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Poéticas Híbridas: O Percurso da Produção Caboverdeana no Século XX

Escrito por  Norma Lima
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(...) ou o caboverdeano é português ou africano. Ora, isto só estaria exato se porventura os povos se repetissem como cópias a papel químico (...) pôr o problema nesses termos dilemáticos (ou uma coisa ou outra) é rejeitar a priori (...) o aparecimento ou a oportunidade de expressões culturais mestiças. (MARIANO, APUD PIRES LARANJEIRA, 2000, p. 112)

Convém que, na actualidade dos estudos relativos às literaturas africanas de língua portuguesa, tratemos dos meios utilizados pelos autores para superarem as cicatrizes deixadas no período da colonização, evidenciando a própria história por eles reescrita, a partir dos silêncios e das falhas da história oficial.

Neste sentido, é pertinente que nos utilizemos da bela metáfora do modernista brasileiro Oswald de Andrade, contida no Manifesto Antropófago de 1928 (ANDRADE, 1995, p. 47-52), para que ela nos guie como bússola no percurso da poesia caboverdeana do século XX. No ato de devorar o devorador, os artistas do arquipélago apossaram-se da língua e da cultura do colonizador, deixando de ser o seu outro silencioso para serem intérpretes de seu meio, já despidos das palavras de outrem.

Com a publicação de Claridade revista de arte e letras (1936-1966), autores caboverdeanos se aventuraram por novas escrituras através da devoração da língua portuguesa que foi sendo, pouco a pouco, misturada à própria expressão crioula. No sentido oswaldiano, como desenvolvi em minha tese de Doutorado (LIMA, 2000, p. 106), a cultura caboverdeana é antropófaga por ser capaz de subverter a ordem das supostas influências dos discursos que recebeu. Constituindo-se como mestiço, Cabo Verde constitui-se como o resultado de diversos grupos que o colonizaram e povoaram, sendo hoje reconhecido como nação multicultural, alimentada pelos fluxos constantes que atravessaram o Arquipélago como ventos, na simbologia da fronteira cuja porta, de vai-e-vem, não está aberta e nem escancarada.

A zona fronteiriça é uma zona híbrida, babélica, onde os contatos se pulverizam e se ordenam segundo micro-hierarquias pouco susceptíveis de globalização. Em tal zona, são imensas as possibilidades de identificação e de criação cultural (...) (CARDOSO, 1996, p.151) O discurso caboverdeano, presente nos nove exemplares de Claridade, bem como em sua edição comemorativa publicada em 1986, nos fornece o panorama da produção moderna das ilhas. Mapeá-la nos faz ter como ponto de partida os claridosos, cunhados aqui na sua criação poética. Justifica-se a nossa opção em recortar, da Revista, o trabalho poético devido à poesia trazer, tão vivamente, a luta para transcender a palavra, da qual depende para a sua expressão.

As palavras do poeta são suas e alheias. Por um lado, históricas, pertencem a um povo e a um momento da fala desse povo. Por outro lado, são anteriores a toda data: são um começo absoluto. (PAZ, 1990, p. 53) Pensando que tais palavras nos envolvem no seu jogo sedutor de se metamorfosearem na voz alheia, lembremos que as temáticas trabalhadas pelo verso caboverdeano são reflexos de um povo cuja identidade se formou na encruzilhada de múltiplos antecedentes étnicos e históricos, em que a luta pela sobrevivência teve um papel determinante e, em muitos casos, decisivo.

Buscar os elementos híbridos que tal produção aponta implica perceber a singularidade da formação do Arquipélago, com suas marcas das diásporas europeia e africana. Tais, de construção heterogénea, encontram respaldo nos debates acerca da mestiçagem e do hibridismo cultural, envolvendo aspectos relativos à globalização e ao comunitarismo. O mundo se criouliza em uma heterogeneidade que, se por um lado interessa a uma espécie de ideologia perversa da globalização, por outro pode ser também apreendido como forma de tolerância e de democratização com o Outro (ABDALA JÚNIOR, 2004, p. 18).

Segundo a etimologia, o termo híbrido, do grego hybris, remete à ultraje por trazer em sua essência a mistura que violaria as leis naturais:

Para os gregos, o termo correspondia à desmedida, ao ultrapassar das fronteiras, acto que exigia imediata punição. A palavra remete ao que é originário de «espécies diversas», miscigenado de maneira anómala. Essa origem etimológica foi responsável pelo fato de serem considerados sinónimos de híbrido palavras como irregular, anómalo, aberrante, anormal, monstruoso, etc. Híbrido é também o que participa de dois ou mais conjuntos, géneros ou estilos. Considera-se híbrida a composição de dois elementos diversos anomalamente reunidos para originar um terceiro elemento que pode ter as características dos dois primeiros reforçadas ou reduzidas. (BERND, APUD ABDALA JÚNIOR, 2004, p. 100) Mas, com base nos princípios bakhtinianos, observamos a ideia de que a linguagem é resultado destes elementos heterogéneos, a partir do estudo que o autor fez sobre a obra de Dostoiévsk, a qual marca o surgimento de um herói cuja voz se estrutura do mesmo modo que se estrutura a voz do próprio autor do romance comum ou seja, tecida a partir de múltiplos discursos nos quais não se observa a hierarquia. Do cruzamento híbrido, porque polifónico, nasce o romance moderno (BAKHTIN, 1981, p. 3).

Evidenciamos um diálogo entre as literaturas brasileira e caboverdeana de longa data, como está explicitado no poema «Você, Brasil»:

(...)

É o seu povo que se parece com o meu

é o seu falar português

que se parece com o nosso,

ambos cheios de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

(...)

Eu gostava enfim de o conhecer mais de perto

e Você veria como sou um bom camarada.

Havia então de botar uma fala

ao poeta Manuel Bandeira,

de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima

para ver como é que a Poesia receitava este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você,

com um i no si

«si faz favor»,

de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos

«mi dá um cigarro?» (BARBOSA, 2002, p. 135)

Na busca de uma identidade mestiça, comum ao Brasil e ao Arquipélago, (É o seu povo que se parece com o meu) encontramos um discurso que se entrelaça com outro, na comparação realizada entre duas culturas da mesma herança histórica, nelas buscando semelhanças e diferenças. A intertextualidade que o poema acima realiza com a Literatura Brasileira Modernista está presente, inclusive, na forma de alusão e de citações, nem sempre tão fiéis à fonte, como é o caso do verso de Pronominais (ANDRADE, 1998, p. 120), citado por Barbosa com letra minúscula e com a vogal e neutralizada como i. Podemos afirmar que o poeta realizou uma antropofagia com o poema brasileiro, retomando Octávio Paz, as palavras do poeta são suas e alheias (PAZ, 1990, p. 52).

Assim, o percurso poético que nos propomos percorrer é marcado pela presença de sujeitos multifacetados os quais trazem em si, de longa data, aspectos de uma sociedade multicultural. Ao identificarmos a produção caboverdeana como híbrida, naturalmente deixamos de lado o ultrapassado uso do conceito da mestiçagem que, sob a aparência de aceitação do mestiço, via nele a possibilidade de clareamento da raça...Entendemos, por outro lado, o híbrido como um processo de ressimbolização em que a memória dos objectos se conserva e em que a tensão entre elementos díspares gera novos objectos culturais que correspondem a tentativas de tradução ou de inscrição subversiva da cultura de origem em uma outra cultura (...) [em] um processo fertilizador. (BERND APUD ABDALA JÚNIOR, 2004, p. 101)

Também seguimos Bhabha, no que as suas reflexões estão distanciadas do conceito estéril de hibridismo contido nas ciências biológicas ao mesmo tempo em que questionam as identidades fechadas, já que os conceitos de culturas nacionais homogéneas, ou de comunidades étnicas orgânicas (...) estão em profundo processo de redefinição. (BHABHA, 1998, p. 24). A discussão não é excessiva, se pensarmos na preocupação que pareceu circular a produção caboverdeana em procurar, também, se mostrar próxima de uma tradição africana, devido às críticas que recebeu de alguns sucessores, principalmente de Onésimo da Silveira em Consciencialização na literatura cabo-verdeana, livro publicado em 1963 (FERREIRA, 1987, p. 75), o qual, entre outros aspectos, abordou como sendo negativa a evasão que os claridosos teriam incentivado, tanto no plano físico como no mental, embora possamos acreditar que tal atitude dos autores caboverdeanos daquele momento, em uma análise rápida, procurava alargar os horizontes sem que houvesse um desenraizamento. Entretanto, esta polémica, quarenta e dois anos depois, continua a povoar análises sobre a produção claridosa, como a que abaixo verificamos:

Seus promotores, arraigados nos estereótipos sócio políticos do grupo dominante e tomando parte activa na luta por perpetuação das estruturas de dominação (...) acabaram por erguer um modelo identitário em que as tendências particularizantes coexistem com uma vertente de identificação do Estado nacional português. Isto justifica que as reconfigurações das formas e linguagens de dominação, que suscitaram acções de resistência, pontuais por parte dos nativistas, passassem a ser toleradas e aceitas pelos claridosos (...) (FERNANDES, 2002, p. 79)

Acusados de legitimarem a postura metropolitana, os autores da Claridade passaram a ser interpretados como assimilados ou aculturados, o que não deixa de ser uma injustiça. A aproximação com a literatura brasileira modernista naquele contexto, por exemplo, fez com que, ao contrário, eles enterrassem os pés no húmus crioulo, ao mesmo tempo que, pela condição mestiça, se mostravam susceptíveis a toda colaboração externa, o que não significava cooptação.

Talvez a deturpada visão a respeito do Arquipélago impulsionou alguns autores a se mostrarem próximos da tradição africana, como o fez Kaoberdiano Dambará (Felisberto Vieira Lopes) no contexto da Guerra Colonial, que denunciou o trauma da interpretação da riqueza étnica das ilhas como sendo signo de uma espécie de segundo europeu, apreciação esta realizada e divulgada pelo colonizador. (ALMADA, 1991, p.9). Este poeta, ao escrever em crioulo e inserir o caboverdeano como filho africano, pretendeu reverter a leitura equivocada realizada sobre a sua sociedade, na medida em que fora interpretada, enquanto espaço mestiço, como alicerçada ao assimilacionismo eurocêntrico, que naturalmente em sua visão hegemónica desprezava a matriz africana.

Para Édouard Glissant e Patrick Chamoiseau o conceito de crioulização, no contexto do Caribe, engloba e supera o de americanidade como o desafio de organizar a comunhão das diversidades humanas que não têm necessidade de renunciar ao que elas são, na visão do identitário como lugar de confluência do múltiplo. Deste modo, substitui-se a ideia de raiz única pela de rizoma, na tentativa de combate aos fundamentalismos e aos integrismos de toda espécie, que se constituíram a pretexto de afirmarem uma identidade fechada que nega o outro.

O poeta caboverdeano Corsino Fortes, com a sua poesia já estabelecida no momento da Pós-Independência do Arquipélago, associa a memória do tambor africano à imagem da ilha que se ergue à boca do mundo:

Oh tambores de barlavento

Oh tambor!

tambores de sotavento

Agora

Que na omoplata do homem

estala o coração de pedra

A ilha ergueu-se até à boca do mundo

a baía austera

E o espírito é árvore. E o sangue

o sal da terra

(...)

(FORTES, 1997, p. 236)

Na bela imagem do poema, a árvore convive com a paisagem desértica das ilhas. É deste modo que os autores caboverdeanos se opuseram à colonização cultural, negando o isolamento geográfico, na busca de diálogos com outras culturas. Ao realizarmos este percurso, percebemos como os passos poéticos vão em busca da liberdade de uma sociedade multicultural, que não pode ser interpretada como fragmentada, e sim como forte, na medida em que a comunidade cultural só é possível se o sujeito conseguir, previamente, se separar do comunitarismo, pois o outro não pode ser aceito como tal se não for compreendido e amado como sujeito.

Neste sentido, é necessário pôr-se com força à colonização cultural e à imposição de determinado modo de vida dominante no mundo inteiro, mas também é preciso estar atento ao fato de que não existe mais o isolamento das culturas e que opor simplesmente precauções culturais dominadas e cultura dominante é sempre a expressão de um projecto autoritário (...) (TOURAINE, 1998, p. 202)

Hoje, superando cada vez mais os preconceitos, aceitamos Cabo Verde e a nós mesmos, brasileiros como frutos de uma sociedade mestiça ou miscigenada, sem o peso do cientificismo do século XIX que nos situava na perspectiva dos dogmas positivistas atribuidores de características depreciativas de raças influenciadas pelo meio. Tais estereótipos, já ultrapassados, reverteram a intolerância com a alteridade em ganho com a diferença, em sociedades multifacetadas.

Referências bibliográficas

ABDALA JÚNIOR, Benjamin (Org.) Um ensaio de abertura. In: Margens da cultura. Mestiçagens, hibridismo e outras misturas. São Paulo: Boitempo, 2004. ALMADA, José Luís H. A poética caboverdeana e os caminhos da nova geração. In: Fragmentos. Praia, 7/8, dez. 1991, p. 5-21.

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. 6a ed. São Paulo: Globo, 1998.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Editora Forense-Universitária, 1981.

BARBOSA, Jorge. Obra poética. Imprensa Nacional-Casa da Moeda/Associação caboverdiana de escritores, 2002.

BERND, Zilá. O elogio da crioulidade: o conceito de hibridização a partir dos autores francófanos do Caribe. In: ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Ob. cit.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

FERNANDES, Gabriel. A diluição da África. Uma interpretação da saga identitária cabo-verdiana no panorama político (pós)colonial. Florianópolis: Editora da UFSC, 20002.

FERREIRA, Manuel (Org.) Claridade revista de arte e letras. 2a ed., Lisboa: ALAC, 1986.

. Literaturas africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.

FORTES, Corsino. Na boca dos homens nasceram costelas de Sahel. In: FERREIRA,

Manuel (Org.) 50 poetas africanos. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau,

Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. 2a ed., Lisboa: Plátano, 1997.

LIMA, Norma Sueli Rosa. Revisitando Claridade: o encantamento da poesia caboverdeana com o modernismo brasileiro. (tese de Doutorado). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2000.

MARIANO, Gabriel. Negritude e caboverdianidade. In: PIRES LARANJEIRA, J.L.(Org.) Negritude africana de língua portuguesa. Textos de apoio (1947-1963). Braga: Ângelus Novos, 2000.

PAZ, Otávio. A consagração do instante. In: Signos de rotação, 2a ed., São Paulo: Perspectiva, 1990, p. 52.

TOURAINE, Alain. A sociedade multicultural. In: Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

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