testeira-loja

A Emigração e a Guerra: as Literaturas Periféricas e os Enganos do Pós-Colonialismo Destaque

Escrito por  Lucia Helena Ribeiro
Classifique este item
(2 votos)
Agora, eu via o meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentando o mais para si. (Trecho de Terra sonâmbula de Mia Couto, p.27)

Agora, eu via o meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentando o mais para si. (Trecho de Terra sonâmbula de Mia Couto, p.27)

E numa manhã de agosto, lúcida de azul partiram com destino à América [...] Estavam ainda sem motivos para imaginar que ser emigrante era uma espécie de penélope tecendo e destecendo o fio da saudade na teia abismável do partir e do ficar. (Trecho de Já não gosto de chocolates de Álamo Oliveira, p.38)

Podemos definir, com alguma segurança, a literatura produzida em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, ou em qualquer outro país ou povo que tenha na sua herança histórica a descolonização, como literatura pós-colonial, se entendermos o termo como expressão de uma produção teórica e intelectual que reflete e discute essa herança e as relações colono/colonizado, centro/periferia, primeiro/terceiro-mundo.

Como poderemos definir, então, a literatura que provoca uma reflexão sobre a diáspora e o duplo papel do emigrante como colono e colonizado e a sua trajetória de desconstrução da própria identidade, descascando-se da sua nacionalidade e dos seus mitos ao absorver a cultura do país de exílio? Terra sonâmbula, o primeiro romance do autor moçambicano Mia Couto narra, por meio de três personagens principais, a história de Moçambique num momento pós-descolonização, quando as guerrilhas internas continuavam a destruir o pouco que ficou depois da guerra colonial.

O velho Tuahir e o menino Muidinga tentam sobreviver no meio da destruição e da morte buscando refúgio na carcaça de um ônibus incendiado e abandonado no meio de uma estrada. Próximo dali, encontram o corpo de um homem e, junto, uma mala com escritos que contam a vida de Kindzu, o narrador da sua própria história.

A partir dessa descoberta o velho e o menino perambulam por caminhos que mostram uma África que teima em guardar o que sobreviveu das suas raízes, dos seus rituais e das suas crenças, ao mesmo tempo em que permite o exercício da morte entre os seus filhos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. (p.19) A trajetória dos dois é intercalada pela história de Kindzu que o menino lê em voz alta para o velho, para ambos esquecerem da fome e do medo, a única certeza que os acompanha.

A guerra crescia e tirava a maior parte dos habitantes [...] Os bandos disparavam contra as casas como se elas lhes trouxessem raiva.

Quem sabe alvejassem não as casas mais o tempo, esse tempo que trouxeram o cimento e as residências que duravam mais que a vida dos homens. (p.27)

O romance se divide em dez capítulos que contam a história das três personagens, que contam também a história de um país arrasado pela guerra, ou pelas guerras que se perderam em ideal nenhum. Tuahir e Muidinga fazem do ônibus queimado a sua casa. A cada saída, exploram as redondezas. Encontram seres que a guerra torna fantásticos: um velho solitário teimando num lugar de onde todos se foram e que pede para o menino gravar o seu nome no tronco de uma árvore para que ela se fecundasse dele; encontram um fazedor de rios que escavava o chão nessa certeza Estou a fazer um rio insistia. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas [...] limparia a terra, cariciando suas feridas. (p.105) O homem morre num furioso regato formado pelas águas de uma tempestade no leito de seu rio de pouca duração; encontram, ainda, mulheres que, em pleno ritual para afastar uma maldição, violentam o menino como forma de castigo pela sua intromissão no ritual. Os dois descobrem-se, também, a si mesmos como pai e filho que a guerra pariu e vão descobrindo, a história de Kindzu, lida ao longo desse caminhar sem fim.

Esses escritos trazem histórias de uma terra sonâmbula: o sono, o sonho, pesadelos e visões misturam-se na história do narrador que leva o nome de uma palmeira de onde saía o vinho preferido do pai, o velho Taímo que o bebia até a inconsciência e tinha sonhos reveladores. Meu pai sofria de sonhos, saía pela noite de olhos transabertos (p.18) Kindzu conta que a guerra chegou aos poucos: primeiro chegaram notícias do que acontecia longe; depois os tiros foram avizinhando-se até a morte tornar-se cotidiana. De dia não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida.

Nós estávamos cegos. (p.19) Taímo morre e seu filho sai a procura do seu objetivo: seria um naparama, guerreiro abençoado pelos feiticeiros que lutavam contra os fazedores da guerra. Abandona a sua aldeia e sai numa caminhada onde a única companhia é o espírito do pai a tirar-lhe a paz da sua decisão. Vou ajudar a acabar com essa guerra. Me acredita, pai (p.54) argumentava com o seu fantasma.

Envolveu-se, na verdade, com a própria vida. Encontra o amor em Farida, a mulher gêmea de outra, condenada a morrer por ter nascido nessa condição, segundo a crença do seu povo. Na tentativa de ajudar Farida a encontrar o filho perdido, envolve-se com a outra gêmea, Carolinda, desvenda a história de ambas, também a história de Matimati, mais uma aldeia que sobrevive aos tiros e aos saques de bandos que defendem os ideais de qualquer lado que pague mais: ... tinha que haver guerra, tinha que haver morte. E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os outros.(p.126)

Kindzu não consegue ser o guerreiro naparama que sonhava mas na sua trajetória consegue mais, reúne em si os ideais e as qualidades do seu povo que sobrevive apesar de tudo. Kindzu, Tuahir e Muidinga são a metáfora desse povo e das suas raízes. Através deles emerge um país (ou um continente) sufocado pelo silêncio que historicamente encobriu o tráfego de homens subjugados pela civilização branca, pela exploração das suas riquezas naturais, como as baleias que são retalhadas ainda vivas Mia Couto recria com que os três personagens o espaço geográfico e histórico do seu país, Moçambique, onde o mar e o rio, o céu e as suas muitas cores, o verde e os animais são parte de um ritual só, que a natureza repete todos os dias apesar da guerra. O universo lingüístico também é recriado, um universo semiótico único onde as palavras ganham também o status de identidade. Expressões como sozinhar, desdelicado, absurdez, desvirtudes, ou ainda palavras da língua nativa como machimbombo (ônibus), sura (aguardente), cipaio (policial), concho (canoa), quizumba (hiena), e muitas outras, ajudam, também, a delimitar o espaço pós-colonial.

Já não gosto de chocolates, do autor açoriano Álamo Oliveira apresenta a história de uma família de emigrantes que sai do Arquipélago dos Açores para a Califórnia, nos EUA, e do seu desenraizamento, primeiro da terra natal, depois de si mesma. José Silva, como milhares de açorianos, buscou no sonho americano a saída para a vida de miséria das Ilhas. Adorava chocolates americanos e nunca os comera. Apenas lhes adivinhava o sabor.(p.30) Aos 42 anos, foi para a América levando a família. Nas Ilhas, cumpriam repetidos rituais: cumpriam o calendário da vida apegados a devaneios pontuais: a festa do padroeiro, o carnaval, as domingas do Espírito Santo, as touradas do verão, ganhando energias para enfrentar a rudeza do resto do ano. (p.29) Uma vez emigrados, desvencilharam-se de tudo o que pudesse lembrar repetição. Vão descascando-se, então, do que cada um trouxe consigo na memória. A primeira casca é a própria língua.

Essa infiltra-se de uma outra estranha linguagem, um arremedo de inglês (ou seria do português?): O seu inglês é que se ficou pelo macarrónico. A primeira palavra que aprendeu foi well. Por isso, não admirava que começasse cada frase com «Uel!, o senhor c'oma vai?,» ou «Uel!, Faz o que te digo e xarape!» bordão inevitável para quem não conseguia conciliar a força do desejo com a fraqueza mental. (p.137)

A ironia maior, porém, ficou com a troca dos nomes dos filhos: António tornou-se Tony; Lúcia, Lucy; Margarida (o mais açoriano dos nomes), Maggie; João, John. A mulher de José, Maria de Fátima tornou-se Mary e ele próprio, Joe Sylvia. Na primeira visita a sua ilha, cinco anos depois, era preciso aparentar a abundância que a nova vida lhes dera, exibindo uma confusa estética americana nas roupas e nos gestos. Era preciso levar roupa que espelhasse a abundância e a estética da América [...] O nylon alternava com o poliester, os riscados com os estampados e os amarelos com os verdes (p.51) Quando voltaram, quinze anos mais tarde, já não reconheciam as próprias origens, nem os vínculos que os ligavam àquela terra; não se reconheciam mais açorianos. Uma revolução embaralhou a fé e os valores. Cresceram ali na confusão sobre o próprio destino que estava definitivamente nas mãos de Deus e de Salazar, ambos com o mesmo poder, e tudo mudara. A prosperidade conseguida no exílio, porém, não veio sozinha: trouxe novos hábitos e valores, provavelmente necessários para a sobrevivência naquela terra.

Álamo Oliveira propõe, para além dos dramas da emigração, uma discussão sobre os valores humanos. Expõe a dor da perda, de todas as perdas, das referências geográficas às afetivas; discute a nacionalidade sem se deter num patriotismo inútil, mas naquilo que ela dá de sentido ao homem que pertence a algum lugar definitivo, real, lugar que pertence a ele, e que pode ser uma pequena ilha ou a sua própria casa. A ilha/pátria/casa perdidas fragmentam-se, também, junto com as personagens: Maggie sobrevive às drogas; John sucumbe, primeiro ao preconceito familiar, depois à AIDS; Lucy perde-se na própria frieza e mediocridade; Tony condena-se à mediocridade da mulher.

Cada qual, um capítulo de recordações dolorosas para Joe Sylvia. Mary, Maria de Fátima, o último capítulo, a perda total: a mulher que amava é levada por um câncer nos seios. O chocolate perde o sabor. Joe interna-se num asilo. Há quatro anos viera para aquele quarto como se entrasse, voluntariamente, no jazigo da família.(p.13) A ida para o asilo é a repetição da viagem epilogal que fizera há muitos anos às Ilhas. Com a morte da mulher, não reconhecia mais a sua casa nem a sua família. Mary era a essencialidade que dava identidade ao lugar, às pessoas e a ele próprio, como somente a ilha e os seus rituais se justificavam para os que lá viviam. Ela era a sua pátria e a sua ilha, perdida para sempre.

Nessa obra, Álamo Oliveira mostra o que pode estar do outro lado do mar: o exílio e o falso colorido do progresso e da prosperidade pessoal. O autor propõe, ainda, um olhar sobre a velhice, a solidão, os preconceitos, a morte, a AIDS, as drogas, a banalização do ser humano, enquanto discute a emigração e a conseqüente perda da identidade É proposto também, uma outra visão do pós-colonial. Se o pós-colonialismo pode ser entendido como uma discussão que se manifesta à raiz das heranças coloniais que têm a Europa como entidade geocultural que se expandiu com os viajantes de Ultramar, em Já não gosto de chocolates a relação colonizador/colonizado, se confunde na irônica contramão da história: não é mais o português a conquistar a América mas sendo conquistado por ela. Deslocou-se o centro: a colônia (EUA) converteu-se num poder mundial e o antes conquistador, em emigrante, mão de obra indispensável para a construção de um país que só cresceu graças a ele e ao trabalho pesado a que se submeteu.

O açoriano sobrevive à origem pobre, mas nem sempre sobrevive aos valores perdidos numa cultura onde a superficialidade substitui os seus mitos históricos, os seus rituais familiares e religiosos. Para o moçambicano, a terra é a mesma, é sua, porém aviltada, com irreconhecíveis caminhos... A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças.(p.121); uma terra sonâmbula, com homens sonâmbulos, e sozinhos, que só sobrevivem às custas dos seus sonhos e visões, dos próprios rituais. A perplexidade frente à descontinuidade da vida para ambos só é menor do que o sentimento de irremediabilidade já que não há volta possível. As duas obras mostram, em síntese, a correlação existente entre ser de algum lugar e não ser de, e não importa se o lugar é uma ex-colônia ou um arquipélago perdido no meio do oceano, porém, território português.

Walter Mignolo, no texto La Razón Postcolonial: Herencias Coloniales y Teorias Postcoloniales (MIGNOLO,1996:5), aborda a questão das situações/condições pós-coloniais e a configuração sócio-histórica manifestada através dos povos que ganham independência ou emancipação dos poderes imperiais e coloniais do Ocidente. O autor traça um mapa dessas heranças e afirma que as situações pós-coloniais se diferem muito e por isso torna-se perigoso o emprego ou não do termo em conceitos tidos como definitivos e que não abarcam todas as diferenças existentes. É necessário uma rearticulação a partir das muitas perspectivas em que o pós-colonialismo pode ser visto. Para esse autor a razão pós-colonial pode ser entendida como um grupo diverso de práticas teóricas que se manifestam à raiz das heranças coloniais, na intersecção da história moderna européia e as histórias contra-modernas coloniais.

Quando se compara com a razão pós-moderna, nos encontramos com duas maneiras fundamentais para criticar a modernidade: uma, a pós-colonial, desde as histórias de heranças coloniais; a outra, a pós-moderna, desde os limites da narrativa hegemônica da história ocidental. Assim, segundo Mignolo, se a modernidade consiste tanto na consolidação da hegemonia cultural européia como na história silenciada das periferias culturais, a pós-modernidade e o pós-colonialismo, como operação de construção literária (que deve trazer a posição do sujeito explorado e do objeto da exploração), são lados distintos de um processo para contrastar a modernidade com as diferentes heranças coloniais.

Em Terra sonâmbula, identifica-se o espaço e o discurso pós-colonial, identifica-se a procura de uma identidade quando um pacto colonial é desfeito e o espaço entre a cultura que se impôs e a nativa sobrevivente não passa de um espaço caótico. Em Já não gosto de chocolates, há uma transferência de perspectiva, é o emigrante sendo margem (não mais o conquistador), num espaço econômico e cultural que se impõe. Instala-se igualmente um espaço entre a perda das raízes, a assimilação dos novos signos e a perda da própria identidade. Em ambas as histórias está presente a preocupação ética sobre a emancipação humana.

Referências Bibliográficas:

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, [s.d.].

ANDERSON, Perry. As origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

BHABHA, Homi K. The location of culture. London: Routledge, 1994.

COUTO, Mia. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

MIGNOLO, Walter. La Razón Postcolonial: Herencias coloniales y Teorias Postcoloniales. Gragoatá. Niterói: Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense. n.1, 2 sem., 1996.

OLIVEIRA, Álamo. Já não gosto de chocolates. Lisboa: Edições Salamandra, 1999.

Ler 7270 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips