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Dez Ilhas, Alguma Poesia ou a Emergência da Caboverdianidade na Literatura do Arquipélago Destaque

Escrito por  Alana Costa da Silva
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Nós, brasileiros, acostumamo-nos, no nosso dia-a-dia, a utilizar o numeral dez em diversas situações de comunicação, como, por exemplo, para expressar o graumáximo do valor outorgado a algo: «Ele tirou dez na prova de Filosofia»; para qualificar nomes substantivos ou vocábulos substantivados: «A professora Cláudia Márcia é dez»; ou, ainda, com valor adverbial, tal qual na oração «Achei-os dez», como comparativo dos advérbios «bem» e «mal» (LIMA, 2001, p. 347).

Esse mesmo numeral, no entanto, assume hoje um significado outro e, como sabemos, muito especial: um marco e o início de uma nova etapa, ou seja, o sector de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa desta casa completa dez anos de existência, buscando sua afirmação no cenário académico através da garra, da determinação e da seriedade de professores e alunos que estão a batalhar pela disseminação das letras africanas no Brasil e no mundo.

Coincidentemente, ou não, formado por dez ilhas e alguns ilhéus daí o título desta comunicação, Dez ilhas, alguma poesia o arquipélago de Cabo Verde constitui uma nação africana situada a 455 km da costa ocidental africana, na direção da Guiné Bissau. Independente há quase vinte e cinco anos, passara a receber investimentos do colonizador somente a partir da segunda metade do século XIX, em ocasião da extinção oficial do tráfico negreiro. O que até então funcionava drummondianamente como «uma pedra no meio do caminho», ou melhor, como um entreposto comercial para as navegações portuguesas que iam para (e vinham de) as Índias e para o Brasil, recebera de Portugal a língua portuguesa como idioma oficial e instrumentos eficazes para a disseminação desta no arquipélago: a fundação de liceus e a criação de uma imprensa de qualidade.

Mas a essa altura o crioulo, também conhecido como o papiar dos ilhéus, já havia se consolidado como a língua espontânea do povo. Daí o bilingüismo caracterizador da cultura da região até os dias de hoje.

Todos sabemos que «cada literatura requer tratamento peculiar, em virtude dos seus problemas específicos ou da relação que mantém com as outras» (CANDIDO, 1981, p. 9). Todavia, por acreditar haver semelhanças entre as condições de emergência das literaturas brasileira e caboverdiana, a autora desta comunicação valer-se-á do modelo de análise histórico-literária proposto pelo teórico brasileiro António Cândido para a compreensão da configuração do sentimento de brasilidade e de como esse sentimento se reflecte na literatura da terra brasilis nos séculos XVIII e XIX, para traçar uma reflexão sobre a configuração do sentimento de caboverdianidade e de como esse sentimento se reflecte na literatura do arquipélago.

Falemos, pois, da produção poética caboverdiana enquanto manifestações literárias isoladas e enquanto sistema, segundo o esquema proposto por Candido em Formação da literatura brasileira:

Entendo por sistema a articulação dos elementos que constituem a actividade literária regular: autores formando um conjunto virtual, e veículos que permitem seu relacionamento, definindo uma vida literária: públicos, restritos ou amplos, capazes de ler ou de ouvir as obras, permitindo com isso que elas circulem e actuem; tradição, que é o reconhecimento de obras e autores precedentes, funcionando como exemplo ou justificativa daquilo que se quer fazer, mesmo que seja para rejeitar (LA SERNA, 2003, p. 59).

Candido afirma na magistral obra supracitada que só se pode falar em literatura propriamente dita quando houver uma articulação expressiva entre autor, obra e público:

«Suponhamos que para se configurar plenamente como sistema articulado, ela [a literatura] depende da existência do triângulo «autor-obra-público», em interação dinâmica, e de uma certa continuidade da tradição» (LA SERNA, 2003, p. 54). Ora, tal qual a literatura brasileira nos dois primeiros séculos de sua existência, do segundo quartel do século XIX à primeira metade da década de 30, a produção poética caboverdiana apresentava-se como «galho secundário da portuguesa» (CANDIDO, 1981, p. 9) , ou seja, mera cópia dos padrões estético-estruturais trazidos pelo colonizador. Além disso, essas manifestações literárias eram, quantitativamente falando, pouco significativas e pouco conhecidas entre os que integravam a privilegiada «classe» leitora do arquipélago formada por alguns colonizadores e integrantes da elite negra alfabetizada.

Desvinculada de um projecto ideológico que agregasse seus escritores, maneira em que também se encontrava a literatura brasileira antes da formação das Academias (CANDIDO, 1981, p. 77-84), a literatura caboverdiana desse período, perpetuadora da cosmovisão do europeu, apresenta Portugal como Pátria de uma Mátria, como diria Caetano Veloso, dependente de uma intervenção cultural do colonizador. Vejamos trechos do poema «Hespéride» (SECCO, 1999, p. 34-35), de 1930, do caboverdiano Pedro Monteiro Cardoso, que apresenta, além da estrutura rítmico-sonora, o imaginário europeu acerca do exótico e do desconhecido:

Referem lendas antigas

Que lá nos confins do mar

As Hespérides ficavam

E o seu formoso pomar.

(...)

Nem Tebas, nem Babilónia

No auge dos seus esplendores

Comparar-se-lhe podiam

Em glória, fama e primores!

(...)

Tinha por defesa torres

Como jamais se verão,

E, aos jardins com pomos de oiro,

De guarda um feroz dragão.

Na segunda metade da década de 30, mais precisamente em 1936, um grupo de poetas, influenciado pela repercussão das idéias de Aimé Césaire, Senghor e Léon Dumas (CRISTÓVÃO), buscou romper com a temática (embora também buscasse o rompimento definitivo com a sintaxe e o ritmo europeus, mas só conseguisse iniciar esse processo de ruptura) literária de seus predecessores e logrou propagar uma literatura que reflectisse o real caboverdiano. Eis a gênese da formação de um sistema literário propriamente dito, visto que esse grupo também buscou disseminar a ideologia da representação da terra local e do homem local no arquipélago e no além-mar.. Tratase, pois, da Claridade, movimento literário pioneiro na expressão de um sentimento então em emergência no país: o da caboverdianidade.

Temática marcante trabalhada pelos poetas claridosos – cuja representação não deixa de nos oferecer um certo fascínio, tamanho o teor de sua dramaticidade é a expressão do impasse da cisão do caboverdiano entre partir com a finalidade de buscar no além-mar (em Pasárgada, quem sabe?) condições melhores de sobrevivência e ficar em uma terra nhanhida (sofrida), castigada pelas lestadas (ventos do leste, que provocam o flagelo de muitos no arquipélago); em uma terra de duras limitações geo-econômicas. Jorge Pedro Barbosa é o poeta claridoso que retrata esse drama de maneira mais intensa:

O drama do Mar,

o desassossego do Mar,

sempre

sempre

dentro de nós!

(...)

Este convite de toda hora

que o Mar nos faz para a evasão!

Este desespero de querer partir

e ter que ficar!

A abordagem da frustração da não-partida é constante em seus poemas, o que nos leva a captar, pelas vias da literatura, a melancolia dos que foram fadados a deslocarem-se «como répteis sobre a areia quente» (SECCO, 1999, p. 58) do país insular.

Na década seguinte, outro grupo literário «se alevanta»: o grupo Certeza, que também utilizou o pilar partida x permanência como pretexto para a elaboração de sua produção poética. Este grupo diferenciava-se, no entanto, dos seus antecessores pelo fato de criticar, ainda que timidamente, a miserabilidade do povo do arquipélago; por enobrecer o crioulo e a morabeza, jeito amoroso de ser do povo caboverdiano.

Se os poetas claridosos procuravam salientar a partida romântica, ou seja, a evasão, os do grupo Certeza mesclavam, através da permanência do modelo temático antigo e da paulatina emergência de um modelo temático novo, a herança nostálgica claridosa, com a visão crítica de se focalizar o ficar para resistir às mazelas políticosociais e económicas de uma terra literalmente cercada de água por todos os lados. O ficar para, cultural e politicamente, reconhecer-se caboverdiano: «É de ti [Cabo Verde] que surgiu a mão que tece / A esperança nova à humana sorte» (SECCO, 1999, p. 56).

Como se vê, o processo formativo da literatura caboverdiana é espantosamente recente e veloz. «A literatura [caboverdiana] não nasce, é claro, mas se configura no decorrer [das décadas de 30 e 40], encorpando o processo formativo, que vinha antes [através da tímida arte literária mimética da portuguesa ] e continuou depois» (CANDIDO, 1981, p. 16). No decorrer dos anos, a consciência política dos poetas do arquipélago foi ganhando corpo até que, em 1958, é criado o grupo Suplemento Cultural, com uma proposta de rompimento com toda e qualquer forma de alheiamento individual e colectivo do papel que cada um poderia desempenhar na reconstrução da ainda colónia portuguesa em um lugar melhor para se viver. Os poetas que participaram desta geração mostravam-se unidos na elaboração de uma poiesis militante, engajada na constituição de uma pátria-mosaico, fazendo com que o mar passasse a significar elemento de ligação entre as partes ilhas e ilhéus que compunham um todo coeso o arquipélago de Cabo Verde.

Apesar de saber que outros movimentos literários sucederam ao Suplemento Cultural, o projecto deste permanece, ainda hoje, no cenário cultural e literário caboverdiano. O mesmo vale para os projectos dos grupos Claridade e Certeza, uma vez que todo e qualquer movimento novo avança também em direção ao passado, com o intuito de se pensar criticamente o tempo presente, e de lançar bases em relação ao futuro, tempo e espaço em que o que foi traçado como meta num tempo presente, já passado, poderá ser experienciado.

