testeira-loja

A África na Literatura Brasileira Destaque

Escrito por  Alberto Costa e Silva
Classifique este item
(10 votos)
Sempre me espantou, dada a importância da África na formação do Brasil, a sua quase completa ausência, até há pouco, da nossa literatura de criação da nossa poesia, do nosso romance, do nosso teatro, do nosso conto. Tudo se passava como se o negro tivesse nascido nu no navio negreiro. Despido de passado e de cultura. Pura personagem brasileira. O negro é uma presença constante em nossa literatura, mas não o africano. Nem tampouco o continente de onde veio. Essa falta de curiosidade sobre grande parte de nosso passado já provocara uma censura amarga de Sílvio Romero, nos seus Estudos sobre a poesia popular do Brasil. Escrevia ele, em 1888:

Quando vemos homens, como Bleek, refugiarem-se dezenas e dezenas de anos nos centros da África somente para estudar uma língua e coligir uns mitos, nós que temos o material em casa, que temos a África em nossas cozinhas, como a América em nossas selvas, e a Europa em nossos salões, nada havemos produzido neste sentido! É uma desgraça.

Ele poderia ajuntar que, se Castro Alves tivesse indagado aos escravos que conheceu como era a África de onde haviam sido arrancados ou o que dela contaram os seus pais, certamente não a teria descrito sem qualquer amparo na realidade, a repetir as imagens de uma África tirado da orientalismo romântico francês, a estender para o sul do Saara as paisagens que eram deste.

Exemplifico. Primeiro, com estes versos de «A canção do africano»:

Minha terra é lá bem longe,

Das bandas de onde o sol vem;

Esta terra é mais bonita,

Mas à outra eu quero bem

O sol faz lá tudo em fogo,

Faz em brasa toda a areia;

...

Aquelas terras tão grandes,

Tão compridas como o mar

Com suas poucas palmeiras

Dão vontade de pensar...

Depois, com a resposta que dá, em «O navio negreiro», à pergunta «Quem são

estes desgraçados» –

São os filhos do deserto

Onde a terra esposa a luz.

Onde voa em campo aberto

A tribo dos homens nus...

– antes de nos dizer que viviam

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras do país...

– e acrescentar:

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas da amplidão...

Em «Vozes d’África», eis a sua África:

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

– Infinito: galé!...

Por abutre me deste o sol candente,

E a terra de Suez foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simum dardeja

O teu braço eternal.

Vejam bem: ele convoca o simum, que sopra do Saara para o Norte da África, e não, o harmatã, que bafeja do deserto para o sudoeste do continente. A sua África não é a do africano escravizado no Brasil, que ele deseja redimir, mas a África do imperialismo romântico e mediterrânico francês. Por isso, ao comparar-se com a Ásia e a Europa, ela assim fala:

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

(...)

Se choro... bebe o pranto a areia ardente

(...)

E nem tenho uma sombra de floresta...

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

«Abriga-me, Senhor!»

(...)

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz...

Quando eu passo no Saara amortalhada...

Ai! dizem: «Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz...»

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu. (...)

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim...

Onde branqueja a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim...

E mais adiante:

As tribos erram do areal nas vagas,

E o nômada faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Aí está uma África que se desconhece a si própria, a lamentar não ter uma sombra de floresta, quando possui a bacia do Congo, e o Gabão, e as regiões costeiras da Guiné e do golfo do Benim regiões de onde vieram tantos africanos para o Brasil. O poeta dos escravos não se preocupou em ouvir o escravo, como queria Sílvio Romero. Se o tivesse feito, não teria

escrito o que vem em «Sangue de africano»: No peito arcado o coração sacode

O sangue, que da raça não desmente,

Sangue queimado pela sol da Líbia,

Que ora referve no Equador ardente.

Eu já tomei alguns desses versos como a indicarem que Castro Alves sabia que boa parte dos escravos que chegavam à Bahia vinha do Sael, das bordas do deserto, das grandes savanas semi-áridas do Sudão Ocidental e Central e do planalto interior de Angola. Mas, se os relemos bem, vemos que sua África pouco ou nada tem daquela onde fomos comprar a metade de nossos antepassados. Não é sequer a África semi-árida de Kano, Katsina, Bornu. É a África do Norte, a África do orientalismo romântico, a África de Delacroix.

Já Coelho Neto documentou-se bem, antes de escrever Rei negro. O escravo que comerciava em nome do dono e lhe dirigia as tropas de mulas até a Corte não é invento da fantasia: existiu de fato. Como também a fidelidade dos súditos no cativeiro ao rei escravizado. Quanto às referências à África no romance, revelam que ele as teve de africanos, ainda que não deixe claro que tipo de negro mina era Macambira, nem onde ficava o reino de seu pai, Munza. As indicações geográficas de seus informantes estariam provavelmente ausentes de um mapa europeu. E no texto de Coelho Neto, como na recordação colectiva dos africanos, juntam-se, numa espécie de fotomontagem, várias paisagens diferentes: as do Sael, as da savana, as do cerrado e as das florestas.

Em Jorge de Lima, as referências à África nos poemas negros são vagas, quando não indiretas. Às vezes, são simples enumerações de etnônimos e

topônimos, como em

«Passarinho cantando»:

Congos, cabindas, angolas,

também de Cacheo e de Bissao,

(...) Fernando Pó, São Tomé, Ano Bom,

Serra Leoa, Serra Leoa, Serra Leoa!

Cabo Verde, Moçambique (...)

Em «História», chega a desconhecer o quanto gabamos os africanos por suas dentaduras perfeitas. Quando lhes faltam dentes, é porque os arrancaram para cumprir os ritos do grupo, como entre os imbangalas. E, no entanto, isto nos diz Jorge de Lima:

Era princesa.

Um libata a adquiriu por um caco de espelho

Veio encangada para o litoral,

arrastada pelos comboeiros.

Peça muito boa: não faltava um dente (...)

A África, para Jorge de Lima, era uma fonte de palavras. De palavras quimbundas, umbundas, quicongas, fons e iorubanas, que ele usou com grande mestria, com uma percepção clara de seus valores sonoros e plásticos. Ninguém trouxe o vocabulário de origem africana para a poesia de língua portuguesa como ele. A sua África foi vocabular. E o seu negro, o transplantado para o solo americano. O crioulo. A sua poesia tem, na realidade, por tema a crioulização

Num sujo mocambo dos «Quatro Recantos»,

quimbundos, cafuzos, cabindas, mazombos

mandingam xangô

na qual se somam e conciliam

almas

santa benditas

(...)

São Marcos, São Manços

com o signo-de-salomão

com Ogum-Chila na mão

com três cruzes no surrão

São Cosme! São Damião!

Credo

Oxum-Nila

Amém.

Lembro agora Adonias Filho. Luanda, Beira, Bahia é um belo romance de um grande autor, um dos que melhor escreveram em prosa e numa prosa intensa, a que não faltou o sopro trágico na segunda metade do século passado. Aí estão Memórias de Lázaro, Corpo vivo, Léguas da Promissão e sobretudo esta obra-prima, As velhas. Em Luanda, Beira, Bahia, a África só aparece nas abas do cenário, no qual se pinta o oceano. O que no romance se mostra são as franjas portuguesas da África colonizada, com os africanos como figurantes menores, quase estrangeiros, fora de um enredo no qual só há lugar para os mestiços e os negros assimilados. A África está sempre do outro lado, mesmo quando a ação se passa em Luanda ou na Beira.

Em 1969, dois anos antes do aparecimento de Luanda, Beira, Bahia, António Olinto havia publicado A Casa da Água. Vieram mais tarde, O rei de Keto e Trono de vidro, a completar a trilogia. É com Olinto que a África entra de verdade em nossa literatura. Que eu saiba, foi ele o primeiro escritor brasileiro a fabular sobre uma realidade africana, ao transformar na estória de Mariana.a história verdadeira de João Esan da Rocha, o ex-escravo ijexá que, ao retornar do Brasil, enriqueceu na Nigéria e construiu em Lagos a famosa «Water House», e ao transmudar em ficção a saga dos Olímpios do Togo, desde o Francisco, que, liberto, voltou da Bahia, até Sylvanus, que foi o primeiro presidente daquele país. Alguém dirá que suas personagens principais são brasileiros e africanos abrasileirados que levaram o Brasil para a África, como antes o tráfico negreiro havia trazido a África para o Brasil. Apresso-me, porém, em dizer que a África não é, nos romances de Olinto, apenas pano de fundo ou cenário. Ela está viva nas acções das personagens, no bulício dos mercados, na longa conversação entre agudás, iorubás, sarôs e fons. Nesta página, acompanho as mulheres a saírem, madrugadinha, para os mercados. Noutras, entro de novo na «Water House» que eu conheci. Lá está o poço, com sua bomba d’água inglesa, que fez rico, na vida real, João Esan e, na ficção Mariana. Revejo, a me abrirem a porta, D. Angélica da Rocha Thomas e Yevande Oyediran. Como figuras recriadas por Olinto.

Ainda mais vivas do que as do romancista nigeriano Cyprian Ekwenzi, em People of the City, também sobre Lagos e a comunidade brasileira. Ou as do filme de Ola Balogun, Black Goddess, filmado no Brazilian Quarter de Lagos e no Rio de Janeiro, tendo como cameraman José Medeiros.

Conheço dois bons romances sobre o quilombo de Palmares. Ganga Zumba, de João Felício dos Santos, e Tróia negra, de Jorge Landmann. Neste último, a África se revela não apenas como origem, mas também como persistência. As evocações africanas, ambundas sobretudo, são vivas e verdadeiras. O que é crioulo impregna o que é africano, e nem sempre dele se distingue, nas estruturas de poder, na arquitetura, nas relações de família e até nos objetos de Palmares, mas a África está no núcleo do quilombo, nos gestos e na alma da maioria de seus habitantes. No livro de Landmann, Palmares recobra o seu nome autêntico, o nome que lhe deram os seus fundadores, Angola Janga, a Pequena Angola, e com ele, a sua alma.

Outro romance recente em que a África se engasta no Brasil é o de Alberto Mussa, O trono da rainha Jinga. Mussa leu cuidadosamente os seiscentistas Antônio de Oliveira Cadornega, autor da História das guerras angolanas, e Giovanni António Cavazzi de Montecúcculo, que nos deixou a Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola, e sobre esses sólidos alicerces construiu seu enredo. A estória começa na África, com a embaixada, chefiada pela futura rainha Jinga, que o angola Nbande enviou aos portugueses do enclave de Luanda. É, porém, entre os escravos no Brasil, em torno de uma sociedade secreta trazida da África, que ela se desenrola. As personagens negras pensam como africanos, comportam-se como africanos. Como quando Jinga, diante da incompreensão de um branco a quem tentara explicar que serenizara, ao passar, por meio de um despacho, a dor da perda de seu filho para outrem, isto lhe disse: Vossemecê não chega a ser estúpido. Mas tem mesmo cabeça de macaco. (E macacos eram todos os brancos, porque têm a pele branca, os pêlos negros e os lábios finos.) O que era óbvio para um africano não entrava no entendimento de um europeu.

Assim se dava com o cariapemba, uma das forças que regem o universo. No Brasil, entre os brasileiros, seria ele visto como o demônio. Mas não, entre os congos, e não, no romance de Mussa. Este sabe que se crê, na foz do Zaire, que o mal não aumenta nem diminui no mundo, apenas se altera a sua distribuição entre os seres humanos. Por isso, o cariapemba é, ao mesmo tempo, o poder de destruição e de proteção. Ao ajudar uma pessoa, causa ele inexoravelmente dano equivalente a outra. A cada ação positiva corresponde uma negativa, e vice versa, para que persista a relação constante e equilibrada entre bem e mal.

Os livros de Antônio Olinto, Jorge Landmann e Alberto Mussa começam a colocar a África na literatura brasileira. E outros, excelentes, escritos para crianças por Rogério Andrade Barbosa e Heloisa Pires Lima. Em Histórias da Preta, desta última, estão as distintas e muitas Áfricas, com a realidade e a imaginação a se entretecerem, desde a criação do mundo até os nossos dias.

Que a África só agora comece a ser tema de nossa literatura infantil confirma a justeza de meu espanto. Mas uma voz miúda dentro de mim diz-me que isso não me devia maravilhar, pois havia motivo ainda maior de pasmo: o não terem os brasileiros escrito um só grande romance sobre o tráfico de escravos o tráfico de escravos que fez do Brasil o Brasil, um romance como Pedro Blanco, el Negrero, do cubano Lino Novás Calvo. Sobre o tema, só me recordo de um conto de Virgílio Várzea, «O velho Sumares». De causar ainda maior pasmo é que tenhamos esperado por um autraliano-britânico, Bruce Chatwin, para reimaginarmos, em The Viceroy of Ouidah, a vida do maior traficante de escravos do século XIX, um baiano chamado Francisco Félix de Souza.

Ler 10324 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips