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Experiências Femininas No Quotidiano Crioulo

Escrito por  Sônia Maria Santos
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Sulcando a terra rachada pela seca, as mulheres teimosamente aram e semeiam, nas covas rasas, o milho que alimentará o povo caboverdiano, plantando na alma as sementes da alegria, da esperança e da rebeldia ao transmitirem as experiências dos antepassados espraiadas nas vivências diárias, nas quais, o estatuto da feminilidade mostra a recuperação da voz da mulher presente nos discursos literários, liberando os gritos dantes sufocados pelos contextos históricos que, nos novos tempos, alteram o rumo, seguindo os caminhos da nova história.

Três mulheres escritoras: Orlanda Amarílis, Dina Salústio e Fátima Bettencourt mergulhadas na rotina da vida crioula rebelam-se no embate quotidiano, que adquire um status vitae para o desenvolvimento da história das mulheres que busca na concretude de suas vivências a natureza dos seus princípios teóricos.

Orlanda Amarílis escreve a partir dos anos setenta e publica: Cais-do-Sodré té Salamansa (1974), Ilhéu dos Pássaros (1983) e a Casa dos Mastros (1989) Assim sendo, novos destinos são fomentados a partir da resistência das mulheres aos antigos paradigmas que pensavam o ser mulher como uma única essência sem dar conta da multiplicidade de representações das identidades humanas.

Dina Salústio, nascida em Santo Antão, escreve textos infantis, ficcionais e didáticos como: Estrelinha Tlim Tlim, Psicologia da Criança e Técnicas de Redacção, A Louca de Serrano (1998). Sócia fundadora das revistas: Mudjer, Ponto e Vírgula, colaboradora de outras como: Fragmentos, Pré-Textos, e dos jornais: Tribuna, Voz di Povo, A Semana onde se encontra grande parte de seus textos. Actua na política exercendo, actualmente, (2005) o cargo de Conselheira do Ministro da Cultura. Seu nome de baptismo é Bernardina Oliveira. Além de escrever, produz programas radiofónicos e é técnica do Ministério dos Negócios.

Fátima Bettencourt nascida em 16 de Fevereiro de 1938, na Ilha de santo Antão, cresceu em São Vicente, formou-se em professora primária em Lisboa e actua como apresentadora de programas radiofónicos em Cabo Verde, além de ter actuado em Guiné-Bissau, e Angola. Como membro da OMCV foi responsável pelos Departamentos de Informação e Relações Exteriores, sendo ainda, colaboradora dos Jornais: A Semana, Novo Jornal de Cabo Verde, Horizonte, das Revistas: Artiletra, Pré-Textos, Cultura e Suplemento Cultural dos Açores tendo reunido parte de sua produção no livro: Um certo olhar... publicado em 2001 pelo Instituto da Biblioteca Nacional.

Como uma categoria de análise possibilitadora de um exame mais contundente do complexo social, as questões de género vão abrindo caminho a um novo processo de conhecimento através da perspectiva feminista que vai redefinir conceitos e manifestações de toda a ordem por observar o objecto a partir do lugar que se enuncia, denotando, assim, a história cultural e as identidades sociais nela inseridas.

Vemos, portanto, a experiência social feminina inseparável do quotidiano, visto que as acções dos indivíduos são objectivações dos sujeitos activos que formam as moléculas do corpo social, sendo possível, a partir da célula familiar, observar as inteirações entre o espaço público e o privado, mobilizar transformações ocasionadas pela informalidade dos comportamentos e de conceitos não estandartizados. Portanto, subvertendo a ordem de antigos moldes, a experiência diária reforça o jogo da vida ao incorporar em suas práticas o acervo da resistência construída no árduo terreno da insubmissão, tornando-o um lugar propício para a invenção da própria vida plasmada pela tradição, fato que transforma o discurso, na medida em que a resistência a esse lugar subordinado constrói novas relações.

O quotidiano dessa forma não é só o lugar da rotina, mas também o da inovação, da afirmação e da negação, possibilitando um novo modo de pensar a história social da mulher, levantando questões pertinentes à nova historiografia potencializadora do uso relativo das significações políticas das lutas entre o domínio e a subordinação.

Nesse eterno jogo de forças constituintes da construção das identidades e experiências, a Literatura vai inaugurar um espaço rico de produção de saberes ao colocar em evidência a fala das mulheres no centro do debate político. Sabendo que os significados do ambiente social espelhados nas narrativas adquirem um estatuto de materialidade histórica, podemos dizer que o exame dos fatos propicia um encontro profícuo com a realidade social caboverdiana, através dos condicionalismos e circunstâncias expressas nas cenas recolhidas do quotidiano, onde a experiência, manifesta nos melindres das práticas sociais de Cabo Verde, mostra o ciclo da vida desde o nascimento até a morte. Nesse trajecto, a singularidade do viver crioulo, apontada nos textos de Dina Salústio, Fátima Bettencourt e Orlanda Amarílis focos de nossa análise em nossa tese de doutoramento, apresenta com muita riqueza o imbricamento e as hibridizações culturais advindas da experiência da diáspora e do contacto com o estrangeiro em solo nacional.

Na escrita de Orlanda Amarílis os contrastes aparecem ao longo das narrativas,motivando até mesmo o enredo dos contos; nos textos de Dina Salústio, as referências sinalizam actualidade e igualdade de informação, universalizando os comportamentos e problematizando as relações sociais em Cabo Verde e no mundo. Nos contos de Fátima Bettencourt, a memória da infância desenha os interstícios da casa crioula, os comportamentos moldados pela tradição e as transformações ocorridas pelo tempo.

A casa crioula, na diáspora ou no espaço nativo, torna-se, de certa forma, o lugar privilegiado de convívio e fomento à cultura, pois se constrói a partir das relações de comadrio estabelecidas por ela. A mulher, enquanto sujeito, enuncia na sua fala o jogo da oralidade africana expressa nos provérbios, nas rezas, nos cantos, nas estórias fantásticas que aproximam as gerações na transmissão de conhecimentos. Na música, a morna (antiga cantiga de lavadeiras) adquire o estatuto de estandarte da caboverdianidade por expressar o amor, a ternura da chegada e o sofrimento da partida.

É música de saudade e de lamento, sentimento em forma de canção. Na esfera familiar, a morabeza se instaura e também se corporifica na escrita focalizadora dos acontecimentos, desvelando o real que ostenta, por conseguinte, os enigmas sociais vistos pelas narradoras com um senso prático activado, retirando daí os factos que contam. Como guardiãs da memória de seu povo, elas, ao armazenarem antigos saberes, mantêm as cerimónias dos antepassados, accionando as relações de parentesco, unindo amigos, vizinhos e parentes não só pelas práticas sociais, mas principalmente pela força da oralidade, exteriorizando as emoções pela arte do contar.

Seus contos inscrevem a diversidade do olhar sobre Cabo Verde, externando as diferenças e semelhanças entre ilhas e a união pela mesma materialidade linguística colorida em sua crioulidade.

Nos textos de Fátima Bettencourt, Dina Salústio e Orlanda Amarílis, os espaços e as temporalidades são bem diferenciados, mas a sua importância é apreendida pelos acontecimentos neles transcorridos. Além do tempo linear e progressivo, há também o da circularidade, da repetição pautada pelas diversificadas jornadas de trabalho e pelos gestos do quotidiano, pequenos nadas materializando as formas da existência humana.

Nesse caso, os saberes do povo das ilhas estruturam e legitimam a identidade crioula por estabelecerem um rio de correspondências geradoras de uma dinâmica que os unifica sem os uniformizar.

Sob o ângulo da linguagem, o texto feminino apresenta-se polissémico por abarcar vozes divergentes, porém direccionadas a favor da transformação social, visando a uma sociedade mais igualitária, na qual a pluralidade seja agente das articulações político-sociais.

Os contos femininos de Cabo Verde inscrevem essa diversidade ao abordar os vários modos de viver nas ilhas dentro de uma mesma unidade linguística a língua portuguesa que legitima a identidade nacional. Sob esse prisma, a metáfora do caleidoscópio acompanha a direcção do olhar multifacetado das diversas prerrogativas dos discursos contemporâneos sobre a sociedade multimediática apreendida pela lógica mercadológica que impele os indivíduos a uma padronização dos costumes.

Dentre as várias formas de ler Cabo Verde, o discurso feminino, resultante das observações realizadas pelos olhares atentos de suas escritoras, abastece a memória colectiva, ao recordar os fatos ocorridos na infância e nas histórias dos mais velhos, quando despertados pela materialidade dos sinais encontrados na rotina do dia-a-dia. As narrativas apresentam fragmentos do mundo, vivenciado, presentificando a realidade, transportando-nos para além do que ela mostra. As cartas de crianças, adolescentes e profissionais da área social depõem sobre suas experiências registradas no relatório 2000-2004 do PNUD. São depoimentos contundentes sobre as problemáticas diárias da vida caboverdiana, visando a dar mais esclarecimentos aos técnicos do governo para o planejamento das acções oficiais. São exemplos vivos trazidos pela palavra daqueles que se encontram desprotegidos da acção dos organismos da vida social. Um olhar contundente possibilitador de confrontos com a verdade emergida dos contos por nós abordados.

Aproximando-se desse ritual quotidiano colectivo no processo de construção identitária, a mulher escritora coloca-se como um voyeur que olha a si mesmo, vendo-se através de outras mulheres que conheceu ou daquelas das quais ouviu falar ou leu histórias dimensionadas pela sua feminilidade, representando as múltiplas vozes abrigadas na interioridade de seus textos. Se o mundo é o que dele vemos e pensamos, a narrativa das autoras nos fornecerá uma perspectiva do real moldada pelo discurso ficcional que constrói o mundo pela diegese, captando as suas imagens com verossimilhança, dando veracidade ao enunciado, unindo a narrativa para solidificar os significados arrumados caleidoscopicamente.

A vitalidade dramática do conto submetida ao princípio do conhecimento do mundo apreendido nas vivências destacadas pela evidência literária de retratos e formas de representação de mundos possíveis, mostra ser o espaço literário uma possibilidade de recriação e fundação de novas possibilidades do viver, visto que o narrador tem suas raízes no povo, nas práticas executadas, recorrendo a elas para construir suas estórias.

José Machado Pais, no livro Vida cotidiana, apresenta as seguintes considerações a esse respeito:

Muitas dessas identidades estereotipadas, muitos desses topoi identitários, resultam de artifícios metonímicos que se consolidam através de narrativas oralizadas ou escritas. Na literatura encontramos retratada a força enorme da ideia de nação através de relatos do quotidiano, de detalhes reveladores do dia-a-dia que emergem como metáforas da vida nacional. (...) ... o certo é que os símbolos de identificação que surgem nos discursos sobre as identidades permitem enfatizar a natureza imaginária e mítica das nações, tendo como suporte construções discursivas. As identidades são construídas através do poder da língua, da sua capacidade enunciativa1.

Em nosso trabalho vários tipos de manifestação da caboverdianidade estão representados pelas variedades de tipos humanos focalizados em suas objectivações nos diversos contextos da sociedade, nos espaços públicos e privados, permitindo variar o olhar sobre uma mesma realidade. A linguagem das escritoras oferece versões codificadas em torno de referenciais sociais específicos do universo de cada contista.

Como um telégrafo, os discursos das escritoras transmitem os signos apreendidos do mundo real representado pelas letras que socializam os indivíduos, dando plausibilidade ao mundo compartilhado. Desse modo, as representações, sejam individuais ou colectivas, não existem isoladamente, sendo faces de uma mesma moeda. Os indivíduos, embora não consigam traduzir de forma adequada o seu discurso, são peças importantes na composição social por produzirem conhecimentos compartilhados pelo grupo a que pertencem.

Sob as margens das verdades cristalizadas, os saberes organizados à luz da experiência tornam-se a força motriz dessas mulheres escritoras, expressando a crioulidade nas costuras de falas diferenciadas pelo contexto, todavia unidas na consolidação de suas identidades que, no encontro com o quotidiano, arrumam as cenas em mínimos detalhes, revelando amiúde as cores do tecido social dialógico e intersubjetivo. É nesse saber comum, vivenciado pela comunidade, que se conjugam valores morais, opiniões e crenças de grupos não focalizados pela historiografia tradicional como as mulheres pobres, as velhas andrajosas, as loucas, os bêbados e outros.

Este volteio em torno da realidade permite ver o quotidiano como uma surpresa, uma vez que o clique do olhar fotográfico das escritoras registra em mil instantâneos a efemeridade do real. Esses átomos significativos são particularizações da vida em comunidade, espeficidades extraídas da vida em curso. Iluminar esses objectos com o olhar nos parece ser a função primordial da escrita feminina que, de forma atenta, concentra as suas atenções em um objecto, deixando outros à deriva, isso quer dizer que, ao priorizar uma faceta do quotidiano, relativamente terá de deixar de focalizar outras.

Ora, são, justamente, nos entremeios dos hábitos de se fazerem as mesmas coisas do mesmo jeito, que a vida escorre a sua invisibilidade, assegurando ao olhar fotográfico cenas e paisagens insólitas, interessantes, formando peças de sentido, num passeio aparentemente descomprometido, mas que indicia e se insinua nas lógicas de suas descobertas.

Factos corriqueiros como sentar à soleira da porta, olhar à janela, bater o pilão, beber o grogue, apanhar a lenha são sequências repetitivas socializantes, formadoras de unidade de interesses de mentalidade e de comportamento, ganhando importância na escrita que mergulha para além da superfície. Politizar o discurso corresponde a fazer deste espelho dos modos de viver de uma sociedade em permanente construção, recémsaída das mãos do opressor e que briga contra o tempo para recuperar o caminho da autonomia.

Descendo à profundidade das cenas do quotidiano, interpretando a realidade, construímos um imaginário em que a metonímia, o todo tomado pela parte, aparece a todo instante. Um exemplo é a jovem mulher do conto Liberdade Adiada, de Dina Salústio. Ela personifica todas as mulheres pobres de Cabo Verde. Vemo-las polindo as suas latas e sofrendo a angústia da pobreza, já os jovens de Thonon-Les-Bains, no conto de Orlanda Amarílis, representam a diáspora na vida dos jovens caboverdianos.

O dia-a-dia é o lugar privilegiado para revelar processos de funcionamento e de transformação social por não esconder os conflitos pelos quais a sociedade passa. É o lugar, por excelência do entercruzamento de dialéticas entre a rotina e os acontecimentos que a fragmentam. Sendo assim, deve ser tomado como importante fio condutor do conhecimento da realidade social, pois o quotidiano segue o ritmo da vida, acolhendo o imprevisível, aproximando os grandes dispositivos sociais que regulam ou informam a vida social.

As vivências explanadas nos textos mostram o modus vivendi caboverdiano em suas múltiplas faces, em diferentes espaços, abordando as convivências sociais que nele decorrem e que o convertem em significados agenciados pelo desejo de seus ocupantes.

A recusa ou aceite de pequenos actos ou fatos resulta em alguma transformação ou organização como, por exemplo, a morte do avô da menina no conto «Vovô», de Fátima Bettencourt que transforma a protagonista em contadora de histórias, trazendo para ela uma nova consciência da realidade. Seu avô morreu e este fato mudou a sua vida, a de seus vizinhos e parentes. Percebemos, então, que a vida quotidiana pode ser tomada como termómetro de mudanças e instrumento de tomada de consciência. Segundo Certeau, ainda que os indivíduos se sintam aprisionados pelo sistema em que vivem, eles podem traçar novos rumos nas suas vidas movidos pelos ardis do interesse e do desejo, veículos desviantes da lógica imperativa.

Tempo e lugar sem pessoas representam o vazio, o deserto, só ganhando sentido com a presença dos indivíduos que instituem as suas criações. Sendo assim, é pelo contexto que podemos perceber as diferenças entre lugares e temporalidades. Citaremos mais uma vez o texto de José Pais para encaminhar o nosso raciocínio:

Frente aos cadáveres das palavras escritas, é possível descobrir, nomeadamente através da observação participante, a riqueza inesgotável da palavra sonora, o seu uso conflitivo em contextos situacionais e referenciais próprios. É tomando estes contextos como níveis de observação dos seus próprios contextos analíticos e metodológicos que a sociologia qualitativa pode produzir significados e interpretações que noutros quadrantes de análise sociológica é impossível produzir.(...) os contextos sociais são elementos necessários e constituintes da própria estrutura semântica gerada pelas fala quotidianas.2

Os estudos sociológicos possibilitam a revelação interpretativa dos significados advindos das diversas manifestações instauradas no quotidiano de forma articulada, regendo os modos e comportamentos dos indivíduos em diferentes contextos. Essa articulação ocorrida no interior dos discursos possibilita o surgimento de símbolos de identificação nos discursos sobre as identidades, o que nos permite conjecturar sobre a natureza imaginária e mítica das nações baseadas nos textos, pois, sob o poder da língua, podemos construir identidades e formar imaginários através das articulações enunciativas.

As autoras por nós escolhidas, diferenciadas pelos contextos em que dinamizam suas narrativas, apresentam suas visões identitárias multifacetadas, porém consoantes por estarem correspondendo a diferentes campos semânticos semeados pela experiência de cada uma, fato que enriquece as possibilidades de leitura e entendimento das manifestações sociais e culturais do universo caboverdiano.

As marcas mostradas pelos textos aguçam a percepção das significações geradas pelos discursos construtores da caboverdianidade altaneira. Sob a tessitura das manifestações dos modos de ser e estar assentados no interior dos espaços labirínticos da sociedade, pequenos atos, desprendidos pelos indivíduos, são vestígios culturais reconhecidos por aqueles que viveram as mesmas situações e sensações. Assim sendo, um modo de andar, de falar, um jeito de vestir, comer constituem verdadeiros decalques de identidade em qualquer lugar do mundo.

Se Orlanda Amarílis esboça nos seus textos a sua experiência na diáspora, externando a ausência da pátria-mãe, essa falta será notificada em outra vertente de estilo por Dina Salústio ou Fátima Bettencourt, pois a casa caboverdiana é o espaço privado, onde se inter-relacionam pessoas, objectos e palavras que mobilizam a vida retratada em espaços divergentes.

A análise dos contos que compõem os livros Cais do Sodré té Salamansa, Ilhéu dos pássaros, e A casa dos mastros trouxe a temática da diáspora vista por prismas diferentes, através de espaços geográficos e contextos sociais variados, nos quais a mulher crioula se relaciona com saberes e costumes estrangeiros e comporta-se de acordo com as especulações do meio ambiente. Forte e insubmissa essa mulher revela sua importância na célula familiar, estando perto ou longe da terra-mãe, fornecendo materialmente compensações para os familiares.

Espiritualizada e mística Orlanda Amarílis mostra-nos o espetáculo da vida rompendo barreiras espaciais, navegando ora pelo espaço da vida, ora pelo espaço da morte. No livro Ilhéu dos Pássaros a sôdade bate forte no peito ao agenciar a luta pela independência dos povos africanos longe de Cabo Verde.

As personagens orlandinas traduzem a caboverdianidade nas ínfimas parcelas de seus quotidianos, como podemos perceber nas histórias que testemunham as acções, trazendo via memória, a experiência das lutas emancipatórias e o exílio forçado registrado no conto «Réquiem», no qual a jovem Bina servira em Dakar, a jovens fugidos da Guiné:

...muitos só entendiam crioulo e precisavam de ser acompanhados, apenas o tempo de tratarem de umas coisas, chatices da luta e depois desaparecem, caminhadas, passar a fronteira de novo e outra vez mato, minas, fome, febres, luta uma vez mais, caminhadas sem fim ao longo dos rios. Também em Conacri havia filhos dos guerrilheiros de passagem para a Jugoslávia. Deixaram a tabanca aos nove, dez anos. Deveriam estar agora a voltar já homens de direcção. Valeu a pena o sacrifício. Também serviu em Dakar. Aquilo não era de confiança. Tudo tinha de ser feito com muito cuidado, senão saía cada senhorada dos diabos. Passaportes, vistos, montes de voltas a pedir aqui, àquele e a mais outro amigo e a Bina a safar este e mais este. (I P. p. 126)

Os preconceitos sociais e raciais estampados na sociedade e registrados pelos contos evidenciam a escritura anônima dos indivíduos nas lutas intestinas da sociedade, pela igualdade de direitos e pela superação de estereótipos depreciativos que aprofundam as fragmentações sociais. Nos contos ficaram registradas as acepções de vida com as mediações dos contextos em que foram inseridas, nesse caso, as figuras estereotipadas do judeu, do badio (homem do interior de Santiago) servem como exemplo. Para Orlanda, a vida e a morte estão num plano continuum, agenciando relações afins para alimentar a altivez do povo caboverdiano.

Os problemas instaurados pelas indagações que trazem perplexidade ao homem moderno motivam os enredos dos contos de Dina Salústio, ao relacionar temporalidades próximas, estabelecendo um olhar crítico quanto aos costumes tão fartamente alterados pelas novas relações político-sociais do mundo globalizado. O recurso discursivo da ironia permite o aguçamento dessa crítica que coloca a mulher no centro das indagações que cercam o mundo actual.

O lírio verde estava em trabalho de parto, preguiçosamente, dolorosamente abrindo as pétalas. Elas não se olhavam. Como se ao longo de uma vida de amizade tivessem sido há muito desvendadas. O raciocínio, igualmente pôs-se em defesa e a conversa voltou ao passado, sem necessidade de cautela, coerência e resposta. Os factos de muitos séculos atrás voltavam legitimados pelas facadas dos anos, pelos momentos de glória, pelas profundezas do inferno. Crimes, tragédias, quotidianos, amores, sonhos e pecados, tudo flutuava à volta delas, em bocados desencontrados que raramente se encaixavam num outro pedaço do puzzle falado. Uma mordedura no lábio; um franzir de testa; um toque menos doce no cristal do copo; o perfume do lírio que acabava de parir.

Sete mulheres. Nenhuma médica, nenhuma pianista, nenhuma actriz, nenhuma assunto de polícia. Possivelmente nenhuma delas mulher má. E se incendiassem a cidade?

Palácios, teatros, arranha céus, mercados, cinemas, centros culturais, aquedutos, parques, circos todos os circos, tudo a arder e elas no bar cheio de fumo a rir e a chorar. Idiotice! Onde está a cidade? É isto uma cidade? (M.N.pp.28-29)

A criança, a família, e as relações de género de toda a ordem são a tónica do seu discurso que procura penetrar nas intimidades quotidianas para olhar de perto as acções e atitudes dos indivíduos frente às conjunturas económicas e políticas que cerceiam os passos daqueles desprovidos de voz, impedindo, de certa forma, o seu crescimento. A autora, atenta ao movimento do mundo, eleva seu país à condição de actor no processo de edificação das singularidades dos indivíduos pertencentes ao Terceiro Mundo.

O quotidiano como estratégia de análise permitiu-nos ver discursivamente o processo de construção das individualidades e a importância das acções singulares na construção das nacionalidades. Nesse caso, a caboverdiana que, por meio do trabalho hodierno de suas mulheres, constrói um modo de viver diferenciado de outras comunidades pelo contexto histórico-social que a abriga. Construindo uma nação na pedra e no pó, alimentando o seu povo a leite de cabra de sol a sol, a pé ou de jumento as mulheres caboverdianas seguem seus caminhos infinitos, vencendo a dor e a morte, com filhos na barriga e esperança no peito, sozinhas ou acompanhadas pelos filhos e pelos velhos, elas seguem adiante, vencendo o dia-a-dia da desigualdade com ousadia e perseverança.

Escreve da terra-mãe para louvá-la, engrandecê-la pela sua singeleza e beleza. Nos seus contos a verdura alimenta o corpo e o espírito ao percorrer caminhos na companhia de gafanhotos, brincando com a vida, aceitando a morte, as despedidas em vendo desfilar diante de seus olhos a meninice correndo solta perante os animais domésticos, criados filhos da casa, empregadas sedutoras e carentes de afeição. As cenas apresentadas mobilizam o intelecto ao apreenderem a atmosfera advinda do texto que inventa, redescobre sons, cores, sabores e o espírito fraternal da gente simples de Cabo Verde:

Toda a estrada era cheia de recantozinhos admiráveis para as nossas brincadeiras. Ali naquela espinheira apanhávamos um dia um ninho de pardais, mais adiante na curva de José Brasileiro havia umas uvinhas de macaco deliciosas, depois o Seixal com tudo calcinado à volta e de repente uma bomba girando e puxando água de baixo da terra para uma hortinha minúscula e verde, um oásis... Eis Pedra rolada. Já se sente o cheiro da cidade. Vão rareando os gafanhotos e a cada metro que avançamos menor é a nossa vontade de brincar. (S.P.,p .09)

Em suas crónicas se espraia seu olhar delicado e detalhista, trazendo à superfície, as entranhas quotidianas da casa crioula, em contos modernos com estrutura curta, linear e, por vezes, poética em sua coloquialidade. Estórias densas, concisas, interligadas por diálogos recheados de crioulidade valorizam o discurso, marcando a alteridade caboverdiana.

Vistoriando a realidade, os contos das autoras rastreiam a vida por diferentes perspectivas, surpreendendo a leitura de quem pensava já conhecer todos os caminhos de Cabo Verde. De forma labiríntica, o discurso vai capitaneando frestas e becos, descobrindo fatos da vida crioula, a luta em favor da terra madrasta, cantada apesar da pobreza, do sofrimento e da morte.

Sendo assim tão formosamente apresentadas, as estórias contadas impelem o leitor a sair de sua zona de conforto para acompanhar criticamente as trilhas abertas pela ficção elaboradora de imagens convincentes sobre a estrutura social e política examinada no interior dos textos. Neles, o absoluto e o reificante cedem lugar a atomização das acções particulares que, vistas em conjunto, mostram um movimento em sintonia com o ritmo da melodia que invade o mundo moderno. O quotidiano é isso, um lugar mágico, sem dirigentes, sem soluções individualistas, sem dono ou utopias, apenas um espaço onde a vida pulsa de acordo com os desejos e estratégias de seus ocupantes.

E as mulheres crioulas seguem seus caminhos na construção da nacionalidade caboverdiana, fazendo de suas obras verdadeiros caleidoscópios de cenas. Semeiam em pó, por onde passam, a coragem, a alegria, a dor, o amor e o desamor com que alimentam suas vidas.

Notas

1 PAIS, José Machado. Vida Cotidiana : enigmas e revelações. São Paulo: Cortez, 2003. pp.189-190.

2 Idem. p. 142.

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