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In Memoriam do Embaixador Domingos Van-Dúnem

Escrito por  Cardeal Alexandre Nascimento
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Olho ao meu redor e reparo que se tornam cada vez mais numerosas as ausências a assinalar aqueles que foram meus coetâneos: aqueles em quem poisava minha humana confiança de padre e de patriota; os que foram e são legítimo objecto da nossa admiração e estima, porque fundamentalmente saídos da mesma matriz religiosa e cultural deram exemplo luminoso de um acendrado amor à nossa terra e às nossas gentes.

Olho ao meu redor e reparo que se tornam cada vez mais numerosas as ausências a assinalar aqueles que foram meus coetâneos: aqueles em quem poisava minha humana confiança de padre e de patriota; os que foram e são legítimo objecto da nossa admiração e estima, porque fundamentalmente saídos da mesma matriz religiosa e cultural deram exemplo luminoso de um acendrado amor à nossa terra e às nossas gentes.

Onde um Monsenhor Manuel das Neves, esse Pai da Pátria? Onde um Mendes da Conceição, que nós jovens clérigos do Seminário de Luanda orgulhosamente denominávamos Camilo Castelo Preto, em razão do brilho dos seus escritos de ensaísta e lampejos da sua pena triunfante de polemista. Onde um Rebelo de Macedo; um Bento Ribeiro; um Manuel Pereira do Nascimento, que neste recinto em que nos encontramos agora, então Liga Nacional Africana, parecem ainda presentes e prestantes?

De um deles - de Monsenhor Manuel das Neves - trouxemos há anos com a devida pompa fúnebre a ossamenta, vinda de um cemitério do Soutelo, arredores de Braga e aqui depositada no Alto das Cruzes.

Onde, o grande Jornalista benguelense - Narciso do Espírito Santo, pena cintilante dos anos quarenta e de quem hoje já se não fala? Onde o Mário Pinto de Andrade, que de Londres, passando por Lisboa, veio para Luanda receber o extremo adeus dos seus concidadãos? Onde estes e muitos outros? São quase inúmeras essas árvores possantes que tombaram: eram pontos de referência para a nossa topologia patriótica, varonilmente sentimental.

É um dever sagrado, imposto pela nossa fé, lembrarmo-nos e rezar pelos que nos precederam na ida para a casa do Pai; e também é obrigação ligada ao quarto Mandamento termos no afecto e na devoção constantes a imagem daqueles que bem serviram a Pátria.

Pertence a este número o Embaixador Domingos van-Dúnem, falecido no dia 27 de Dezembro passado em Paris, onde vivia com parte de Família nos últimos anos.

Foi um amigo, foi um companheiro dilecto que perdi. Tenho dele recordações que guardo ciosamente. Não posso, porém, deixar de levantar minha voz em homenagem merecida a alguém cujo carácter, cuja vida, cuja actuação merecem a palavra rara que Shakespeare põe na boca de António, falando de César: era um Homem!

Van-Dúnem não era uma cana agitada pelo vento. Por ocasião dos ventos tempestuosos que acompanharam a nossa Independência, ventos que assumiram assomos de quase perseguição à Igreja Católica, houve muitos baptizados e crentes que prudentemente (que prudência!) evitavam vir à igreja, condenaram ao ostracismo Bispos, Padres e Madres - como diziam. Domingo van-Dúnem foi uma excepção gritante. Nem por isso passou a vir mais vezes à igreja, mas continuou com o ritmo que mantivera antes.

As beneméritas Religiosas do Hospital Maria Pia, com quem sempre mantivera boas relações, continuaram então a ser objecto das suas visitas amistosas. Domingos van-Dúnem era grato a essa Congregação do Santíssimo Salvador, que se vem dedicando aos nossos doentes, e que teve entre nós alguém cujo nome os Angolanos nunca deviam esquecer: refiro-me a Irmã Santana, francesa de nacionalidade. A Irmã Santana e Dona Maria de São Luís Gândara de Oliveira foram duas heroínas que, nos dias ominosos da repressão da polícia política de então, deram conforto e evitaram maiores arbitrariedades nos calabouços de S. Pedro da Barra. Foi lá onde esteve metido em prisão o nosso Domingos Van-Dúnem, e mais uns outros tantos heróis de que pouco hoje se fala.

O conjunto artístico que ornamenta uma das artérias desta cidade, conhecido por "Monumento das Heroínas" está incompleto, muito incompleto; porque até há aquelas que graças a Deus ainda vivem e que também passaram pelo calvário: grandes dificuldades de acesso ao lugar onde os seus maridos eram torturados e estreiteza aflitiva de meios que tinham para o sustento próprio e dos filhos. Conheço algumas delas que ainda hoje vivem e que estão aqui presentes.

O estoicismo de Domingos van-Dúnem na prisão causou espanto aos próprios carrascos a quem, sob a tempestade de chicotadas, dizia serenamente: "batei, cobardes!" Domingos van-Dúnem nunca denunciou ninguém nas prisões da Pide.

Quando, já em Paris, amigo de homens ilustres como Mamadou Dia e Federico Mayor, Directores da UNESCO, não deixou nunca de se apresentar como católico, contactando pessoas e organismos religiosos. Choviam para Luanda acusações contra este desvio à disciplina marxista num funcionário da estatura de Domingos van-Dúnem. Felizmente, tanto Agostinho Neto como José Eduardo sabiam e apreciavam a verticalidade deste nosso compatriota. Não era cana agitada pelo vento da opinião; não era como a água que toma a forma do vaso onde a vertem. Domingos van-Dúnem era um Homem. Um exemplo a ser imitado pela nossa Juventude, sobretudo. Acreditai-me jovens: a felicidade, a verdadeira grandeza não está em possuir muitas terras, em ter muito dinheiro no Banco, em ter muitos automóveis; tudo isto passa. Pode mesmo acontecer o que diz o Evangelho: "Insensato, esta mesma noite vai-te ser tirada a vida: para quem ficarão os bens que cumulaste?"

Cristo vendo uma vez chegar a Si alguém, disse: "Aí está um verdadeiro israelita em quem não há falsidade". Olhando diante de mim, sinto-me com o direito de dizer: Aí estão os restos mortais de um verdadeiro angolano em quem não havia falsidade.

Tinha o sentido de que formamos toda uma família nacional. Conheceu esta nossa Angola amada do Norte ao Sul, do Mar a Leste. E a sua preocupação era sempre melhorar a situação material e cultural do nosso Povo, a partir dos mais pequeninos. Para isso era um homem de pequenas e grandes iniciativas. Tentou organizar cooperativas entre agricultores; tentou fundar Jornais; dedicou-se apaixonadamente aos pequenos vendedores de Jornais - Ardinas. E, em estilo grande: quando na UNESCO, por um triz não venceu a batalha que travou: tratava-se da fundação de uma monumental Biblioteca Nacional em Luanda. Um arquitecto parisiense de renome oferecia-nos um projecto que só visto já era admirável. Federico Mayor - Director Geral da UNESCO, muito amigo do nosso Domingos Van-Dúnem, estava disposto a dar-lhe a mão significativamente. Domingos Van-Dúnem não conseguiu levar avante a obra, dada a mesquinha senão criminosa rivalidade de uns tantos intriguistas, que continuariam a pensar serem eles os senhores de Angola. Atitudes assim não nos levam a parte nenhuma...

Há um aspecto que não posso calar: o sentido vivo que ele tinha, a necessidade angustiante que vivia por que nós os angolanos todos nos déssemos as mãos verdadeiramente: não por táctica, não a espera de ocasião propícia para ajuste de contas mas obedecendo aos imperativos da consciência e em última palavra os interesses de todos nós.

Lembra-me a coragem moral que teve em duas ocasiões que me parecem emblemáticas: a primeira foi no Lubango, aonde tinha acompanhado o primeiro Presidente da República de Angola - Dr. Agostinho Neto. De uma janela apreciavam ambos a estátua de Cristo-Rei que domina o panorama dessa linda cidade angolana. Agostinho Neto, olhando para o monumento religioso, perguntou a van-Dúnem: "não acha que o devemos tirar de lá?" O silêncio frio, a cara consternada de van-Dúnem foram resposta que evitou o primeiro Presidente de Angola mareasse perante a História o brilho do seu nome. Trabalhando no Futungo de Belas, viajava certa vez fora de Angola: contactou personalidades do lado beligerante oposto ao governo legítimo; van-Dúnem sentia-se na obrigação de aproximar os irmãos desavindos. Os habituais informadores levaram solícitos a grave acusação ao Presidente sobre o crime cometido. Mais uma vez Agostinho Neto, que bem conhecia o valor pessoal e o patriotismo impoluto de Domingos van-Dúnem, disse sorrindo com a aprovação tácita: "o Domingos é assim!".

Senhoras

Senhores

Deixai que conclua levantando o olhar e o coração para o alto, para Deus. Agradeçamos-Lhe as magníficas qualidades com que dotou durante a vida este seu filho, tão prestimoso à nossa Terra aparentemente pobre de valores humanos. Agradeçamos o ter ele sabido corresponder aos chamamentos de Deus: chamamentos assim abundam na vida de todos nós. O que nem sempre sabemos é secundá-los generosamente.

Rezemos também pela família que ele deixou: a Viúva, os Filhos, os Netos...

Oremos em seu favor, da infinita misericórdia de Deus, a felicidade eterna. E para Angola, ao mesmo Deus, peçamos numerosos cidadãos que, como Domingos Van-Dúnem, honrem a Pátria e a Igreja dentro e fora das nossas fronteiras.

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