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Terra Sonâmbula - O Sonho Movendo a Estrada

Escrito por  Rosemary Gonçalo Afonso
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Nós temos olhos que se abrem para dentro,

esses que usamos para ver os sonhos.

Mia Couto

 

Um machimbombo1 incendiado na estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga. Encontrar os verdadeiros pais de Muidinga, que foi recolhido por Tuahir num campo de refugiados, é a justificativa da viagem; mas na verdade «fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra».2

O veículo está cheio de corpos carbonizados; quando vão enterrá-los, o velho e o menino descobrem um outro corpo à beira da estrada, que tinha sido morto recentemente, a tiro. Junto dele há uma mala, onde são encontrados os cadernos que contam a história de Kindzu, o morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a referida viagem de Tuahir e Muidinga, em onze capítulos; e o percurso de Kindzu em busca dos naparamas3 e, simultaneamente, de Gaspar, filho de Farida, mulher por quem se apaixonara, relatada em onze cadernos. Terra Sonâmbula é um romance em abismo, onde as histórias vividas ou contadas por seus personagens mostram a desventura do povo moçambicano, castigados por prolongadas guerras concomitantes com fortes enchentes e longos períodos de seca. Sonhar, neste cenário, requer alguma ingenuidade ou então muita coragem, ainda que seja um elemento indispensável para continuar vivendo. A importância do sonho como sinônimo de fé... de esperança num futuro melhor é um dos principais aspectos observados no texto, sendo destacada pelas três epígrafes que o introduzem; entre elas a que reproduz uma fala de Tuahir: «O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro4».

A importância dos mais velho na cultura africana é um outro aspecto evidenciado no texto. Não apenas pela figura de Tuahir, tio de Muidinga, mas também por Taímo, pai de Kindzu; ambos cientes da importância de se preservar o sonho para superar as adversidades.

Tuahir recolheu Muidinga quando este, à beira da morte, ia sendo enterrado. A doença deixou o menino sem memória, e Tuahir «teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar».5 Quanto a Taímo, representa a sabedoria como os povos antigos a entendiam: em harmonia com os antepassados. Kindzu recorda com saudades sua infância, quando seu pai fazia previsões e contava histórias: «Nesse anos ainda tudo tinha sentido: a razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam a ponte entre esses dois mundos».6

De acordo Nsang O'Khan Kabwasa, em seu texto «O eterno retorno»: «O respeito que os rodeia (os velhos) deve-se não só à sua longevidade - fenômeno raro na África - mas também à visão animista africana do universo, segundo a qual a vida é uma corrente eterna que flui através dos homens em gerações sucessivas».7

Uma das atribuições dos velhos é contar histórias, transmitindo através delas seu conhecimento e sua experiência aos mais jovens. Em Terra Sonâmbula há uma inversão dos papéis tradicionalmente observados: é o menino que conta a história de Kindzu para o velho, através da leitura dos cadernos. O próprio Tuahir pede ao menino que leia em voz alta e acaba por habituar-se a ouvir as histórias antes de dormir. A escrita surge como uma outra modalidade para levar adiante o saber e a importância da literatura é ressaltada.

Os contadores de histórias obedecem a um sistema muito ritualizado. Uma das normas é fazer uma operação delicada no final: o fechamento da mesma, sob o risco de seus ouvintes continuarem a sonhar. Kindzu não fecha as suas histórias: «Mia Couto também não. Estas, labirinticamente, enredam os leitores, contagiando-os com essa mesma «doença dos sonhos».8

As histórias individuais dos protagonistas, que nem mesmo se conhecem, acabam por se (con)fundir, uma vez que retratam o mesmo universo: a população num fogo cruzado entre a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique ), que assumiu o poder após a independência, em 1975, tornando-se assim o partido do governo, e a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), o partido de oposição. Dois anos depois do fim de um período de 11 anos de guerra colonial, desfeitas as utopias revolucionárias, o povo é assolado por essa guerra que não compreendem; já não reconhecem a própria terra e vagam de um lado para o outro, sonâmbulos, com medo do que poderão encontrar ou do que possa vir ao seu encontro. Perderam sua identidade, muitos até a esperança de que a paz em Moçambique seja algum dia possível. Embora apoiados por grupos externos, as armas eram disparadas por mãos nacionais: foi uma guerra entre irmãos. Adequadamente chamada de «guerra de desestabilização», confundiu até os sábios, que não conseguiram esclarecer as dúvidas de Kindzu, um jovem sensível e sonhador, que queria juntar-se aos guerreiros naparamas para lutar contra os «fazedores da guerra»:

Aquele grupo de idosos, de repente, me pareceu estar perdido também. Já não eram sábios mas crianças desorientadas. (...) Aquela guerra não se parecia com nenhuma outra que tinham ouvido falar. Aquela desordem não tinha nenhuma comparação, nem com as antigas lutas em que se roubavam escravos para serem vendidos na costa.9

Dialogando com a epígrafe do nosso trabalho: «os olhos que usamos para ver os sonhos se abrem para dentro»; e os olhos do autor se abrem para ver o seu país como ele realmente é; respeitando sua cultura, valorizando seus aspectos positivos e admitindo os negativos. Sendo assim, o romance é um desfile de personagens e de situações que mostram o multiculturalismo existente em Moçambique. Estão ali presentes: o preconceito moçambicano em relação aos árabes, tão bem disseminado pelos portugueses; os guerreiros naparamas, abençoados pelos feiticeiros na sua luta contra os «fazedores da guerra»; o velho Siqueleto em busca de um mundo melhor; a presença do colonizador assombrando o imaginário popular, através do fantasma de Romão Pinto; Nhamataca, o fazedor de rios; as idosas que afastam os gafanhotos das plantações; as missões religiosas; e tantas outras lendas e cerimônias africanas, algumas nada românticas, como a que descreve a purificação da mãe de Farina por ter gerado gêmeos, com o objetivo de fazer cair a chuva:

Meteram a velha num buraco e foram-no enchendo de água. Ela pedia: - Me deixem, tenho frio. Mas as mulheres não abrandavam. A mãe de Farida visitara o Céu e se ela estivesse molhada, certamente as nuvens também se encharcariam.10

O Acordo Geral de Paz, assinado em Roma em 199211, pôs fim ao conflito armado em Moçambique. No sonho de Kindzu, refletido numa visão cuja descrição finaliza o romance, a paz também foi resgatada, e com ela a possibilidade das pessoas recuperarem a sua humanidade. Kindzu, finalmente um naparama, salva seu irmão Junhito quando este é ameaçado pelos personagens que representam a corrupção, a violência, a extorsão, enfim, os «fazedores da guerra». Junhito, diminutivo de 25 de Junho, recebeu este nome porque o pai previu a independência quando a criança estava ainda no ventre da mãe, tornando-se assim um símbolo da mesma. O pai também sabia que o viriam buscar, ou seja, que a Independência estaria ameaçada; para protegê-lo, fez com que o filho vivesse no galinheiro na tentativa de ludibriar os agressores e o menino acabou por se transformar num galo. Salvo pelo irmão, uma música de embalar ajudouo a voltar a ser gente. Reencontra, então, a mãe, que trazia no colo a criança que afirmara trazer no ventre para nascer em tempos melhores: «São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim dentro de mim, me companha o Coração».12 Num último suspiro, Kindzu chama pelo nome de Gaspar um menino que tem nas mãos os seus cadernos, «e o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez»13: o país está recuperando sua identidade.

Embora confiante no potencial do seu país para ultrapassar as seqüelas de anos de instabilidade e violência, Mia Couto não tem uma postura ingênua diante do fim da guerra. Em entrevista ao Círculo de Leitores Online, quando questionado sobre as cicatrizes da guerra civil, afirma:

(...) hoje acredito que a guerra não inicia, nem é causadora. A guerra é uma espécie de crispação que autoriza aquilo que já está presente mas que está escondido do ponto de vista social e individual. Os níveis de crueldade que eu testemunhei na guerra não são muito diferentes dos que estamos observando hoje, mesmo estando em Paz.14

Contudo, ainda respondendo à referida questão, completa: «Isto não quer dizer que não celebremos o presente tempo, a Paz que conquistámos como um valor Insubstituível».15

A seu modo um naparama, Mia Couto lembra que para manter a paz é preciso estar sempre alerta contra os «fazedores de guerra», às vezes tão bem disfarçados. Reprova uma visão maniqueísta e preconceituosa de mundo, e sugere que se observem os sonhos e as intenções das pessoas mais do que sua raça. Porque o emigrante não é representativo do seu povo; quem abandona os seus em busca de riqueza e poder deve ser visto com desconfiança, mas quem busca uma vida melhor não é necessariamente ameaçador. E aqui reproduzimos um diálogo do árabe Surendra com Kindzu:

- Não gosto de pretos, Kindzu. - Como? Então gosta de quem? Dos brancos? - Também não. - Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça. - Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.16

Cada pessoa é, apesar das semelhanças que possam aproximá-las de tantas outras; generalizar é desrespeitar as diferenças, e em tempos de intolerância como este em que vivemos, devemos fazer da diferença o elo de solidariedade entre os homens.

Referências bibliográficas:

FRY, Peter (Org.). Moçambique - ensaios. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.

Nsang O’Khan Kabwasa. «O eterno retorno». Correio da Unesco (Brasil). Dez.1982. Ano 10. Nº12.

MIA COUTO. Terra Sonâmbula. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995.

MIA COUTO. Entrevista concedida ao Círculo de Leitores. Disponível em: www.circuloleitores.pt/cl/artigofree.asp?cod_artigo=68379. Acesso em nov.2002.

SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Mia Couto e a "incurável doença de sonhar". In:

SEPÚLVEDA, Maria do Carmo & SALGADO, Maria Teresa (Org.). Letras em Laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000.

Notas

1 Machimbombo: ônibus.

2 MIA COUTO. Terra Sonâmbula. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p.7.

3 Naparamas: guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da guerra.

4 MIA COUTO. Op.cit. p.5.

5 MIA COUTO. Terra Sonâmbula. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995. p.8.

6 Idem, p.16.

7 Nsang O'Khan Kabwasa. "O eterno retorno". Correio da Unesco (Brasil). Dez.1982. Ano 10. Nº12, p.14 e 15

8 SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Mia Couto e a "incurável doença de sonhar". In Letras em Laços. Maria do Carmo Sepúlveda e Maria Teresa Salgado (Org.). RJ: Atlântica, 2000, p.273.

9 MIA COUTO. Terra Sonâmbula. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p.34.

10 Idem. p.88.

11 FRY, Peter (Org.). Moçambique - ensaios. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001, p.17.

12 MIA COUTO. Terra Sonâmbula. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p.37.

13 Idem. p.249.

14 MIA COUTO. Entrevista concedida ao Círculo de Leitores. Disponível em www.circuloleitores.pt/cl/artigofree.asp?cod_artigo=68379.

15 Idem.

16 MIA COUTO. Terra Sonâmbula. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p.31.

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