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Fronteiras, Margens e Percursos Pelas Literaturas Africanas

Escrito por  Robson Dutra
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Esta não é uma comunicação em sentido lato, pois não pretendo declaradamente proceder a interpretações possíveis de textos literários, mas sim, ainda que indirectamente, resgatar alguns deles e sua influência em meus estudos das literaturas africanas.

Esta não é uma comunicação em sentido lato, pois não pretendo declaradamente proceder a interpretações possíveis de textos literários, mas sim, ainda que indirectamente, resgatar alguns deles e sua influência em meus estudos das literaturas africanas.

Obviamente, esta também não é uma comunicação autobiográfica. Tenciono, apenas, no momento em que se comemoram os dez anos de implementação dos estudos de literaturas africanas na UFRJ, relatar a experiência de quem descobriu ocasionalmente a magia dessas letras ao ingressar no curso de mestrado e, em função delas, organizou seu projecto de estudos que, actualmente, se desdobra em pesquisa de doutoramento.

Foi, portanto, em 1998 ao me inscrever no curso ministrado pela professora Carmen Tindó sobre a poesia contemporânea em Angola e Moçambique que fui apresentado à escrita de Mia Couto e às muitas ambivalências entre real e sonho, regional e universal convocados no redimensionamento dos espaços e das paisagens que resultam nesse novo espaço imaginário que abriga mitos, crenças e tradições oriundos do inconsciente que permeiam a literatura em língua moçambicana. Em Mia pude perceber a confluência de outros saberes e paisagens que demandam, por sua vez, traços da brasilidade que me são familiares e que se unem a elementos da cultura portuguesa que me haviam conduzido ao Mestrado.

Prova desse imaginário cultural interseccional se dá no Mia que se declara leitor de Guimarães Rosa, Drummond e João Cabral de Melo Neto, cuja escrita inconsciente, igualmente, remete a Craveirinha, Noêmia de Souza e outros tantos que se ocuparam do aprimoramento da palavra e da poeticidade nelas contida a fim de tornarem suas vozes audíveis em um tempo em que a África ainda era marcada pelo silêncio... Esse processo de recriação vocabular nos encaminha a um projecto de revisão do mundo e ao redimensionamento dos valores que nos circundam, guiando-nos para além da outra margem de rios que se desvelam diante de nossos olhos, tal como foram, por exemplo, para personagens como o cego Estrelinho e Gigito, o seu guia.

Foi pela leitura de Mia que me dei conta do valor simbólico das águas no imaginário cultural africano como, sobretudo, divisora de espaços como o metafórico mundo visível do invisível em que se agitam os panos vermelhos da ancestralidade. O fluir das águas torna-se, portanto, simultâneo às diversas narrativas orais enunciadas por «griots», «vavôs», «vavós» e «mais velhos» que resgatam um saber primordial nem sempre audível na contemporaneidade. Esta fala se presentifica em Mia Couto e é também recorrente em Luandino, Pepetela e Boaventura Cardoso, por exemplo, sendo enunciada por seres considerados de excepção como aleijados, idosos, prostitutas e crianças que, apesar do papel pouco relevante na sociedade actual, são detentores de um discurso que nos remete a um saber primordial e que não pode ser posto de lado. Foi, então, pelas suas vozes que pude compreender um pouco mais do muito que a África tem a nos dizer.

Porta-voz de uma angolanidade latente, Pepetela foi outra agradável surpresa, sobretudo por revelar em seu texto traços que também apontam para novos lugares da cultura e do saber, muitas vezes tão próximos de nós, brasileiros, já que são resultantes do mesmo processo colonial. Um dos pontos dessa aproximação ainda que atemorizante é a fragmentação e a deterioração da utopia que levou Angola e as demais nações africanas ao processo de independência do sistema colonial. Tal qual se delineia no Brasil contemporâneo, essa perda do ideal utópico se dá pela negação dos princípios transformadores que levaram alguns homens anteriormente comprometidos com ele ao poder político para, uma vez lá, os abandonarem.

Novas confluências culturais podem ser lidas em Pepetela através de vários exemplos, como no do Prometeu africano descrito em Mayombe através herói combativo como Ogum e com a racionalidade da divindade grega que, astutamente, ludibriou o poder supremo de Zeus em favor da liberdade humana. Traços desse mesmo herói são descritos em A Geração da utopia, quando o traço épico do herói da literatura ocidental resulta na tragicidade que caracteriza esse mesmo Prometeu, que cria existir apenas uma verdade revolucionária diante de seus olhos. A Angola revolucionária é, em Mayombe, metaforizada na floresta-santuário, mater primordial que abriga em seu seio verdejante o ideal de libertação que o mesmo Pepetela fragmenta na «chana» descrita em A geração da utopia. É a alternância entre as diversas tipologias do herói, que nos inspirou ou projecto de Doutorado que, mais uma vez, relaciona a literatura aos mitos e à história.

Restaurador do discurso poético e político de seus antecessores na pena, Pepetela resgata ficcionalmente vozes como as de Luandino Vieira de Arnaldo Santos e o faz em uma obra que serve de cenário para o emergir de «kiandas», ou seja, de divindades de um tempo ancestral olvidado na contemporaneidade, mas que ressurge diante dos impasses por que o homem atual não consegue resolver. As águas míticas que «Suku Nzambi», a divindade «bantu» aspergiu sobre esse casal primordial tem a mesma origem das descritas por Mia, visto que revelam traços de uma ancestralidade perdida. É delas que emerge a «kianda» divina que tem como objectivo restabelecer o princípio harmonizador afectado pelo afastamento de traços culturais que resultam no caos enunciado no romance O Desejo de Kianda, que li no último curso do Mestrado. É, então, no cintilar das muitas cores do lenço da personagem Miserinha, de Mia Couto de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, que igualmente ecoa o canto triunfal de «Kianda», que faz com que a força das águas apague traços culturais portugueses e endógenos que afetam negativamente o presente que O Desejo de Kianda reconstitui, aproximando o Kinaxixi, lugar de encenação do romance, outra vez ilha, da insula Luar do Chão retratada nessa obra de Mia Couto.

Ao longo, portanto, de nossa trajetória pelas literaturas africanas, me deparei com diversos temas que convergem para questões que são percebidas em diversos momentos das literaturas africanas e que levantam muitas indagações: como romper com os discursos que reduzem o discurso histórico a um resumo de vencedores e vencidos? Como resgatar a dignidade e a tradição de um povo através da consciência de seus mitos? Como dialogar com o passado sem criar personagens que tenham de ser engrandecidos ou menosprezados? Que saídas existem para o binarismo colonizador/colonizado? Rir do passado e revisitá-lo criticamente representa descrença na capacidade de transformação ou pode ser um caminho para a renovação e resgate de antigos valores? Essas são algumas das perguntas e inquietações que se entrecruzam nas diversas literaturas africanas e indicam que ainda há muito a ser pensado e problematizado em relação a elas.

Em meio a estes temas, surge, igualmente o das águas e que me serviu de inspiração para a dissertação de Mestrado que distingue o imaginário cultural associado a metáforas aquáticas que denotam a ancestralidade das águas doces, mas também apontam para a revolta das águas dos mares que, com seu furor também conduzem à capacidade de resistência.

As águas como espelhos literários servem para a contemplação dos homens e da história e através de sua refracção se lêem os sentidos ocultos e silenciados no decorrer dos séculos. No cenário literário, diversas personagens alegorizam as sociedades africanas; muitas delas se reflectem nas águas da história e procuram um amadurecimento e uma consciência advindas de águas profundas que representam os utópicos projectos ideológicos que ultrapassam os liames dos simples desejos de liberdade individual. A importância da mitologia dessas águas não se restringe, assim, à capacidade de revelação puramente existencial, remetendo também para a dimensão política e social. Uma consulta ao dicionário nos permite aprender que palavra «refracção» denota aquilo que espelha um outro, tal qual o mito de Narciso ou mesmo o poema de Fernando Pessoa que descreve o mar português, seus abismos e perigos, mas que também reflecte em sua superfície o azul celestial. Contudo, refractário implica, ainda, resistência, ou seja, a capacidade de suportar temperaturas elevadas sem se alterar ou fragmentar.

Essas características podem perfeitamente ser aludidas ao curso de Literaturas Africanas, visto que a leitura dos seus diversos autores espelha realidades que apontam, invariavelmente, para questões cruciais do universo lusófono. O conhecimento de sua existência e características nos foi aclarado não apenas pelas obras literárias, mas com a contribuição de pessoas igualmente envolvidas por essas águas míticas e que, ao longo desses dez anos, dividiram suas experiências com os diversos alunos e interessados que por aqui passaram. Ana Mafalda Leite, Ana Paula Tavares, Fernanda Angius, Inocência Mata, Laura Padilha, Lourenço do Rosário, Pires Laranjeira, Simone Caputo e Virgílio Coelho são alguns desses que compartiram seu saber com o setor de Literaturas Africanas que, de igual modo, contou com depoimentos de Boaventura Cardoso, Luís Cezerilo, Luis Eduardo Agualusa, Mia Couto, Pepetela e Virgílio de Lemos, dentre outros, que narraram sua viagem pela ficção, ou seja, reflectiram em suas palavras as experiências e as muitas facetas do saber africano que retratam pela ficção.

A refracção como sinónimo de resistência, no entanto, tem se revelado ainda nas muitas dificuldades por que os estudos universitários têm passado nos últimos anos e que resulta na escassez de recursos para pesquisa e contratação de professores e aquisição de material que, por sua vez, se reflecte negativamente na maior grandeza que o estudo das Literaturas Africanas poderia representar.

Nesse sentido, cabe aqui ressaltar o trabalho das professoras Carmen Lúcia Tindó e Cláudia Márcia Vasconcelos que estão à frente desse, resistindo brava e constantemente contra as muitas dificuldades a que nos referimos, fazendo com que, a cada semestre, novos alunos aprendam desse novo universo.

Seu trabalho é, estou muito certo, conduzido pelo que Mia Couto afirma no conto «O Coração do menino e o menino do coração», do livro Estórias Abensonhadas:

as literaturas africanas nos ensinam a leitura da vida seu supra-senso, iluminada pela poesia que vem do coração, com os pés voltados para fora, na direcção das águas míticas que reflectem o brilho do céu e das diversas possibilidades de aprendermos os muitos sentidos da vida.

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