testeira-loja

Fradique Mendes Nas Rotas do Atlântico Negro.

Escrito por  Maria Nazareth Soares Fonseca
Classifique este item
(2 votos)
RESUMO: Este texto propõe uma discussão sobre o trânsito de idéias entre povos e culturas, tomando como referência o romance Nação crioula, de José Eduardo Agualusa. No romance o Fradique Mendes, de Eça de Queirós realiza novos péripolos, ligando Portugal, África e Brasil. Pretende-se mostrar que o Fradique Mendes de Agualusa, bem como o romance em que a personagem é retomada questionam as noções de fonte e influência e contradizem a idéia de que as rotas do Atlântico Negro foram feitas em vias de mão-única.

RESUMO: Este texto propõe uma discussão sobre o trânsito de idéias entre povos e culturas, tomando como referência o romance Nação crioula, de José Eduardo Agualusa. No romance o Fradique Mendes, de Eça de Queirós realiza novos péripolos, ligando Portugal, África e Brasil. Pretende-se mostrar que o Fradique Mendes de Agualusa, bem como o romance em que a personagem é retomada questionam as noções de fonte e influência e contradizem a idéia de que as rotas do Atlântico Negro foram feitas em vias de mão-única.

ABSTRACT – The main goal of this text is to work on the exchange of ideas, peoples and cultures, which are subjects of Nação crioula, de José Eduardo Agualusa. In this novel, the character Fradique Mendes, created by Eça de Queirós, re-appears on new travels which link Portugal, Africa and Brazil. It´s possible to read Fradique Mendes and the novel in which the character presents himself in order to question the notions of sowrce and influence and the idea that the Black Atlantic´s routes were not a one-way street.

Carlos Fradique Mendes pertencia a uma velha e rica família dos Açores; e descendia por varonia do navegador D. Lopo Mendes, filho segundo da casa da Troba, e donatário duma das primeiras capitanias criadas na Ilhas, por começos do século XVI. ( Eça de Queiros, {s.d.} , p. 987).

Era, dizia V., «uma forma de homenagear o português mais interessante do século XIX, e era também um acto de patriotismo, «pois nos tempos incertos e amargos que vão, Portugueses destes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um mármore». ( Agualusa, 1998, p. 137)

É curioso observar as imbricações das vozes narrativas na encenação proposta em A correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queiroz, e compará-las com o projeto ficcional do romance Nação crioula, do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Apropriando-se da personagem de Eça de Queiroz, Agualusa faz aflorar um misterioso aspecto de Fradique que o escritor português não pôde conhecer, porque não teve acesso às cartas secretas que relatam a aventura africana de sua criação. Essas cartas nos revelam um lado da personagem muito bem camuflado, na versão original, na veneração «genuinamente budista» que a personagem dispensava à natureza, às manifestações da Vida, toda-poderosa, criadora do Céu e da Terra ( p. 1018). Tirada desse contexto a personagem de Eça de Queiroz adquire, no romance angolano, uma feição híbrida, ainda que não tenha sido alterada a cor de sua pele. O romance de Agualusa, ao exibir um processo de invenção tão válida quanto o texto de que se apropria, é também testemunho de outros modos de se registrar o mundo e é com a intenção evidente de brincar com a história e com a literatura de feição nacionalista que o romance coloca-se no limite entre invenção e registro. Mas para que se possa melhor compreender a releitura da personagem feita por José Eduardo Agualusa, torna-se necessário retomarem-se alguns aspectos da famosa personagem de Eça de Queirós.

