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Noémia de Sousa, Bertina Lopes, Mia Couto e Naguib: Um Diálogo de Sonho, Memória e Erotismo

Escrito por  Mônica Farias de Souza
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O presente trabalho objetiva estudar a significação dos sonhos, do erotismo e da memória na poesia de Noémia de Sousa e Mia Couto e na pintura de Bertina Lopes e Naguib, em dois momentos da história de Moçambique: o período pré e pós-colonial. Pretende-se estabelecer um diálogo entre as artes moçambicanas contemporâneas, observando seu comprometimento com a proposta de resistência cultural e de reconstrução da memória coletiva.

O presente trabalho objetiva estudar a significação dos sonhos, do erotismo e da memória na poesia de Noémia de Sousa e Mia Couto e na pintura de Bertina Lopes e Naguib, em dois momentos da história de Moçambique: o período pré e pós-colonial. Pretende-se estabelecer um diálogo entre as artes moçambicanas contemporâneas, observando seu comprometimento com a proposta de resistência cultural e de reconstrução da memória coletiva.

No período logo após a Segunda Guerra Mundial, que compreende o intervalo de 1945-1964, a poesia moçambicana afasta-se dos cânones portugueses, negando a superioridade da civilização européia, que durante décadas impôs língua, cultura e costumes aos povos de África. Nesse processo, o que se pretendia era construir uma imagem para esse homem que satisfizesse os objetivos de colonização dos portugueses.

Segundo Albert Memmi em Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador, assim como a burguesia propõe uma imagem do proletário, a existência do colonizador reclama e impõe uma imagem do colonizado [...]. O que é verdadeiramente o colonizado importa pouco ao colonizador. Longe de querer aprender o colonizado na sua realidade, preocupa-se em submetê-lo a essa indispensável transformação. E o mecanismo dessa remodelagem do colonizado é, ele próprio, esclarecedor (MEMMI, 1977, p. 77; 80).

Note-se que a construção da imagem do colonizado autoriza o colonizador a ter posse do Outro. Ocorre, assim, um processo de desumanização, atitude esta reveladora do desrespeito em relação não só aos valores locais, mas também aos humanos, posto que gradativamente o português se apropria da identidade do moçambicano.

Recusando a identidade que fora imposta pelos portugueses aos moçambicanos, alguns poetas, a exemplo de Noémia de Sousa, procuram resgatar sua memória social e coletiva com uma poética de forte impacto social. Nos anos 50, Noémia de Sousa surge como primeira voz feminina reivindicatória, o que caracterizará a quase totalidade dos poemas publicados pela escritora moçambicana. No poema «Se me quiseres conhecer...», da mesma autora, constata-se um grande orgulho pelas raízes negras, convidando o leitor a conhecer o homem negro, que aparece valorizado pelo eu poético, de forma a tirá-lo do anonimato, como se pode conferir nos fragmentos do referido poema:

Se me quiseres conhecer,

estuda com olhos de bem ver

esse pedaço de pau preto

que um irmão maconde

de mãos inspiradas

talhou e trabalhou

em terras distantes lá do Norte [...].

Se quiseres compreender-me

vem debruçar-te sobre minha alma de África,

nos gemidos dos negros no cais

nos batuques frenéticos dos muchopes

na rebeldia dos machanganas

na estranha melancolia se evolando

duma canção nativa, noite dentro.

Nesses versos, Noémia ergue a sua voz a fim de fazer ouvir a voz coletiva africana silenciada pelas condições a que foram submetidos os moçambicanos. Pode-se também constatar uma aproximação das raízes telúricas e raciais com sons típicos – batuques e canção nativa – que caracterizam o homem africano e com a alma do eu poético, que é de África.

A obra da poeta funciona como uma crítica e combate à civilização imposta pelo colonialismo e pelo Ocidente. Sua proposta é a de valorização do homem, da cultura (história, tradição, religião, línguas) e da terra moçambicana, com um olhar bastante crítico em relação à realidade em que se encontra seu país. Há um forte desejo de superar a condição de não-ser em que o africano está inserido, mesclando-se esperanças e frustrações, como se pode verificar no fragmento do poema «Moças das docas»:

[...] E agora, sem desespero nem esperança,

seremos em breve fugitivos das ruas marinheiras da cidade...

E regressaremos.

Sombrias, corpos florido de feridas incuráveis,

rangendo dentes apodrecidos de tabaco e álcool,

voltaremos aos telhados de zinco pingando cacimba,

ao sem sabor do caril de amendoim

e ao doer do corpo todo, mais cruel, mais insuportável...

Mas não é piedade que pedimos, vida!

Não queremos piedade

daqueles que nos roubaram e nos mataram

valendo-se das nossas almas ignorantes e de nossos corpos macios!

Piedade não trará de volta nossas ilusões

de felicidade e segurança,

não nos dará os filhos e o lar que ambicionávamos.

Piedade não é para nós [...].

Analogamente à poética de Noémia de Sousa, a artista plástica Bertina Lopes, na fase inicial de sua obra, registra em sua tela intitulada «Mafalala» – nome de um bairro pobre de Lourenço Marques (hoje Maputo) – um cenário sombrio, representando a dor do povo africano que teve sua identidade esfacelada pelo processo de colonização. A pintura da artista expressa veemente uma crítica social. A cena pictórica é composta por olhares marcados pela melancolia e sofrimento. Os seres que compõem a tela possuem a forma de esqueleto, lembrando um estado de subnutrição e miséria.

Vê-se, assim, que tanto a obra de Noémia de Sousa quanto à de Bertina Lopes funcionam como denúncia social e protesto da situação aviltante de que é vítima o povo.

A literatura desse período como também a pintura serviu para conscientizar os homens africanos, de forma a prepará-los para as lutas pela independência de Moçambique, que perdurarão até 25 de junho de 1975 – data em que o país se torna independente. Contudo, após a independência, o cenário existente foi o de massacre, fome e pobreza, quebrando as expectativas da população que sonhava com a reconstrução da nação. A corrupção, que se seguiu após a libertação, acarretou dor, morte, irracionalidade e desagregação. Contradições existentes entre os partidos políticos – RENAMO e FRELIMO – acabaram provocando uma longa guerra civil.

Diante desse contexto, o poeta do pós-guerra percebeu que não era suficiente para a literatura se ater aos ideários políticos, mas, sim, envolver-se com os sentimentos humanos universais e com o resgate da memória bloqueada por tantas opressões, utilizando a palavra poética.

Mia Couto em seu livro intitulado Raiz de Orvalho aborda as representações do sonho para refazer a memória do país e a individual, procurando, através do onírico, recuperar a identidade que o processo de colonização desmantelou. Diante de tantas injustiças a que o povo moçambicano foi submetido durante décadas, segundo Bachelard e Walter Benjamin cabe ao sonho e ao erotismo amenizar as dores dos moçambicanos que tiveram sua memória censurada. O sonho é metaforizado como procura do outrora e transformação do presente. De acordo com o historiador Jacques Le Goff, «a memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual e coletiva [...]» (LE GOFF, 1996, p. 477).

Nos versos de «Poema mestiço», de Mia Couto, é evidente a busca de identidade, além de uma esperança que é depositada no futuro, expressando desejo de mudança:

escrevo mediterrâneo

na serena voz do Índico

sou do norte

em coração do sul

na praia do oriente

sou areia náufraga

de nenhum mundo

hei-de

começar mais tarde

por ora

sou a pegada

do passo por acontecer.

O eu-lírico vê tanto a influência oriental como a ocidental, reconhecendo o hibridismo cultural de Moçambique. O título «Poema mestiço» sugere a mistura de etnias, ou seja, o diálogo do árabe com o negro e com o branco, uma vez que é inviável pensar em uma raça pura após o encontro de múltiplas culturas no decorrer da história de Moçambique.

Mia Couto instaura uma revolução em sua escrita, manisfestada pelo seu próprio modo de produzir poesia. O eu-lírico fala do amor e da amada, temas que, até então, eram perseguidos pela FRELIMO. Conforme declarou o próprio escritor em entrevista a Nelson Saúte, o livro Raiz de Orvalho «é uma chamada de atenção para o eu individual que continuava a existir, angustiado e esperançoso, em cada moçambicano». O poema «Primeira Palavra» é exemplo dessa poética intimista proposta pelo autor:

Aproxima o teu coração

e inclina o teu sangue

para que eu recolha

os teus inacessíveis frutos

para que eu prove da tua água

e repouse na tua fronte

Debruça o teu rosto

sobre a terra sem vestígio

prepara o teu ventre

para a anunciada visita

até que nos lábios umedeça a primeira palavra do teu corpo.

Em «Primeira Palavra» constata-se que os elementos da natureza – os frutos, a água e a terra – funcionam como mediadores. O sujeito poético, que estreita relação com uma temática do humano, deixa de lado o fogo da guerra e procura captar a essência da existência, por meio de símbolos naturais. Os frutos e a água formam um cenário harmônico, de paz, oposto ao ambiente que outrora era apresentado nas poesias de engajamento político.

O eu-lírico, nos versos acima, propõe uma aproximação mais íntima e amorosa. Erotiza a própria palavra poética, sensualizando tanto o corpo do poema, quanto o da pátria, metaforizados na imagem da amada. A terra apresenta-se em um misto de mulher e Mãe-África, dando frutos e água, ou seja, alimentando o sujeito poético e umedecendo o chão da pátria, para que este reviva e gere em seu ventre materno um novo ser moçambicano repleto de vida e sonho.

A Mãe-África, metamorfoseada na figura de mulher, é apresentada por meio do erótico, o que demonstra a atração do eu-lírico por sua terra. Num mundo de irracionalidade, Eros, geralmente, atua como força destruidora e fatal, como negação do princípio que governa a realidade repressiva. Para Marcuse, «a defesa revigorada contra a agressão é necessária, a defesa contra a agressão ampliada teria de fortalecer os instintos sexuais, pois somente um Eros forte pode efetivamente ‘sujeitar’ os instintos destrutivos» (MARCUSE, 1999, p. 85) Assim, o vínculo à passada experiência de felicidade, que fora interrompida com o colonialismo, instiga o desejo de recuperação dos moçambicanos, de maneira a tentarem reinventar as tradições.

De forma equivalente, a tela do artista plástico Naguib, intitulada «Meditação», datada de 1987, como o próprio título nos sugere, funciona como uma chamada para repensar as questões moçambicanas. Diferentemente da tela de Bertina Lopes, Naguib não apresentará um cenário agressivo. A cor rosa que compõe o quadro, segundo diversos dicionários de símbolos, é metáfora de «regeneração», isto é, de reprodução do que está destruído, e «o vermelho vivo, diurno, solar incita à ação; ele é a imagem de ardor e de beleza, de força impulsiva e generosa, de juventude, de saúde, de riqueza, de Eros livre e triunfante». Como visto, a cor vermelha tem o atributo de estimular as forças e despertar o desejo. As mulheres que aparecem na tela são representadas por meio do erótico. Segundo Georges Bataille, «o erotismo, no seu conjunto, é infração à regra das proibições: é uma atividade humana», ou seja, é uma forma de transgressão e busca de vida, «colocando o ser em questão» (BATAILLE, 1987, p. 84).

Observa-se, portanto, que é através dos elementos oníricos que se refaz a memória do país, buscando tanto os poetas, quanto os pintores a reconstrução singular e coletiva de identidades, imaginários e tradições. Os sonhos, ao serem reativados, trazem à tona fragmentos da história esfacelados por tantas opressões, propondo um amanhecer político, prenhe de possibilidades de mudanças e não mais o imobilismo a que os moçambicanos foram submetidos por tanto tempo. Noémia de Sousa e Bertina Lopes, por meio de suas artes, fazem crítica social e protesto em termos temáticos e também pela forma de suas linguagens, negando a civilização imposta pelo colonialismo ocidental. Já Mia Couto e Naguib procuram tocar a sensibilidade e emoção, problematizando a importância do amor, paz, amizade, solidariedade, tolerância, enfim, dos valores existenciais que desapareceram com o colonialismo e as guerras, mas que, com a poeticidade, podem ser outra vez semeados nos moçambicanos.

Referências bibliográficas:

BACHELARD, Gaston. O ar e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Antônio Carlos Viana. Porto Alegre: LP&M, 1987.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1984.

CALLOI, Roger. Os sonhos e as sociedades humanas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionários de símbolos. 16.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.

COELHO, Teixeira. O que é utopia. 3.ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981. (Coleção Primeiros Passos, n. 12)

COUTO, Mia. Raiz de Orvalho. Maputo: AEMO, 1983. Raiz de Orvalho e outros poemas.Lisboa: Caminho, 1999.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Prefácio de Jean Paul Sartre. Trad. José Laurêncio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FERREIRA, Manuel. No Reino de Caliban – antologia panorâmica da poesia africana de expressão portuguesa. Lisboa: Ed. Seara Nova, 1976. Vol. III.LARANJEIRAS, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.

MARCUSE, Herbert. Eros e civilização. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

MATUSE, Gilberto. A construção da imagem de moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa. Maputo: Livraria Universitária / Universidade Eduardo Mondlane, 1998.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: Usos e Sentidos. São Paulo: Ed. Ática, 1986.

SECCO, Carmen Lucia Tindó R. (coord.). Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX – Moçambique. Rio de Janeiro: Ed. da Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e do Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ, 1999. Vol. III.

ZAHAR, Renate. Colonialismo e alienação. Lisboa: Ulmeiro, 1976.

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