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Pequenos Milagres em Terras Voluntariosas: Entre A Jaganda de Pedra e o Desejo de Kianda

Escrito por  Vanessa Ribeiro
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Numa agradável conversa informal, em companhia do poeta, romancista e ensaísta português Hélder Macedo, as idéias pouco amanhecidas que dariam origem a este trabalho foram discretamente expostas. Algum receio e diversas dúvidas quanto a pertinência do projeto e à trilha que se deveria seguir para a realização do mesmo ainda cerceavam as iniciativas dessa pesquisadora.

Numa agradável conversa informal, em companhia do poeta, romancista e ensaísta português Hélder Macedo, as idéias pouco amanhecidas que dariam origem a este trabalho foram discretamente expostas. Algum receio e diversas dúvidas quanto a pertinência do projeto e à trilha que se deveria seguir para a realização do mesmo ainda cerceavam as iniciativas dessa pesquisadora. No entanto, ainda que sob alguma tensão, declarou, enfim, a nova mestranda: «Penso em trabalhar com dois romances que sempre me causaram espanto, A jangada de pedra, de Saramago e O Desejo de Kianda, de Pepetela. As águas parecem promover esse encontro, sob um Atlântico turbulento, é Claro».

A exatidão das palavras proferidas num simples bate-papo, há cerca de três ou quatro anos, dificilmente será comprovada até mesmo por quem as disse. O mais importante, no entanto, foi a resposta do poeta. De maneira sucinta e bem humorada, lançou a frase taxativa: «Isso vai dar samba.»

Não se pôde ainda comprovar qual o ritmo resultante desse vaivém de ondas atlânticas, mas o certo é que Portugal e Angola voltam a desembarcar, uma vez mais, em praias intelectuais brasileiras.

Visto isso, a proposta deste trabalho direcionou-se para a leitura aprofundada dos romances A jangada de pedra (1988), de Saramago e O desejo de Kianda (1995), de Pepetela. Autores comprometidos com a reavaliação do arcabouço histórico de seus países, Pepetela (Angola) e José Saramago (Portugal), problematizam a formação de suas sociedades, sublinhando as relações de interdependência sociopolítica e cultural preexistente no eixo luso-africano – melhor será, nesse caso, dizer-se luso-angolano.

Os detentores da palavra histórica, narradores das obras analisadas, não funcionam mais como elementos caracterizados pelos preceitos categóricos de omnisciência e omnipresença, próprios de discursos ficcionais euro-ocidentais autoritários, mas, ao contrário, carregam em si as potencialidades do contradiscurso, tal qual vozes antes soterradas e, agora, libertas dos ditames tradicionais referentes à consciência e à exposição histórica. O discurso do outro, em obras como A jangada de pedra e O desejo de Kianda, se abre como uma possibilidade de recuperação das ruínas do passado em prol de uma configuração crítica em relação às construções do presente.

Diante de uma realidade presente condicionada mundialmente pelo exercício do questionamento identitário – subentendendo-se, aí, as discussões vigentes sobre plurarismo e diálogo entre as mais diversas culturas, além da postura distópica diante de um arcabouço cultural oficialmente aceite –, percebemos que as formas de olhar, promulgadas por escritores dessa estirpe, emergem através de movimentos coordenados por constantes processos de ruína e construção, contribuindo para a reconfiguração de um passado histórico, antes marcado pelo sufocamento das vozes da margem destituídas do poder político ou discursivo, e estabelecendo, desse modo, uma análise crítica do presente corrompido pela reatualização das heranças desse passado.

A análise dos romances A jangada de pedra e O desejo de Kianda permite-nos verificar quais recursos temáticos e discursivos foram empregados com o propósito de enredar a estrutura narrativa de ambos, observando, sobretudo, se existem artifícios semelhantes sustentadores de tal discurso e, nesse caso, especificando quais são.

Realizamos uma leitura crítica dos recursos narrativos empreendidos por José Saramago e Pepetela, recursos esses que visam conferir à instância do narrador contemporâneo uma face multiperspectivada. Tecemos considerações sobre a ambigüidade histórico-literária representativa dessa nova atitude narrativa, que consiste numa inicial recusa à realidade histórica de caráter monumental, veiculada pela tradição, mas sendo esta perpassada por uma revisitação crítica, baseada na ruína e reconstrução do fato histórico. Analisamos a pluralidade de pontos-de-vista, tanto no que diz respeito aos parâmetros de releitura e escritura histórica, quanto naquilo que se refere ao aspecto fragmentado de sua compreensão, em oposição à uma tradição do discurso unilateral, linear e grandiloqüente.

