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O Papel da Literatura Africana o Caso Particular dos Criadores Angolanos em Português

Escrito por  Jaime Alejandre
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Em primeiro lugar, quero agradecer o convite para participar neste acto à Embaixada de Espanha em Angola, e muito particularmente a Ricardo Losa, pessoa cuja principal virtude é o entusiasmo (en-theus), isto é, ter a alma possuída por Deus.

Em primeiro lugar, quero agradecer o convite para participar neste acto à Embaixada de Espanha em Angola, e muito particularmente a Ricardo Losa, pessoa cuja principal virtude é o entusiasmo (en-theus), isto é, ter a alma possuída por Deus.

Além disso, este é um dos grandes momentos da minha vida. Em certa medida, todos os escritores europeus somos discípulos mais ou menos estudiosos de Homero, pelo que o tema do «Regresso», a volta a Ítaca, seja lá o que for Ítaca, é parte essencial do nosso imaginário de criação. E assim me sinto eu hoje, de volta a Angola, Angola no meu coração, paisagem na qual alcancei a minha estatura de homem, onde encontrei o jaime alejandre que queria ser. Regressar hoje a estas terras enche-me de alegria depois de ter vivido já doze anos na loucura triste, na melancolia. Obrigado, portanto, por me permitir, embora seja apenas por umas horas, voltar a sentir a alma de Angola impregnar a minha pele, converter-me à religião da dignidade. A minha única pena é a falta de tempo, tempo, esse conceito sensorial africano transformado em prisão pelo racionalismo europeu. Mas tempo, sim, para chegar à minha amada Lubango, aproximar-me da Tundavala, sentir que o ar me reconduz à única verdade que conheci.

Já agora, quereria também desculpar-me porque entre as minhas muitas inaptidões, está a de que não sou um tradicional poeta nómada, um músico, ou um contador de estórias da África Ocidental, de modo que não me abandonarei à confiança na minha memória e, no meu esquecido portunhol, lerei estas notas com as quais espero cumprir o que dizia o escritor espanhol García Pavón quando recomendava ao orador: «procura numa conferência mover o coração das pessoas ou eles não deixarão de se mexer na cadeira». Bem, farei o que puder, mas não prometo nada porque começo por dizer que se não quisesse dar-lhe um tom académico e cartesiano a esta intervenção começaria por delimitar através de definições o próprio titulo proposto, isto é, deixando de lado os artigos, as preposições e outras minuciosidades, começaria pelo absurdo de tentar dizer o que são a África e Angola, o que é o português e o que é a literatura.

Com respeito a Angola, ou a qualquer outra entidade de Estado, País ou Nacionalidade encontro-me com a minha dificuldade inevitável para definir qualquer território, mais ainda quando nem sequer sou capaz de fazê-lo com o meu próprio, Espanha. Após sete séculos de arabismo e apenas cinco de cristianismo, dir-me-ão quem se atirará à piscina para decifrar este enigma histórico que é a geografia política.

Com respeito ao português, que dizer, tendo em conta que em Espanha, à língua que falo a chamam politicamente castelhano, enquanto que na América Latina e na ONU se chama espanhol. Ou seja, que o espanhol seria a versão colonizadora do castelhano, não? Tal como o português em Angola. Claro que nada seria mais desesperançador e nocivo para ambos os lados da equação, que uma língua colonial. Se não, vejamos alguns textos a este respeito:

«Quando no inicio os barcos britânicos sulcavam o Nilo, traziam canhões, não pão. Construíram o caminho-de-ferro para transportar as suas tropas e edificaram as escolas para nos ensinar a dizer «sim» no seu idioma», diz Táyeb Sáleh, para logo acrescentar: “Naqueles anos construíram-se as primeiras escolas; recordo que havia uma certa desconfiança em relação a elas. O governo enviava os seus funcionários por todo o pais e as pessoas costumavam esconder os seus filhos, porque consideravam que as escolas eram uma desgraça mais a somar a tantas outras como as que nos tinham trazido os exércitos coloniais» (Táyyeb Sáleh, «Época de migração para o Norte»). Para compreender a literatura angolana comecemos por dizer que os Angolanos irrompem na literatura escrita devido à elevação do nível cultural operada nos nativos a partir de meados dos anos 40, propiciada pelos novos planos de ensino da Colónia, aos quais a estirpe mais fanática do rígido estado colonial acusaria de tentar instruir os negros para subverter a ordem estabelecida»

Sendo que, como de todos os lados lançam farpas ao idioma, melhor deixarmos este árduo tema e dediquemo-nos por fim a definir literatura. Se nos fiarmos do que diz dicionário, a literatura é a arte que emprega como instrumento a palavra. Mas a mim os dicionários, como a vida, as viagens e o amor, deixam-me sempre insatisfeito. Explico-me contando-lhes uma historia: os condenados a trabalhos forçados na Sibéria na antiga União Soviética cortavam um dedo a si próprios e atavam-no a um dos troncos da árvore que o curso do rio transportava até às fábricas. Melhor que uma garrafa atirada à água com uma mensagem dentro, o dedo indicava a quem o descobria que tipo de lenhador tinha talhado a árvore. Ninguém poderá negar que esse dedo mutilado era literatura, de onde teríamos que deduzir que literatura é Memoria e Liberdade. Claro que isto nos leva a indagar as relações entre criação e liberdade do mesmo modo como o joguinho do que nasceu antes, se o ovo se a galinha, ou, por dizê-lo com os versos dos Akán do Ghana: «o rio atravessa o caminho / o caminho atravessa o rio / Qual é o mais velho? / Fizemos o caminho e encontrámos o rio». Ou seja: é inconcebível a criação sem liberdade ou vice-versa? Certamente, o que é incompreensível é a liberdade sem criação. Porque, além disso, a criação não precisa da liberdade. O conhecimento do criado pode ser que sim, mas mesmo assim é algo de que o tempo se acaba por encarregar. Porque, vejamos, a que faltas de liberdade me refiro que sejam capazes de tentar silenciar a voz do cantor: a falta de liberdade politica, a mais evidente, a de uma tirania, que estima como única expressão artística a da unanimidade, quando precisamente a unanimidade é o veneno mortal do artista; uma tirania que vê sempre na dissidência intelectual o gérmen dos eixos do mal e da subversão, esquecendo na sua sandice que, como diz o provérbio swahili, «muito silêncio produz um grande ruído». Porém há outra falta de liberdade mais subtil e sibilina, a falta de liberdade social, a que se auto-impõe uma sociedade através dos seus costumes, dos seus medos, dos seus tabus, dos seus dirigentes culturais e religiosos, das suas contradições, dos seus... Bem, pois, como dizia, a literatura, que é memoria e liberdade, é-o de um modo tão intrínseco que nem sequer estas faltas de livre arbítrio a suportam, porque a literatura, a arte, aliam-se ao Tempo e permitem que autores que sofreram o anonimato em vida habitem o Olimpo da imortalidade no seu devido momento. Assim aconteceu com Van Gogh, que não vendeu um só quadro quando era vivo; com Fernando Pessoa, sem sair de Lisboa; com Franz Kafka em Praga, incompreendido e esquecido; com Constantinos Kavafis, apenas um discreto funcionário grego em Alexandria; com Rainier Maria Rilke, que esteve dez anos da sua vida urdindo nas suas ocultas galerias as elegias de Duino; com Nelson Mandela que durante 18 anos cultivou forçado as penumbras mas acabou derrotando a barbárie com o seu pensamento e com os seus quadros; como todo o artista, porque, como dizem os peul no Níger, «o homem paciente continua a cozer uma pedra até beber o seu caldo».

Até que por fim, após árduos e seguramente inanes esforços, apenas conseguimos sair do título e teríamos pois que falar «da Memoria e da Liberdade expressa na língua colonizadora de Portugal no território austral de Angola».

Qual é o espaço que, acredito, deveria ocupar no mundo a literatura angolana no futuro, esse futuro que começa sempre no mesmo instante de pronunciá-lo?

No Norte, como consumidor em grande escala de obras literárias escritas, surgiu um movimento que considera que a novela morreu. Porém, a coisa é mais ampla porque se assumimos que o teatro e a poesia jazem na fossa comum dos melancólicos, o que os nordacas querem dizer é que a criação de histórias e emoções se esgotou por saturação.

Não acredito em nada disto, mas se é verdade, esta crise, este cansaço, este aborrecimento tedioso ante tudo e todos no Norte deixa aberto o espaço da criação para os temas, os pontos de vista, as sensibilidades da outredade. E creio firmemente que os próximos anos serão os da arte, e mais concretamente os da literatura africana, porque é a que melhor e mais assombrosamente conecta com as grandes interrogantes do homem e poderá devolver a ilusão aos leitores. Como disse noutras ocasiões e não só em âmbitos literários, o século XXI será mestiço ou não será. E faço aqui um apartado para justificar porque não entro no velho debate dos absurdos preconceitos que se mantêm sobre a cultura africana, que são: 1º.Considerando-a um todo indivisível e unânime, como se houvesse homogeneização possível entre os tradicionais poetas nómadas, músicos, ou contadores de estórias do Congo, os mabo dos peul ou fulanis, os cantores berberes das cavilas argelinas, os poemas zulus da época de Chaka, o Napoleão Negro, os escritos dialectais árabes da Etiópia, os cânticos lelés do Futa senegalês ou os dyeli bambaras, quando ainda ninguém foi capaz sequer de reduzir ao denominador comum, verbi gratia, a novelística russa decimonónica e o realismo sujo centro-europeu. 2º. O que considera a cultura africana imóvel, ancorada no passado, incapaz de se ir transformando, morta no final. Pois já sabemos que ‘grandes’ pensadores do Norte, como o mitologista Juan Bergua, ainda têm o descaramento de dizer que «as ideias religiosas africanas não se puderam cristalizar senão em mitos carentes de poesia e de grandeza». E seguidamente, sem corar pelo paradoxo, descreve a criação de Céu, Terra e homem na mitologia de Moçambique com a estremecedora beleza que podemos a seguir desfrutar:

((«Os negros de Moçambique acreditam em certas divindades, entre outras Tilo, deus do Céu e por isso do trovão e da chuva. Acreditam também noutra vida depois desta, com recompensas e castigos (desertos para os maus e ricas pradarias cheias de gado para os bons) e por causa disso têm o costume de levar comida às tumbas para que os mortos se possam alimentar. Além disso, acreditam que Nge (criador do Universo) coloca ao lado de cada homem um anjo guardião que depois de o proteger em vida leva a sua alma para o outro mundo. Também é caso corrente a adoração do Sol e da Lua. Eis aqui como explicam porque esta tem manchas: noutros tempos, a Lua, que era muito pálida e carecia de brilho, tinha inveja do Sol, que se adornava com plumas resplandecentes. Um dia, aproveitando um descuido do Sol quando este olhava para a Terra, a Lua tirou-lhe algumas das suas plumas. Porém o Sol, ao dar-se conta, furioso, começou a atirar-lhe barro à cara, barro este que ficou pegado nela. Desde então, a Lua só pensa em vingar-se, e quando o Sol se descuida, atira-lhe barro também. Quando isto acontece, o Sol, cheio de manchas, não pode brilhar durante algumas horas. E a Terra põe-se triste, e homens e animais a quem o Sol anima habitualmente têm medo’. O mito, diz Bergua, é duplamente curioso por demonstrar o conceito que os indígenas têm dos eclipses e dos efeitos que produzem em quem os sofrem. E, vá lá, faltar-lhes-á poesia, mas não igualdade, pois outro mito conta a criação do primeiro homem e da primeira mulher, e não nasceu a segunda do primeiro e para fazer companhia ao coitado, mas sim que Mulukú, ser supremo ao qual se opõe Mineoa, génio do mal, fez dois buracos na terra: de um deles saiu um homem, do outro uma mulher. Deus deu-lhes terra cultivável, uma picareta, uma pá, um martelo, pratos e milho (este Deus foi mais honesto e deu-lhes sem pecado original o trabalho para ganhar o pão com o próprio suor do rosto). Deus disse-lhes que cavassem a terra, que nela semeassem o milho, que construíssem uma casa para viverem e que cozinhassem os alimentos. Mas em vez de o escutar, comeram o milho cru, partiram os pratos (de aí virá o inveterado costume marital), encheram de lixo a marmita e depois foram para a mata. Ao ver-se desobedecido, Deus chamou o macaco e a macaca e deu-lhes os mesmos bens e conselhos parecidos. Estes trabalharam a terra e comeram o milho depois de tê-lo cozido. Então Deus, contente, cortou o rabo (o de trás) aos macacos, pô-lo ao homem e à mulher (também no orto) e disse-lhes ‘sejam macacos’ e aos macacos ‘sejam homens’. Não sabemos como teria sido aquela primeira espécie surgida de buracos na terra, mas sim sei que sem poesia nem grandeza nos podíamos ter adiantado em muitos anos no conhecimento tão tardio e tão ocidental das teorias de Darwin»)).

Porque também temos que comprovar com estupor que alguma professora que faz uma magnífica publicação de relatos de mulheres africanas ainda está mediatizada por certo etnocentrismo antiquado quando afirma que a novela, género europeu por excelência, continua a ser o mais afastado da tradição literária africana. E não contente com isso, mantém este preconceito perturbador que diz que a leitura não pertence ao âmbito cultural africano porque é um acto individual. Ai Senhor, a que se refere, aos tempos dos mandinga de Sundiata Keita ou aos de Henrique IV em Londres?... Tendo-o dito, deitemos um espesso manto sobre o escritor sudanês Tayyeb Sáleh que disse que ‘nos assombra comprovar que alguém tão inteligente possa chegar a ser tão estúpido. Foi-lhe outorgada inteligência em abundância mas negou-se-lhe a sabedoria’. Assim sendo, volto à minha ideia de que a posição de partida da literatura africana em geral e Angolana em particular é insuperável porque contem todos os princípios que estimo sejam mais relevantes para ser veículo de cultura nos nossos dias. Alguns destes princípios, para mim, são:

1º.Imaginação: que vem de imagem e fantasia (ao fim e ao cabo a fantasia é a imaginação aplicada à arte). Os escritores angolanos em português podem oferecer imagens novas e fantasias desconhecidas face ao esgotamento, à extenuação do Norte. E quem diz imaginação diz capacidade de surpresa, único modo de atrair os que estão saturados pela mediocridade reinante. E não me refiro a que seja o exotismo na sua vertente mais pejorativa (estranho, chocante, extravagante) senão na sua mais atractiva e positiva de «estrangeiro, peregrino, diz-se mais comummente das vozes, plantas e drogas», essa identidade, esse exotismo há-de ser o que capte a atenção de leitores e catadores de arte, se é capaz de fazê-lo com a função da arte de partir da ‘nossa’ realidade para transformá-la e dá-la a conhecer. As grandes obras da literatura universal extraem a essência do seu tempo e convertem-se em eternas quando se esquece a historieta, como no caso dos Argonautas e o velo de ouro, hoje mito da viagem e então apenas busca da tecnologia ponta para a extracção do ouro. Tão nossa para uns e para outros é a criação angolana como a francesa... Mas se somos capazes de compor a imaginação permitimos que o leitor construa o olhar que não foi, porque como disse Rafael Pérez Estrada: «A arte de imaginar é a arte do inesperado».

2º.Irreverência e transgressão. Esta literatura austral, graças a Deus, ainda se mantém à margem das preconceituosas forças do mercado que tem submetido a criação setentrional no âmbito exclusivo do possível, ou seja, do best-seller. No Norte triunfou o mito de Procustes. Procustes, segundo a mitologia grega, era um salteador da Ática que agarrava nos prisioneiros, despojava-os de todos os seus bens e os obrigava a deitar-se sobre um leito de ferro construído por ele. Aos que não chegavam à medida deste esticava-os com cordas; aos que a excediam cortava-lhes os pés, reduzindo-lhes todo o tamanho exacto da sua própria mediocridade. Assim actua o mercado editorial em Espanha em linhas gerais. Mas com a agravante de que, pela ambição rasteira de crescer, muitos escritores são os próprios que antes de jazer no leito de Procustes das editoriais, se adiantam em agradar aos seus amos e limitam a sua estatura ao que aquelas lhes exigem. Pois bem, a literatura de Angola, a senegalesa, a bambara de Mali, a árabe sudanesa, a sul-africana, pode todavia ter a sua própria estatura. Isso leva implícita a necessidade de não se reduzir ao estabelecido e, por exemplo, transgredir os géneros, esses que os despachantes da literatura estabeleceram para ser capazes de entender a realidade, porque se não está estabulada escapa-lhes. Pois bem, essa transgressão de géneros é outra das questões que perfeitamente delimita a literatura africana com a difusão de géneros onde a poesia e a narração se entreverão permanentemente e onde destaca como sinal de identidade a integralidade do criador como Costa Andrade, poeta, narrador, ensaísta, pintor, porque, como disse Donato Ndong, poeta e narrador Guineense, face ao reducionismo da compartimentação artística do Norte, já disse que ‘a arte nas nossas latitudes tende a manifestar-se integral: a musica não se entende sem a poesia, nem a poesia sem a dança, nem a dança sem máscaras (escultura), nem a escultura sem pintura, e tudo isso ligado à literatura oral’). Mas a isso também há que acrescentar a integralidade do artista com o seu entorno e o seu tempo e não deixa de surpreender a quantidade de escritores angolanos que por sua vez desenvolvem ou desenvolveram muito importantes actividades sociais e politicas. O paradigma seria Agostinho Neto, claro, primeiro Presidente de Angola e fundador da União de Escritores Angolanos. Mas também temos António Jacinto, poeta e Secretario de Estado de Cultura, Arnaldo Santos, Director de uma editora, Rocha, Vice-Ministro das Relações Exteriores e Ministro do Comercio Externo, Manuel Rui, Ministro da Informação, professor de literatura, tertulianista radiofónico e um longo et caetera de escritores no mundo e não à margem do mundo realmente impensável noutras latitudes.

3º.Literatura não só visual: a ditadura de Hollywood no Norte tem vindo a impor uma literatura simplista, a do visual, que não exige o menor esforço ao leitor, que não conta com ele para nada porque lhe dá tudo mastigado, fechado a interpretações que não sejam as unívocas numa extensão do Pensamento Único politico na arte. Contudo, a simbologia das lendas bantos, por exemplo, está chamada a devolver a capacidade de reflexão cosmogónica e não cartesiana capaz de fazer-nos conectar outra vez com os grandes temas da existência humana. Recordemos que Leopold Sedar Senghor disse que «o simbolismo é consubstancial à literatura africana, destacando face ao europeu os elementos místicos e de esperança profunda». E isso, por suposto sem deixar de «dar as boas vindas» ás técnicas da linguagem cinematográfica como a que usa Ruy Duarte em «Sinais Misteriosos» ou em «Já se vê».

4º.Interessar sem intriga: pelo mesmo motivo que acabo de assinalar parece que a literatura actual só é possível se nos interessa através de intrigas (intrigas que logo são pueris, por certo), o que hoje em dia deixaria sem espaço de comunicação a obras de autores essenciais como Albert Camus ou André Gide que nos interessavam porque conectavam o leitor com as grandes ambições e inquietações do ser humano, não porque nos excitassem com enredos intrigantes. Pois bem, o mundo africano, a distinta e mais rica percepção meridional do universo está demonstrando que cativa sem peripécias desnecessárias porque contem todos os elementos que demanda grande parte da sociedade leitora mundial, a qual, graças à generalização da formação, tem a ansiedade e o interesse no conhecimento, no saber, experimentar a outredade, a diversidade apaixonante do planeta que resiste à vergonhosa doutrina da homogeneização das hamburguerias, das calças jeans, dos fatos com gravata ou dos thrillers televisivos.

5º.E o ultimo principio é o paradoxo. O mundo já está farto de certezas (como já disse griot poeta cantor norte-americano que é Bruce Springsteen que «Deus bendiz o homem que duvida do que está certo»). Sim, estamos todos cansados de tanto racionalismo agora convertido em «ranço-nalismo». Por isso, a arte há-de penetrar no paradoxo como via de diversidade que não mediatiza e o paradoxo está permanentemente presente na oralidade africana desde a Praça de Jemaa el Fna até à Cidade do Cabo.

E por fim, tal como nos dez mandamentos dos católicos, estes 5 princípios resumem-se num só, que é a Mestiçagem. O mundo caminha para a globalização com uma clara ameaça de que o exercício unívoco do poder de uma superpotência no plano económico e no militar imponha os seus modelos também no plano cultural reduzindo-nos a meros clones. Mas, ainda ante esta ameaça clara e real, tenho eu uma visão menos perversa da globalização que a que alguns dão servindo-se dela do mesmo modo que se valeram até da imagem de Deus. Não, a globalização, precisamente, o que nos proporciona é a capacidade de conhecer toda a apaixonante diversidade do homem: negro, branco, amarelo, face a supostos choques de civilizações entre realidades que se pretendem puras e estanques absurdamente, quando o século da dor, o XX, nos demonstrou o que mais repugna nos tempos que vivemos: as purezas de sangue e as entomológicas classificações dos homens pelo réu Rh. Por isso, reivindico febrilmente a mestiçagem, também respeito a literatura, porque não existe nada puro, nem a poesia sobre a qual já Miguel de Unamuno disse que «é pura como a água destilada, que é imputável, e se elabora em destilador de laboratório e não nas nuvens que se purificam ao sol e ao ar livres».

E para terminar, queria arriscar-me a citar um par de assuntos que creio que a literatura Angolana deveria evitar, e isso porque que sei que me excedi, me desacreditei, como o que dizia um escritor guatemalteco (machista e politicamente incorrecto) para quem as conferências tinham que ser como as mini-saias das mulheres: suficientemente compridas para cobrir todo o «tema» e esperançadamente curtas para ser interessantes.

Bem, o que é que se deveria evitar?:

1º. Fechar-se em si mesma, quer seja forçada a isso ou não. Abrir-se é a única coisa que tem sentido para um escritor, que em nenhum caso o faz pelo prazer onanista mas sim para comunicar. Destaquemos aqui as magníficas e relevantes edições de Basílio Rodríguez e José Ramón Trujillo e o seu compromisso pessoal através da Editorial SIAL e da colecção Casa de África ou os recentes aparecimentos de antologias de literatura africana como «Mercado de Histórias», que inclui a angolana Ana Paula Tavares em ed. Içaria. O «Poemas a la madre África» onde Xosé Lois García compila a poesia angolana do século XX, que merece comentário á parte pois abarca a Geração Mensagem daqueles que descobrirão Angola desde a Casa de Estudantes de Angola em Lisboa com Alda Lara, António Jacinto, Viriato da Cruz, Costa Andrade e por suposto, com Agostinho Neto e o Movimento dos Novos Intelectuais escrevendo sobre o desejo do regresso e do conflito entre o colonizador um homem que muitas vezes se revelou congenitamente incapaz sequer de considerar «curiosidades culturais» as manifestações de espírito dos povos que dominou e o colonizado que se rebela contra a «desnacionalização» que pretende impor-se na ascensão educativo mas que acaba reconhecendo, como Alda Lara: «Tenho nostalgia do horizonte sem barreiras». Esta antologia também inclui a Geração de Guerrilha, que nasce do «tempo de silêncio» como diz Jofre Rocha, que se impõe com toda a sua maquinaria repressiva após os acontecimentos de 4 de Fevereiro de 1961, data em que o MPLA assalta as prisões de Luanda. Uma vez mais a escrita torna-se nostálgica pois desenvolveram-na refugiados que saem do pais, guerrilheiros escondidos na clandestinidade ou prisioneiros dos campos de concentração de Tarrafal de Santiago em Cabo Verde. Embora esta nostalgia se vista aqui também de rebelião, de subversão: António Cardoso, Hélder Neto, António Jacinto ou Arnaldo Santos. Seguir-se-á a Geração de 70 com Arlindo Barbeitos, David Mestre, Ruy Duarte de Carvalho, ou o citado Rocha, juntamente com Jorge Macedo e Manuel Rui, escritores que introduzem as preocupações de tipo existencialista na literatura angolana e aos quais se segue a Geração dos Novíssimos, escritores da Angola independente cujo empurrão procede das Brigadas Jovens de Literatura e que nasce com os livros de Paula Tavares e João Maimona aos quais se unem Rui Augusto e Lopito Feijóo. Para terminar esta sucinta referencia às edições em espanhol de literatura angolana queria assinalar Seix Barral publicando este delicioso livro de Manuel Rui «Si pudiera ser una ola» (Quem me dera ser onda) ou a «Geração da Utopia» de Artur Pestana «Pepetela», em edições Txalaparta, ou «Nação Crioula» de José Eduardo Agualusa, em Alianza. Antes de passar ao segundo ponto, deveria ainda citar a contraparte de escritores espanhóis que narram sobre Angola e creio que o mais significativo é José Maria Ridao com a sua novela «El mundo a media voz». E, como a lista em realidade só tem um membro mais, vão-me permitir a descortesia de citar-me a mim mesmo e ao meu livro de poemas «Palabras en desuso» que inclui uma parte intitulada «Angola no coração», o meu livro de relatos hiper-breves «Manual de Historia prescindible» não só porque o escrevi integralmente no Lubango, Xangongo, Cahama, mas também porque recolhe vários contos «angolanos» e, por fim, adiantaria que a novela na qual estou a trabalhar actualmente tem por protagonista um capitão português que vai para a Espanha da Transição após passar a sua vida em Angola.

2º. Confundir economia com cultura. A economia pode precisar de veículos como o francês ou o inglês, muito interessantes, necessários e úteis em si para os angolanos, para os bolivianos ou para os filipinos. Refiro-me, no caso de Angola ao entorno francófono/anglófono dos seus vizinhos e concorrentes no poder («ai, ai, ai / Ninguém pode escapar / de tantos vizinhos / ai, ai, ai / de tantos vizinhos e da sua diversidade’ diz o poema banto do Congo) e parceiros comerciais. A crescente e tentadora influência anglófona em África que abre as portas ao futuro e ao bem-estar económico do enriquecimento e esconde atrás de si a desculturização. Do mesmo modo que em Espanha, membro da UE, é útil e essencial falar esses mesmos idiomas laboralmente, meio de ascensão na escala social. Mas a nenhum de nós nos ocorre escrever um poema em francês, uma obra de teatro em inglês. O veiculo da nossa emoção é o espanhol, o que é um benefício uma vez que é o idioma com maior crescimento previsto e em expansão no século XXI.

Repito, o literato cria para comunicar. Um griot aspira a que as suas genealogias cruzem África de lés-a-lés. Um escritor a que leiam a sua obra em todas as latitudes. Pois hoje o português proporciona a Angola essa possibilidade sem provocar o genocídio das línguas autóctones, coisa que não ocorrerá se se importar espureamente o inglês ou o francês como acontece na Guiné Equatorial. E, inclusivamente, desde o ponto de vista económico e no social, no cultural, no politico, parece-me que teria muita mais visão de futuro a literatura angolana se se mantém no português e trava relações literárias com o espanhol do que pretender abandoná-lo em beneficio da francofonia. O futuro literário está na América Latina, onde alem do mais a conexão cultural com a África lusófona é garantia de permanência. Porque, em qualquer caso, seria tal como quando a certo cantor, precisamente francês, muito dandy e sedutor, na sua ancianidade lhe perguntaram: Que opina da velhice, senhor Bécaud? Ele respondeu: não está mal, tendo em conta a alternativa’. Se a alternativa é o inglês mau será, porque uma das características da continuidade da Identidade angolana está na sua diferenciação. Se não Angola ver-se-á arrastada pela tradição mais longa e de maior implicação pós-colonial como a de França ou a dos britânicos. Concluo, agradecendo-lhes a vossa indulgência. Pensemos que desde o ponto de vista linguístico, não económico, a influência norte-americana do petróleo pode ser como aquilo de que fala o provérbio yoruba: «quando a morte não está pronta para receber um homem, envia a um médico especialista no momento preciso». E se cairmos no «pichinglis», não esqueçamos o que diz também o provérbio malgaxe: «a noite compacta clareia, o açambarcamento investiga-se; a grande poça enche; mas irreparável é o mal feito».

Muito obrigado.

(Jaime Alejandre)

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