Naquele momento histórico, buscou-se, no velho de milénios, a ruptura pela qual o novo se viesse a instaurar, no sentido apontado pelo ensaísta Octávio Paz (1984). O resultado é que a tradição antiga se usou como forma de subverter a tradição estética da cultura branco-européia.
É bom demarcar que a tradição não deve ser aqui pensada como algo imutável ou como uma «viagem de retorno» a essências contidas nos princípios, mas como um mapa outro ou como um «repertório de significados», no dizer de Stuart Hall (2003, p.74, onde se acham as expressões aspeadas). Desse «repertório de significados» lançaram mão os produtores textuais empenhados em descolonizar o outro repertório imposto pelas normas simbólicas ocidentais. O ato de substituição ou, o mais das vezes, de ampliação não era realizado apenas como modo de encontrar uma nova solução estética, mas como forma de reforço da própria utopia revolucionária, marca daquele tampo.
Talvez possamos expandir para a fala literária então erigida o que a poetisa angolana Paula Tavares, na crónica «Utopias» (1998), nos diz sobre o papel dos poetas. Segundo ela, que parece centrar-se no plano subjectivo do receptor, mas que aqui expando para o colectivo, tais poetas têm sobre o comum dos mortais a grande vantagem de poder cultivar, na sua grande lavra de palavras, passados intactos que visitam e tratam para depois distribuir por pequenos trabalhos que nos devolvem a um mundo mais-do-que perfeito e entretanto perdido. (p.48)
O cultivar do passado na lavra da criação literária constitui a dominante de muitos textos produzidos no primeiro quartel da segunda metade do século passado, quando o desejo de romper amarras se fazia a tônica dos projetos estético e ideológico que sustentaram o processo que chamamos de reafricanização, pelo qual outras vozes teimaram em se fazer ouvir, na clave da diferença. Vale a pena citar, a título de ilustração, um trecho do poema «Cultura nacional» do também angolano Henrique Guerra:
Ouviremos o povo das sanzalas
dos dongos dos rios e do mar
nos muceques
as velhas contam coisas doutras eras
Ensinaram-nos a linguagem de Voltaire
de Goethe e Shakespeare
e para nós ficou silenciosa
a linguagem das lavras
quando entramos calados pelos quimbos”
(In Textos africanos de expressão portuguesa, s/d. p.134)
Repare-se a insistência de Guerra e Tavares em apontarem o mesmo elemento simbólico que são as lavras e que nos remetem ao universo agrário, lugar por excelência de fixação da tradição ancestral. Assim a busca de ruptura desse silêncio e a encenação das linguagens soterradas moveram poetas, prosadores e até dramaturgos, todos empenhados em dar uma volta no parafuso da história, soltando as engrenagens nela fixadas e possibilitando, internamente, que o exílio sem sair do próprio lugar se revertesse. Deseja-se um retorno ao que significa, sem barreiras ou rasuras. Agostinho Neto, em 1960, da cadeia do Aljube:
Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar
[...
À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar
Havemos de voltar
à Angola libertada
Angola independente
(1995, p.90)
Depois de independentes, realizado o sonho perseguido por muitos, para além de Neto, as nações africanas, pelas vozes e gestos de seus produtores de bens simbólicos, não abdicam da representação da força imaginária do passado. Ele continua lá, intratável, nas diversas formas de linguagem, significando. De certa maneira, as imagens do passado se intensificam pelo processo da «reminiscência» a que se refere Walter Benjamin, processo que, segundo o teórico, «funda a cadeia da tradição que transmite os acontecimentos de geração em geração» (1994,p.211).
Em palestra proferida em 1991, em evento sobre literaturas africanas, o poeta Ruy Duarte de Carvalho analisa a acção dos intelectuais e escritores que sucederam a geração de Neto e que, portanto, pertencem à sua própria geração, dizendo que de tal acção e penso que isso efectivamente ocorreu poderia resultar um produto cujo efeito se alargasse para além de sua objectivação formal e imediata, que daí poderia advir a disponibilização de materiais capazes de concorrer para a inventariação e a sedimentação de uma memória nacional e universal à nossa medida, que nós próprios teríamos que forjar, reabilitar, criar (1995, p.73-74)
Basta que se leia o conjunto de obras romanescas produzidas entre os anos oitenta e início dos noventa do século passado, por exemplo, em Angola, para vermos a consolidação dessa memória que ao mesmo tempo se faz densamente nacional e não se recusa ao universal. Lembro, a este propósito, romances como Luéji (1989) de Pepetela e O signo do fogo (1992) de Boaventura Cardoso. Ambos são exemplos desse procedimento pelo qual os escritores «forjam, reabilitam, criam» à sua «medida», a sua memória e as várias matrizes que a atravessam.
Passados, já agora, 30 anos, ou quase, das independências a da Guiné é de 1973, podemos indagar como se comportam tais produções ficcionais com relação ao repertório de significados da tradição. Como consequência, já que, se pensa especificamente nos textos orais, não se pode esquecer o seu diálogo com a história e o adensamento de sua própria função social, podemos reflectir, se tal diálogo e adensamento continuam, ou não, a representar uma força no trançado das malhas textuais.
Dessa maneira, não posso deixar de lado o fato de que, embora independentes e já consolidadas em termos internacionais, as nações que têm o português como língua oficial, para além de todo seu plurilingüismo e multiculturalismo de base, não conseguiram ainda superar os graves problemas que as entravam.
Nesse sentido, apresentam-se, no cenário de nosso tempo, repetindo Stuart Hall, com «suas formas de subsistência destruídas, seus povos estruturalmente ajustados a uma pobreza moderna devastadora» (2003,p.40). Tal estado de coisas se agrava infinitamente mais pelos ataques sistemáticos e pela ganância dos novos imperialismos para os quais as reservas naturais desses países são objecto de predação e fonte de cobiça, isso sem abordar as questões geradas pelas suas correlações de força internas. No quadro assim posto é que a pergunta sobre o comportamento da tradição, no plano da textualidade literária, pode encontrar respostas e, nesse âmbito mais abrangente, a questão das imagens espaciais e a figuração do tempo que me interessam mais de perto.
A leitura de uma série expressiva de romances editados nos últimos anos do século passado e nos iniciais do XXI comprovam, quando os recortamos pelo viés do espaço, acoplado ao do tempo, que a tradição ainda permanece sendo um elemento produtor de sentidos dos mais instigantes. Isso se explica pelo fato mesmo de que os sujeitos africanos, nesse tempo marcado pela intensa tempestade da globalização, não abdicam de reforçar o seu próprio repertório cultural. Volto a Hall, que explicita:
Cada vez mais, os indivíduos recorrem a esses vínculos e estruturas nas quais se inscrevem para dar sentido ao mundo sem serem rigorosamente atados a eles em cada detalhe de sua existência. (2003,p.74)
me parece, por isso mesmo, mero acaso a abertura do instigante romance Vou lá visitar pastores de Rui Duarte de Carvalho que, em gesto deliberado de rasura, rompe as amarras do género e se instaura como uma estrutura interseccionada em que a antropologia e a etnografia se dão as mãos e colocam a literatura no meio da roda discursiva, fazendo-a flectir e tornar-se híbrida, como híbrida é a voz que se encena na talagarça da ficção:
Hei-de mostrar-te depois um mapa dos terrenos que vais explorar. Corresponde a uma vista aérea que abrangeria todo o território cuvale. Desenhei-o assim porque foi essa a imagem que colhi um dia, ou retive, a voar a baixa altitude do Namibe para Luanda [...]. A Namibía a sul e à volta a Angola restante. O sentido da colocação geográfica, pois, para fazer sentido. (2000, p.15). É esse sentido que reaparece, quase em forma de tato e cor, ou luminosidade, em outra fala romanesca, a inaugurar-se em forma de «colocação geográfica» igualmente surpreendente no belo romance O canto da sangardata de Ascéncio de Freitas que assim nos traz a «terra de Moçambique»:
Ah, esse esplendor esse céu bonito que é nosso, empoeirado de muito luar! Luar mesmo sem tremura de sombra nenhuma, no lés-lés desta terra de Moçambique! Mas quem conhece os muitos perigos da vida do mato teme ouvir em noite de lua cheia o canto da sangardata tendo a alma em dormências e sujidades de pensamento [...] Dentro de cada um que ouve o cantar da sangardata nessa condição de pecador, ah, nunca mais o tempo fica quieto. (2000, p.13).
Também não há como não convocar a produção romanesca de Paulina Chiziane, moçambicana que, para adensar o próprio local de sua cultura, a diferença, o seu jogo mesmo de nacional e universal, passe o termo, procura na pele de seus narradores, muitas vezes narradoras, alimentar-se da memória do passado que e volto a Ruy Duarte ela «forja», reabilita, cria.
Joga-se, no tabuleiro armado pela ficção de Paulina, o jogo do passado, tal como faz uma de suas personagens, uma jovem quase menina, Mara, no romance Ventos do apocalipse (1995). Ao cuidar, no meio dos horrores da guerra civil guerra, que faz dos personagens ficcionados títeres de uma outra forma de violência, já agora de irmão contra irmão ao cuidar, dizia, do «herói de trapos que surgiu no Monte conduzindo um exército de moribundos» (1999, 194), a jovem é mostrada como jogando «o jogo do passado» (p.194), segundo a percepção do narrador. Não se está mais diante de heróis luminosos como Sem Medo ou mesmo o Sábio, embora neste caso já desencantado, de romances, por exemplo, de Pepetela (respectivamente: Mayombe, 1982 e A geração da utopia, 1992). É outro, no momento em que se narra, o sentido do jogo, pois as peças do tabuleiro de algum modo se mostram como tendo mudado de forma e lugar; de significação, enfim. É o que pensa a enfermeira Danila, ao se preparar para ouvir o que lhe vai contar Emelina, a mulher hirta e quase louca, sempre agarrada a seu bebê, no mesmo romance – A história que vou ouvir, é igual a de todos os tempos, karingana wa karingana. Mas a tradição está quebrada, os tempos mudaram, os contos já não se fazem ao calor da fogueira.
As histórias de hoje não começam com sorriso nem aplausos mas com suspiros e lágrimas. (1999, p.277). As histórias contadas em uma série expressiva de textos hoje produzidos falam desses «suspiros»; de morte; fome; exílio; guerra e muito mais. Basta que se leiam Parábola do cágado velho (1996), de Pepetela; Maio, mês de Maria (1997), de Boaventura Cardoso; em certa medida Rioseco (1997) de Manuel Rui Monteiro, etc, só para ficar em Angola. Há em tais romances a representação imagística da profunda crise da identidade cultural dos sujeitos históricos, sujeitos fora do lugar que deambulam por um mundo igualmente fora do lugar que os esmaga e exclui. Mesmo assim, a tradição continua a convocar-se, talvez sem a espécie de luminosidade utópica dos tempos da esperança e da fé no futuro, mas sempre tradição e medrar nas lavras da ficção e a mostrar o desenho de outros mapas, outras cartografia pelos quais se pode vislumbrar o espaço da diferença que o corpo cultural insiste em habitar, para nele encontrar o seu possível sentido.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, v.1.
CARDOSO, Boaventura. O signo do fogo. Porto: Asa, 1992. . Maio, mês de Maria. Porto: Campo das Letras, 1997.
CARVALHO, Ruy Duarte de. Tradições orais, experiência poética e dados de existência. In PADILHA, Laura (org.). Repensando a africanidade. ANAIS do I Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Niterói: Imprensa Universitária da Universidade Federal Fluminense, 1995, p. 69-76. . Vou lá visitar pastores: exploração epistolar de um percurso angolano em território cuvale (1992-1997). Rio de Janeiro: Gryphus, 2000.
CHIZIANE, Paulina. Ventos do apocalipse. Lisboa: Caminho, 1999.
FREITAS, Ascéncio de. O canto da sangardata. Lisboa: Editorial Notícias, 2000.
GUERRA, Henrique. Cultura nacional. In: TEXTOS africanos de expressão portuguesa.
[Angola]: Ministério da Educação, [s.d.], v. 1, p. 134.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2003.
MONTEIRO, Manuel Rui. Rioseco. Lisboa: Cotovia, 1997.
NETO, Agostinho. Sagrada esperança: poemas. 9 ed. Lisboa: Sá da Costa, 1979.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro: do romantismo à vanguarda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
PEPETELA (PESTANA, Arthur). Mayombe. São Paulo: Ática, 1982. . Lueji: o nascimento dum Império. Porto: Edições Asa para a União dos Escritores Angolanos, 1989. . A geração da utopia. Lisboa: Dom Quixote, 1992. . Parábola do cágado velho: Lisboa: Dom Quixote, 1996.
TAVARES, Ana Paula. O sangue das buganvílias. Crónicas. Praia / Mindelo: Centro Cultural Português, 1998.
Nota
1 Esta é uma versão condensada de texto mais amplo que se encontra em vias de publicação.