A personagem de Eça de Queirós e o livro A correspondência de Fradique Mendes, escrito em 1888 têm sido foco da atenção de muitos leitores e críticos. Alguns vêm a personagem como alter-ego do seu criador, tamanhas são as afinidades podem ser encontradas entre o pensamento de Eça e as reflexões elaboradas com o fino humor que caracteriza sua personagem. Outros, percebem em Fradique uma identidade maior não com o escritor, ou melhor, não apenas com ele, mas com o ambiente burguês característico do final do século XIX europeu. Retornando à personagem pelo olhar do seu criador, vamos flagrá-lo em meio aos muitos livros e revistas especializadas de que seu espírito curioso se alimentava, mormente quando, regressando de muitas viagens que sempre fez, acossava-o o impulso de admiração ou de curiosidades intelectuais (p. 1020). Foi arqueólogo sem o ser, visitando, com cuidado de pesquisador atencioso, partes de África e do Oriente, conhecendo de perto interessantes aspectos das muitas culturas que visitou sem se limitar a exames exteriores e impessoais, à maneira de quem numa cidade do Oriente, retendo as noções e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões. (Queiroz, p. 1014). Somos informados de que possuía uma saber histórico amplo e ao mesmo tempo detalhado, minucioso, e uma verdadeira vocação para a pesquisa, embora, seu espírito lúcido, sua suprema audácia, pudessem revelar a petulância dos que, porque dotados de fina inteligência, modulam um modo de pensar original e próprio, mas não podem esconder alguns tiques próprios aos bem nascidos. Fradique é, de algum modo, a representação do homem livre, salvo da tirania das idéias feitas, liberto do modelo de educação servil e livresca que embota o espírito e amortece a curiosidade. Defende o conhecimento adquirido no contato direto com outras culturas e exibe a insatisfação própria do «espírito indisciplinado e criador» (p. 1014). A figura do europeu formado pelos livros, distante da realidade pulsante, abomina-o do mesmo modo que a do turista apressado que superficialmente vê os novos lugares, sem neles se deter. Modelado a partir das idéias que fomentaram atitudes críticas, perceptíveis em tantos outros livros de Eça de Queirós, Fradique é, sem dúvida, a representação do homem itinerante, do curioso que perscruta as diferentes culturas com o olhar característico do viajante interessado. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ter o traço do humanista, amando as grandes causas, se afasta da militância e de procurar «pelas vielas miséria a resgatar» (p.1029). Mas essa atitude cuidadosa não o faz indiferente às calamidades, às indigências, aos pobres enfim. Essa é, sem dúvida, uma faceta da personagem, que o livro de Agualusa procurou marcar «com um traço a lápis», como fazia a personagem, de Eça, quando indicava ao velho Smith «o número de libras que devia remeter, sem publicidade, pudicamente» (p. 1029) a quem delas necessitava. A excentricidade da personagem tem muito do esboço de sua própria criação. A se considerarem informações mais consistentes a respeito da elaboração da personagem, pode-se inclusive determinar a data de seu aparecimento: 1869, ano em que Fradique Mendes nasce no grupo intelectual «O Cenáculo», a que pertenciam Antero de Quental, Eça de Queiroz e Batalha Reis, os quais, com o intuito de zombar da sociedade burguesa, espantam-na com a invenção de um poeta satânico, com lastro literário, dando-lhe, inclusive, uma biografia, como se fora pessoa e não personagem. Assim, Fradique passa a ter uma existência autônoma e, depois de ser acolhido como interessante criação, transforma-se em autor de uma séria e cartas, que Eça de Queirós publica, em primeira edição, em 1888, no jornal Repórter. Mas este estudo, pela própria precariedade em que se mostra não tem o intuito de deter-se mais detalhadamente na análise do Fradique de Eça de Queiroz. O interesse maior é tomar a personagem a partir de um outro lance do jogo criativo, que, iniciando-se em 1869, ganha uma nova versão, em 1997, quando José