma, isto é, o texto e sua ilustração. O texto revela a imagem e a imagem revela o texto; a compreensão e eficácia do livro são aumentadas.

A criança, como dona de um mundo de fantasia e de vocabulário próprio, precisa de livros que lhe falem de seus sonhos, das suas coisas, das suas terras, belezas e gentes.

E o simples fato de manusear livros de histórias desde cedo faz com que ela se interesse por livros, queira conhecer seus autores e, através deles, as proezas das personagens por eles criadas. Nesse processo, faz-se importante a presença de um adulto que vai contando, lendo ou inventando. A relação do adulto com a criança favorece a criação do clima de empatia que deve existir entre a criança e o livro, transformando-se em fonte de prazer e abrindo caminho para o encontro definitivo da criança com a leitura.

O livre comércio criança-obra e o livre itinerário da criança pelos caminhos da criação devem ser facilitados. Esse itinerário é tanto mais amplo quanto mais ampla a abertura do texto para o imaginar. E essa abertura existirá sempre, na medida em que a obra seja lavada na mesma fonte natural onde a criança mergulha, e brinca, e vive sem nenhum regulamento que não seja o do seu próprio querer, poder e saber.

A atração que a Literatura Infantil exerce sobre a criança é impressionante, até mesmo em Angola. De acordo com Jorge Macedo (1989), ao se fazer um percurso pela Literatura Angolana, após o 25 de abril, constatamos que alguns autores vêm se dedicando à literatura para crianças que, apesar de só ter surgido recentemente, teve um desenvolvimento notável na última década. Os livros para crianças de Maria Eugênia Neto, de Gabriela Antunes, de Cremilda Lima, de Dario de Melo, de Octaviano Correia, de Maria João, de Celestina Fernandes, de Rosalina Pombal e de Zaida Dáskalos representam essa literatura de Angola. São pessoas como essas que dão (ou deram) uma contribuição imensa para o aperfeiçoamento da humanidade, para a lapidação da consciência humana, pois, enquanto houver uma cigarra cantando, uma gotinha de água de chuva que se relacione com uma criança, o mundo terá esperança branca como a neve. Certamente, há o florescimento da Literatura Infantil Angolana.

Para Laura Padilha (1995, p.22), a Literatura Infantil Angolana «vale-se, com freqüência, do conto popular oral, dando-lhe um tratamento estético específico». Esse conto oferece uma visão da sociedade em que circula sem referência direta. A reinvenção da tradição do povo angolano −Oratura −é sem dúvida um dos fatores de desenvolvimento da moderna literatura angolana, em busca constante de uma identificação e personalidade cultural. Nela, encontram-se aspectos que a tornam aproveitável para a literatura infantil: o de ensinar e educar recreando; o de moldar espíritos através da atividade lúdica; e a superação do real através do mítico, num jogo que a criança entende e aceita.

De um modo geral, a maneira como o africano comunica a expressão das suas idéias ou dos seus sentimentos é completamente natural. O conto angolano não constitui uma produção morta, sem beleza imaginativa, como muitos depreciadores dos méritos do negro imaginam.

Nos contos de fantasia, encontramos uma diversidade de personagens: homens, animais, sereias, monstros e seres inanimados. As repetições de episódios, postas na boca de uma das personagens, são freqüentes. Muitas passagens, a par da fantasia, refletem acontecimentos reais, portanto inserindo costumes e ritos. É certo que o pensamento lógico da criança exige unidade, coerência e organicidade entre os elementos da narrativa, independentemente de ser imaginária ou realista. Efetivamente, na realidade cultural angolana, percebe-se a importância do ato de narrar (criar através da palavra), que constitui-se em forma e abre espaço para o imaginar. Nele, a linguagem se manifesta como língua, constituindo realidades, nas quais o tempo não conta. Incorpora o “contar de novo”. O narrador está diante do ouvinte e, como diz Agostinho Neto (1979, p. 17), “tudo que é dito para o povo angolano pelos agentes mais capazes da cultura angolana representa o desejo e as formas da expressão do povo.” Em entrevista concedida à Helena Riauzova, em 1986, António Jacinto sublinhou um aspecto principal do significado da literatura para crianças: «a literatura infantil é um dos fenômenos mais importantes na vida cultural do período da reconstrução nacional: todas as crianças sabem agora ler, e por isso o caráter massivo da divulgação da literatura é indiscutível.»

Na opinião de Gabriela Antunes, «tudo pode ser dado a uma criança, desde que escrito numa linguagem simples, ilustrada e bem adaptada à idade da criança que lê e à sua realidade. O desenvolvimento do tema deve ter em conta a faixa etária e os conhecimentos do pequeno leitor, se quisermos que ele sinta prazer com o que lê (ou lhe contam) e possa interessar-se pelo livro.» (Seminário de Literatura Angolana. 21 a 25 de junho de 1999).

Uma vez que a nossa intenção é levar ao conhecimento do público leitor essa Literatura, destacamos o conto de Maria João, «A Gotinha Rebolinha» (1991). No entanto, pouco sabemos sobre essa autora que iniciou sua atividade literária em 1979, na Brigada Jovem de Literatura do Lubango, sua cidade natal. Realizou todos os seus estudos (primário, secundário e superior), tornando-se professora de Psicologia do Instituto «Comandante Liberdade», também, no Lubango, Província de Huila, Sul de Angola.

Exercendo o ato criador e manipulando a palavra como elemento de propulsão, Maria João lança-se toda na magia da palavra proferida, da palavra que, do ponto de vista psicológico, é força e vida, que gera movimento, melodia, ação e criação. A palavra que, segundo Amadou Hampâté-Bâ (1993, p. 17), «é o próprio instrumento da criação. [...] A palavra é por excelência o grande agente ativo da magia africana» Ela é o fulcro da capacidade inventiva do artista, gerando uma expressão, que liberta novas emoções. Ademais, o manejo espontâneo da palavra determina e consolida a personalidade de um homem.

É muito provável que o conto «A Gotinha Rebolinha» (1991), de Maria João, seja capaz de despertar em seu leitor um encantamento que provém do grande labor estético que possui. Um encantamento narrativo que possui muitas características da tradição oral. Pode-se sentir que a palavra de Maria João se transforma na força reveladora de sentimentos e virtudes que estavam adormecidos no subconsciente de uma sensibilidade coletiva. Indiscutivelmente, a magia das letras de Angola, como afirma Carmem Lúcia Tindó Secco (2003, p. 15), «apresenta várias faces e formas; nelas existe sempre um fascínio que é traduzido ora pela reinvenção da narratividade oral, ora pela lucidez de desvelar outras versões da História.»

No entanto, é importante ressaltar que o autor adulto deve tornar-se ingênuo na sua criação para o leitor infantil e juvenil. Talvez, por isso, ao realizar o infantil em seu texto, é que Maria João, soprada pelas auras da infância, tenha tornado seu livro A Gotinha Rebolinha acessível as amplas massas de leitores. Seu atrativo advém da singeleza de sua concepção, desde as personagens até o conflito em torno das questões primárias, mas, por esse motivo mesmo, básicas à sobrevivência.

A Gotinha Rebolinha é uma obra de poucas páginas, direcionada ao público infantil, na qual cada palavra tem sua importância. O texto é curto e vivo, escrito numa linguagem simples, concreta, direta, contendo repetições, com predominância de períodos simples, embora ocorram eventualmente coordenação e subordinação. As ilustrações são bem significativas e de cores bem alegres, apresentando o traço de despojamento de linhas que atrai de imediato o olhar infantil. O texto e a ilustração se conjugam para cativar e divertir o pequeno leitor, levando-o a uma relação gratificante com seres e coisas que o rodeiam. Parece a descrição de um quadro, que o pequeno leitor, ao fechar os olhos, consegue recompô-lo na mente.

A história é ingênua, alicerçada em afetividade e esperança, influenciando as crianças a enfrentarem de maneira positiva a realidade em que vivem ou viverão no futuro. A Gotinha Rebolinha aponta para o entusiasmo e a importância de se participar dinamicamente da vida, apesar das forças negativas ou do fracasso do viver. Ela tende a estimular nas crianças a capacidade de compreender os fenômenos e de optar com inteligência nos momentos de agir. Torna-as capazes de procurar idéias novas ou de serem receptivas com relação às inovações que a vida cotidiana lhes propõe (ou proporá). O amor, a amizade, a solidariedade, a bondade, o respeito à vida e à natureza são elementos fundamentais do universo ideológico que se presentifica. São também valores que a criança deve começar a aprender e a distinguir a partir do berço. É desde pequenina que ela deve saber o que é amizade, o valor e a importância de ter um amigo, o outro com quem partilhamos desinteressadamente as nossas alegrias e tristezas.

A Gotinha Rebolinha é um texto vestido com uma roupagem simples de uma narrativa leve, entre a voz da narradora-personagem (A Gotinha Rebolinha) e as falas das outras personagens. Aparentemente simples, mas essencialmente profunda em sua mensagem, desenvolve-se de maneira bela e perfeitamente acessível à mente infantil. É a história de uma gotinha de água da chuva que se apresenta ao leitor e fala de suas aventuras. E, para que todos tenham o prazer de conhecê-la, destacamos alguns trechos do conto:

Sou uma gota de água. Pequenina, tão pequenina, transparente...

Viajei por muito tempo, acompanhada das gotas grossas, as minhas irmãs mais

velhas. [...] Pequenina, como sou, perdi-me na minha última viagem. [...] Uma folha grande

e verde aparou a minha queda. [...]

Mas,

Era a hora do namoro da folha, bonita e vaidosa, com o vento. [...] Tanto brincaram

e dançaram que numa volta da dança... Zuim, lá fui eu de novo pelo ar... Caí na pétala de

uma rosa, cheirosa e dengosa.

Disse ela:

−Não vês que me tiras a cor e o perfume, a mim, a rainha das flores?!

E correu comigo. Mas não fui longe. Fiquei presa num espinho de roseira. E o

espinho disse-me:

−[...] Se quiseres ficar comigo, eu terei uma companhia e já não me sentirei

abandonado e sózinho. [...]

−Oh! amigo Espinho! Como tu és bom! Vou ficar contigo! [...]

E o Sol, que passava naquele momento, ao ouvir esta conversa tão bonita, desceu

mais um pouco, parou, sorriu e disse que também queria ser nosso amigo. [...] E brincamos

os três. Tem sido, assim, todos os dias. Brincamos sempre juntos. [...] Queres ser nosso

amigo também?

ecorrendo a uma linguagem bastante sensorial para falar de uma Angola que resiste, a autora vai construindo seu colar de casos, na melhor tradição da oralidade. A oralidade é um dos traços distintivos do discurso angolano. É através da oralidade que o leitor consegue recuperar os sinais de uma cosmogonia angolana. Essa é uma das técnicas mais adequadas para atrair o pequeno leitor, exatamente porque a linguagem oral está mais perto do seu interesse do que a linguagem escrita. No entanto, na literatura angolana, as fronteiras móveis da oralidade se tecem pela contagem interminável das contas do colar da vida, um «colar de missangas», que alegoricamente representa o encontro das falas e das culturas de Angola. É bem provável que a ideologia da resistência que se insinua em A Gotinha Rebolinha seja representada pelo rompimento da Gotinha com o estado de coisas que tem de ser superado em favor de novas perspectivas de futuro. Ainda que, nesse conto, a resistência ocorra diante das forças da Natureza, é necessário sobrepô-la à interpretação fatalista da sorte do negro que, a duras penas, preservam a solidariedade entre os cidadãos angolanos, jogados em posições antagônicas. A Gotinha Rebolinha registra, pois, a luta isolada do negro pela terra. A Gotinha simboliza, na sua busca de identidade, todos os conflitos sociais e psicológicos por que passa o ser humano até adquirir a maturidade; mostra ainda nesse relato emocionado e poético, a luta pela sobrevivência e a genialidade da autora.

A Gotinha Rebolinha é o elemento decisivo da efabulação. Ela seria, na concepção de Maria Aparecida Santilli (1985, p. 19), o protótipo das populações dispersadas que de «experiência em experiência vivida, esboçam uma consciência da condição a que foram reduzidas e uma compreensão, se tanto, ainda estreita do sistema que as absorveu.» Nela, se centra o interesse do leitor. Crianças ou adultos, todo e qualquer leitor se prende ao que acontece às personagens ou ao que elas são. Percebe-se que é do ponto de vista da Gotinha Rebolinha que tudo é visto e narrado, ela é a personagem central. Narradora-protagonista, é um eu que está dentro dos fatos narrados. Tudo flui, na narrativa, de dentro desse eu, um eu que narra uma experiência pessoal. Narrar em primeira pessoa, porém com onisciência, é um recurso que a autora usa para dar maior veracidade ao relato. Essa técnica, segundo Nelly Novaes Coelho (1997, p. 82), «é foco decisivo na renovação da literatura destinada às crianças, em nosso século.»

Viajei por muito tempo, acompanhada das gotas grossas, as minhas irmãs mais velhas. Quando caem umas atrás das outras, parecem missangas dum bonito colar. Pequenina, como sou, perdi-me na minha última viagem. As manas nem deram conta, mas agora já devem andar à minha procura. Se calhar até já foram à Rádio e à Televisão pôr um aviso de procura de paradeiro... E enquanto não me encontram, deixa-me conversar contigo, que és pequenina como eu. (p.8)

É visível que, no processo criador e narrativo de Maria João, predomina a oralidade. Todo texto oral é uma mensagem destinada a ser atualizada numa situação de comunicação. Tudo é feito para que o leitor/receptor possa visualizar as ações, memorizando-as e transformando-se em um potencial contador. A composição da narrativa se concretiza lenta e coerentemente, como se nascesse de uma voz. Voz dita em tom moderado e calmo. Essa voz-que-narra mostra-se atenta ao seu possível leitor, revelando não só o desejo de comunicação, mas também a consciência de que é desse leitor/receptor que depende, em última análise, o alcance da sua mensagem. Uma mensagem social, que é uma lição de vida. Essa voz é da Gotinha, narradora dialética, que se dirige continuamente a um tu, a uma 2ª pessoa que permanece sempre silenciosa (o leitor). Dessa maneira, entre o saborear das palavras e com o mínimo de meios, a autora consegue o máximo de efeitos para conquistar o interesse do leitor. E, como querendo abrir os corações dos mais novos para os ideais de uma sociedade em construção, abre espaços à reflexão do leitor. Indiscutivelmente, o encontro da Gotinha com o Espinho, símbolo de obstáculo, de dificuldades, é motivo para reflexão, porque ele é a única personagem que acolhe a

Gotinha com amizade e solidariedade, que são valores pelos quais se demonstra o sentido e o valor das coisas:

[...] Fiquei presa num espinho de roseira. E o espinho disse-me:

−Quem és tu, que não foges de mim? Que vens preencher a minha solidão, porque

todos me fogem com medo de se ferirem?

Disse-lhe quem era e contei-lhe a minha história. já a chorar, com medo da nova

corrida...

−Não chores, pequenina amiga. Eu não sou mau, como dizem. Só magoo quando

não me tocam com jeito. Se quiseres ficar comigo, eu terei uma companhia e já não me

sentirei abandonado e sózinho.

−Oh! amigo Espinho! Como tu és bom! Vou ficar contigo! Mas, depois, as manas

vão-me encontrar e eu terei de te deixar...

−Não faz mal. Mas ao menos eu sei que alguém não pensará que eu sou mau e não

se vai esquecer de mim. (p. 14)

Efetivamente, em poucas palavras, Maria João consegue mostrar os diversos sentimentos que o homem experimenta e que vão do medo à simpatia, da insegurança ao alívio.

Ao longo dessa narrativa, notamos o «apelo» ao leitor, importante recurso encontrado na Literatura Infantil, que vem da Antigüidade. Esse recurso se exemplifica, especificamente, na relação direta que a Gotinha Rebolinha mantém com o leitor. Ela interpela-o, fala com ele, ouve-lhe as perguntas e, num tom de descontração e familiaridade, instiga-o a participar e compartilhar da sua aventura, como se fosse uma outra personagem. É pelo «apelo» que ela procura reforçar a veracidade do que conta:

Ainda não me viste? Só ouves a minha voz? Mas espera, olha para aqui, Não, para aí

não. Aqui, deste lado. Segue a minha voz... Vira um pouquinho mais a cabeça... Aqui

estou! Até que enfim me viste. Queres ser nosso amigo também? (p. 16)

Ao escrever esse seu conto, Maria João utiliza técnicas expressivas características da tradição oral angolana: (i) a onomatopéia, que se apresenta como conseqüência do tom coloquial e visivo usado no contar da sua história; (ii) a personificação dos fenômenos da natureza, da paisagem. Suas personagens, seres inanimados: a Gotinha Rebolinha, a Folha, a Rosa, o Espinho e o Sol falam e reagem aos acontecimentos como se tivessem capacidade para sentirem emoções humanas. E, devido às suas peripécias, o leitor, cheio de curiosidade, fica preso a tudo o que se passa:

Mas a Folha já não me ouvia. Brincava e dançava com o vento. Tanto brincaram e dançaram que numa volta da dança... Zuim, lá fui eu de novo pelo ar... Caí na pétala de uma rosa, cheirosa e dengosa. −Quem és tu, que me salpicaste a cara, agora que acabei de pôr o pó-de-arroz? −Sou a GOTINHA REBOLINHA. Perdi-me das minhas irmãs mais velhas e não tenho para onde ir. Então não vês que me tiras a cor e o perfume, a mim, a rainha das flores?! (p. 12)

Essa narrativa curta protagonizada por seres inanimados que falam e agem como humanos em situações também exemplares é conhecida como «Apólogo». Indubitavelmente, tudo acontece num jardim, na natureza, num ambiente aberto e agradável, num tempo imutável, eterno, que se repete sempre igual, sem evolução nem desgaste. É o tempo ideal da literatura infantil. E esse jardim tem uma função estética: serve de cenário à ação, dando verossimilhança ao conflito ali localizado. De um modo geral, é possível detectar uma convivência entre a realidade e o imaginário. Esse jardim, supostamente, pertence ao leitor:

E o Sol, que passava naquele momento, [...] desceu mais um pouco, parou, sorriu e disse que também queria ser nosso amigo, E, como estava cheio de sede, pediu-me de beber. Deixei-o molhar uma ponta dos seus cabelos doirados. E brincamos os três. Tem sido, assim, todos os dias. Brincamos sempre juntos. O Sol mata em mim a sua sede, quando faz calor. À noite, separamo-nos. O Sol parte e eu fico com o Espinho, nesta Roseira do teu jardim... (p. 16)

A julgar pela visão-de-mundo patente no conto, pode-se imaginar que, em certo momento, Maria João é tocada pela idéia de que a essência do ser, a potencialidade e a qualidade intrínsecas do indivíduo são muito mais importantes do que sua aparência A Gotinha Rebolinha física ou sua classe social. Estimulada pelo desejo de um mundo melhor, de uma vida em comunidade, com amor e respeito pelos outros, pela natureza e pelo livro, inventa uma situação simbólica que, atraindo a atenção das crianças e divertindo-as, lhes ensina essa grande lição de vida.

Portanto, ao escrever o conto A Gotinha Rebolinha (gota de água da chuva que, perdida, procura um amigo... e só o encontra com o tempo), a escritora angolana criou, para sua idéia, uma linguagem literária que se transformou na alegre mensagem de solidariedade e esperança no valor intrínseco do ser humano. A amizade, a necessidade da amizade e a fidelidade de uns para com os outros são valores que abarcam toda uma sociedade, a humanidade. E, além de levar ao leitor essa mensagem, o conto possui um cunho altamente positivo e didático.

A Gotinha Rebolinha é um livro belo e exemplar pela integração conseguida: mensagem / texto / imagem / solução gráfica, perfeitamente acessível ao olhar e espírito infantis.

Referências bibliográficas:

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COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 6. ed. São Paulo: Ática, 1997.

HAMPÂTÉ -BÂ, Amadou. «Palavra africana». In: O Correio da Unesco. Ano 21. n. 11. Paris / Rio de Janeiro, novembro de 1993. p. 17

JOÃO, Maria. A Gotinha Rebolinha. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1991.

MACEDO, Jorge. Literatura angolana e texto literário. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1989.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Os pensadores; 18, p. 75)

NETO, Antônio Agostinho. «Sobre a cultura nacional.» Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1979.

PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Niterói: EDUFF, 1995.

RIAUZOVA, Helena. Dez anos de literatura angolana. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1986.

SANTILLI, Maria Aparecida. Estórias africanas: história & antologia. São Paulo: Ática, 1985.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. «A arte de magicar». In: A magia das letras africanas. Rio de Janeiro: ABE GRAPH, 2003.

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