Vistos, hoje, menos como «romancistas históricos» – tal qual foram por algum tempo identificados – e mais como ficcionistas críticos do real, Saramago e Pepetela demonstram compreender bem que, se a realidade percebida no momento presente suscita uma série de indagações, deslizando entre os campos sociopolítico, econômico, cultural e, mais precisamente, identitário, as mesmas evocam respostas pouco ou nada imediatas. Exige-se, dessa forma, um exercício de investigação dos elementos que originaram determinados «focos de incêndio», certos registros em crise, dispostos, muitas vezes, séculos aquém de seu próprio tempo.

A aproximação entre os processos de releitura e rearticulação do discurso histórico, explorados à exaustão por escritores como José Saramago – acerca não só do contexto português, mas ibérico – e Pepetela, partindo da distópica realidade social de Angola, é justificada por apresentar-se como mais um parâmetro para as discussões sobre o fator da interdependência identitária entre ex-colonizador (Portugal) e excolônia (Angola). No entanto, neste trabalho, mais importante do que o dado de contigência histórica, a ligar «umbilicalmente» as duas nações, é a verificação de semelhanças consideráveis e intrigantes diferenças de perspectiva quanto ao novo estatuto e às potencialidades desses narradores ficcionais de língua portuguesa. Para o narrador d' A jangada,

Dificílimo acto é o de escrever [tal constatação servirá para assinalar autores contemporâneos de uma maneira geral], responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro estes, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias, o passado como se tivesse sido agora, o presente como um contínuo sem princípio nem fim, mas, por muito que s esforcem os autores, uma habilidade não podem cometer, pôr por escrito, no mesmo tempo, dois casos no mesmo tempo acontecidos. (SARAMAGO, 1988, p. 12)

Nos romances investigados, a emergência da crise vivida por seus países – sendo ela não só sócio-econômica, mas sobretudo identitária – ganha novas formas de observação e denúncia. A recorrência a alegorias míticas ou a valorização da fenomenologia «fantástica», em ambos os romances, levam os leitores a participarem da participar da iniciativa de subversão da realidade em seu atual estado. Tais artifícios temáticos e narracionais não são desenvolvidos, no entanto, sob o já tão reutilizado exercício de negação ou fuga dessa realidade crítica. Evidencia-se, ao longo das narrativas de Saramago e Pepetela, um processo de reconstrução dessa realidade através da evocação de uma outra, paralela ou sobrenatural, que, a partir do choque provocado pelo confronto de perspectivas, promoverá um novo começo.

Por outro lado, a voz do “narrador-itinerante” d’O desejo de Kianda pretende irmanar-se ao cântico ancestral, mesmo quando alguma melancolia se revela:

(...) Ao lado, na lagoa, o cântico soava mas ninguém ouvia, nem mesmo os jornalistas que foram cobrir a descoberta da criança afogada. Mas ele estava lá, desde há muito tempo, quem sabe se mesmo desde o princípio dos tempos. Reconheço agora, com a inútil sabedoria da velhice. Inútil, porque é como cântico, só se ouve tarde demais.(PEPETELA, 1995, p. 34-35)

Uma espécie de transformação do caos arruinante, vivido pelas sociedades questionadas, em caos inaugural, além da «revolução» provocada pelos elementos mais genuínos da natureza como alegoria da mudança inadiável, começa a redirecionar os passos dos homens. N’A jangada de pedra, a emergência do fenômeno «fantástico» permite que as terras da Península Ibérica decidam-se por seu próprio espaço. Espaço que não condiz exatamente com as fronteiras dispostas nos mapas oficiais, donde a Península parece esfumaçada por um desencontro de vários níveis com o continente europeu. Já n’O desejo de Kianda, o aspecto voluntarioso do mito que irrompe indignado e rompe com o cimento do colonialismo e do neocolonialismo faz ecoar, no retorno à singularidade geográfica da Ilha de Luanda, a reinvenção da identidade própria de Angola e dos angolanos. Em resumo, estamos a falar na revolução de duas ilhas, rumo ao encontro ou ao retorno de seu próprio espaço.

Os narradores do «racha peninsular» e do «síndroma de Luanda», cientes das agruras a serem denunciadas e da cinzenta caracterização da realidade presente, embebem-se dos artifícios da ironia corrosiva para desconstruírem as ilusões erguidas em torno das verdades oficiais. Como sinaliza Linda Hutcheon, em seu extenso livro Teoria e política da ironia, as construções irônicas podem ser investigadas através de conceitos teóricos de intencionalidade que revelam a

(...) posição julgadora negativa do ironista, como se infere através de um tom de deboche ou ridículo ou desprezo. E é esse tom que, diz-se, sugere aos interpretadores que essas posições de atitude são, na verdade, de emoção, que se poderia ler como traindo algum engajamento afetivo da parte do ironista. (HUTCHEON, 2000, p. 64)

Ao mesmo tempo, percebemos que as formas escolhidas para verbalizar um discurso que se pretende vário e democrático encontra na escrita de ambos os autores sutis artifícios que permitem estruturar uma espécie de cosmogonia polifônica. A vez e a voz do outro – elementos que, por vezes, se distanciam das experiências dos próprios autores – são sobremaneira valorizadas, da mesma forma que suas marcas históricas e as revelações de sua memória.

A postura desalienada assumida por esses arautos de sociedades libertas do sistema colonial não impugna, no entanto, a expectativa utópica que cerceia o processo de reinvestigação, de releitura e, sobretudo, de reescritura histórica, condicionada pela contextualização crítica da realidade: a utopia eternamente vinculada à necessidade de dar voz ao outro, contemplando como poderia ou deveria ter sido a trajetória histórica de determinada sociedade se tivessem sido dadas a vez e a voz à margem.

José Saramago e Pepetela são, ao fim e ao cabo, escritores que partem da margem para alcançarem o que está além; em suas alegóricas águas turbulentas buscam o além-mar, o além-margem,

(...) com os recursos que a imaginação lhe concede para tecer, com os farrapos, uma leitura possível da História dos homens, fazendo intervir, não mais o passado como modelo do presente, mas o presente como reavaliador do passado, que lhe chega incompleto, dilacerado e, por isso mesmo, extremamente sedutor... (CERDEIRA, 2000, p. 201)

Assim como seus próprios objetos de escrita, os autores investigados neste trabalho instigam e seduzem o leitor, pois as obras analisadas formam um intertexto possível e imaginável.

Da desalojada «ocidental praia lusitana» aportamos numa ilha que, através dos descaminhos mágicos da mitologia africana, libertou-se da modernidade que a escravizara. Entre a jangada e o desejo ficou todo um mar de possíveis reencontros e a rota da proximidade construiu-se sob os meandros da realidade histórica de cada sociedade investigada. Os fios que apontaram para um curioso entrelace entre os romances A jangada de pedra e O desejo de Kianda, de José Saramago e Pepetela respectivamente, remetem, com bastante pertinência, àquela alegoria do novelo de lã interminável, contido num único pé de meia e desfiado por um dos personagens do ficcionista português.

Fortalecida pelos mistérios do inexplicável – ou nem tanto –, a insurreição de uma realidade outra, trespassada pela insatisfação característica de todo movimento contra, é realizada por meio de alguns elementos ímpares para a configuração mais genuína da cultura nos espaços observados.

Por um lado, a importância incontestável da Península Ibérica que, por séculos, representou, com excelência, o «porto de partida» para as tantas viagens de «descoberta» pelas quais passou o Velho Mundo. É justamente o valor histórico e cultural que esse espaço geográfico projetou para a reformulação não só do continente europeu, mas também da comunidade mundial, o principal indicativo da propriedade de sua escolha como lugar onde se revela a crise da identidade européia contemporânea. Em contrapartida, o valor fundamental da cultura mitológica para a constituição das diferentes nações africanas, a angolana em particular, torna sensivelmente visível o poder da crítica centrada no episódio da Kianda. A revolta do mito preconiza uma confluência entre a memória ancestral, o presente criticado e as várias possibilidades futuras suscitadas por essa interseção de idéias, ideais e costumes.

As conclusões deste trabalho fazem coro às vozes marginais que por ora se tornam objetos de ficção, mas acumulam forças para erguerem-se como sujeitos futuros de tantas obras ainda por serem escritas, na esperança de que a alegoria da destruição e a do sofrimento não sejam mais tão urgentemente necessárias.

Por entre as águas atlânticas, surgirão outras jangadas à deriva, alegóricos veículos que sinalizam para a renovação da identidade humana; encontrar-se-ão, ainda, desejos e desvarios ávidos de outras liberdades a serem alcançadas. Outros dedos, quiçá, também envoltos pelas estratégias da sedução ficcional na contemporaneidade, trançarão e destrançarão sutis laços de narrativas a serem produzidas não só em língua portuguesa, mas também em muitos dos idiomas africanos.

Referências bibliográficas:

CERDEIRA, Teresa Cristina. Na crise do histórico, a aura da História. In: ---. O avesso do bordado. Lisboa: Caminho, 2000.

HUTCHEON, Linda. As arestas cortantes. In: ---. Teoria e política da ironia. Trad. Julio Jeha. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.

PEPETELA. O desejo de Kianda. Lisboa: Dom Quixote, 1995.

SARAMAGO, José. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

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