Mas se esses os que cantavam claridades e certezas permanecem em forma de memória revisitada, vivendo no subtérreo da produção poemática caboverdiana das últimas décadas do século XX, aqueles os poetas do Suplemento Cultural permanecem na continuidade visível e operante de suas idéias na poesia e na prosa dos escritores da década de 60 em diante.

O poeta Corsino Fortes é um exemplo de permanência da literatura dessa terramosaico. Seu projecto talvez fincara raízes profundas porque o plano de construção de uma nova ordem social e de uma nova linguagem poética permance(ra)m actuais. É uma hipótese. Mas o fato é que este poeta mantém, até hoje, um perfil poético peculiar e sedutor, que converte até o espaço em branco da folha em significado é como se ele, o espaço em branco, representasse as águas do Atlântico e, seus versos, ilhas e ilhéus componentes da pátria caboverdiana. No fragmento poemático abaixo, observa-se que Corsino é autor de um tom poético simultaneamente plácido e enérgico que, na liberdade que confere a seus versos, opta pela predominância das fricativas para marcar a musicalidade do seu canto:

Canção! No arbusto da viola

Que chove

A lírica de deus é grande

Mas a música do homem é maior 2

2 AM, p. 81.

Neste fragmento, Corsino Fortes explora a similitude significativa dos vocábulos canção, lírica e música. A coisa canção em si, acompanhada de um sinal de exclamação logo no início deste bloco de versos, transmite-nos uma sensação de exteriorização psíquica repentina, que se contrapõe à noção de trabalho presente no restante do poema.

No mesmo verso, a conjugação dos vocábulos arbusto e viola em consonância com Árvore & tambor, título do livro em que este fragmento poemático está inserido parece assinalar o erguimento de uma nova poética; poética esta que brota do rude chão caboverdiano, e que não mais é levada com o acompanhamento da lira, como o canto dos poetas europeus. Não. A produção poética que se ergue é feita de matéria ainda bruta e revolta, assim como são as ramificações de um arbusto frondoso, e exige como acompanhamento o requebrante som de instrumentos que se ajustem à necessidade desse novo cantar: daí a presença da melodiosa viola em consonância com o batuque do tambor do povo do arquipélago.

A especificação que chove, relacionada à viola, comunica-nos que toda a terra do arquipélago sofrerá a inundação desse novo canto. Mas assim como a palavra chuva carrega consigo a noção de um movimento em duas fases (a de cair e a de correr para), a nova poiesis caboverdiana constitui-se um processo divisível, no mínimo, em duas etapas: a da produção e a do seu tempo de afirmação. E aqui vale retomar o pressuposto teórico elaborado por António Cândido para a análise do sistema literário brasileiro, que, afinal, veio ao encontro da necessidade da autora desta comunicação de adoptar um postulado teórico para a análise do sistema literário caboverdiano.

Se o que faltava, no início do trabalho, era a presença de uma tradição literária que servisse de referencial a ser seguido ou a ser repudiado pelos escritores mais recentes, pode-se dizer que já há, com o movimento Suplemento Cultural, a configuração de uma tradição literária (em construção), haja vista a leitura que os poetas de 58 faziam dos que os antecederam; haja vista a leitura que os poetas de Certeza faziam de seus imediatos predecessores, os claridosos. Nesse sentido, o grupo Suplemento Cultural e os que depois dele foram surgindo no cenário insular só fizeram e ainda estão a fazer, é claro encorpar a recente tradição literária do arquipélago. Já se pode, pois, falar dessa literatura como um sistema literário constituído.

Fechado o parêntese a respeito das etapas da chuva, projectemos nosso olhar para os dois últimos versos do fragmento poético sobre o qual estávamos debruçados: «A lírica de deus é grande / Mas a música do homem é maior».

Nestes, o poeta busca afirmar o valor criativo do homem de sua terra, em detrimento da manutenção do modelo poético europeu disseminado no arquipélago, que desconsidera as peculiaridades do arquipélago, de cada ilha e ilhéu que o compõe; do povo caboverdiano, de cada homem e mulher que o integra.

Referências bibliográficas:

FORTES, Corsino. Pão & fonema. 2.ed. Lisboa: Sá da Costa, 1980.

------ . Árvore & tambor. Lisboa: Dom Quixote, 1986. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. vol. 1. 6.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.

------ . apud. LA SERNA. Jorge Ruedas de (org.). Antonio Candido. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, Fundação Memorial da América Latina: São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2003. p. 51-74.

CRISTÓVÃO, Fernando Alves. «As literaturas de língua portuguesa em áreas tropicais». In: http://www.tropicologia.org.br/conferencia/1983literaturas_lingua.html

ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática normativa da língua portuguesa. 40.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001. p. 347. SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: volume II: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999.

Nota

1 SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: volume II: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. p. 40-41. Utilizarei a abreviação AM para as demais citações.

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