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A Poesia e os Seus Paradoxos

Escrito por  Abreu Paxe
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A poesia elabora os seus paradoxos na nulidade do critério de uniformidade, embora ela se torne ao longo dos tempos herdeira de si própria, Devolvendo-nos opiniões contrárias ao sentir comum: na linguagem, na psicologia, nos autores, nos movimentos ou épocas... Talvez por isso mesmo, nunca estivesse presa a um único sistema analítico; e quiçá pela mesma razão, se tenha tornado a partir das análises de que é alvo, coisa incrível, chegando até, as vezes, a ser desconchavo salvaguardados obviamente os conseguimentos artísticos.

Trazemos a propósito este tema como forma de tentarmos demonstrar atrelados à memória, ou seja, a sua evolução histórica, os paradoxos da poesia em contra mão aos defensores da uniformidade deste género, já que ela se opõe claramente a isto no modo como se constrói, isto é, na sua forma e no seu conteúdo.

Passemos então a demonstrá-los:

Os paradoxos da tradição (forma)

Pretendemos aqui demonstrar, em termos de forma, com é que a poesia na perspectiva da sua evolução se foi fixando, revelando um paradoxo em clara contradição ou contra-senso.

Conhecem-se ao longo da história da poesia formas fixas e consolidadas como o soneto, considerada como uma das formas poéticas das literaturas ocidentais. Criado no século XIII, no âmbito da poesia siciliana, adquiriu relevância e prestígio com Petrarca e tornou-se a grande forma da poesia do renascimento. Constituído por catorze verso, distribuído em duas quadras e em dois tercetos, com esquemas rimáticos diversos nas quadras (abab, abab ou abba, abba) e sobretudo nos tercetos (cde, cde; dcd, dcd; ccd, ccd). Na sua extensão breve, o soneto apresenta uma sintaxe extraordinariamente rica, sendo múltiplas as possibilidades de articular entre si as quadras e os tercetos .

Soneto

Não tenho paz, nem como fazer guerra,

Espero e temo, gelo e ardor me faço,

Alço-me ao céu mesmo jazendo em terra,

Nada possuo e o mundo inteiro abraça.

Minha prisão nem se abre nem se cerra,

E quem não me faz seu não solta o laço,

Amor me poupa e em seus grilhões me encerra,

Não me quero vivo e nem me ajuda o passo.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,

Suplico auxílio e quero perecer,

A mim odeio, alguém amando embora.

Mágoas me nutrem, rio estando aflito,

Tanto viver me dói quanto morrer

Por vossa causa assim estou, Senhora.

Soneto

primer cuarteto primer verso

primer cuarteto segundo verso

primer cuarteto tercer verso

primer cuarteto cuarto verso

segundo cuarteto primer verso

segundo cuarteto segundo verso

segundo cuarteto tercer verso

segundo cuarteto cuarto verso

primer terceto primer verso

primer terceto segundo verso

primer terceto tercer verso

segundo terceto primer verso

segundo terceto segundo verso

segundo terceto tercer verso

O haikai é uma pequena poesia com métrica e molde orientais, surgida no século XVI, muito difundida no Japão e vem se espalhando por todo o mundo durante este século. Com fundamento na observação e contemplação, enfatiza o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza através da arte, sentimento este inerente a todo o ser humano. O mais tradicional poeta deste estilo, Matsuo Basho, monge Zen aperfeiçoou o estilo e divulgou suas obras no final do século XVII. Cada haikai pode ser escrito com um factor predominante em sua composição. Alguns dão mais importância ao conteúdo com a imagem de um momento da natureza. Outros escrevem com a intuição e inspiração no zen-budismo. Outros dão mais importância à métrica com 17 sílabas, usuais ou poéticas, distribuídas em 3 linhas com 5 sílabas na primeira linha, 7 na segunda e 5 na terceira (forma 5-7-5). Alguns buscam a rima ou então a utilização do kigo, palavra ou termo relativo à estação do ano. O uso de figuras de linguagem como metáforas costuma ser evitado, pois pode levar a distorções e desvios no foco da imagem ou do tema central, por ser referente a um modo externo à cena, das ideias abstractas e não dos fatos e objectos verdadeiros do haikai.

Ao sol da manhã

uma gota de orvalho

precioso diamante.

Haikai

Sublime o ar colhe o dorso das ondas

Infindas as mãos sobre o corpo

Rubra a serpente requebra SE!

O tanka, poema também com origem no Japão, tem como principal característica, assim como o haikai, o facto de ser curto e de exigir grande poder de síntese. Ele é composto por cinco versos e trinta e uma sílabas, assim esquematizados: (5- 7- 5- 7- 7).

Olho minhas mãos

e não estão vazias

Cheias de marcas,

sintetizam uma vida

Protejo-as nos bolsos

Para citar apenas estes três tipos, que ainda são praticadas actualmente.

Nos dias que correm estas e tantas outras formas da poesia têm na sua composição muitas flutuações, já que, os esquemas estróficos, rimáticos e métricos, acentuação e ritmo, as bases da construção, os efeitos estilísticos da repetição, etc., se tornaram muito empobrecedores ...(vide textos). Estas flutuações chegam a pôr em causa a definição dicionarizada de que a poesia se afirma como arte de escrever em versos, colocando os leitores e as peças poéticas em espaços e tempos muito mais amplos do que os dos poetas que as elaboram.

Os paradoxos territoriais (conteúdo)

Aqui vamos tentar demonstrar, através das correntes literárias ocidentais, com territórios próprios , como esta poesia evolui, embora não tenham funcionado como estanques, em diálogos com alguns dos períodos ou momentos da literatura angolana. Seria uma forma de legitimar as sub-correntes ou práticas literárias com características próprias e únicas, face à evolução da mentalidade das sociedades, tanto ocidentais como a nossa, evidenciando assim os paradoxos territoriais (conteúdo).

Sabe-se que a literatura tende a evoluir em ciclos. Assim, quando surge uma nova tendência, ela passa por fases, sendo a primeira e a última frequentemente consideradas períodos de transição. Tais fases costumam receber diferentes nomes identificadores, apesar de poderem ser englobados, de um modo geral, por uma só denominação. Frequentemente, as novas tendências surgem como reacção às anteriores, especialmente quando levam ao exagero algumas das suas características. O Romantismo é um excelente exemplo de como este processo evolui (com a manifestação do pré-romantismo, do romantismo, e do ultra-romantismo).

É paradoxal julgar que todos os poetas querem fazer o mesmo - se assim fosse só fariam o melhor ou pior. Na verdade, como veremos mais adiante, estes só tentam fazer coisas inteiramente diversas . Senão vejamos:

No Renascimento/Classicismo como se sabe o homem era o fundamento cultural, predominava um culto dos autores gregos e latinos, admirados como clássicos (isto é modeladores), cujas obras foram reestudadas com novo olhar, era o princípio da normatividade, assente nas poéticas de Aristóteles e de Horácio e no próprio conceito de autor clássico. Já o Maneirismo busca fundamento na debilidade do ideal da eminente dignidade do homem, perde-se o sentido da harmonia entre o homem e a natureza, carece de razão uma visão serena e jubilosa da existência humana. No Barroco , o fundamento assenta no triunfo espiritual e religioso, exprimindo-se na grandiosidade, riqueza luxuriante e na proliferação prodigiosa das formas sensíveis, sentido teatral e espectacular do mundo e da vida, fascínio singular pelo jogo e pelo espectáculo da metamorfose e pelo mistério das máscaras e dos disfarces, arte voluptuosa sensorial, ao mesmo tempo aristocrática e popular, ora brutal e preciosista, ora brutal e plebeiamente realista e satírica. No Simbolismo , o fundamento é a rejeição do cientificismo positivista, aprofundando certos aspectos da tradição romântica, princípio da analogia natural/sobrenatural só captável através do símbolo.

Na nossa literatura (a angolana), nas décadas de quarenta/cinquenta suportados com o movimento «Vamos Descobrir Angola», com vestimentas da negritude, poetas como Viriato da Cruz, António Jacinto e Agostinho Neto, só para citar estes, produzem uma literatura (poesia) que reflectia os anseios de liberdade, valorizando o homem oprimido e pondo-lhe em contacto com a cultura autóctone ameaçada, isto por um lado. Por outro, produz-se também a literatura colonial, em que se cantavam (poesia) as belezas exóticas de Angola, na perspectiva do outro. Na década seguinte, que é a de 60, a das guerras de libertação e independências em África, produz-se a chamada literatura de guerrilha, com finalidades didácticas, viradas para a causa da liberdade e independência de Angola. Aqui podemos encontrar poetas como Costa Andrade, Jorge Macedo, Arnaldo Santos, só para citar estes. Concretizado o objectivo da liberdade com a independência, que acontece na década de 70, surgem poetas como Rui Duarte de Carvalho, Arlindo Barbeitos, David Mestre, só para citar estes, que começam a emprestar ao discurso poético outras vestimentas, antípodas das décadas anteriores. Confrontado com os ventos de mudança, isto é, o alcance da independência, onde Angola abraça a orientação política do comunismo, a produção literária da Brigada Jovem de Literatura, surgida em Angola na década de oitenta, fixa-se nos ideais de produzir uma literatura engajada, que é a de construir o homem angolano (o homem ideal em moldes utópicos) e ajustá-lo a nova realidade, num discurso poético previsível. Mas neste mesmo período poetas como José Luís Mendonça, João Maimona e Paula Tavares, só para citar estes, produzem um discurso poético com contaminações estéticas experimentadas pelos poetas citados da geração de 70, e que se estendem até aos nossos dias.

Não fomos exaustivos nas citações pela natureza breve da nossa comunicação. Fica apenas uma amostra da evolução da poesia e seus paradoxos, verificados na sua tradição (forma) e territórios (conteúdo).

Para que adianta, perante estas evidências, pensarmos que a poesia deve ser um palco de competição pela posse, para que ela passe a fazer parte dos bens de consumo que funcionam como símbolos de distinção social . Paradoxalmente, hoje já assistimos a desejos de se chegar ao momento em que «a poesia» só existe para que se fale dela e da sua proveniência fulano tal, investido poeta e condecorado isto é, em que a ideia de cultura como cimento social prevalece sobre ideias de cultura como lugar de conflitos e resistências . Aliás, não é a cultura que precisa da poesia, para se enriquecer, é a poesia que precisa de uma cultura que a permita, isto é, que aceite que haja em cada homem a potencialidade de se relacionar com os outros pela afirmação da sua dissemelhança, a sua maneira única de participar no mundo .

Não é esta via que nos propusemos trilhar, uma vez que o próprio texto poético, às vezes, opera pela discórdia que não é tão feia como se pinta, ela é muitas vezes o meio de começarmos a iluminar verbalmente a nossa leitura de uma obra poética, a respeito da qual houve outros que aceitaram o risco de se enganar enquanto não chegávamos nós para os corrigir . Por isso, chega a ser importante distinguir entre as condições para que a poesia possa existir para cada um e a imposição propagandística e ideológica de algo a que se chama poesia, por vontade dos precipitados imperadores da poesia .

O que se lia já não era o que se imitava ou o que se pretendia dizer por emulação. Era outra coisa. Portanto, tendia a apresentar-se como diferença. E a diferença, para não ser pura negação, acabará por se constituir como diversidade, multiplicidade, variedade. Aqui, o dizer e o ler confluem e conjugam-se através da imaginação .

Jorge Macedo responde sabiamente a esta tentativa de usurpação deste bem cultural com a seguinte tese: em Angola, novos e velhos poetas caminham lado a lado, contemporâneos, heterogéneos, subscrevendo cada um em seu idiolecto páginas dignas de notas, certos que uma literatura é uma orquestra composta por vários instrumentistas, tocando instrumentos diversos, de timbres diferentes e partituras, cuja harmonia e beleza resultam do concurso de todas as vozes musicais, no espaço e no tempo. Razão por que a literatura se pode definir como uma inesgotável polifonia interpretada por várias épocas e gerações .

Os paradoxos, meus senhores no sentido a que vimos demonstrando, não se resolvem à luz de uma gramática ( ars bene loquendi) nem a de uma retórica (ars bene dicendi), num princípio uniforme. Devem ser aceites, devem ser integrados. Por isso é que poetas, ensaístas e críticos continuam a procurar os textos que falem de poesia, cujo objectivo é entrar no «lago escuro», não para o iluminar, mas para lhe conhecer a escuridão (Gastão cruz). Para aprofundar o conhecimento da palavra, o conhecimento da vida, ou seja, o desconhecido inerente a existência humana e ao verdadeiro conhecimento.

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