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Memória Como Tragédia

Escrito por  Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva
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Tragédia:o termo designa propriamente, lembremos, não apenas sofrimento e aflição, não apenas a ausência do bem; esta pode também insinuar-se no relato da vitimização. Não, a tragédia reside na impossibilidade do bem: qualquer que seja o desenlace escolhido, ele gera lágrimas e morte. 1

Alguns aspectos podem ser levantados para explicar a atracção que as obras de Paulina Chiziane têm exercido entre um crescente número de leitores. Entre eles, a abordagem de temas candentes e de apelo de público, como feitiçaria, sexualidade, incesto e corrupção.

Por outro lado, não resta dúvida de que, nos meios académicos, o texto da escritora moçambicana pode provocar o afastamento pela profusão de lugares-comuns: «No mundo do poder patriarcal dizem que o homem é deus» (CHIZIANE, 2000, p. 36) ou «Ninguém consegue compreender os segredos da alma» (CHIZIANE, 2000, p. 45); pelas metáforas de gosto duvidoso: «Um soluço terrível sai-lhe do âmago porque sente que se esvai o sopro de vida» (CHIZIANE, 2000, p. 40); pelo exagero melodramático: «Suspira: Deus do céu, acuda-me!» (CHIZIANE, 2000, p. 40); pelas interrupções bruscas no ritmo da narrativa:

passa-se do geral para o particular sem mais nem menos (ver CHIZIANE, 2000, início da p. 47); enfim, pelo excesso de explicações ou pela explicitação de situações que nos parecem óbvias. Até mesmo a imprecisão na determinação da voz do narrador gera desconforto, do momento em que essa indefinição parece acidental e não proposital, sugerindo apenas o desconhecimento de técnicas literárias.

Entretanto, esses mesmos elementos, pouco a pouco, deixam de incomodar, revelando-se, mesmo, sedutores e, sem nos darmos conta, tornamo-nos co-participantes do texto, que retrata minuciosamente rituais e práticas religiosas animistas, costumes e valores culturais, ao longo dos muitos acontecimentos que se desenrolam, proporcionando-nos uma verdadeira aula sobre as culturas ancestrais de Moçambique.

A narrativa de Paulina leva-nos não apenas a olhar para uma cultura desconhecida, mas a iniciarmo-nos nela, envolvendo-nos criticamente, na medida em que denuncia as contradições dos comportamentos sociais. A discussão sobre tais contradições, por sinal, será uma constante em outras narrativas da autora.

Na tentativa de discutir o interesse crescente que suas obras vêm despertando, nos mais diversos meios, proponho uma breve abordagem em torno das relações que O sétimo juramento estabelece entre a memória e a tragédia.

Tome-se aqui o trágico no sentido que Todorov empresta a esta categoria, quando procura examinar as diversas formas de rememorar o passado. Para Todorov2, o termo tragédia designa não apenas sofrimento e aflição, não apenas a ausência do bem, mas a impossibilidade do bem: qualquer que seja o desenlace escolhido, ele gera lágrimas e morte. Numa visão trágica da história o bem e o mal se enfrentam, mas nunca encarnam em estado puro. Daí não ser possível identificarmonos com um dos lados da disputa.

A narrativa conta a história de Davi, um ex-guerrilheiro das lutas de independência que se tornou presidente de uma estatal moçambicana. A empresa atravessa um período de crise: os pagamentos dos operários estão atrasados há vários meses e vive-se uma ameaça de greve. Além das dificuldades existentes, há os desvios de verbas dos directores e um clima de total desconfiança instalado entre operários e patrões e entre os próprios dirigentes da empresa que não se respeitam. Diante da possibilidade de perder a posição e os privilégios que adquiriu, Davi termina por procurar auxílio na magia negra e estabelece uma série de pactos e juramentos, entre os quais sacrificar seus familiares e dormir com a própria filha. Tais práticas terminam levando-o a manter e mesmo a aumentar seu poder financeiro e sua capacidade de controlar a situação difícil na fábrica. Até o momento em que o quadro se reverte: Davi perde o poder e é acuado pelo povo, precipitando-se na queda e na desgraça. Enquanto isso, sua mulher, Vera, também busca ajuda de um curandeiro, em função do comportamento estranho de seu filho, Clemente, constantemente assombrado por pesadelos e visões. Depois de descobrir sua ligação com os espíritos ancestrais dos ngunis representantes das forças do bem , Clemente se inicia nos estudos de magia, passando a conhecer melhor seus poderes e tornando-se mais capaz de proteger sua família contra seu próprio pai Davi, que é guiado pelas forças do mal, pelos espíritos ndau.

