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Abismos de Violência

Escrito por  Gustavo de Azevedo Porto
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Só a energia da palavra poética se pode opor à violência desse mundo.

Marta Leão

O Terceiro Mundo não é uma realidade, mas uma ideologia.

Hannah Arendt

O título da presente comunicação é uma alusão ao objetivo primeiro da mesma: analisar alguns poemas do livro Abismos de silêncio, do escritor angolano Adriano Botelho de Vasconcelos, em diálogo com o ensaio teórico de Hannah Arendt intitulado Sobre a violência.

 

Só a energia da palavra poética se pode opor à violência desse mundo.

Marta Leão

O Terceiro Mundo não é uma realidade, mas uma ideologia.

Hannah Arendt

O título da presente comunicação é uma alusão ao objetivo primeiro da mesma: analisar alguns poemas do livro Abismos de silêncio, do escritor angolano Adriano Botelho de Vasconcelos, em diálogo com o ensaio teórico de Hannah Arendt intitulado Sobre a violência. Neste sentido, há de se destacar, entre as múltiplas faces dos poemas de Adriano Botelho selecionados para análise, aquelas relacionadas às nuances sócio-políticas do contexto angolano as herdadas da passagem do período colonial à independência de Angola, sob comando do MPLA, e as advindas da guerra civil que seguiu após a libertação angolana, para que sejam interpretadas à luz dos conceitos arendtianos de violência e poder.

Nossa leitura irá apoiar-se também na tese de Walter Benjamin , segundo a qual as narrativas orais, no caso, as africanas, são consideradas agentes de uma voz coletiva, na medida em que possuem a faculdade de intercambiar experiências . Na obra poética de Adriano Botelho de Vasconcelos estão presentes diversos símbolos da cultura oral angolana:

Reúnam os homens para resolverem a unidade da tribo porque se as águas se apartam em turvas errâncias veremos germinar raízes de pedra e áscuas nas praças triunfo da cinza anulando a hidrografia dos mitos. (...) recolham-se nossos bens antigos nos estuários subterrâneos onde deságuam os veios de nossa memória onde tudo se vive sem se descobrir a solidão. (...) é uma palavra que acalmara os anciãos decididos a enterrar o belo e único kaçula da sanzala para que a tempestade passasse pelas suas portas sem deixar bexigas de luto (...) .

É esta voz poética que se assume coletiva, denunciando os esfacelamentos social, cultural e material de uma Angola marcada pelo ceticismo e pela melancolia . No lugar das antigas utopias revolucionárias, o desencanto domina os governantes, que se vêem incapazes de dar conta das questões mais urgentes no tocante à instabilidade política em diversas regiões angolanas, à disparidade entre campo e cidade, à pobreza.

Posto isso, observa-se em Abismos de silêncio aquilo que Carmen Lucia Tindó Secco designou, com base nas palavras do crítico angolano Luís Kandjimbo, como uma nova poiesis tecida por perplexidades e incertezas . Nesse tipo de poesia que aborda questões sociais, podem ser aplicadas análises de Hannah Arendt sobre violência e poder, onde, grosso modo, o crescimento da primeira significa o esvaziamento do segundo . Em outras palavras, a poesia angolana pós-independência pensa uma sociedade profundamente violenta, porque o pacto de poder ainda não está bem definido no que diz respeito a um consenso em torno da figura do Estado.

Ao analisar este ponto pelo viés histórico, ou seja, no contexto da Guerra Fria, a trama torna-se mais complexa, pois, no caso angolano, surgem instâncias políticas alimentadas pelas rivalidades étnicas e políticas de acordo com uma lógica belicista:

A principal razão em função da qual a Guerra ainda está entre nós não é nem um secreto desejo de morte da espécie humana, nem um instinto incontível de agressão, e tampouco, por fim e mais plausivelmente, os sérios perigos econômicos e sociais inerentes ao desarmamento, mas o simples fato de que nenhum substituto para esse arbítrio último nos negócios internacionais apareceu na cena política. Hobbes não estava certo quando disse: «Pactos sem a espada são meras palavras»?

E nem é provável que um substituto venha aparecer enquanto estiverem identificadas a independência nacional, quer dizer, o estar livre da dominação estrangeira, e a soberania do estado, isto é, a reivindicação de um poder ilimitado e irrestrito em assuntos externos.

Segundo Eric Hobsbawm, os conflitos armados no então Terceiro Mundo eram reflexos das diferentes estratégias de expansão, organizadas pelas duas potências políticas deste período URSS e EUA capazes de polarizar ideologias e buscarem aliados:

Essa fase de conflito se deu por uma combinação entre guerras locais no Terceiro Mundo, travadas indiretamente pelos EUA, que agora evitavam o erro de empenhar suas próprias forças, cometido no Vietnã (...). (...) na verdade as duas superpotências haviam transferido sua competição para o Terceiro Mundo. (...) A nova onda de revoluções, todas provavelmente contra os regimes conservadores dos quais os EUA se haviam feitos defensores globais, deu à URSS a oportunidade de recuperar a iniciativa. À medida que o esboroante império africano de Portugal (Angola, Moçambique, Guiné-Cabo Verde) passava para o domínio comunista (...).

Este jogo político tornou-se bastante nítido na década de 60 com o crescimento de resistência ao colonialismo português, comandada pela União dos Povos Angolanos (UPA). Contudo, a luta colonial se dividiu em três frentes, marcadas pelas diferenças étnicas e religiosas: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), multirracial e marxista pró-URSS, com predomínio da etnia quimbundo; a Frente Nacional para Libertação de Angola (FNLA), anticomunista, sustentada pelos EUA e pelo Congo, com base na etnia bacongo; e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), com base na etnia ovimbundo, inicialmente de orientação maoísta e posteriormente anticomunista.

Estudando esta formação política angolana, fica claro que além do fator ideológico existia uma forte rivalidade étnica incentivada pelas pressões internacionais e camuflada pelos jargões partidários, fato este que acirrou os conflitos internos. Esse tipo de comportamento encontra explicações, por exemplo, em análises de Hannah Arendt:

Quanto mais a violência tornou-se um instrumento dúbio e incerto nas relações internacionais, tanto mais adquiriu reputação e apelo em questões domésticas, especialmente no que se refere ao tema da revolução. A forte retórica da Nova Esquerda coincide com o firme crescimento da convicção totalmente não-marxista, proclamamda por Mao Tse-Tung, de que o «poder brota do cano de uma arma».

De fato este quadro já está relacionado ao definhamento do poder colonial português se este for considerado como vontade geral e legitimidade, e da impossibilidade da formação de um consenso político, visto o histórico de lutas políticas que marcou o governo angolano no período pós-independência.

O poder corresponde à habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido. Quando dizemos que alguém está «no poder», na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por um certo número de pessoas para agir em seu nome. A partir do momento em que o grupo, do qual se originara o poder desde o começo (potestas in populo, sem um povo ou grupo não há poder), desaparece, «seu poder» também se evanece.

É este quadro de fissura, sobretudo na instância política, que vai permitir o surgimento de uma escalada brutal nos implementos de violência impedindo uma efetiva reorganização de Angola:

Politicamente, o ponto é o de que com a perda do poder torna-se uma tentação substituí-lo pela violência (...) e esta violência por si mesma resulta em impotência. Onde a violência não está mais escorada e restringida pelo poder, a tão conhecida inversão no cálculo dos meios e fins faz-se presente. Os meios, os meios da destruição, agora determinam o fim com a conseqüência de que o fim será a destruição de todo poder.

É justamente neste ponto que se insere o fragmento do livro Abismos de Silêncio, que é possível fazer uma leitura acerca da falta de unidade política, na medida em que, de acordo com o autor, a própria palavra não designa poder: A leitura desta lógica apóia-se no fato de que Angola presenciou um período de conflitos civis, o que tornou inviável uma ação política conforme as utopias revolucionárias dos anos 60, surgindo, inclusive, a corrente literária angolana conhecida como a geração das incertezas:

Essa palavra nunca foi lida no exílio de nossas angústias, nem nos casamentos regados de vinho que aceleram a rumba da alegria e por mais incrível que pareça nunca foi poder.

De fato, esta palavra pode ser relacionada à língua, uma das principais marcas culturais, que imediatamente aparece nos apelos de união nacional. A fragmentação dessa palavra é um sintoma de fragilidade das estruturas de poder, então vigentes. É bom lembrar que na década de 90, Angola presenciava as divisões étnicas e políticas, que resultavam na atuação das forças políticas no país. Por conta disto, a proliferação dos implementos de violência surge como uma luta desenfreada para a instituição de uma nova ordem política. Novamente em alguns trechos da obra de Adriano Botelho de Vasconcelos é possível fazer alusão ao crescimento da brutalidade na sociedade, que no poema está freqüentemente associado à morte:

Dizem que foram os ferreiros que tornaram tão rápida a morte, tão farta como uma inauguração (...).

O dia em que a morte destruíra, notícias de invasões, doenças e algemas que apodreceram o sangue (...) tudo isso visto por dentro de um desequilíbrio de anseios.

Embora não haja uma denúncia explícita, pois o autor não cita partidos políticos, batalhas, tropas estrangeiras ou outras etnias, fica subentendido que é este universo violento um dos principais motivadores da escrita de Adriano Botelho:

Olho as ruas, as praças, o mundo a minha volta. É um todo envolvido de silêncio. Tenho sempre vontade de quebrar o silêncio. Espiritualmente é horrível calarmo-nos perante o intolerável. Por isso, escrevo como a gente grita.

A preocupação do autor com o silêncio, que é recorrente em boa parte de sua poesia, indica a existência de uma sociedade amedrontada e cerceada pelo que ele classifica de «intolerável». Em outro fragmento, a noção de silenciamento ainda é mais profunda já que é acompanhada da morte e da capacidade de atingir a memória, logo a identidade.

Se o silêncio é uma necessidade isto indica que a voz ameaça, pois do contrário ele não seria imposto em qualquer situação autoritária. Deste raciocínio pode-se concluir que a palavra é, sim, poder. Provavelmente o que ocorreu em Angola, levando o autor a definir a «palavra» como impotente, foi o fato de não haver uma definição lingüística como fator de coesão nacional, haja vista a presença secular de uma língua estrangeira e a variedade de línguas ligadas a etnias distintas e com diferentes posições políticas.

Esta posição acerca da força política de uma determinada língua torna-se nítida no caso angolano quando diversos poetas e escritores assumem posições legítimas dentro da nova estrutura de poder do Estado angolano pós-colonial. Durante as batalhas pró-independência, estes atores eram a vozes que partiam da ilegalidade, de uma estrutura não reconhecida e perseguida por uma forte censura, comandada pelo anacrônico Estado imperialista português em África. Observa-se, neste caso, a disputa pelo espaço de domínio no campo ideológico, reforçando a idéia de que uma guerra não se reduz às condições técnicas ou bélicas de ambas as partes. A questão lingüística é tão presente na configuração do poder que, no caso angolano, as línguas locais tinham de coexistir, pelo menos em termos oficiais, com outra que representava a dominação estrangeira e a crise de identidade de uma sociedade indecisa diante do impasse étnico e a urgência de erigir um Estado autônomo. Esta supressão lingüística não é um processo simples e dependente da vontade dos indivíduos, ela é parte de uma estrutura político-administrativa secular erigida pela sociedade colonial. Assim sendo, a língua do colonizador, antes de ser uma imposição no sentido do uso da força é uma necessidade da qual a maioria das pessoas não pode se furtar. É sobre o uso desta língua estrangeira que Frantz Fanon aponta a aceitação do universo metropolitano pelo elemento colonizado

Todo povo colonizado Isto é, todo povo no seio do qual originou-se um complexo de inferioridade, devido ao extermínio da originalidade da cultura local tem como parâmetro a linguagem da nação civilizadora, ou seja a cultura da metrópole.

Quanto mais afastado o colonizado estiver da sua selva, mais facilmente absorverá os valores culturais da metrópole. Quanto mais ele rejeitar sua negridão e a selva, mais branco ele será. No exército colonial e especialmente nos regimentos de atiradores senegaleses, os oficiais nativos são, antes de tudo, intérpretes. Transmitem a seus semelhantes às ordens do chefe e gozam, eles também, de uma certa honorabilidade.

A partir deste argumento pode-se pensar a língua como um importante instrumento de poder , principalmente porque, no caso do colonialismo, a apropriação da língua estrangeira representa uma possibilidade de ascensão social uma vez que ela está diretamente ligada à dinâmica do comércio e à máquina burocrática metropolitana. Em relação a Angola o fator lingüístico tem um peso ainda maior devido à prolongada presença da administração portuguesa na colônia.

É esta submissão lingüística que fomenta a ausência do elemento ancestral num dos principais pilares que sustenta uma sociedade, neste caso a língua. Possivelmente esta amputação cultural seja o motivo da descrença do poder da palavra, descrita por Vasconcelos. Pode-se cogitar tal hipótese a partir da lógica arendtiana onde o poder deriva do consenso, fato este que não ocorreu ou não foi possível entre as etnias angolanas no tocante a escolha de um idioma autóctone.

Além da hipótese colocada, é razoável considerar o silêncio mencionado por Vasconcelos, no contexto histórico em que a obra foi produzida. A República angolana dos anos 90 era um país ainda marcado por conflitos armados, com altos índices de corrupção e, principalmente, desiludido com o governo, outrora revolucionário, que não conseguiu apagar os «fantasmas» da violência e da dependência ao capital estrangeiro. Neste caso, o silêncio simbolizaria a fragilidade dos projetos políticos elaborados para dar curso ao desenvolvimento de uma nação estável e independente.

Bibliografia

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983. HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. A Magia das Letras Africanas. Ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.

VASCONCELOS, Adriano Botelho de. Abismos de silêncio. Luanda: União dos Escritores Angolanos UEA; ABV Editora, 1996.

Notas

Formado em História pela UERJ. Cursou a Especialização em Literaturas Africanas na UFRJ em 2005.

1. Apud VASCONCELOS, Adriano Botelho de. Abismos de silêncio. Luanda: União dos Escritores Angolanos; ABV Editora, 1996. p. 2.

2. ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. p.24.

3. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996. pp. 197, 221.

4. Idem, ibidem, p. 198.

5. VASCONCELOS, Adriano Botelho de. op.cit p. 9.

6. «Profundo sentimento de melancolia perpassa por grande parte da produção poética angolana das últimas décadas.» SECCO, Carmen Lucia Tindó. A Magia das Letras Africanas. Ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. RJ: ABE Graph Editora, 2003. p.262.

7. Idem, ibidem. p. 262.

8. «Poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente.» ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. p.44.

9. Idem, ibidem. p.14.

10. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. pp.242-243.

11. ARENDT, Hannah.op.cit. p.18.

12. Idem, Ibidem. P.36.

13. Idem, ibidem. P. 43.

14. VASCONCELOS, Adriano Botelho de. op.cit p. 10.

15. VASCONCELOS, Adriano Botelho de. Abismos de silêncio. Luanda: União dos escritores angolanos; ABV editora, 1996. pp. 21-28.

16.Idem, ibidem. p.8.

17.A morte pode com salivas de silêncio apagar o nome das coisas (...). Idem, ibidem. p.22

18.Os exemplos mais acabados desses Estados corporativos foram encontrados em alguns países católicos, notadamente Portugal do professor Oliveira Salazar, o mais longevo de todos os regimes antiliberais da direita na Europa. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.118.

19.FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983, p.18.

20.Um homem que possui a linguagem possui também o mundo que esta linguagem abrange e que através dela se exprime. Idem, Ibidem. p.18.

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