Eduardo Agualusa publica Nação Crioula. Este livro do escritor angolano é, por muitas razões, uma homenagem a Fradique Mendes e, por que não a Eça de Queiroz, autor bastante lido nas escolas africanas, principalmente durante o período colonial, já que o ensino nelas adotado pautava-se pelo que se ensinava e lia nas escolas de Portugal. E mesmo que a intenção de Agualusa possa ser entendida como uma retomada irônica da personagem de Eça de Queiroz, o que também é verdadeiro, o livro de Eça está presente em Nação crioula como inspiração e modelo, pois essa parceria já está indicada desde do título, que explica conter o livro a correspondência secreta de Fradique, que Eça não pôde publicar. Agualusa afirma com freqüência que literatura é jogo, teatro, brincadeira, não devendo ser levada a sério, fora do pacto inventivo que propõe ao leitor. Mas é interessante observar que o jovem a escritor angolano tem provocado muita ira em muitos críticos, exatamente porque, aparentemente só brincando, assume uma atitude iconoclasta e irreverente com relação às verdades instituídas. E, assim, o que ele diz ser apenas brincadeira, invenção, formula outros pactos interpretativos e seus livros não podem ser lidos apenas com os sentidos que seu autor pensa poder neles imprimir. Todas essas intenções construídas na instância da autoria estão, certamente em Nação Crioula, mas, ao ser lançado na rede de interpretações imprevisíveis, o livro faz-se outro, outros, ainda que deixe evidente a relação estreita com a personagem de Eça de Queirós. Na montagem do livro, Agualusa recupera alguns destinatários de Fradique Mendes, quando propõe acrescentar às cartas já publicadas a «correspondência secreta» da personagem e exibir um outro lado de Fradique, que os leitores de Eça de Queirós não podiam conhecer. Mas é possível perceberem-se detalhes já marcados no livro de Eça em que a personagem deixa aflorar sinais do seu lado secreto. Fica evidente que o livro de Agualusa se apropria das viagens que Fradique fez à África, mas detalha episódios dessas viagens, sugerindo que, diferentemente do que dissera Fradique a seus amigos, em Lisboa, ao comentar impressões da viagem que fizera à Zambézia, as viagens à África tiveram significação profunda para ele. No livro de Eça, discorrendo sobre os sentidos das religiões, Fradique faz referências a cultos nativos observados, na África. Perguntado sobre por que não escrevia sobre essa última viagem no norte da Zambézia de onde recolhera detalhes sobre o culto dos antepassados, Fradique responde: _ Para quê? ... Não vi nada de interessante na África, que os outros não tivessem já visto. ( p. 1036). A mim me parece que é exatamente essa aparente falta de interesse de Fradique pelos assuntos africanos que permite que vislumbrar o lado secreto da personagem que Agualusa criou para deslocar Fradique para Angola e torná-lo observador crítico do comércio de escravos. O humanismo tão louvado da personagem queirosiana vai ser colocado à prova e a militância reprovada, no texto de Eça, torna-se a mola que impulsiona o traçado de outras rotas, ligando Portugal, África e Brasil. Nação crioula se inicia com uma carta de Fradique Mendes, datada de maio de 1868, dirigida a Madame de Jouarre. Nessa carta Fradique faz referências às primeiras impressões de Luanda, porto de embarque de escravos exportados para o Brasil. A descrição dessa cidade africana é bastante interessante, quando comparada com a opinião do Fradique de Eça de que a África não tinha coisas muito importantes sobre que falar. Como um viajante interessado, Fradique descreve à Madame de Jouarre aspectos de Luanda com a minúcia típica do espírito que percebe a diversidade com olhos atentos e assombrados, porque o que o invade, é uma convulsão de odores e cores que marcam a diferença do espaço vislumbrado pela personagem: Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, melancólico, como o de um corpo em decomposição. è a este cheiro, creio, que todos os viajantes se referem quando falam de África. (Agualusa, p. 11).

O que salta à vista, logo nessa primeira carta é o interesse de Fradique pelos vários aspectos do comércio dos escravos africanos, deixando aflorar em suas impressões sobre as intricadas relações entre beneficiários do tráfico. O comércio negreiro é discutido a partir da visão lúcida da personagem sobre as diferenças entre a colonização perpetrada pelos portugueses no Brasil, dependente da mão-de-obra escrava até o final do século XIX, a inglesa que, à época, procurava dar um outro rumo às suas colônias. O conteúdo das cartas à Madame de Jouarre, no livro de Agualusa, distancia-se da trivialidade típica das cartas dirigidas à mesma personagem no livro de Eça e das «intrigas da corte», tão freqüentes em suas cartas portuguesas. Estampa-se também, nas cartas africanas, a visão dos portugueses e africanos envolvidos no comércio ilícito de escravos e a disseminação de uma concepção de trabalho que está em muitos relatos de viajantes que estiveram no Brasil na mesma época. O trabalho é visto como uma «actividade inferior, insalubre, praticada por selvagens e cativos» (p. 16). Os costumes da terra são descritos, com o intuito de informar a seu destinatário sobre uma realidade só conhecida por aqueles portugueses que participavam do comércio de escravos, já ilegal na época. É interessante, nas cartas à Madame de Jouarre, o modo como a personagem perscruta a sociedade luandense. Fica muito claro, entretanto, que o olhar que observa a sociedade angolana, no final do século XIX, é produzido fora desse tempo, pois que a visão crítica com que muitos fatos são descritos exibe o descompasso entre os fatos relatados e a interpretação deles feita pela personagem. A proximidade entre o pensamento do escritor e a visão da personagem sobressai, por isso, em muitas das cartas. Nesse sentido, é interessante se ater ao conteúdo das cartas escritas à Madame de Jouarre pois é através delas que se pode ter vislumbrar peças da carpintaria do texto e da caracterização de um Fradique bastante consciente de relações que transformaram Luanda e o Rio de Janeiro em importantes pólos dos cruzamentos que se operaram através do Atlântico Negro. Nas rotas que ligavam África e Brasil, configuram-se particularidades do chamado «vício do comércio», que tinha na venda de escravos sua principal característica, mas que também podia ser apreendido no sistema intrincado de relações que definia as trocas e legislava sobre os modos de vida possíveis. (PANTOJA E SARAIVA,1999). Essas peculiaridades do contexto do tráfico vão tecendo um vasto painel sobre uma realidade que está ausente do texto de Eça de Queirós, mesmo quando Fradique é descrito como um misto de antropólogo e historiador, muito interessado na diversidade das culturas que conheceu. Todavia, semelhante ao texto que convoca, Nação crioula, nas cartas à Madame de Jouarre, mantém-se o aspecto confessional, principalmente quanto aos relacionados com sua vida amorosa. Se nas cartas de Eça de Queirós é Clara de Clairval o objeto do amor da personagem, cultivado com veneração, na correspondência secreta é Ana Olímpia, «a mulher mais bela do mundo!», que seduz a personagem, ocupando as muitas cartas que a personagem escreve à madrinha. Na terceira carta escrita à Madame de Jouarre, datada de junho de 1868, Fradique descreve a emoção que sentiu ao ver Ana, filha de um príncipe congolês, aprisionado pelos portugueses. Nascida em cativeiro, Ana Olímpia, casa-se com Victorino Vaz de Caminha e mais tarde, torna-se rica e poderosa e respeitada, sendo inclusive, proprietária de escravos. Nessa carta, Fradique ao ressaltar para a madrinha, o deslumbramento dessa filha de príncipe, que «rodava esplêndida nas voltas da rebita, vestindo os ricos panos das senhoras de Luanda nobremente trançados sobre o peito»(.23), faz também referência aos mecanismos de poder legitimados pelo «vício do comércio» de que falam Pantoja e Saraiva. Fica bem caracterizada, nessa carta, uma espacialidade que faz do Baile do Governador, um local cultural de grande curiosidade, pois nele se misturam os diferentes «lugares» que se cruzam no «vício do comércio»: Nos salões do palácio misturam-se comerciantes honestos e criminosos a cumprir pena de degredo, filhos-do-país e louros aventureiros europeus, escravocratas e abolicionistas, monárquicos e republicanos, padres e maçons» (P. 21). O Baile é, portanto, um espetáculo de raças e de interesses que vão sendo conhecidos através das cartas escritas pela personagem. Na carta de agosto de 1872, Fradique retoma a história de Ana Olímpia, passando à madrinha detalhes da história de Ana Olímpia: do fausto do seu casamento com o escravocrata Victorino Vaz de Caminha ao luxo em que vivia, depois de viúva aquela que viria a ser responsável pela incursão de Fradique nos movimentos em prol da libertação dos escravos em Angola e no Brasil. As cartas informam fatos relativos à história de indivíduos e a situações comuns nas sociedades escravocratas, nas quais, o escravo, sendo peça ou coisa, sequer tinha direito de comandar a sua própria vida. Por isso, não é de se estranhar que Ana Olímpia seja criada a partir das contradições características dos espaços em que a tradição escravocrata exercia-se com grande poder . A personagem oscila, pois, entre diferentes espaços retomados para se configurarem peculiaridades da terra de Luanda. Nota-se também, nas informações que Fradique vai passando à Madame de Jouarre, o fortalecimento da idéia de «crioulidade», que, afastando-se da mera referência aos matizes da cor da pele, valorizados na África e no Brasil escravocrata, ganha contornos culturais mais consistentes. As misturas comuns entre portugueses e africanos, entre escravocratas e escravos, operam um código intrincado de referências, que Fradique procura compreender, ainda que mediado pela história de Ana Olímpia. Todas essas questões ajudam a compreender o contexto em que a demanda americana por escravos, em particular a brasileira, incentivou o fortalecimento da produção e circulação de escravos, mesmo quando essa prática já estava formalmente proibida. Percebe-se o interesse do romance de explicitar as normas que legislavam sobre os modos de exportação dos escravos africanos para os locais em que seu trabalho seria necessário. Toda a intricada estrutura das relações entre os comerciantes angolanos e portugueses e entre traficantes, que, muitas vezes, podiam também ser adeptos da revolução libertária encaminhada pelos ideais defendidos pela Revolução Francesa. São essas questões que afloram na correspondência de Fradique a Madame de Juarre e mesmo nas cartas que a personagem escreve ao escritor Eça de Queirós. Em meio aos fatos históricos retomados, o fascínio de Fradique por Ana Olímpia reescreve, deslocando-a, a paixão da personagem por Clara de Clairval, descrita, em várias cartas, no romance de Eça, como deusa, como santa («Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha Fé!» p. 1097), ou associada à arte, como assinala Nancy Maria Mendes (1997, p. 263). Inspirando-se na personagem de Eça, Agualusa, no entanto, dá à sua criação contornos mais reais. O impulso natural de Fradique Mendes para as mulheres, a admiração que beira à idolatria (MENDES, p. 265) por Clara de Clairval são transmudados em compartilhamento, em ação que se distancia da pura contemplação, pois amar Ana Olímpia significa envolver-se com sua história que é também a história do tráfico de escravos e das rotas traçadas pelos navios negreiros que cruzaram os Atlântico Negro. Intermediado por uma história de amor, o comércio de escravos entre Angola e o Rio de Janeiro retomam-se, com detalhes, o comércio dos escravos africanos e a engrenagem de que fazem parte o traficante, responsável pela remarcação das rotas do Atlântico Negro, mesmo depois que o comércio livre fora legalmente abolido. (FLORENTINO, 1997). Ainda que a todo momento seja reiterado o estatuto literário do romance e seu intencional vínculo com a criação de Eça de Queiroz, o texto produz-se com deliberado diálogo com a História e, por esse motivo, as cartas fazem-se documentos de um período datado. Por elas, o leitor tem acesso à intimidade da sociedade luandense e, a partir da fuga de Fradique e Ana Olímpia para o Brasil, passa a conviver com episódios característicos da fase pré-abolicionista, no Rio de Janeiro, e com personagens do porte de José do Patrocínio, Luiz Gama e outros ligados à história do país. Todas essas personagens, ao se misturarem com os lances inventivos produzidos pelo romance, tecem um relato compósito em que pontos e nós tornam-se frouxos, pois não conseguem definir os limites entre veracidade e verossimilhança. O discurso literário, produzindo-se numa enunciação polifônica, deixa que se ouçam as vozes de diferentes contextos: o literário, que se alicerça no texto de Eça de Queirós, fazendo-o migrar para o romance de Agualusa; o cultural, que salienta o traçado das rotas do Atlântico Negro, e desvenda os sutis mecanismos do tráfico de escravos entre a África e Brasil, particularmente entre Luanda e Rio de Janeiro. Por isso, sem a pretensão de ser documento, aliás, afirmando não ser, o livro de Agualusa ajuda, entretanto, na reconstituição de uma história, cujas pontas estão sendo retomadas, com ênfase, no Brasil atual. E o caso de amor entre Fradique Mendes e Ana Olímpia, sendo ficção, torna-se peça importante do projeto de uma identidade crioula nascida das misturas que se operaram quer em África, quer no Brasil, mediadas pela presença portuguesa nesses espaços. Dados da presença holandesa em África também aparecem no romance que apropria de diferentes textos para retecer o diálogo explícito com a obra de Eça de Queiroz. Assim, ao desterritorializar o texto de Eça, tornando bastante tênues as relações entre a personagem Fradique Mendes e a sua origem portuguesa, o escritor angolano toca também na presença holandesa em África e no mercado de escravos. No plano da ficção, é a guerra entre portugueses e holandeses, na África, que justifica o aprisionamento e morte do príncipe congolês, pai de Ana Olímpia. O comércio dos escravos, a colonização do Brasil, a disputa de interesses entre Portugal e Holanda, são dados da História que, retomados pela ficção, acentuam a intenção crítica do romance e o jeito peculiar da narrativa de Agualusa de brincar com os fatos. Atento, todavia, a informações históricas, o romance recupera costumes de povos africanos, relatados nas cartas à Madame de Jouarre que, em Nação Crioula, é a destinatária do maior número de cartas escritas pela personagem criada por Eça de Queirós. É através dessas cartas que o leitor pode se inteirar das aventuras vividas por Fradique em novas terras. Mas é nas cartas que a personagem envia ao escritor Eça de Queirós que particularidades do sistema escravocrata são descritas com detalhes. Escrevendo ao escritor português, quando se tornara proprietário de fazenda e de escravos no Brasil, a personagem relata a difícil adaptação dos africanos numa sociedade dividida em senhores calçados e escravos descalços, onde a aparência e o modo de vestir transformam-se em critério para se definirem papéis e de identidades. No romance de Agualusa, Fradique vem a ser pai de uma menina, Sofia (o nome não lhe foi dado por acaso), embora, por decisão de Ana Olímpia não vivessem juntos. Fradique morre e Ana Olímpia volta para Luanda e ela quem entrega ao escritor Eça de Queirós a correspondência secreta de Fradique para que o escritor português pudesse dar conhecimento ao mundo daquele que, semelhante aos dois degredados e aos dois grumetes, descritos por Pero Vaz de Caminha, saiu da nau portuguesa para não mais voltar. São características da época atual o entrecruzamento de espaços, o alargamento de fronteiras, os trânsitos, as migrações. Embora o mundo esteja, num certo sentido, se encolhendo, as distâncias vencidas ganham outros contornos, porque se situam na dificuldade mesmo de as pessoas, podendo estarem próximas, continuarem a reforçar as separações entre elas. As migrações intertextuais e intracontextuais, tão constantes em Nação crioula fortalecem a idéia de que é ainda possível lançar-se ao mar para buscar novos mundos, conhecer novas culturas, pois o sentido da vida está nas relações que podem ser estabelecidas para melhor se compreender o mundo em que se vive. Na longa carta que a senhora Ana Olímpia, comerciante em Angola, escreve ao escritor Eça de Queirós para recontar a sua história e autorizar a publicação das cartas, referindo-se à personagem criada pelo escritor português mas, certamente sob a ótica de Agulusa, é dito que publicar a correspondência de Carlos Fradique Mendes seria “uma forma de homenagear o português mais interessante do século XIX”. Certamente que o que Ana Olímpia repete é a impressão do escritor que a criou porque está convicto de que homens como Fradique Mendes não podem ficar esquecidos, «sob a mudez de um mármore» (p. 137). Ao lançar o livro de Eça e sua famosa personagem em novos périplos, levando-os a percorrer outras rotas, Nação crioula submete-os a novos processos de restauração da memória e apresenta-os numa coreografia ousada, que aposta no traçado de rotas ressignificadoras das viagens dos aventureiros que optaram pelo risco para dar sentido à existência. Edouard Glissant (1990), da Martinica, descarta a imagem do conquistador, que aprisiona o outro em sua diferença, e propõe a figura do errante, do que vai em busca de contatos inusitados, de descobrimentos não controlados pelo desejo de apenas pilhar e amealhar. Errâncias e migrações são, no raciocínio de Glissant, o desenho de identidades compósitas, efêmeras e mutantes, que se produzem nas relações. Essa talvez seja a utopia que se dissemina com a fantasia criada por José Eduardo Agualusa, ao defender um projeto de restauração da memória que possa impedir o total esquecimento de uma história que, um dia, uniu Portugal, África e Brasil, ainda que pelas rotas traçadas no Atlântico Negro.

Referências bibliográficas

AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula; a correspondência secreta de Fradique Mendes. Rio de janeiro: Gryphus, 1998.

COELHO, Jacinto do Prado. (Dir.). Dicionário de Literatura brasileira, portuguesa, galega literária. 3ª ed. 1º volume A/K. Porto: Lavra, Livros Ltda. 1978.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Contornos de nações literárias no universo da «falescrita». Revista Scripta, n. 2, vol. 1. 1º semestre, 1998. P. 147 – 153.

FLORENTINO, Manolo. Em costas negras; uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro. São Paulo: Companhia das Letras:1997.

GLISSANT, Edouard. Poétique de la Rélation. Paris: Gallimard, 1990.

MENDES, Nancy Maria. Um amor de Fradique. Revista Scripta, Belo Horizonte, n. 1, v. 1, 2. sem. 1997. P. 262-267.

PANTOJA, Selma e SARAIVA, José Flávio (Orgs.). Angola e Brasil nas rotas do Atlântico Sul.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

QUEIROZ, Eça. A correspondência de Fradique Mendes. In: Obras de Eça de Queiroz, v. II. Porto: Lello & Irmão, {s.d.}

 

Ler 6383 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips