testeira-loja

A História do Filho do Homem: Metaficção Historiográfica e Intertextualidade em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Escrito por  Cíntia Moscovich Faccioli
Classifique este item
(3 votos)
Segundo palavras do próprio autor, O Evangelho segundo Jesus Cristo não teria existido se ele, José Saramago, não fosse míope.

Segundo palavras do próprio autor, O Evangelho segundo Jesus Cristo não teria existido se ele, José Saramago, não fosse míope. A história é a seguinte: estava em Sevilha, na Espanha, e ao atravessar uma rua, leu, na confusão de manchetes de uma banca de jornais, as palavras em português do título do livro: o evangelho segundo Jesus Cristo. Espantado, voltou para conferir. Para acentuar ainda mais o espanto, no amontoado de jornais não havia nem evangelho, nem Jesus, nem Cristo. Certo de que se tratara de uma ilusão de ótica, ficou meses e meses com o título a rondar-lhe. Até que um dia, na pinacoteca de Bolonha, teve a segunda iluminação: viu como se sucederia toda a história de seu Evangelho.

A história de como surgiu a história é emblemática: mesmo que se saiba das convicções políticas e religiosas de José Saramago, constata-se que, em sua obra, não lhe interessa compor críticas ou teses judicativas. O que leva a cabo é uma extensa reflexão acerca da tradição judaico-cristã, aproximando-se dos mais arragaidos dogmas, aproveitando o mote para alcançar a Literatura. E faz tudo isso de maneira tão visionária e extensiva, que, cum grano salis, só poderia ter sido motivado por uma revelação epifânica, pelo justo oposto daquilo em que (des)crê.

Pós-moderno em essência, o Evangelho Segundo Jesus Cristo perfaz uma verdadeira desconstrução, num movimento que é a um só tempo irônico, paródico e metaficcional. O miolo do novíssimo Evangelho saramagueano é o mesmo do Evangelho cristão; no entanto, o modo de narrar, os expedientes de que se vale, as inversões que consuma subvertem a grande história bíblica, anunciando uma nova ordem diegética, representada pela economia singular do livro que vai compondo, cada vez mais solidificando o estatuto de um Cristo humano e a de um homem divinizado.

A obra está dividida em 23 partes ou capítulos, que seguem e obedecem a uma determinação histórico-cronológica; o andamento da diegese é, portanto, aparentemente linear, excetuando-se, obviamente, as prolepses e analepses promovidas pelo narrador, o que confere um tom fragmentário à narrativa, com movimentos de recuo e avanço constantes. Um maiúsculo e excepcional incidente quebra esta quase linearidade: o primeiro capítulo compreende o final da história que está sendo contada o suplício da cruz, tratando-se, assim, de um início in finis res.

Um poderoso tratamento pictórico, com descrição minuciosa da cena final da Paixão, confere a este prólogo a característica de um retrato. As tintas são luminosas, concentrando-se as sombras nem tão dramáticas no rosto do crucificado. Nesta cena, onde o mutismo impera, não se ouve exclamação ou lamúria vinda dos supliciados que ali estão (o Cristo, o Bom e o Mau Ladrão); apenas a voz do narrador a elas se refere, como de passagem e apenas para fazer constar. Calam-se todos em favor da atividade descritiva e propositadamente isenta de paixões. O narrador esmera-se na função de pintor; uma fala sua, no entanto, servirá de Norte ao livro: «pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é apenas a ausência do outro» (p.18).

Quanto à linguagem, segue o padrão que Saramago «descobriu» ao escrever seu primeiro livro, Levantado do chão: profusa, rica, cambiante, em tudo se aproximando da linguagem oral, com pontuação caótica, emulando as muitas pausas e sons acessórios à fala, discursos diretos mesclados a discursos indiretos, maiúsculas a indicarem a voz da vez. Também o presente histórico acentua passagens, tornando-as contemporâneas do leitor (ou tornando-as, pode-se dizer, atemporais; ou, ainda, tornando-as iguais ao tempo sem passado e sem futuro de Deus, aquele que é). Enfim, a linguagem do homem a tratar dos pretensos assuntos do Criador.

Outro marcado traço desta obra de Saramago, mais um a identificá-lo com os pós-modernos, é a ironia. Tal característica, no Evangelho é bom que se diga, não é a do sarcasmo; antes, é baseada nos paradoxos e nos contrastes, mediante indagações que colocam em xeque verdades dogmáticas, como a bondade e a justiça divinas. O Deus deste Evangelho não é, nem poderia ser, o terrível Deus do Velho Testamento; o demônio, o mesmo anjo caído da história tradicional, tampouco é o malévolo inspirador das desgraças. Vivem um do outro, como vive o dia da noite e todos os outros pares opositivos e complementares («Este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és», diz Deus ao diabo, propondo eterno conluio). Assim, a idéia eclesiástica de que o filho de Deus teria vindo ao mundo como o novo Messias para redimir os pecados dos homens, havendo de participar ao mesmo tempo da natureza humana e da natureza divina e obrigatoriamente concebido no ventre de uma mulher virgem, é totalmente alterada. Na verdade, existe um movimento sempre crescente no sentido de tornar o Cristo mais humano, mais pecador, mais terrestre ele é gerado porque a semente de Deus veio de mistura com a semente de José, numa promiscuidade nada católica, tendência esta que se estende às veleidades divinas e seus planos de ampliação de popularidade. Ao mesmo tempo, como se citou acima, há outro movimento, sempre descendente e, portanto, inverso, que traz Deus ao terreno, à condição humana, às minigâncias dignas tão-somente dos mortais. Neste aspecto, a ironia se confunde com esta dinâmica antitética, ascendência e descendência contínuas, que, dependendo uma da outra, a meio caminho, se confunde. O resumo mais significativo deste processo acontece naqueles quarenta dias e quarenta noites em que Deus, o Cristo e o Diabo permanecem no mar e durante os quais o Pai revela ao Filho seus alentados planos expansionistas e os nomes de alguns dos tantos que morrerão em nome da nova fé. O diabo, feito diabo para que Deus viva em glória, depois que o Senhor acaba de descrever todas as horríveis agruras pelas quais passarão os convertidos ao cristianismo, tem a fala mais elucidativa e espantada de todo o Evangelho: «É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue» (p.391).

Anunciado ser quem é desde o título do livro, o narrador tem características que participam, ao mesmo tempo, da natureza humana e da natureza divina.

Autodenominado «evangelista», analepses, prolepses e elipses ficam por sua conta e por conta de sua onisciência intrusa; a forma do narrador que deixa falar quem lhe apraz e cujo olhar se detém sobre aqueles que lhe interessa desvelar. Trata-se de um «nós» inominado, demiúrgico, verbos flexionados na primeira pessoa do plural, sendo, por outra parte, piedoso e caritativo (piedade e caridade mais humanas do que a nova ordem divina que o Evangelho vem anunciar). Circunstâncias há em que a dor e a perplexidade marcam seu discurso, simpatizando com os seres que conta e lamentando-lhes o infortúnio. Também é caridoso e sábio, e mesmo às mulheres, a quem a lei mosaica roubou a voz e a ação, empresta este narrador a dignidade usurpada, sem que se exima de, num movimento de antítese, confirmar a superioridade masculina. Para arrematar as idiossincrasias daquele que narra, há ainda as virtudes de um profundo lirismo, momentos em que se torna sofisticado frasista. Voltando à casa, depois da crucificação de José em Séforis, Jesus e Maria contam aos outros filhos da casa o destino do pai. As crianças rodeiam a mãe, abraçam-na, e o narrador, comovido, alcança uma voltagem lírica comparável aos melhores salmos bíblicos ao relatar a cena:

Agora estavam chorando todos, a viúva e seus nove filhos, e ela não sabia a qual acudir, ajoelhou-se enfim no chão, exaurida de forças, e as crianças vieram para ela e rodearam-na, um cacho vivo que não precisava ser pisado para verter esse branco sangue que é a lágrima. (Saramago, 1998, p.177)

A onisciência desse narrador é um intertexto que pode ser lido como uma alusão à onissapiência e ubiqüidade do Criador. No mais, desde o início da obra, estabelece-se íntima e óbvia relação do Evangelho de Saramago com os Evangelhos do Novo Testamento, vínculo que se revela nos níveis paródico, intertextual e metaficcional. Trata-se de uma grande realização da metaficção historiográfica, tendo por base a história sagrada. O dialogismo é evidente e, como se disse até aqui, o fato de a história composta pelos evangelistas ter sido alterada sublinha as características intertextuais, sem que o autor se limite a plagiar os eventos do texto primeiro. Os episódios e as personagens coincidem com a Escritura; diferem dela, substancialmente, no entanto, pela ótica humanizante de Saramago. A reconstrução do texto bíblico, a recriação da Paixão, tudo obedece a uma ordem subversiva, pela qual se instaura não mais o reino de Deus, mas o primado do humano.

Quer o narrador ou o autor que o Evangelho que constrói seja crível e confiável, fazendo com que nele atuem personagens pertencentes aos Evangelhos tradicionais, mesmo que, como método, proceda à distorção e/ou à alteração dos textos de origem. O Evangelho conversa com o Novo e com o Velho testamento, com os demais livros sagrados o Livro de Jó e o Eclesiastes, por exemplo, com o patrimônio literário do Ocidente, colóquios levados a efeito sem maiores pruridos, livres de reverências, guiados mais pelo compromisso com a obra que tece do que pelo respeito aos cânones habituais. As licenças e as aproximações acontecem ao sabor da fantasia e de um certo tom irônico: o anúncio de que Maria está grávida, é feito não pelo anjo do Senhor («Ave Maria, o Senhor é contigo», segundo a passagem da Anunciação), mas pelo próprio diabo («Os filhos se lêem nos olhos das mães», diz o mendigo que bate à porta de Maria em busca de comida). Outras liberdades: José e Maria, a casta e santificada dupla, têm constante relacionamento sexual, e Jesus, o pacífico cordeiro redentor, revolta-se com o destino que o Senhor lhe reserva. Também o episódio da ressurreição de Lázaro, aquele que é um dos insignes milagres atribuídos ao Cristo, sofre sua inversão: a pedido de Maria de Magdala, Lázaro resta morto («Ninguém na vida tem tantos pecados que mereça morrer duas vezes», argumenta a mulher, encerrando de vez por todas o assunto). Ao encontrar-se o Nazareno com a escrava que lhe ajudara a vir ao mundo, a história recorre a outra história, ao mito de Édipo e seu confronto com a esfinge, aproximação que torna pungente o andar dos anos e o lamento pelas crianças assassinadas em Belém a mando de Herodes :

Jesus acabou o seu responsório e olhou em redor (...) apenas ali, parada, uma velha muito velha, vestida com uma túnica de escrava, e demonstração viva, apoiada ao seu bastão, da terceira parte do famoso enigma da esfinge, qual é o animal que anda sobre quatro patas de manhã, duas à tarde e três ao anoitecer, é o homem, respondeu o espertíssimo Édipo, não se lembrou, então, que alguns nem ao meio-dia conseguem chegar, só em Belém, de uma assentada, foram vinte e cinco. (Saramago, 1998, p.217).

Sobre as técnicas narrativas, há também dois breves e elucidativos ensaios. Constrói-se o discurso, muitas vezes, às claras, e o leitor é convidado a participar das vacilações, achados e crenças daquele que narra. Existem regras de escrita no Evangelho que lhe dão o estatuto de ficção; por outro lado, há esta sorte de considerações que o fazem romper a barreira da ficcionalidade, atirando o leitor no desconcerto, testemunha e cúmplice do narrado:

Dizem os entendidos nas regras de bem contar contos que os encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula importância, a fim de que o herói da história não se veja transformado em um ser de excepção, a quem tudo poderá acontecer na vida, salvo vulgaridades. E também dizem que este é o processo narrativo que melhor serve o sempre desejado efeito de verossimilhança, pois se o episódio imaginado e descrito não é e nem poderá tornar-se nunca em facto, em dado da realidade, e nela tomar lugar, ao menos que seja capaz de o parecer, não como no relato presente, em que de modo tão manifesto se abusou da confiança do leitor. (Saramago, 1998, p.222)

E, adiante, volta a retomar o fio da meada:

Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionada, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios da vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. (Saramago, 1998, p.228)

Estabelece-se, de alguma forma, a poética que regra o Evangelho. Saramago, nesta revelação, de cunho sempre lúdico, faz com que o leitor se inteire do que acontece nos bastidores do ato de escrever. A nova ordem saramagueana, assim, também tem o sentido de subversão na medida em que o leitor (ou que seja, o narratário) assume posição de voyeur, estatuto tão caro e amplamente explorado no pós-moderno. A irreverência fundamenta o paródico, sem que, no entanto, se resvale para o burlesco. O Evangelho fica na delgada linha que separa a paródia do escárnio, equilibrando-se numa boarderline tentadora, mas nunca ultrapassada.

Na obra de Saramago, fica bastante evidente que o romance é o gênero que permite todos os processos de metaficção, de paródia, de intertextualidade, dentre outros. Também é o gênero em que a transgressão tem farto campo, como bem demonstra o autor, através da completa liberdade com que passeia pelo terreno da História e da ficção, fazendo de sua diegese o espaço de todos os possíveis literários, humanos e divinos.

Bibliografia

Linda Hutcheon, Poética do Pós-modernismo, Rio de Janeiro, Imago, 1991.

José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

Ler 4730 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips