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O Mar Sob O Ponto de Vista de Agostinho Neto no Conto "Náusea"

Escrito por  Ana Cristina Moura Alves de Moraes
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Um breve comentário sobre Agostinho Neto:

Agostinho Neto foi um dos criadores da Revista Mensagem. Autor africano e participante activo da geração Mensagem, um movimento inovador, que procurava no passado a explicação para a descaracterização cultural angolana.

 

 

 

Foi através da arte que buscou a formação de uma cultura com traços angolanos, que revelassem a imagem de um povo oprimido pela colonização portuguesa. Foi o 1º presidente do Movimento Popular Pela Libertação de Angola (MPLA), quando também foi o 1° presidente da República Popular de Angola, de 1975 a 1979. Como autor, é nítido em suas obras o forte desejo de mudanças.

O conteúdo literário de suas obras revela o presente como consequência de um passado cheio de dor e sufocamentos, trazendo à tona toda aculturação sofrida pelo povo. Desta forma, passo a passo, a literatura vai se tornando mais autêntica, porém com resquícios, ainda nítidos do antigo movimento da Negritude.

No século XX, a Literatura, na década de 60, foi marcada por ser vista como a «arte necessária». O sentimento colectivo toma lugar do individual, os autores engajam-se na luta contra a submissão e inércia cultural, e almejam a libertação de Angola e fazem isso denunciando o estado de prostração em que se encontrava aquele povo, devido ao domínio a que Angola fora submetida por séculos. A idéia de libertação move a literatura, que deixa de ter o vazio literário, do início do século, já despontando a partir de 1930 uma intenção de descobrimento ou redescobrimento de uma literatura verdadeiramente angolana. Para isso, os autores precisavam romper com todos os paradigmas dos modelos literários europeus, buscando algo legítimo.

Essas causas trazem como consequência uma literatura revolucionária. A ânsia da libertação movimenta esses poetas, cansados daquela realidade vigente. A arte desse período denuncia todo o sentimento latente acumulado. A literatura marca o início do processo por liberdade de expressão, de «soltar o que está preso», engasgado por tanto tempo. Assim, também revalida o conceito de literatura, tornando-a engajada e de cunho contestatório pelas experiências políticas vividas, visando às mudanças de toda estrutura que fora imposta. A literatura toma forma de protesto, enfatizando os problemas existentes naquela nação.

Características do período:

Agostinho Neto está inserido num momento importante da formação da literatura angolana que buscava sua libertação, fato este que só ocorreu em 1975, após 14 anos de luta armada, no propósito firme de atingir os ideais.

A literatura se torna uma espécie de arma como forma de combate anticolonial, de uma geração não queria apenas a libertação, mas a conscientização de um povo para obter novamente uma identidade cultural dispersa pela colonização massacrante de Portugal. Essa geração que pregava a descolonização, a libertação como colónia e libertação cultural, que também queria ter sua forma própria de expressão, e não ter de seguir modelos que nada tinham a ver com a realidade daquele povo. Autores que buscavam algo realmente deles, a construção de uma identidade verdadeira, com «a cara de Angola», e não aquela imposta pelo colonizador.

Em contrapartida, a literatura colonial vinha como instrumento de validação da colónia, que reafirmava a superioridade do branco em relação ao negro, visto como ser inferior ou alegórico, nunca estudado em profundidade, como se fosse desprovido de qualquer tipo de sentimento interior; destituído de qualquer perspectiva de vida.

Na Revista Mensagem, a literatura toma impulso em direcção à nova fase que tem como marca a busca de suas próprias raízes na tentativa de recuperar uma nacionalidade massacrada. A tomada desta consciência acarretou o início da descolonização, ou seja, segundo o próprio autor: «A História está a ser contada de novo»1 – Agostinho Neto.

A questão do mar para Angola

A visão do mar nas obras angolanas assume características peculiares que a torna diferente da nossa concepção ocidental de mar. Para os ocidentais, o mar remete à imagem do indecifrável, do incógnito – local onde as emoções fluem. Simbolizado pelo elemento água, ligado à subjetividade, porque não há limites, nem forma fixa. O mar é a emoção profunda e desconhecida pelo homem, só podendo ser visível superficialmente, enquanto no fundo habita o desconhecido, conotativamente associado aos sentimentos interiores guardados, e ao inconsciente – O primado das ilusões. De acordo com O dicionário de Símbolos de Jean Chevalier: «a imagem do inconsciente»2

Nos textos angolanos referentes a esse período, o mar possui além desta simbologia universal o agregamento de fatores históricos, que torna mais denso seu significado, porque o mar foi palco para todas as modificações culturais acontecidas ao longo da colonização, fatos que surtiram efeitos fortíssimos naquele presente angolano quando somado ao sentimento de dor e medo, reações fortemente ligadas à colonização portuguesa. O sofrimento chegava através do oceano. Águas que trouxeram a dor, a angústia e a miséria para uma nação.

A literatura desta época traz à tona algumas questões, à volta ao passado, a busca de algo que ficou para trás, a perseguição incessante por uma identidade perdida, esmagada pelo colonizador, o desejo por respostas para este presente insatisfatório. O mar adquire outra conotação, de medo. Águas que remetiam à lembrança da destruição dos reinos africanos, o local por onde as grandes navegações portuguesas adentravam para exploração, o navio negreiro que levava os nativos, tirava os filhos de sua mãe e levava-os para longe, para o desconhecido, sem retorno possível. O caminho para morte.

O mar deixa de pertencer ao imaginário romântico adquirindo sentido da certeza de dor. Entradas que traziam o medo. Segundo Chevalier, no Dicionário de Símbolos: «Símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e retorna a ele. Lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes as realidades configuradas. Uma situação de ambivalência, que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão e que se pode concluir bem ou mal. Vem daí que o mar é ao mesmo tempo a imagem da vida e a imagem da morte........ O mar tem propriedade de dar e de tirar a vida».3

A colonização trouxe consigo um rastro de destruição e sangue. Havia a necessidade de se fazer uma catarse de todo esse sentimento tão sufocado e colocar tudo «pra fora» expondo o que lhes incomodava. Esta geração acreditava que assim conseguiria conscientizar o povo de Angola, remexendo o passado. A hora era aquela. A visão de mar daquele presente era fruto do passado, anunciando como reflectiu na realidade do país, justamente no momento em que esta geração tentava readquirir uma identidade, não podia apagar o passado, e sim aprender com as experiências vividas, somente assim conseguiria construir ou reconstruir sua história, sua identidade.

O mar foi associado ao portal, onde todas as coisas ruins poderiam entrar, e dele só se podia esperar dor e sofrimento. Os autores desta década não vêem o mar como paradisíaco, e sim, como o mensageiro da morte.

O mar no conto Náusea– Agostinho Neto– 1980

O conto «Náusea» retrata muito bem o ponto de vista deste período, e Agostinho Neto reporta-se ao mar, não como os portugueses que exaltavam seus grandes feitos marítimos realizados com suas expedições, e sim com os olhos do outro lado, dos que sofreram as conseqüências destas expedições. Enquanto para uns o mar trazia vitórias, para outros, a morte.

Náusea traz a fatalidade que vem de fora com a vinda dos intrusos que trouxeram a transformação de uma realidade. O conto refere-se a João, velho, que ao visitar o irmão doente, vai até a ilha, e de lá, após reencontrar a família «num bom almoço regado a pinga»4, numa conversa com o sobrinho avista o mar, aquele que não trazia boas recordações do passado, somente lembranças vivificadas de morte. João se desespera ao lembrar-se desses episódios de sofrimento e transformações que chegavam através do mar.

O cheiro deste lhe fazia mal. Há um sentido conotativo contido nesta náusea, o título do conto, ligado ao que foi remexido ao rever aquele que tanto o fazia sofrer. O mar era o passado de volta, trazendo tal qual o fenômeno das marés, ondas que trazem à superfície tudo que está no fundo, para ser revisto; uma alusão feita àqueles sentimentos inconscientes, que muitas vezes pensamos esquecidos. Lembrar é reviver. E isto fazia-o enjoar, como se ainda não houvesse feito a digestão de todos aqueles fatos «comidos» ao longo da história. A catarse vem através da alegoria do vômito – Pôr para fora tudo aquilo que lhe fazia mal, expor o que angustiava, fazendo uma reviravolta interior. Assim, busca eliminar o que não tinha digerido com o tempo. Há urgência desta expurgação, em seguida, ambos caminharam em silêncio, fato que simboliza o momento de reflexão.

O conto expõe a visão ainda não digerida de um passado pelo povo, a necessidade de eliminação do que não faz bem, daquela cultura imposta pelo colonizador. É a hora de acordar os sentimentos adormecidos, momento de reflexão. O vómito é uma alusão à catarse uma característica deste período angolano, simbolizando que não se pode mais guardar o que não foi aproveitado; a eliminação residual. Desejo real de conscientização deste povo para que pudesse, então, atingir seu objectivo principal, a liberdade.

Notas

1 NETO, Agostinho. «Consciencialização» In: Sagrada Esperança. São Paulo,1985 p.49

2 CHEVALIER, Jean «Dicionário de Símbolos» 18ed. Rio de Janeiro.Jose Olympio, 2003.

3 CHEVALIER, Jean «Dicionário de símbolos» 18ed. Rio de Janeiro.Jose Olympio, 2003.

4 Náusea – Agostinho Neto

Referências bibliográficas:

CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos. 18ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

LARANJEIRA, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.

NETO, Agostinho. «Consciencialização». In: Sagrada Esperança. São Paulo, 1985 p.49.

«Náusea». In: Estórias de Angola. Lisboa, Ed.70, 70, 1980 p. 21-30.

SANTILLI, Maria Aparecida. Estórias africanas. São Paulo: Ática, 1985.

SECCO, Carmem Lúcia Tindó. A arte de Magicar. Rio de Janeiro: ABEGRAPH Editora, 2003.

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