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Explosão de Alegria Numa Angola Livre

Escrito por  Sônia Maria Santos
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Sabes, esta chuva pressagia felicidade. Também em Moçambique choveu no dia da independência. O povo diz que é a mensagem de nossos mortos. Acabávamos de desembarcar no aeroporto de Luanda, nas vésperas da independência. O comentário era de uma das jovens militantes do PAIGC e o retrato de Amílcar Cabral.

E, efectivamente, as celebrações decorreram num clima de alegria popular, vigilância revolucionária e organizadas demonstrações de mobilização por parte de uma vanguarda militante que cada dia mais se confunde com o povo.

Para outros a chuva simbolizava as lágrimas dos colonialistas que não se resignavam à perda irreparável de uma Angola tão rica. Presságio ou não, essas gotas foram o baptismo de uma jovem Nação, cujo nascimento pôs fim a quinhentos anos de colonialismo português em África.

Regressávamos a Angola um mês e meio depois de havermos partido. No aeroporto mesmo era visível a diferença com a situação que havíamos deixado em Luanda. Um enorme cartaz de Agostinho Neto, bandeiras do MPLA e uma sala de “VIPS” repleta de delegações visitantes recebidas por membros do Comité Político do Partido, demonstravam um absoluto controlo das forças populares num aeroporto que estava, então, sob a direcção portuguesa. A limpeza e a tranquilidade dos amplos corredores haviam deixado para trás as angústias e tensões dos meses que durou a ponte aérea para Lisboa, com a retirada dos portugueses. Saindo, continuava a mesma sensação de mudanças, acentuada pela presença nova da recém criada Polícia Militar angolana, com elegantes uniformes caqui e azul, que, identificando o carro oficial, davam passagem com «adiante camaradas».

Pela manhã, muito cedo ainda, apreciando pela última vez a bandeira portuguesa no mastro da importante fortaleza que domina a baía de Luanda, a população se dirigia a seus postos de trabalho. Também então fomos surpreendidos com uma significativa modificação: a cidade portuguesa que havíamos deixado com o êxodo maciço da população branca e a afluência à zona asfaltada da população negra havia-se transformado em uma urbe completamente africana. Os automóveis, que tanto enfernizavam o trânsito luandense eram agora, sensivelmente, em menor número.

Muitos estavam abandonados, geralmente sem pneus, recordando a fuga apressada de um dono com cargas de consciência ou que, depois de ter enviado um ou dois carros, não tenha encontrado maneira de burlar a legislação para poder enviar um terceiro para Lisboa.

Em lugar das antigas estátuas portuguesas, que o povo arrancou de seus lugares, os austeros pedestais ostentam hoje as coroas do MPLA combinadas com criatividade.

Surge assim uma decoração nova, sem dúvida muito mais de acordo com a sensibilidade popular angolana do que a fria fisionomia de um navegador do século XV ou de um colonizador. Também os nomes das ruas começam a mudar e os heróis do império lusitano são progressivamente substituídos pelos comandantes mortos durante os catorze anos de luta pela libertação. Assim como no aeroporto da «ponte aérea» só ficou a recordação de algumas canalizações arrebentadas, na cidade as vitrinas vazias das lojas, antes cheias de artigos portugueses e importados, falam com muita expressividade de um processo de remoção de um passado secular e de um presente convulsionado, porém auspicioso.

Alguns ambientes populares, buliçosos neste dia da Independência, onde se ouvem canções e se vê a presença de mulatos e se nota o andar cadenciado das mulheres, nos lembram desde logo a descendência latino-americana de Angola: o povo do Brasil.

Novos cartazes apareceram nas paredes, todos comemorativos da Independência e, concomitantemente, outros desapareceram. Nem uma referência à UNITA, nem uma só inscrição, das muitas que havia, da FNLA. O povo, em sua carinhosa preparação da Capital para o dia da grande celebração, fez desaparecer meticulosamente todo o vestígio daquelas presenças, sentidas unanimemente como inimigas. Da época em que em Luanda conviviam com o MPLA os que hoje o povo sente como descarados instrumentos do inimigo, só ficou a recordação do sacrifício de quinze mil vidas. Não fora a marca deixada nos grandes edifícios dos violentos duelos de artilharia travados dentro da cidade, alguém poderia dizer que Luanda sempre foi o baluarte inexpugnável do MPLA. Em rigor isso era verdade e ainda o é. Poucas vezes se viu um apoio popular tão expressivo a uma vanguarda política como o que se observa em Luanda com respeito ao MPLA. Percorremos vários musseques, algumas zonas distantes, ministérios, locais públicos. Todos literalmente cobertos de cartazes do movimento. Na maioria deles não falta o retrato sereno de Agostinho Neto. Em todos esses locais éramos sempre tratados como «camaradas» e em nenhuma só vez a saudação deixou de seríamos dirigidos por um Presidente angolano e estamos em vésperas de que isso se torne uma realidade. Porque havíamos de estar pessimistas hoje? A luta continua, porém a vitória é certa», comentava para nós uma aguerrida militante dos velhos tempos, citando o lema do MPLA. Era um facto palpável que o povo sentia confiança em sua vitória e que, a partir disso, qualquer sacrifício era válido.

Nem uma só queixa ouvimos quando chegava ao fim o quarto dia de falta de água na cidade. «Estão chegando algumas gotas», era sempre a resposta quando perguntávamos sobre o problema. Era, na verdade, uma medida preventiva às vésperas do 11 de Novembro, quando a artilharia inimiga tinha por objectivo principal a represa de Quifangondo que abastece de água a Capital.

O povo estava muito acima dessas vicissitudes. Nenhuma menção, tão-pouco, para a escassez de alimentos. A ementa de prato único já um hábito aceite pelos hotéis de maior categoria de Luanda e que ainda mantém a formalidade de apresentar a carta de preços na qual figura uma única opção. A cidade se compenetrou do clima bélico e as restrições naturais de uma guerra são aceites normalmente.

No dia 10 de Novembro a conferência de imprensa do Comodoro Leonel Cardoso foi o único «acto frio». Para os que, como nós, haviam tido o privilégio de estar presentes aos actos de Independência de Moçambique e, assim, admirar um facto histórico único, com aquelas boas-vindas com honras militares ao representante do Portugal, que na oportunidade foi o General Vasco Gonçalves, essa proclamação unilateral de Portugal, sem cerimónia, sem grandeza e sem glória, deixou a todos frustrados. Ao povo angolano, também.

Em contrapartida, foi emocionante o momento em que os últimos soldados portugueses se despediram de Angola. Primeiro deram um longo passeio pelas ruas de Luanda, com os braços erguidos, num adeus definitivo e emocionante à última colónia de Portugal na África. Logo após, já na ilha de Luanda, posando para as objectivas dos fotógrafos de várias nacionalidades, e recebendo aos que os iriam substituir a partir daquele momento: as Forças Populares de Libertação de Angola. Tinham a exacta noção de que o seu embarque, o do último contingente português em terras africanas, era o fim de cinco séculos de colonialismo.

– Então, agora vão engrossar as fileiras da contra-revolução em Lisboa – comentou um jornalista latino-americano a um dos comandantes de grupo. – As fileiras da contra-revolução? Engana-se. Da minha parte vou-me apresentar para lutar ao lado dos revolucionários – respondeu ele.

Nesse contingente sentia-se que esse era o espírito dominante. «Enquanto estivemos aqui fizemos o possível para ajudar no processo de descolonização», comentava um deles que se despedia de um amor angolano que não poderia levar consigo. Não nos ocultou, também, o seu desgosto por outros que, integrados hoje nas fileiras de mercenários ou actuando nos sectores de direita dentro de Portugal, voltaram a sua frustração por uma realidade irreversível destruindo instalações de edifícios públicos de Luanda, sabotando o próprio Hospital Militar e destruindo equipamentos que hoje seriam vitais para a população angolana e para as dezenas de feridos que diariamente chegam das frentes de batalha.

Quando caía a tarde do último dia de colonialismo, notava-se no ânimo de muitos que acreditavam nos rumores propagados pela reacção externa a grande incógnita: se realmente o MPLA seria capaz de declarar a Independência com o controlo absoluto da situação. O povo já se dirigia organizadamente para o Largo 1º de Maio onde se realizariam as solenidades e as festas. O programa era cumprido normalmente e os tão alardeados bombardeios da cidade não se concretizavam.

Nesse cair de tarde a população teve múltiplas emoções, mas sem dúvida uma das mais inesquecíveis foi a primeira transmissão oficial da televisão angolana. Um esforçado grupo de jovens, organizados por Luandino Vieira, escritor militante da primeira hora, conseguia colocar no ar, no dia mesmo da Independência, um programa especial feito durante a reunião, em Lourenço Marques, dos países africanos da língua portuguesa que no dia anterior haviam anunciado o seu incondicional reconhecimento do MPLA como único governo legítimo de Angola. A seguir, filmes directos da própria frente de combate, emocionando o povo que assistia às imagens através de 400 aparelhos distribuídos por todas as comissões de bairros dos musseques, em sedes de organizações desportivas e núcleos de organizações de base. A televisão angolana nascia como um poderoso instrumento revolucionário de comunicação de massas.

Nos bairros periféricos que não dispunham de meios de transporte para alcançarem o local das solenidades, foram colocados alto-falantes e estrados com mastros de bandeiras para que a proclamação de independência fosse realizada em cada um desses locais. O mesmo acontecia nas zonas rurais mais afastadas. Desde cedo que as crianças tratavam de colocar cartazes e faixas coloridas pelas casas e arruamentos, ajudados por suas mães e irmãs que pintavam letreiros e frases revolucionárias. Um dos mais difundidos era sobremaneira significativo:

«Devemos fazer a guerra para terminar com a guerra». Curiosamente, em muitas dessas proclamações populares a meia-noite não foi esperada, mas mesmo assim foram até mesmo mais formais do que a própria cerimónia central: o povo procurou uma bandeira portuguesa para realizar o seu arriamento enquanto com solenidade hasteava a nova bandeira do seu povo.

No Largo 1º de Maio os lugares começavam a escassear. Os pioneiros, que há tanto tempo se haviam preparado para tal ocasião, desfilavam mais erectos do que nunca, orgulhosos de suas armas de fabricação caseira, sempre com os uniformes velhos e rotos sobrando dos seus bracinhos delgados e arrastando com dificuldade e graça às grandes botinas militares que haviam herdado dos mais velhos. As mulheres, enquadradas no OMA Organização das Mulheres Angolanas entoavam hinos revolucionários e canções de outras nações de língua portuguesa. Poucos minutos depois da meia-noite os primeiros combatentes, armados de catanas como símbolo da primeira etapa de luta acenderam a «Chama Eterna», enquanto Agostinho Neto chegava ao palanque oficial em meio de grandes aclamações de um público que se espraiava pelo imenso largo. Milhares de tiros lançados ao ar pelas FAPLA, com balas traçantes que se cruzavam nos céus, gritos de júbilo, abraços, canções e lágrimas, estremeceram o coração de todos os que ali se comprimiam. Um minuto de silêncio pedido pelo Presidente em memória dos mortos pela liberdade e pela independência foi o mais sentido tributo a todos os companheiros ausentes e que não mais podiam viver aqueles dramáticos e emocionantes momentos. Muitas de suas esposas e mães choravam e eram amparadas por pessoas amigas.

A República Popular de Angola nascia marcada pelo júbilo popular, pela unidade de combate aos inimigos e pelo sacrifício comum e colectivo que os engrandecia sobremaneira. Subiu ao mastro central a Bandeira negra e vermelha: negra como o continente africano; vermelha como o sangue dos que haviam tombado. Pela primeira vez foi cantado o Hino Nacional que apenas poucas horas fora dado a conhecer, e o Presidente Agostinho Neto, emocionado, delineava em seu discurso as principais directivas políticas que o Movimento Popular de Libertação de Angola adoptava como plano de governo.

De forma improvisada, o Presidente convoca o povo a reunir-se no Largo do Palácio do Governo logo após o encerramento das solenidades, já madrugada alta. Pela noite a dentro o povo deu vazas à sua alegria, com danças, canções e passeatas cheias de entusiasmo, até que nascia o primeiro dia de plena vitória contra o colonialismo. As tensões vividas, o cansaço acumulado, as responsabilidades diariamente assumidas pareciam desaparecer nos semblantes do reduzido grupo de dirigentes do Movimento que teve a direcção da luta e da instalação do novo Estado. Muitos dos ideais que os haviam levado a empunhar as armas estavam-se convertendo em esplendorosa realidade, embora seja difícil e longo o caminho que os separa da vitória definitiva.

As celebrações tiveram um ponto culminante às 11 horas do dia 11, quando a Câmara Municipal e em nome do «Bureau» Político do MPLA, Lúcio Lara investiu Agostinho Neto como primeiro Presidente constitucional da República Popular de Angola, e mais de vinte nações as primeiras vinte reconheciam o novo Estado e seu governo. A presença dos países africanos progressistas, os países socialistas, Vietnan do Sul, são saudados calorosamente pelo povo.

Nessa tarde, no desfile popular pela Avenida do Catete, novas emoções nos aguardavam. A maior delas quando as FAPLA saúdam o Presidente. Não era um desfile tradicional. As Forças que ali marchavam estavam mobilizadas e combatiam poucas horas antes na frente de batalha a poucos quilómetros. Foi esse factor que deu à Independência de Angola uma densidade histórica que se percebia facilmente.

Texto publicado originalmente nos Cadernos do Terceiro Mundo. Ano I, nº 1, Lisboa: Dezembro de 1975.

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