O desejo de poder é um elemento primordial para o desenvolvimento das acções do protagonista Davi, levando-o a se envolver numa série de actos escusos que o conduzem à morte. Morte e destruição são, por sinal, o saldo dessa narrativa na qual, tal como na tragédia, não podemos simplesmente caracterizar os personagens como heróis ou vilões.

Por mais que suas acções se configurem como «do mal» ou «do bem», a caracterização da visão trágica da história impede tal polarização. Detenhamo-nos, portanto, no modo como a memória é estruturada para articular tal visão.

Logo nos primeiros capítulos, a voz do narrador nos dá conta de que o passado é fonte de angústia e depressão para Davi. O clima de desencanto em relação ao presente se instala:

O passado volta a reflectir-se com novas roupagens. Vai à janela e espreita o sol. A madrugada está chuvosa e triste. O vento arrasta nuvens densas que trazem à alma medos inimagináveis.

Pensamentos maus transbordam como uma fonte de águas turvas. O corpo gordo fica abatido em segundos.(CHIZIANE, 2000, P. 14).

Essa angústia, proveniente do passado, como ficamos sabendo, advém do contraste entre passado e presente:

Imagens de um passado de glória correm na mente como fotografias. Treinos militares e guerra contra o colonialismo. Sabotagem. Comícios. Discurso (...) Euforia sonhos, convicções. Muita amizade e solidariedade (...) Naquele tempo tinha o coração do tamanho do povo. Agora a palavra povo é um simples número, sem idade nem sexo (...) Apenas estatística. (CHIZIANE, 2000, p. 14).

Tal desagrado de Davi, em relação ao seu passado, não é apenas patente, mas é reforçado em outras partes da narrativa: «Volta para a cama, enterra a cabeça na almofada, disposto a esquecer os maus pensamentos.» (CHIZIANE, 2000, P. 15). Até o momento em que essa crise com a memória incômoda dos dias de guerrilheiro parece terminar e o passado, aparentemente, deixa de assombrar Davi. Aos poucos, o passado vai se acomodando, na medida em que o protagonista vai construindo uma justificativa para os seus actos: sua traição dos ideais da revolução, sua transformação; seus desvios de verba, a exploração crescente dos operários, o atraso dos pagamentos:

Davi fuma e pensa. Pensa e fuma. O comportamento popular é igual em todas as partes do mundo. Estes operários rebelaram-se contra a administração colonial. Hoje, rebelam-se contra os libertadores da pátria, ingratidão típica dos filhos de Israel. O povo é vento que corre para qualquer lado (...) Dez anos durou a luta de independência para libertar a terra. Hoje, o país tem sua identidade, liberdade, estatuto. Alguns operários chegam a afirmar que a vida era melhor no tempo dos colonos. Mas a culpa maior cabe a nós, militantes da utopia, que prometemos um mundo pleno de igualdade. De onde fomos buscar semelhante loucura, se a igualdade não existe nem no reino das formigas? (CHIZIANE, 2000, p. 32 e 33).

Para a mulher de Davi, Vera, o rememorar traz, igualmente, a sensação incómoda do contraste com o presente. Mas se o seu próprio passado de miséria irrompe na memória, ela logo afasta a tristeza pensando na vida confortável que leva com o marido.

Nessa primeira parte da narrativa, o voltar no tempo, promovido pelas reminiscências das personagens, mostra não só o conflito passado/presente, mas também o fosso, o abismo que se criou no presente em relação às tradições ancestrais. Vera, por exemplo, a partir de um ataque experimentado por seu filho, no momento em que cai uma tempestade, repete para si mesma que acredita apenas nos vivos e não nos mortos. As tentativas da sogra em transmitir as histórias e experiências da tradição ancestral são constantemente desprezadas. Só passam a ser levadas em conta a partir do momento em que Vera descobre que seu filho precisava de um curandeiro para se ver livre do passado.

Tal busca leva Vera, então, a reatar com as antigas tradições de sua aldeia na infância e, ao mesmo tempo, inicia o leitor no mundo da cultura ancestral. Se o desligamento das antigas tradições surge, muitas vezes, como algo a ser lamentado, isso não significa que a cultura ancestral esteja livre de críticas, ou seja, sempre louvada na narrativa. Muito pelo contrário. Diversas vezes, as antigas tradições são criticadas e questionadas pela voz do narrador, mostrando-nos que o passado e as tradições não devem ser vistos como essencialmente bons ou maus:

A tradição bantu instrumentaliza o homem e faz dele combatente do nada. Trabalha duro e constrói. Na hora em que o infortúnio bate à porta e ele fecha os olhos para o todo e sempre, a família mais chegada, invocando a tradição, assalta-lhe e disputa os bens. (CHIZIANE, 2000, p. 37). Ainda na primeira parte da narrativa, o passado revela-se, também, como um trauma a ser repetido. Mudam, contudo, os papéis: a vítima passa ao papel do opressor. Mais uma faceta da visão trágica da história: o ex-guerrilheiro ocupa agora lugar do antigo colono:

«Hoje ele é patrão e sente que vai ser escorraçado do poder tal como fez aos colonos, pelas mesmas razões, pelas mesmas acções. Com os mesmos cantos e gritos.(...)Com a mesma fúria do povo oprimido (...)» (CHIZIANE, 2000, p. 32). A história aparece, aqui, como repetição, como reiteração do trauma, mostrando-nos o quanto a memória pode funcionar de forma conservadora.

O presente, por sua vez, parece ser uma reiteração do passado em mais de uma instância. Primeiramente, como já dissemos, porque o comportamento de Davi reduplica o comportamento do colonizador: a antiga vítima que repete o comportamento do algoz3, evidenciando o modo como a memória da violência passada, muitas vezes, desencadeia e justifica a violência presente. Em outro aspecto, a ligação de Davi com a feitiçaria repete, também, o passado de sua própria família: seu pai, igualmente, sacrificou e violentou os irmãos de Davi em nome do poder.

Nesta última situação, contudo, não se trata da repetição do trauma, pois Davi, aparentemente, desconhece o pacto que seu pai fizera no passado com a magia negra. A busca de Davi pelas forças da magia negra liga-se, de fato, ao destino traçado pelos ancestrais.

Tal destino, ainda que irrevogável, pode, contudo, ser questionado, pois a mãe de Davi, embora tenha aceitado o pacto que seu marido fez, no passado, recusa-se a perpetuá-lo, no presente, e nega-se a acobertar os crimes do filho. Procura, no presente, apoiar a nora, que agora sofre o que ela sofrera no passado. Conversa com a nora e denuncia o ciclo de violência que se estabeleceu pelas tradições ancestrais:

Sou feiticeira por casamento. Pensava que já não era. Agarrei-me à Igreja como bóia de salvação... Ai, deuses, ai, mortos! Será que desta linhagem não escapará nenhuma geração? As dívidas são antigas, não foram feitas por eles... As promessas não cumpridas são dos antepassados e não destas crianças, coitadinhas. Por que os filhos têm que pagar pelos erros dos progenitores. (CHIZIANE, 2000, p; 196).

A força do passado, da memória ancestral, aparece, portanto, como um imenso poder, que é respaldado pela voz dos mais velhos. É a sogra quem anuncia a Vera que os destinos de Davi e de Clemente já haviam sido determinados pelos antepassados, que a recusa de Davi em aceitar o seu nome banto de nada valeria para o desejo dos antepassados.

Do mesmo modo, o destino de Clemente como salvador da família também já fora estabelecido4 independente de sua vontade. Nada impede, contudo, que pactos feitos no passado sejam rompidos por alguns personagens dispostos a mudar a história.

Por fim, é importante ressaltar o modo como a narrativa busca relacionar a memória dos actos de barbárie cometidos no mundo, apontando aspectos em comum entre os vários registros de violência da história, sem cair numa generalização ou banalização5 dos acontecimentos de violência ou, no extremo oposto, numa discriminação dos episódios relacionados ao espaço africano. Ainda na esteira desse pensamento, observe-se, também, que não há polarização maniqueísta na construção dos personagens, embora eles se alinhem em campos opostos: os ngunis e os ndaus representam, respectivamente, heróis e vilões, mas os personagens que se dispõem em cada um dos lados personificam a própria contradição. Davi é extremamente contraditório em suas atitudes e até Makhulu Mamba, o feiticeiro-mor, que entregou sete de seus filhos em sacrifício, chora e comove-se quando se recorda dos próprios crimes do passado (CHIZIANE, 2000, p. 171).

As instituições religiosas, por sua vez, revelam igualmente um perfil paradoxal e ambivalente, distante do estabelecimento de qualquer dicotomia: a feitiçaria é a escola dos que desejam o poder acima de tudo, mas é também um espaço para o conhecimento e para a ajuda ao próximo; o mesmo acontece em relação ao Cristianismo.

Tal pluralidade de significados é a tónica dessa narrativa, na qual a memória, como se mostrou, tanto pode ser invocada para justificar o egoísmo e a violência, num processo de deturpação dos fatos passados, como pode ser invocada para esclarecer e mudar o presente.

O diálogo com a memória processa-se, assim, a partir de uma visão extremamente matizada, não apenas em relação ao seu valor, mas também em relação aos seus múltiplos papéis: a memória é fundamental como afirmação de identidade, como justificação para o presente, como instância de conscientização; mas em nenhum momento a memória é sacralizada como uma instância privilegiada de conhecimento. Pelo contrário, o texto nos alerta para os perigos de o passado impedir-nos de ver o presente, mostrando-nos que, muitas vezes, por estarmos demasiado presos a determinados eventos da história, podemos ficar cegos em relação ao que nos cerca no presente.

Ainda que a memória ancestral seja determinante para o desfecho da narrativa, parece estar clara a noção de que «o bom uso da memória é aquele que serve a uma causa discute essa questão. Justa e não apenas aquele que se contenta em reproduzir o passado»6. Daí ser a memória, antes de tudo, importante como um questionamento do passado e não apenas um resgate da história. Afinal, não resta dúvida, como nos mostra Todorov, que qualquer um deve ter a liberdade para se recordar da forma que quiser, mas também não resta dúvida de que algumas utilizações da memória são mais nobres do que outras, na medida em que a memória pode desempenhar uma função emancipadora ou conservadora.

Nessa narrativa, a memória e a história aproximam-se da primeira função, porque são exploradas em suas múltiplas facetas, porque são consideradas em seu sentido trágico profundo e, por isso mesmo, extremamente rico.

Referências Bibliográficas:

CHIZIANE, Paulina. O Sétimo Juramento. Lisboa: Caminho, 2000.

TOTOROV, Tzvetan. Memória do mal, tentação do bem. São Paulo: ARX, 2002.

3 Davi encarna o clássico comportamento dos torturados que se tornam torturadores. Esse é o mecanismo da vingança de que fala ainda Todorov, chamando a nossa atenção para a quase nula diferença que a nossa sociedade estabelece entre justiça e vingança.

4 Ibidem, p. 56

5 Ver o capítulo «Nem sacralizar nem banalizar», na p. 189 da referida obra de Todorov, no qual o autor

6 TODOROV, 2002, p. 204.

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