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A Transgressão Nas Cidades Sitiadas: Cidade de Deus, Manual dos Inquisidores e Maio, mês de Maria.

Escrito por  Jurema José de Oliveira
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Os homens são em um mesmo tempo submetidos a dois movimentos: o terror, que intimida, e a atração, que comanda o respeito fascinado. O interdito e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: o interdito intimida, mas a fascinação introduz a transgressão. O interdito e o tabu não se opõem ao divino senão num sentido, mas o divino é o aspecto fascinante do interdito: é o interdito transfigurado. A mitologia compõe às vezes ela embaralha seus temas a partir desses dados .

Os homens são em um mesmo tempo submetidos a dois movimentos: o terror, que intimida, e a atração, que comanda o respeito fascinado. O interdito e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: o interdito intimida, mas a fascinação introduz a transgressão. O interdito e o tabu não se opõem ao divino senão num sentido, mas o divino é o aspecto fascinante do interdito: é o interdito transfigurado. A mitologia compõe às vezes ela embaralha seus temas a partir desses dados .

De acordo com Mircea Eliade, o mundo «é um Cosmos e qualquer ataque exterior ameaça transformá-lo em Caos» . Essa visão mítica do mundo pode ser atualizada por uma ótica inversa, não mais integrada a um sistema coeso e articulado, a uma narrativa atemporal, mas apreendida por meio de figuras soltas, díspares, resultantes do «caos» que paira sobre a cidade distanciada do princípio mítico original e sofre a ação perpetrada pelas atuações humanas em contextos históricos marcados por uma degradação que se assemelha ao «Caos» gerado no plano mítico pelo «Dragão» que atacava a cidade dos deuses num tempo primordial.

A cidade sagrada era o habitat humano por excelência e a sua conservação garantia a perpetuação das espécies, enquanto que as cidades encenadas nas obras estudadas nesta tese são vítimas da violação de regras preestabelecidas que ameaçam a fundação da cidade imaginária. Todo o processo de degradação nelas instaurado e produzido pelas ações humanas reatualiza a idéia de «Caos» original sem a potencialidade mítica ritualística perpetrada pelo ciclo de luta entre o Bem e o Mal, como bem define Jean Baudrillard, em A transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos . A violência desenfreada, que assola as cidades narrativas, simboliza as práticas desenvolvidas por aglomerados humanos em descompasso com o habitat natural. O desconforto gerado pelos atos humanos permeados por motivações políticas, sociais, econômicas, etc., impulsiona a violência que, do ponto de vista contextual, afeta as cidades e desponta na enunciação como um ataque à «narrativa da nação» .

O dilaceramento do discurso da nação precisa ser suturado, unido por meio dos recortes recuperados muitas vezes às avessas. A voz da enunciação mata o texto primordial para criar as narrativas das cidades sitiadas nos romances aqui estudados. As «vozes da cidade» têm um cunho parodístico na obra de Boaventura Cardoso, testemunhal em Paulo Lins e memorialista em António Lobo Antunes. Os três autores violam as leis preestabelecidas para corporificar no «silêncio fundador» que torna todo significar viável a transgressão que emana da performance do escritor.

Transgredir pressupõe violar as leis preestabelecidas. A humanidade guarda, entre outros preceitos, o «não matarás». Este deve ser zelado e guardado universalmente. Ele não nasce nos limites da razão, mas se estabelece como regra pela natureza do tabu, «que torna possível um mundo da calma e da razão» , mas isso não significa que, na qualidade de intangível, o mesmo não possa ser violado e continuar, depois disso, tendo o estatuto de intangível. Georges Bataille apresenta, na obra O erotismo, a seguinte proposição: «o interdito existe para ser violado» , em outras palavras, as regras existem para serem quebradas, mas esta idéia guarda em si uma outra questão, os efeitos gerados pela violação das leis sacralizadas.

Desta forma, quando a emoção for positiva a regra pode ser quebrada, mas, diante da emoção negativa, mantém-se o interdito, já que este tem a capacidade de eliminar a violência humana, pois controla o impulso que se forma no inconsciente do homem, como o sentimento de morte que precisa ser reprimido, porque esse interdito deve ser mantido para o equilíbrio e estabilidade da vida comunitária.

O interdito do homicídio, apesar de universal, não impede a empreitada da guerra. «A guerra, num sentido, reduz-se à organização coletiva de movimentos de agressividade» , que se disseminam de várias formas na atualidade, não precisamente com as mesmas características das guerras de trincheiras, que, no dizer de Walter Benjamin , deixam o homem mais pobre de experiências comunicáveis. Dialeticamente, como se pode perceber na epígrafe de abertura deste capítulo a transgressão estruturada a guerra e as festas religiosas como o carnaval representa juntamente com o interdito regras definidoras da vida social. Nas festas, por exemplo, os indivíduos vivem um momento ímpar de explosão catártica. Cabe ressaltar, no entanto, que se a transgressão propriamente dita não fosse limitada pelo interdito, a humanidade viveria um retorno à violência, ou melhor, à animalidade da violência desenfreada.

O interdito só pode ser quebrado nas festas religiosas e nas guerras. A guerra funciona como um mecanismo capaz de arbitrar eficientemente no campo das relações internacionais. Do ponto de vista revolucionário, a violência da guerra tem a função de impedir que a injustiça continue, já que, no dizer de Hannah Arendt, principal interlocutora na discussão sobre violência e poder, «todo movimento revolucionário tem sido conduzido pelos abnegados, motivados pela compaixão ou por uma paixão pela justiça» .

A paixão pela justiça de que fala Hannah Arendt não foi suficiente para fazer cessar os impasses internos do governo transitório de Angola, por exemplo. Os desdobramentos dos conflitos abrem no seio do grupo dirigente contestações que afetam a conjuntura do poder estabelecido e o conjunto da sociedade angolana, quando a tentativa de reconduzir o MPLA ao projeto inicial foi sufocada. Neste momento, uma prática autorizada nas guerras, a transgressão do interdito do homicídio, será usada pelos dissidentes contra membros do governo, e pela polícia estatal contra as pessoas ligadas de perto ou de longe às redes que integram os grupos fraccionistas.

Se, durante os anos de guerra de libertação, a transgressão era praticada em nome do bem-estar dos oprimidos pelo colonialismo, na repressão aos fraccionistas, ela deflagra o impulso de uma violência sem precedentes na História de Angola. De acordo com Georges Bataille, «a violência, que não é cruel em si mesma, é na transgressão à obra de um ser que a organiza. A crueldade é uma das formas da violência organizada. Ela é forçosamente erótica, mas pode derivar para outras formas de violência que a transgressão organiza» .

A transgressão organizada precisa ser controlada para o bem-estar social, mas encontra sua abertura explosiva nas mãos do artista, pois só este pode efetivar de fato essa ação numa prática criativa, que modifica a forma e o conteúdo de maneira produtiva. Na literatura, a possibilidade de transgredir está ligada à ruptura dos padrões lingüísticos consagrados e sacralizados pela norma culta e dos valores canônicos tradicionais estabelecidos por gerações de teóricos de épocas passadas, ou melhor, anteriores à geração dos escritores que, tendo em mente os movimentos sociais em constante transformação, optam por retratar ficcionalmente um cotidiano de transgressões diversificadas, como aquelas encenadas em Maio, mês de Maria.

Neste romance, a transgressão organizada se processa por meio da paródia que tem, entre outras funções, a capacidade de desvendar aquilo que a ideologia esconde e, para isso, precisa romper com a linguagem sem rasura, atemporal e «celestial», com o intuito de produzir uma imagem alegórica de um mundo disforme, que precisa ser decifrado e recodificado por uma ótica dialógica para trazer à cena vozes silenciadas pela repressão.

O diálogo dialético traçado pelo escritor entre a tradição e a modernidade da discursividade revela por intermédio da polifonia a complexidade identitária do jogo social encenado entre Dala Kaxibo, região de origem de João Segunda e seus familiares e o Bairro do Balão, centro do furacão. Os fenômenos advindos do procedimento parodístico encontram na instância do discurso polifônico a comunicabilidade desejada pelo autor. É uma premissa para o surgimento de uma multiplicidade de vozes, que buscam abarcar as particularidades e a complexidade dos fatos reinventados como: a língua, os símbolos, os códigos diversos de comportamento, os valores, os rituais, as técnicas e os artefatos da comunidade ali representada. O dialogismo permite uma interlocução com o passado e com as mais diversas situações do presente narrativo.

Na interlocução dialógica produzida pelo agente do discurso de Boaventura Cardoso, constata-se uma associação entre História e Memória no resgate de um tempo que reinventa, reelabora a força vital e as outras forças que coadunam na representação de aspectos inerentes à cultura angolana. O tempo mítico primordial se reatualiza como resistência aos estágios de rupturas violentas gerenciadas pelos homens em descompasso, que experimentam o afã da descontinuidade e da heterogeneidade temporal. Em Maio, mês de Maria a defunta Zefa, apesar da sua constituição etérea, interpela, questiona as ações do viúvo João Segunda.

Esse fenômeno reforça o dialogismo entre o mundo dos vivos em desequilíbrio - encenado no Bairro do Balão com um tempo primordial rememorado no komba, símbolo festivo da ligação indissolúvel entre «a vida humana que não é sentida como breve aparição no Tempo» e o Cosmos. Este, um organismo vivo, que se renova periodicamente de forma dialética, apesar de a cultura com diversas vozes identitárias se confrontar no tempo narrativo com políticas estatais que se sobrepõem à cultura que «se contrai e depois se expande enormemente» para redesenhar a cultura angolana que corresponde «a entidades não fixas que resultam de um processo que teve os seus primórdios, conhece o seu devir e um dia verá o seu termo» .

O cenário literário é o «local», espaço de confluência, o habitat, a casa para um mundo fora do lugar, mas não irrecuperável, pois :

(...) a literatura conspira com a especificidade histórica, usando a incerteza mediúnica, o distanciamento estético, ou os signos obscuros do mundo do espírito, o sublime e o subliminar.[para atingir] a compreensão da ação humana e do mundo social como um momento em que algo está fora de controle, mas não fora da possibilidade de organização17.

O ato de escrever associando História e Memória significa depreender a relação da arte com a realidade social e assumir a responsabilidade pelos passados não ditos, não representados, que assolam o presente histórico. O espaço ficcional promove aquela transgressão organizada de que fala Georges Bataille18 de forma produtiva, pois na arte matar o discurso, que não apresenta uma consonância com os paradigmas suplantados na narrativa nacional, significa retirar do «inominado» a essência alegórica que metaforiza o caminho de Finisterra, os cães sanguinários, os bufos da PIDE, num bairro sitiado. Boaventura Cardoso recupera em Maio, mês de Maria as marcas perenes da cidade que busca reencontrar um caminho na «linguagem-espectáculo», como bem define o próprio escritor na passagem a seguir:

Fiéis a cultura banto, na forma de conceber o texto oral e de o narrar, assumimo-nos como o contador africano, na sua exuberante expressividade dramatizadora, na sua preferência pela linguagem-espectáculo, tornando-a uma polifonia de linguagens idiomáticas, gestuais, de imitação de sotaques dos personagens, dos seus estados de espírito (...). Estes elementos fazem parte de toda a nossa prosa ficcional19.

Desta forma, constata-se na fala de Boaventura Cardoso o papel de alguém que narra de dentro da «cidade» repleta de vozes em busca da interação com o mundo visível e o invisível, como aquele habitado pela defunta Zefa de Maio, mês de Maria.

No plano metafórico, o interdito da arte violado por Boaventura Cardoso o é, igualmente, por Paulo Lins, que vislumbra novos padrões estéticos tanto do ponto de vista do foco narrativo como do conteúdo temático. Nesse processo, ele precisa conhecer, observar a dinâmica contextual para problematizar de forma dialética as relações entre «indivíduo», fazedor das regras do mundo onde vive, e a «pessoa», recebedora das regras do mundo onde vive. O conceito pensado por Roberto Damatta20, acerca da caracterização de «pessoa» e «indivíduo», serve aqui como suporte para a elaboração conceitual da dialética da transgressão.

De acordo com Roberto Damatta, há uma dialética entre «indivíduo» e «pessoa», que corresponde à dicotomia do Homo duplex, de Durkhein21, ou seja, a oposição entre corpo e alma, estudada por Durkhein, representa as categorias: «pessoa» e «indivíduo». Nesse contexto, encontram-se estruturas que valorizam o «indivíduo» e outras que têm como referência a «pessoa», mas não se pode descartar a possibilidade de existir sujeitos que, por alguma razão especial, se enquadram ora em uma categoria, ora em outra, ou nas duas ao mesmo tempo. O escritor Paulo Lins, por exemplo, durante a feitura do romance Cidade de Deus era morador do bairro, vizinho e amigo de muitos «indivíduos» que lhe inspiraram os personagens.

Do ponto de vista teórico, ele está dentro do mesmo espaço físico, descrito e problematizado na obra, mas, quanto ao enfoque temático, está fora, pois o mesmo não pertence ao mundo do crime, nem faz parte do ideário construído por «indivíduos» que abolem toda e qualquer idéia de mediação entre ele e o todo. As regras sociais produzidas fora do espaço (bairro) para ordenar o dentro, a Cidade de Deus, são quebradas pelos bandidos sem nenhum constrangimento moral, e o interdito «não matarás», em particular, deixa de existir. Segundo Vilma Costa Tavares, o lugar de onde Paulo Lins fala é ambivalente:

Está dentro significa ser tão morador da Cidade de Deus quanto os bandidos e analfabetos personagens do livro; é o Paulo Maluco, no qual confiam suas histórias, como declara o autor em debate realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, no ano do lançamento do livro. Porém, está fora do mundo do crime que tematiza, seu olhar é mediado por relatos de terceiros ou pela moldura de uma janela de onde escreve. Sua posição é de intelectual que estuda as ralações sociais, apoiado e subsidiado por instituições como a Antropologia, a Sociologia e a Literatura. O dado novo é que não está distante, como a grande maioria dos estudiosos. Está, literalmente, no meio do tiroteio, do fogo cruzado de uma violência urbana vivida no cotidiano22.

Na qualidade de sujeito que ocupa o papel de elaborador do discurso, o escritor emite na linguagem uma marca pessoal com o objetivo de provocar efeitos de sentido particulares, distinto daquele produzido pelo discurso canônico. Encontra-se, na ficção de Paulo Lins, o «indivíduo» marginal se movimentando dialeticamente em um universo díspar, pois é submetido às leis regulamentos ordenadores e massificadores de um viver anônimo distintas daquelas guardadas para a categoria de «pessoa». Ele circula por um mundo sem credenciais que o personalize para alçar uma outra categoria.

Nesse invólucro, nessa teia do anonimato, que impossibilita a dinâmica transformacional desse «indivíduo» que circula à margem na sujeição e sem diferenciação positiva, pois a única marca que carrega é a de «bicho-solto», geradora da exclusão do convívio social propriamente dito explode uma outra transgressão, destrutiva e violadora de vários interditos; entre eles destacam-se o homicídio e o furto. Os aparatos que beneficiam o que possui o estatuto de «pessoa» e excluem o «indivíduo» geram neste um sentimento natural, a raiva em estado bruto, distinta daquela que moveu Paulo Lins23 a escrever Cidade de Deus. Diante de desejos sublimados pela impossibilidade socioeconômica, ou de outra ordem, o «indivíduo» marginal inventa outros aparatos nada convencionais. Os códigos instituídos para os «bichos-soltos» pelo foco narrativo privilegiam desde o estilo discursivo até a maneira de se relacionar com os demais membros da comunidade onde habitam.

Desta forma, se a «pessoa» recebe o rótulo de «bem-nascido» o «indivíduo» de Cidade de Deus traz consigo a marca de «João ninguém»; se o primeiro domina uma linguagem culta, padronizada e valorizada, que guarda a idéia de ser «bem-sucedido», o segundo tenta se movimentar entre gírias e palavras de baixo calão, como os palavrões. Se o primeiro experimenta e concretiza metaforicamente o rito de passagem que, no dizer de Roberto Damatta24, inclui padrinhos que o protegem das dificuldades da vida, o outro, «o indivíduo», circula sem nenhum mediador legitimado, na maioria das vezes, desconhece a idéia de família que poderia protegê-lo das artimanhas do mundo da rua, a partir do processo de formação num tempo individualizado, pois varia de pessoa para pessoa.

A dinâmica do tempo individual se processa como conseqüência das decisões e dos aparatos sustentadores das ações implementadas pelo sujeito da ação. Esse movimento inicial se dá basicamente no intelecto e explicita as dificuldades humanas em dinamizar as mudanças significativas de passagem entre o mundo da casa espaço familiar e o mundo da rua, espaço público.

O elemento gerador desse processo é o tempo que se concretiza no chamado amadurecimento, isto é, o sujeito deixa a vida contemplativa e mergulha, se aproxima de sua experiência íntima, transformando a característica obscura em característica clara, ou seja, «o caráter dinâmico do movimento de passagem aparece de início sob a forma de impulsos, de sobressaltos, de elãs»25, enfim,de maneira descontínua, até que se estabeleça de fato o rito de passagem entre a casa e a rua. O espaço da casa permite a reflexão, o questionamento, a dúvida e a exposição do que há de «descontínuo» e «contínuo», temporariamente, em cada indivíduo do núcleo familiar, pois se encontra ali o refúgio seguro daquele que se prepara para transitar confortavelmente nos labirintos da rua e da vida na qualidade de «pessoa».

Na casa, as relações são marcadas pelos laços de «sangue» ou de substância, pelo dormir e comer juntos, por uma atmosfera de estar meio dentro e meio fora do mundo real, Numa casa, no seio da família, fazemos a primeira passagem fundamental, pois, nascendo indivíduos, somos transformados em pessoas quando ganhamos nosso nome no ritual do batismo, que nos liga ao mundo e à sociedade maior. Na casa ou no lar, só temos pessoas, e os papéis são vistos como complementares: velho/jovem; homem/mulher; pais/filhos; pai/mãe; marido/mulher; família/empregada doméstica; sala/quarto etc. Na família e na casa, em conseqüência, o individualismo é banido, e qualquer comportamento individualizante é vivido como uma ameaça à vida do grupo. Podemos, pois, dizer que o domínio da pessoa é, no Brasil, o domínio da família e da casa, onde todos se sentem agasalhados e protegidos da famosa e dramática «luta pela vida»26.

O privilégio de construir um alicerce para a «luta pela vida» não é dado a todos, logo presencia-se no mundo da rua, que engloba trabalhos e relações extra familiares, um arsenal de indivíduos sem a perspectiva de projetar ao menos a dialética da passagem indivíduo/pessoa. Diante deste quadro, pode-se dizer que é:

(...) essa massa que constitui o mundo dos indivíduos e que está submetida à risca ao universo generalizante das leis. E entenda-se aqui que a palavra «leis» não significa apenas a legislação consciente realizada pelo governo, mas as próprias leis da economia, que para muitos estão reificadas como «naturais»27.

Sendo assim, aquele que no romance adquire o estatuto de marginal, bandido, bicho-solto, cria as suas próprias regras que têm na base a violência desmedida e uma transgressão nada produtiva, tendo em vista que a violência desenvolvida ali em nada altera o círculo caótico do viver na marginalidade.

Para concluir a reflexão acerca das cidades sitiadas, convoca-se, então, o romance de António Lobo Antunes que, assim como Maio, mês de Maria, transita também entre a História e a Memória. Sua ficção desponta no cenário das «letras portuguesas» para efetivar, como outros escritores, a intervenção necessária e solicitada pela «urgência»28 do momento. Ele é convocado a concretizar a aventura da escrita geradora do novo paradigma literário, da mesma forma que Paulo Lins e Boaventura Cardoso. Se estes falam de dentro das cidades sitiadas, António Lobo Antunes também fala, mas por meio de uma «viagem» de retorno aos lugares distantes, de experiências traumáticas, produzidas pela colonização e, por fim, pela Revolução dos Cravos, temática presente principalmente em seus primeiros livros, mas recorrente em quase toda sua obra, como bem define o próprio autor na citação seguinte:

A ideia de partida era esta, servindo-me de coisas que eu conhecia, como a guerra, onde estive vinte e sete meses, o hospital psiquiátrico e a não relação de amor. São esses três temas que me interessavam. A solidão, a incapacidade de amar, o receio de amar, o medo das coisas boas que a gente tem, era de coisas assim que eu queria falar29.

Diante disso, pode-se dizer que o escritor, em O manual dos inquisidores, inicia sua viagem imaginária de dentro da «cidade» que se tornou a porta de saída para «os mares nunca dantes navegados». Lisboa o local do julgamento de João foi o centro de grandes acontecimentos e para ampliar esta trajetória iniciática de personagens, já anunciada no século XIX por Garrett em Viagens na minha terra30, António Lobo Antunes traça um percurso pela História concentrando-se entre Lisboa e Palmela, apesar de circular por outros espaços que a memória lhe permite. Palmela é um cenário bastante presente no relato da filha bastarda. Em ambos os espaços Lisboa e Palmela-, verifica-se imageticamente a «inscrição do rastro como valor de significação»31 na instância narrativa.

O «rastro» tem aqui uma pluralidade de valores na desconstrução32 da imagem petrificada na História marcada pelos «barões assinalados», representantes de um «povo colonizador por excelência». Estas marcas, num jogo associativo com a «fabulosa» empreitada colonialista, foram desfeitas com a perda das colônias e estão configuradas na escrita de O manual dos inquisidores.

Numa dinâmica dialética, o percurso combinado e articulado da ficção na busca da alteridade perdida pelos «filhos da terra», leva a personagem Paula a convocar o seu interlocutor o leitor a percorrer a «cidade» num tempo narrativo de «oposições [estabelecidas] entre a consciência e a inconsciência, a superfície e a profundidade, a visibilidade e a invisibilidade, a presença e a ausência, etc.»33. Estes dados podem ser percebidos na voz da enunciação, no momento em que esta explicita a «subversão» dos códigos e a retirada do cenário daquilo que Pierre Bourdieu 34 chama de «a dominação masculina».

Por outro lado, a ausência do «varão» leva «a filha da pátria» a experimentar metaforicamente duas ausências na ficção: a da filiação paterna e materna, capaz de desenvolver os aparatos necessários para efetivar a passagem entre o espaço da casa e o espaço público, atingindo com segurança aquilo que Roberto Damatta35 define como o status de «pessoa», que possibilita a abertura do caminho para o sujeito alçar o estatuto de «indivíduo» fazedor das regras ausentes no imaginário da personagem Paula:

(...) não se dizia pai e mãe por outro lado e madrinha por outro, dizia-se a mesma palavra para tudo e portanto havia mais qualquer coisa ou menos qualquer coisa no pai e na mãe que eu não compreendia (...) a razão de morar com uma senhora de idade numa casa sem homem e sem os objetos que os homens põem na prateleira do chuveiro, a navalha, o assentador, o pente, a brilhantina, e não só faltavam os objetos com que os homens povoam as casas como faltava roupa de homem, tosse de homem, um jornal numa cadeira e sobretudo o cheiro dos homens (MI, p.173-4).

As ausências vivenciadas pela personagem Paula e explicitadas na citação anterior, podem ser suprimidas neste «rio caudaloso» chamado língua, pois o desejo da personagem de ser inserida em um contexto social dito de «normalidade» impulsiona, faz avançar, uma imagem em construção na linguagem que desconstrói as ações masculinas, mas que pode criar a casa imaginária fundamentada naquela idéia mítica e primordial configurada na ficção. Esta urgência se faz necessária desde a Revolução dos Cravos e foi muito bem assinalada por José Cardoso Pires em E, agora José?36, quando o narrador da obra exige que o escritor tome as rédeas da situação como experimentação da abertura instaurada pela «democracia» depois da revolução, porque a partir daquela data:

(...) o escritor não era mais o animal à margem ou o ornamento tolerado que uma Política dita do Espírito pretendera estrangular durante meio século. De todas as áreas culturais a literatura tinha sido a mais segregada pelo ódio fascista, agora dispunha de voz total, a que quisesse. E participava, recebia incentivos, apelos vários à intervenção37.

A «intervenção» de que fala José Cardoso Pires aparece na escrita de vários escritores portugueses. Na produção literária de António Lobo Antunes se dá por uma ótica semelhante àquela presente nas obras de Paulo Lins e de Boaventura Cardoso. Ele cria uma cidade imaginária que funciona como eco de outras deixadas no continente africano. A função de médico psiquiatra, durante algum tempo em Angola, deu-lhe a desenvoltura do contador de histórias e a capacidade de ouvir experiências e transformá-las em matéria de ficção. Os ecos de outrora impulsionam e fazem avançar a ficção de António Lobo Antunes.

Em O manual dos inquisidores, a transgressão simboliza uma inovação na linguagem, já que, ironizando a fala e as ações dos militares, António Lobo Antunes traz à tona a desconstrução de uma memória social elaborada a partir do ponto de vista masculino, que naturalizou a idéia da força masculina para ordenar o mundo. A visão androcêntrica, devido à sua neutralidade, não necessita de um discurso para legitimá-la, pois a organização social se apresenta como uma máquina, uma engrenagem perfeita capaz de corporificar, em nível simbólico, a «dominação masculina», de que fala Pierre Bourdieu38. No entanto, a estratégia discursiva do romance em questão viola esta visão, ironizando as vozes do passado, marcadas pelo código militar. Em O Manual dos inquisidores, as marcas da falência nacional se processam via reminiscências de personagens, que representam as forças armadas da era de Salazar, fascista e colonialista, punidora e violadora dos direitos do homem comum e cumpridor dos deveres.

O romance O manual dos inquisidores traz à tona, por meio da memória, uma violência, que também simboliza transgressão, com o intuito de gerar novos comportamentos na «cidade dos inquisidores», já que a intenção do escritor é criar, num espaço fechado como o literário, a idéia de horror desenvolvida pelo fascismo, suscitando assim no leitor uma reflexão acerca de questões que afligem toda a coletividade. Desta forma, com um discurso fragmentado, dissonante e destoante, essa obra vai, pouco a pouco, expurgando os fantasmas do passado.

As cidades aqui estudadas apresentam nos espaços referenciais contextos dramas diferentes, mas, igualmente, aterrorizantes. O enfoque narrativo das obras denuncia a distopia de um tempo não desejado por onde «escoam» gestos repetitivos de violência. A cidade imaginária retratada pelos autores Paulo Lins, Boaventura Cardoso e António Lobo Antunes encontra sua significação na configuração metafórica da escrita literária. Os escritores convocam personagens que se constituem num reflexo daqueles indivíduos rechaçados na cidade propriamente dita.

Os romances apresentam um retrato de contextos sociais cindidos, fragmentados pela violência desenfreada produzida pelos «bichos-soltos» em Cidade de Deus, pelo medo dos «cães sanguinários» que aterrorizam os fraccionistas no romance Maio, mês de Maria e pelo espectro salazarista que atormenta os personagens de O manual dos inquisidores.

As narrativas sintetizam o isolamento individual e coletivo. O caminho trilhado pelos autores estabelece a tríplice visão da transgressão nas cidades sitiadas. Este movimento produzido na ficção fixa num jogo dramático a trajetória das formas que cada autor encontra para contar as histórias de personagens fictícios que simbolizam uma coletividade.

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11.Palestra proferida por sua excelência senhor Ministro da Cultura de Angola, o escritor Boaventura Cardoso. Salvador / Rio de Janeiro (Brasil), outubro de 2004, texto policopiado, p.1-8.

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19.PIRES, José. E agora, José? Lisboa: Moraes, 1977.

20.RESENDE, Beatriz. Apontamentos de crítica cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: 2002.

21.TAVARES, Vilma Costa. À flor da pele: vida e morte em tempo de tribos. Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de Letras da PUCRJ, 2001

Notas

1 Professora Doutora Substituta do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ.

2 BATAILLE, Georges. O erotismo, 1987, p.64.

3 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões, 2001, p.46.

4 BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos,

5 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós - modernidade, 2000, p.52.

6 RESENDE, Beatriz. Apontamentos de crítica cultural, 2002, p.173.

7 BATAILLE, Georges. O erotismo, 1987, p.60.

8 Idem, ibidem.

9 Idem, ibidem.

0 BENJAMIN, Walter. «O narrador». In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, 1987, p.198.

1 ARENDT, Hannah. Sobre a violência, 1994, p.25. 2 Arendt, ibidem.

13 BATAILLE, Georges. O erotismo, 1987, 74.

14 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões, 2001, p.123.

15 BHABHA, Homi. K.. O local da cultura, 1998, p.30.

16BARBEITOS, Arlindo. A sociedade civil: estado, cidadão, identidade em Angola, 2003, p.15.

17 BHABHA, Homi K.. O local da cultura, 1998, p.34.

18 Bataille, op. cit.

19 CARDOSO, Boaventura. Palestra proferida por sua excelência Ministro da Cultura de Angola, o escritor Boaventura Cardoso, outubro de 2004, Rio de Janeiro: UFRJ - Fórum de Ciência e Cultura, texto policopiado, p.4.

20 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro, 1997.

21 Idem, ibidem, p.229.

22 TAVARES, Vilma Costa. À flor da pele: vida e morte em tempo de tribos, 2001, p.141-2.

23 Paulo Lins na entrevista à Revista Caros Amigos diz que a raiva o motivou a escrever Cidade de Deus. «Sem medo de ser». In: Caros Amigos. São Paulo, no74, ano VII, p. 30-5, maio, 2003.

24 Damatta, op. cit..

25 BACHELARD, Gaston. A dialética da duração, 1994, 67.

26 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro, 1997, p.239.

27 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro, 1997, p. 241.

28 PIRES, José Cardoso. E agora José?, 1977, p.277.

29 ANTUNES, António Lobo. In: SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes, 2002, p.500.

30 GARRETT, Almeida. Viagens na minha terra, 1992.

31 NASCIMENTO, Evando. Derrida e a literatura: «notas» de literatura e filosofia nos textos da desconstrução, 2001, p.167.

32 De acordo com Evando Nascimento, o termo desconstrução foi criado por Heidegger, traduzido do alemão e, ao pé da letra, significa destruição, mas Derrida teórico da desconstrução estudado por Evando Nascimento prefere o termo desconstrução por achar mais adequado. Segundo Derrida, Heidegger estaria apenas mudando a ordem dos termos da hierarquia (escrita/fala para fala/escrita), ao passo que Derrida em seu estudo propõe uma releitura, uma tradução, uma nova proposta. Não se trata de destruir, e, sim, traduzir. In: Derrida e a literatura: «notas» de literatura e filosofia nos textos da desconstrução, 2002.

33 NASCIMENTO, Evando. Derrida e a literatura: «notas» de literatura e filosofia nos textos da desconstrução, 2001, p.167.

34 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina, 1999.

35 Damatta, op. cit..

36 PIRES, José Cardoso. E, agora José?, s.d.

37 idem, ibidem, s.d, p.274.

38 Bourdieu, op. cit..

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