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A Pedagogia do Silêncio: da Violência do Opressor á Resistencia do Oprimido

Escrito por  Maria do Carmo Sepúlveda Campos
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«Je me découvre un jour dans le monde et je me reconnais un seul droit : Celui d’exiger de l’un comportement humain.

«Je me découvre un jour dans le monde et je me reconnais un seul droit : Celui d’exiger de l’un comportement humain.

Un seul devoir : celui de ne pas renier ma liberté au travers de mes choix ». Por : Frantz Fanon

Nosso primeiro momento de reflexão sobre a representação da aprendizagem na ficção angolana centrar-se-á nas narrativas “A menina Vitória” (Arnaldo Santos) e “Zito Makoa da 4ª Classe” (Luandino Vieira), ambas enunciativas do processo de silenciamento veiculado pela instituição escolar no período colonial. Através dessas estórias, os autores encenam – usando como palco o espaço escolar – os conflitos que irromperam na sociedade angolana em consequências da presença do colonizador e da imposição de sua cultura. Tais representações criativas e ao mesmo tempo críticas reconstroem, simbolicamente, o processo de colonização, permitindo ao leitor vislumbrar, desdobrando o tecido de que elas se compõem, tanto as transformações apresentadas pelos africanos que incorporaram a cultura estrangeira, elegendo-a como seu objecto de desejo, quanto a gestação do processo de resistência que preservou os valores culturais africanos e fortaleceu a luta pela independência.

Nesse emaranhado de fios – amálgama de história e ficção – se entrelaçam códigos que traduzem o complexo contexto referencial onde se originam as estórias, ou seja, o universo multicultural marcado pela crueldade do poder, pela força da violência e pela miséria da opressão.

No contexto histórico da colonização, portanto, o homem africano, que vê rejeitada sua herança tradicional e luta para manter sua identidade, encontra como oponente não apenas o colonizador, mas, de forma paradoxal, o seu semelhante que, buscando ascender socialmente, torna-se imagem do dominador e contribui para fazer vigorar os seus estatutos. Esse cenário caracterizado pelo mascaramento cultural, pela busca de poder e pela negação dos valores autóctones é o território da menina Vitória, personagem que, ao lado de muitos outros, representa, na ficção angolana, o fascínio que o mundo do colonizador exerceu sobre o assimilado.

O colonizador, em sua política de dominação, objectivava impor aos colonizados a assimilação de sua cultura e, para isso, lançou mão, dentre outros procedimentos, do ensino da língua portuguesa, fazendo, assim, com que a escola se tornasse um dos mecanismos da engrenagem do poder, passando a funcionar completamente divorciada dos padrões africanos de aprendizagem. A imposição aos naturais da terra de conteúdos estranhos, vazios de significado, porque dissociados de seu contexto histórico-cultural, causou-lhes graves conflitos, já que estavam habituados a aprender através de experiências vivenciadas quotidianamente com os mais velhos – portadores da sabedoria. Com o passar do tempo, eles viram seus costumes renegados, sua língua desprestigiada, sua fala bloqueada, nos espaços públicos e a sua expressão prejudicada, encontrando-se, então, em uma encruzilhada permaneceram fiéis ao seu mundo e continuaram vítimas das mais cruéis humilhações ou adaptarem-se aos novos costumes, vestindo a roupagem do “outro” para ultrapassar a fronteira. Muitos africanos conseguiram fazer da assimilação uma arma para enfrentar o invasor. Conhecendo a cultura de seu oponente e dominando sua língua, tornaram-se capazes de empreender contra eles uma luta em contradições de igualdade. Outros – caso bem representado na ficção de Arnaldo Santos através da personagem Vitória – de posse do idioma do colonizador, usaram-no para galgar os privilégios oferecidos pelo poder, tornando-se cúmplices dos dominadores no processo de opressão de seus irmãos. E aqui não podemos deixar de convocar Fanon:

“Un homme qui possède langage possède par contrecoup le monde exprimé et impliqué par ce langage. On voit où nous voulons en venir: il y a dans la possession du langage une extraordinaire puissance. […] Celui qui s’éxpime bien, qui possède la maîtrise de la langage, est excessivement craint ; il fraut faire attention à lui, c’est un quasi. Banc (1952,p. 14-16).

A personagem Vitória configura o carácter autoritário, discriminatório e extremamente repressor da educação formal introduzida pelos portugueses em Angola. Aliás, comparando os traços essenciais que configuram este modelo pedagógico com os apresentados pelas escolas impostas pelos colonizadores franceses nas Antilhas (Les enfants de La Guardeloupe) ou com os que caracterizam as que conhecemos em Moçambique (Moçambique pelo povo), concluímos que a mesma educação – marcada pelo tom sombrio do silenciamento – foi adoptada pelos sistemas imperialista em relação aos povos colonizados.

A menina Vitória, investindo-se do poder adquirido ao tornar-se professora – “Tinha tirado o curso na metrópole” (Fanon, 1952, p. 40) – acredita-se portadora do mesmo saber do colonizador e assume a ideologia dominante, fazendo dela sua bandeira, impondo-se a necessidade de parecer branca e de agir como tal. Do outro lado da fronteira, “esquece” sua identidade e sua cor para incorporar a cultura/linguagem que a torna poderosa, assumindo, então, em relação aos seus iguais, o mesmo olhar discriminador e hostil dos inimigos do seu povo. Voltamos a sublinhar, detendo-nos ainda nesta personagem, que a semelhança dos mecanismos accionados pelos detentores do poder – tanto portugueses quanto franceses – se estende também aos que a este sistema foram submetidos. Para isso, lembramos as palavras de Fanon, que, referindo-se aos antilhanos, se aplicam perfeitamente aos africanos representados pela menina Vitória: “Le Noir qui connaît la métrople est un demi-dieu. Beaucoup d’ Antilhas, aprés un séjour plus ou moins long dans la métropole, reviennent se faire consacrer (FANON, 1952, p. 15).

Trazendo para a cena da ficção angolana tal personagem, Arnaldo Santos põe em discussão a complexidade do processo de assimilação, mostrando o conflito resultante da ruptura com a cultura de origem, a incorporação de novos valores e a necessidade de reelaboração de uma nova dimensão cultural a partir da miscigenação dos elementos introduzidos no universo africano. Enquanto o colonizado se limita a ratificar o comportamento do estrangeiro e repetir seus padrões, anula-se toda e qualquer possibilidade de ampliação do seu universo cultural e inibe-se o desenrolar do processo de libertação do povo. Repetimos Hobsbawn que, em consonância com Fanon, avaliza nossa afirmação:

“A verdadeira e crescente força de libertação consistia no ressentimento contra os conquistadores, legisladores, exploradores que costumavam ser reconhecidos como estrangeiros pela cor, costumes e hábitos ou como contrários àqueles que eram vistos como lhes favorecendo (1990, p. 160)”

No conto de Arnaldo Santos, a professora Vitória, apesar de ser mestiça, é o espalho da cultura europeia e, consequentemente, mecanismo de manutenção e reprodução do modelo repressor. Assimilando os hábitos e costumes do “outro”, ela nega sua origem e toda a sua cultura. Não tendo desenvolvido ressentimento contra os conquistadores que exploram seu povo, deixa de actuar como elemento de resistência contra a dominação para ser, ela própria, símbolo da estrutura dominante. Aderindo ao jogo do colonizador, realiza um trabalho que visa levar os alunos:

“A interiorizar um conjunto de valores que, nos seus aspectos decisivos, contrastam com os que encontram em seu meio familiar, valores que eles notam ser especificamente europeus e contribuírem para tornar os Europeus tão fortes, tão inteligentes e tão poderosos. Ao mesmo tempo, os alunos não podem deixar de verificar que essas virtudes não são praticadas na sua própria família e nos seus vizinhos. Aí está, antes de mais, um meio indirecto de lhes sugerir que eles são de uma espécie inferior (ZAHAR, 1976,p.92).

Pela interiorização de valores que inferiorizam a cultura africana, a menina Vitória tenta imprimir em seus alunos a mesma máscara que assumiu para ascender, máscara branca que nem sempre lhes serve. Como explicita Memmi: “Convencido da superioridade do colonizador e por ele fascinado, o colonizado, além de submeter-se, faz do colonizador seu modelo, procura imitá-lo, coincidir, identificar-se com ele” (1977, p. 8). Por isso, a professora, mostrando sem pudor sua predilecção pelo branco, coloca nas primeira filas os alunos claros e acaricia seus cabelos alourados e sedosos, enquanto humilha e despreza o cafuso que atira para o fundo da sala. Privilegia os elementos oriundos do mundo que a fascina e do qual deseja fazer parte ao passo que renega os de sua origem. São relevantes as marcações feitas pelo narrador em relação à postura da professora, contidas nas expressões “primeiras filas/ fundo da sala/ gostava de mergulhar os dedos nos cabelos alourados/ olhou-o com desconfiança” (p. 40). Tais contrastes sublinham sua intenção de abraçar o universo do dominador e distanciar-se do círculo em que se inscreve o dominado. Inverte-se, pelo olhar dessa personagem, a óptica do colonizado: o olhar de desconfiança que deveria ser lançado aos de fora – estranhos ao seu mundo – volta-se contra os seus iguais como forma de recusa de sua parte negra. Tal recusa não fica restrita aos valores culturais e ideológicos, patenteia-se, ainda, em sua aparência física, pois “renovava o pó-de-arroz nas faces sempre que tivesse um momento livre” (p.40). Por tal processo, esconde, envergonhada, sua “pele negra” para ostentar, com orgulho, sua máscara branca – passaporte para o mundo do poder.

Vejamos como a pedagogia do silêncio, sinónimo, neste caso, de opressão e pagamento do negro, é representada neste conto, acrescentando que nos interessa analisar os dois pólos de estabelecimento do processo educacional – a acção autoritária da mestra e a sua recepção por parte dos educandos – para, de posse desses elementos, avaliarmos os resultados desses procedimentos numa sociedade em transformação.

Se, por um lado, temos a figura da mestiça bem sucedida por ter sido capaz de adaptar-se aos novos padrões culturais, por outro, temos os que, humilhados e ofendidos, nutrem em si o embrião da revolta, armando-se para lutar contra os opressores e, também, aqueles que – na fronteira entre os dois universos – ainda não sabem de que lado fincar a tenda de sua identidade. Vitória-Gigi-Matoso podem ser vistos como extremidades de um triângulo traçado no espaço escolar a partir da conflituosa questão da assimilação, representações ficcionais de desejos inconciliáveis no tempo-espaço colonial: o desejo de poder desejo de prazer e o desejo de liberdade. O poder, exigindo dos africanos a negação de seus iguais; o prazer, interditado para dar lugar a novas concepções de vida, e a liberdade como troféu a ser arduamente conquistado. Reunindo tanta diversidade, a sala de aula: espaço onde o poder acentua as diferenças e nega aos excluídos quaisquer possibilidades de prazer, forjando, com ódio, seres à prova de sofrimento que fazem do sonho de liberdade a grande motivação de suas vidas.

Vitória, pelo poder que lhe concede sua função, pratica um autoritarismo exacerbado que entende seus tentáculos ao mais profundo das personalidades de seus alunos negros, inibindo-lhes a criatividade e a capacidade de expressão. Nessa escola é proibido falar a língua materna e ostentar com orgulho a origem africana:

“Porém, o seu azedume cresceu quando, tempo depois, o Matoso lhe respondeu distraidamente em quimbundu “O quê, julgas que sou da tua laia...!?” Daí por diante o seu nome era jogado pela aula com crueza, criando um símbolo maldito (p.41)”

Renovar a máscara branca com pó-de-arroz para ocultar sua cor, proibir a comunicação em quimbundu para negar sua língua de origem e oprimir os de sua raça são manifestações inegáveis de um processo de assimilação que só visa à promoção do colonizador. Por isso, temendo reprimendas e críticas, os alunos negros (ou mestiços) vão-se embotando, pois sem o desenvolvimento da auto-estima e da confiança em seus valores só lhes resta o medo, o silêncio e a revolta:

“Mas o menino cafuso chamava-se Matoso, o que, de início, pareceu ao Gigi insuficiente para justificar o seu mutismo. Vergado na cadeira. Não tirava os olhos do livro, nem mesmo quando a menina Vitória se referia a ele, quase sempre com desprezo, ao recriminar outro aluno. “Parece o Matoso a falar...” “sujas a bata como o Matoso...”, “Cheiras a Matoso...” – e ele guardava-se cada vez mais à carteira, transido por aqueles comentários impiedosos (p.40)”.

O símbolo maldito compõe-se, pela óptica dessa personagem, de uma língua desprezível, de atitudes condenadas e, até mesmo, de um cheiro que caracteriza e estigmatiza uma raça. Tornar-se impossível, para o portador de tantos traços negativos, enfrentar os colegas de cabeça erguida. Por mais que o Matoso tentasse agradar à professora, inserindo em suas redacções palavras do mundo que ela adoptara, só conseguia recriminações: “Cada vez do pior...!” (p. 42). Impotente diante do “círculo intransponível de desprezo que ela erguia à sua volta, ele já não se debatia nem chorava.

Apenas no rosto as suas feições endureciam sob a pressão dos maxilares contraídos” (p. 42). Onde não há lugar para a alegria, para a auto-estima, para o crescimento, germina e desenvolve-se, furiosamente, a semente da revolta e, com esta, o ódio que se aprofunda a cada humilhação: negada a igualdade, estabelece-se, pela acentuação da diferença, a necessidade de conquistar a liberdade, e, para isso, o “outro”, usurpador, tem que ser morto.

Concretiza-se, na personagem Matoso, a representação da teoria de Fantz Fanon de que a liberdade do colonizado só seria conquistada através do ódio desenvolvido contra o colonizador, como explicita-se no capítulo “Da Violência” em Os condenados da terra. Matoso representa – com a revolta que desenvolve contra os representantes da cultura estrangeira – o avesso da menina Vitória, para quem o mundo do colonizador é modelo a ser imitado sem restrições. Entre os dois extremos do triângulo, encontramos a personagem Gigi, que, inicialmente, sem o poder adquirido pelo assimilado e sem o ódio característico do homem africano que se sente oprimido pelo colonizador, situa-se como ser portador da indefinição que marca a fronteira entre os dois mundos. Gigi quer viver os prazeres de menino livre em contacto com sua terra e com seus amigos do musseque, mas teme sofrer os castigos que lhes são impostos. Para atender às exigências do pai branco, deve afastar-se do universo negro e de suas influências negativas:

“a pronúncia do garoto se estragava, era preciso afastá-lo da companhia dos criados e dos colegas dos musseques. Todos concordavam que era pena, porque ele já se podia considerar branco (p. 39)”.

Entre as pretensões do pai e os desejos de Gigi, um abismo profundo que só aos poucos vai-se delineando aos seus olhos. Para ser aceito naquele mundo de “meninos muito arranjadinhos, levados pelas mãos dos criados, e alguns até de carro...!” (p. 40) – representado pela escola do colonizador – era preciso abandonar seus jogos inocentes, seus companheiros do musseque e sua pronúncia marcada pelo hibridismo linguístico resultante do contacto com seu povo de origem.

Neste contexto, o ingresso na escola representa abdicar do prazer e renunciar ao exercício da liberdade, pois, veiculando a pedagogia do medo e da repressão, a instituição escolar inibe, poda e anula os que não se enquadram nos padrões socioculturais ditados pelo poder. Uma bata de brim grosso, uma pronúncia “incorrecta”, sapatos puídos ou o modo inadequado de expressar-se são marcas de inferioridade que irritam a professora e tornam o aluno inseguro: “E o Gigi diminuía-se ainda mais para não se tornar notado, esforçando-se num mimetismo impotente por imitar os gestos dos meninos da baixa” (p. 64).

Retomando algumas considerações anteriormente feitas, lembramos que uma pedagogia centrada no bom senso promove o êxito dos indivíduos, já que o desejo do ser humano é ser bem-sucedido e que, ao contrário, o fracasso provoca a inibição, limita a criatividade e aniquila o entusiasmo.

À medida que a menina Vitória rejeita a expressão e criatividade de seus alunos “marginais”, não estimula o desabrochar de indivíduos autónomos, responsáveis e participativos na edificação de uma cultura, limitando sua actuação à formação de alunos apenas capazes de imitar e reproduzir o modelo por ela estabelecido. Com este conto, temos a representação, por excelência, da escola que inibe e conduz ao fracasso os menos privilegiados, acentuando, portanto, as diferenças sociais. Alunos criativos tornam-se tímidos pela acção ameaçadora da professora:

“Nas suas redacções vagueava então tímido sobre as coisas, com medo de poisar nelas, decorava o nome das árvores, das aves, dos jogos descritos no seu livro de leitura. Procurava esquecer o colorido vivo das penas dos maracachões, dos grengos, dos rabos de junco que ele perseguia na floresta e cujo canto escutava trémulo atrás dos muxitos, o sabor ácido dos tambarinos que colhia sedento, o suor e o cansaço das longas caminhadas pelas barrocas, a emoção dos seus jogos de atreza e cassumbula. Imitava passivamente a prosa certinha do gosto da menina Vitória. Esvaziava-a das pequeninas realidades insignificantes que ele vivia, das emocionantes experiências de menino livre, agora proibidas e imprestáveis (p. 42)”.

Para evitar a vergonha de ser duramente criticado pela mestra e ridicularizado pelos colegas, Gigi tenta renunciar aos seus valores e aos prazeres oferecidos pelo universo, procurando apagar de sua memória as cores e sabores de seu mundo e as emoções proporcionadas pelo contacto com a sua realidade. Nega suas experiências significativas e profundas para “vaguear tímido” na superficialidade da imitação de um mundo que lhe é estranho e insignificante. Esse esvaziamento cultural exige ainda que se afaste do colega – símbolo maldito – de sua raça:

“Tenho que andar pouco com ele, pensava preocupado o Gigi. A professora pode virar-se contra mim. E fugia, afastava-se também da sua companhia, deixando-o abatido, solitário, dentro de suas ruínas. Tinha medo de enfrentá-la. Precisava de esconder o segredo ilegítimo do seu passado igual. Precisava de o dissimular para que não fosse destruído (p.43)”.

Mais uma vez, destaca-se neste conto a face de uma escola que exclui, segrega e ameaça. Em vez de promover trocas culturais enriquecedoras e aprofundar a solidariedade, ela isola os desfavorecidos e promove o egoísmo, expressando, assim, um semblante distorcido e afirmando-se como lugar de solidão e sofrimento para os portadores da diferença. Fora de seus muros, a aragem reparadora, os momentos de alegria, o prazer da liberdade: “E até à noite, descalço, gritava pelo bairro junto de seus camaradas do Quinaxixi a sua juventude ameaçada, correndo, bassulando, assaltando as quitandeiras de quitetas” (p.42).

A personagem Gigi situa-se entre o símbolo maldito e a possibilidade de poder, representando, assim, a fragmentação do ser angolano e sua indecisão entre o seu mundo e o mundo do “outro”. Em dado momento, chega a acreditar que, superando o traço original de sua conta cultural, seria capaz de alcançar algum tipo de alegria:

“ O Gigi naquele dia estava contente com o seu trabalho. O tema era sobre um figura importante do Governo e ele não esquecera os adjectivos mais expressivos que na véspera a professora tinha proferido. Isso dar-lhe-ia com certeza satisfação (p.43)”.

Agradar para ser aceito passa a ser a posição de Gigi, porém, mais uma vez, intransponível se torna o abismo que o separa do sucesso. No limiar da fronteira, uma figura que “parecia de pedra” barrava-lhe, friamente, a travessia: “Ouve lá... tu julgas que ele anda sujo e roto como tu, e come funge na sanzala...?” (p.44). Seu pecado – falha imperdoável – tinha sido “tratar por tu” a tão importante figura do governo, erro que o coloca, diante da turma, na mesma posição do Matoso: “deformado como caricatura” (p. 44). Então, no auge de sua fraqueza e humilhação, Gigi – representação do colonizado – se dá conta de que o único caminho para conquistar sua integridade é renegar o universo que o rejeita: furor e indignação tomam conta do seu ser:

“Os seus músculos crisparam-se e o caderno começou a amarrotar-se-lhe nas mãos. Depois mal sentiu a violência da palmatória. Só nas faces a queimadura viva da humilhação, só nos ombros a responsabilidade da sua condição, de que ele não tinha culpa, mas que queria aceitar mesmo dolorosa como as pulsações que lhe ressoavam nas palmas das mãos inchadas (p.45)”.

Com a consciência de que é impossível mudar de pele para assemelhar-se ao “outro”, Gigi assume sua diferença e escolhe o seu caminho. Sua voz soa em consonância com a de seus irmãos antilhanos que, no auge da revolta contra o preconceito, exclamam:

“Comment? Alors que dû être supplié, sollicité, ou me refusait toute reconnaissance ? Je décidai puisqui’il m’était impossible de partir d’un complexe inné, de m’affirmer en tant que Noir. Puisque l’autre hésitait à me reconnaître il ne restait qu’une solution : me faire connaître (FANON, 1952, p.93)

Agora, seu choro é de raiva e seu desejo é esconder sua angústia “com os olhos secos, enxutos, e orgulhosamente raiados de sangue, como os do Matoso” (p. 45).

Rompe-se a estrutura do triângulo e extingue-se o lugar da indefinição, inaugurando-se o tempo da resistência com o olhar de admiração lançado por Gigi aos seus iguais. Acentua-se a oposição entre colonizador (representado no conto pela figura do assimilado) e colonizado, patenteando-se a função da escola como mecanismo de dominação.

Arnaldo Santos – sem realizar rupturas profundas com a sintaxe portuguesa – registra, na narrativa em questão, a violência do colonizador e suas sequelas, sinalizando a necessidade de romper com esse modelo de violência para deixar brotar e florescer a identidade nacional. Zoomorfizada – “Realmente a menina Vitória, como uma jibóia enlaçando em cima de uma árvore, vigiava-lhe os pequenos movimentos” (p. 43) – a professora torna-se o símbolo da serpente que deve ser exterminada, pois, mesmo sem possuir veneno letal, é capaz de aniquilar suas vítimas com sua acção imobilizante: seu olhar severo poda-lhes a naturalidade, sua palavras cruéis secam-lhes o poder de criação, sua constante vigília lhes tolhe os movimentos. Com sua força asfixiante, ela consegue enlaçar o oprimido para aos poucos sufocá-lo, opacizando sua consciência, nublando sua visão e abafando sua voz.

Tanto em “A Menina Vitória” quanto em “Zito Makoa da 4ª Classe”, percebe-se um projecto estético que visa ao resgate da nacionalidade angolana. Não basta a reapropriação da terra para a fundação da nação. Talvez um processo de reconstrução que abra espaço para o africano interferir na realidade de seu país com a liberdade de pintá-lo com suas próprias cores, seja um caminho para se alcançar a verdadeira independência.

Com a abordagem realizada em “A Menina Vitória”, Arnaldo Santos põe em destaque o problema do autoritarismo em relação aos conflitos existenciais, apontando os reflexos desse embate na vida social. Em “Zito Makoa da 4ª Classe”, Luandino Vieira também elege o espaço escolar como palco de sua cena e estende suas reflexões para além dos problemas de identidade, focalizando questões sociopolíticas características de um momento em que a luta do angolano pela independência crescia e se aprofundava.

Percebe-se que estas produções literárias emergem da interpretação e representação do universo angolano, constituindo-se como expressão do discurso social vigente. Em Luandino, já se torna perceptível a ruptura literária que reflecte a ruptura histórica, social e política. Enquanto Arnaldo Santos denuncia os problemas sociais da época, fazendo uso da língua do colonizador em dominação ao colocar em prática um projecto de reelaboração dos valores locais que se reflecte não só na temática da obra, mas também numa língua híbrida, revitalizada por expressões e construções angolanas.

A representação das relações sociais na escola, englobando as noções de identidade e alteridade cultural, concretiza-se nessas narrativas através de uma elaboração estética muito bem realizada que põe em relevo a intensidade dramática dos conflitos vividos pelos angolanos. Torna-se visível, na trama bem urdida dos fios inabaláveis que, em determinado período da colonização, caracterizou um modelo de identidade que negava peremptoriamente a incorporação das diferenças. Porém, ao lado de posições tão radicais – desveladas nos textos, principalmente, pelas vozes da professora de Zito Makoa e da menina Vitória – vão surgindo e se afirmando relações que, enraizadas na solidariedade e no companheirismo, ameaçam fazer ruir o poderoso império dos brancos fundado sobre a estrutura do preconceito racial, social e económico. Comungamos com Freinet (1988, p.94) a ideia de que:

“Ainda estaríamos na pré-história se não se tivessem levantado por toda parte e não fossem ainda inúmeros os insatisfeitos e os iluminados que, estendendo as mãos para o inacessível, vão tentando ultrapassar o que é, perscrutando a noite que os oprime. São suas audácias que marcam as lentas fases do progresso, mesmo e sobretudo se eles forem as vítimas da injustiça”.

Enquanto Arnaldo Santos coloca frente ao leitor uma figura muito bem delineada – lendo o seu texto, temos a nítida impressão de conhecer a menina Vitória – Luandino Vieira nos fornece (em termos físicos) apenas a caricatura da professora que nem ao menos é nomeada em seu conto. O requinte da figura de Vitória contrasta vivamente com o aspecto grotesco da professora “cambuta” de “Zito Makoa”. Justificar-se-ia tal contraste pelo facto de a professora mestiça necessitar lançar mão de todos os artifícios para galgar a posição do branco (desde a assimilação de sua cultura até a imitação de sua aparência) enquanto a outra, por ser branca – portadora da força do dominador – poder, por isso, menosprezar a produção de sua figura?

O que nos interessa, porém, não é aprofundar tais considerações a respeito dos retratos físicos dessas personagens, mas assinalar a semelhança que apresentam no desempenho da profissão que elegeram para exercer seu poder. Aqui abrirmos um parêntese para ressaltar a pertinência – em relação a estas personagens – das palavras de Rubem Alves:

“O educador habita um mundo em que a interioridade faz uma diferença, em que as pessoas se definem por suas visões, paixões, esperanças e horizontes utópicos. O professor, ao contrário, é funcionário de um mundo dominado pelo estado e pelas empresas. É uma actividade gerênciada, administrada segundo a sua excelência funcional, excelência esta que é sempre julgada a partir dos interesses do sistema (1989, p. 15)”.

Neste aspecto, essas professoras se repetem e representam o mesmo modelo: funcionárias discriminadoras e autoritárias que fazem da escola um espaço de disputas e isolamento cultural alimentados pelo preconceito. Ambas adoptam a pedagogia do medo e do silenciamento para sustentar sua autoridade na sala, ambas demonstram a mesma capacidade de oprimir e alijar os angolanos, tentando impedi-los de participar do processo de elaboração cultural de sua terra no momento em que se concretiza a escrita de sua nacionalidade. Ambas são gerênciadas pelos interesses do sistema dominante.

O conto de Arnaldo Santos se fecha com a tomada de consciência, por parte do homem natural da terra, da luta que terá de travar para ultrapassar os muros que separam de uma existência digna e respeitada. Não basta enfrentar a frieza desumana do invasor, é preciso, também, encarar o ódio dos seus irmãos “branqueados”:

“«Mas porquê que ela, logo ela, o queria humilhar? Ela que tinha carapinha. Ela que era filha de uma negra, pensou com furor» (p. 45). Já o Luandino Vieira abre-se com a discussão do aprofundamento dessa consciência: Zito Makoa é a representação do indivíduo africano que, assumindo sua diferença, luta para ampliar seu espaço na sociedade e modificar a situação de desigualdade instalada em sua terra”

Um aspecto, em especial, nos chama a atenção nesta narrativa de Luandino Vieira: enquanto os adultos (representados pela professora e pelo director da escola) mantêm uma postura inflexível em relação às diferenças sociais, a ruptura com esta estrutura limitadora e excludente se dá através de duas crianças que, ignorando as barreiras que as separam, criam um forte vínculo de amizade. Zito Makoa e Zeca Silva retractam uma visão de mundo que sustenta a revitalização dos relacionamentos sociais através da incorporação das diferenças. A escola apresenta-se, através do papel desempenhado por essas duas personagens, como um lugar de trocas, de aproximação e de enriquecimento cultural, pois propicia a realização do encontro, o olhar de reconhecimento dos valores do outro: o sabor inesperado de seu alimento, a novidade de seus hábitos, a deliciosa descoberta de suas brincadeiras. Realiza-se, nesse encontro, o que vimos esboçar-se entre Gigi e Matoso. Abolidos os medos, estreiam-se os laços que apagam as desigualdades:

“É que Zeca e Zito eram amigos de muito tempo, desde a primeira a escola era mesma e os dois gostavam sair nas aulas para caçar os pássaros nas barrocas das Florestas... sempre trocavam suas coisas, lanche de Zeca era para Zito e doces de jinguba ou quicuérra do Zito era para Zeca. Um dia mesmo, na terceira, quando Zito adiantou trazer uma rã pequena, caçada nas águas da chuva, na frente da cubata dele, o Zeca, satisfeito, no outro dia lhe deu um bocado de fazenda que tirou ao pai. Eram esses calções que Zito vestia nessa manhã quando chegou no amigo para lhe contar os tiros no musseque e corrigir ainda os deveres, mania antiga (p. 159)”.

A incorporação cultural, nesse caso, vai muito além do interesse pelo poder que levava alguns africanos ao mimetismo dos hábitos do branco para a ele se assemelharem. Aqui, o que vale é a admiração, o respeito e a amizade, permitindo que um penetre no universo do outro, sem abdicar de sua própria identidade. O africano pode provar o alimento do estrangeiro enquanto lhe permite também conhecer a doçura de seus frutos; uma simples rãzinha – presente inestimável para o branco que não saberia capturá-la – é retribuída com a fazenda que veste Zito Makoa. E o diálogo tecido por esses dois companheiros ainda não pára por aí. Os ataques ao musseque – referência à luta que se trava pela libertação – assim como os deveres de casa, tudo é compartilhado. As balas utilizadas contra os africanos, carregadas de um conteúdo mortal, retornam, pelas mãos do amigo, vazias, desprovidas de qualquer ameaça, transformadas em oferta pacífica. Zeca e Zito estendem suas mãos e expõem – através da beleza narrativa de Luandino Vieira – a inegável semelhança que define todos os brancos e negros, mesmo os que, minados pela força negativa do preconceito, se isolam em seus mundos: a palma da mão cor-de-rosa.

“Viu Zito mostrar as três balas vazias, amarelas, a brilhar na palma da mão dele cor-de-rosa...(p. 159) ...pôs outra vez na mão do amigo as três balas vazias, que luziram amarelas na pele cor-de-rosa de Zeca Silva. (p.166)”.

Na palma da mão se desenham os sinais que identificam os seres; nela se encontram registradas as impressões que marcam a individualidade característica do homem, mas nela também espaço do corpo, se dilui a diferença de cor. E Luandino traz para o seu texto o traçado diferente dessas linhas que enlaçam na semelhança dos rosados tons, sublinhando a possibilidade do encontro de valores diversos, harmonizados na consonância da solidariedade. Não seria Zeca Silva a representação do indivíduo que, mesmo sendo portador dos poderes conferidos pelo estatuto de colonizador, é capaz de se integrar ao grupo dos colonizados por assumir uma ideologia de igualdade e liberdade? Não estaria representada, nesta cena ficcional tão bem tramada, a origem do pacto que, reunindo intelectuais de diferentes origens, solidificou a resistência empenhada em resgatar a dignidade dos oprimidos e combater a violência dos opressores, afirmando a validade dos anseios de liberdade e justiça?

A literatura angolana registra em suas representações ficcionais não apenas os momentos mais significativos da luta que se travou em Angola entre colonizadores e colonizados, mas também os desdobramentos desses conflitos. No conto em questão, pode-se ler – no espaço limitado pelos muros da escola – comportamentos bem diversos desenvolvidos no mesmo colectivo. Em oposição à lição de companheirismo e cumplicidade que ultrapassa as fronteiras raciais e culturais, presenciamos o exacerbado preconceito que aprofunda o isolamento dos indivíduos desfavorecidos pelo poder. A acção discriminadora da professora é imitada pela maioria dos alunos brancos que se tornam tão cruéis, em suas acusações injustas, quanto ela. Luandino ressalta a conduta equivocada da mestra cujo perfil é delineado pelo ódio, pela violência e pela injustiça logo início do conto: entrando em classe e percebendo a desordem causada pela briga entre os meninos, antes mesmo de saber quem a provocou, castiga Zito Makoa, o negro, para, depois, procurar informações sobre quem teria iniciado a peleja. Não obtendo respostas, volta a agredi-lo fisicamente e tenta, pela violência, fazê-lo confessar sua culpa, responsabilizando-o por todas as complicações que acontecem na turma. Interessante é sublinhar que ela deseja amedrontar, calar e imobilizar todos os alunos para melhor patentear o seu poder – tanto que pluraliza os adjectivos que usa para insultá-los –, mas apesar de dirigir ao grupo, esbofeteia e tortura apenas o negro: bode expiatório na garantia de sua autoridade.

“Arrancou para o meio dos miúdos e pôs duas chapadas na cara de Zito. O barulho das mãos na cara gordinha do monandengue calou a boca de todos...[...] Raivosa, a professora deu um puxão na manga de Zito e gritou-lhe: - Desordeiros, malcriados! És sempre tu que arranjas complicações!... E os gritos, os insultos escondidos, apertaram-se à volta de Zito Makoa enquanto a professora sacudia com força o braço, para ele confessar mesmo. O miúdo, gordinho e baixo, balançava parecia era boneco e não chorava com soluços, só as lágrimas é que corriam na cara arranhada da peleja que tinha passado (p.157-158)”.

Com “Zito Makoa da 4ª Classe”, o leitor percebe, no espelho ficcional angolano, duas faces da aprendizagem: uma sombria e terrivelmente deformada; outra, expressão luminosa dos traços que anunciam uma renovação

A primeira se apresenta pela personagem da professora, pois o que se visualiza no reflexo de sua figura não são traços de uma educadora, mas, ao contrário, o perfil amedrontador de um carrasco empenhado em torturar sua vítimas. É Luandino Vieira que, através do vocabulário que emprega para descrevê-la, nos autoriza esta afirmação. Além da violência dos castigos físicos:

“Duas chapadas na cara de Zito (p. 157); um puxão na manga (p. 157); sacudia com força o braço (p. 158); a primeira ponteirada bateu certinha, como era técnica da professora, na orelha do Zeca (p. 163); as ponteiradas continuaram a bater-lhe na cabeça e no ombro (p. 163) Zito caiu com o puxão da professora (p. 163); as chapadas choveram de toda parte e, quando a professora acabou, levou-lhe pelas orelhas, no gabinete do director da escola (p. 163)”-

suas palavras são agressivas, tanto pelo sentido insultuoso: “miúdos ordinários, desordeiros; malcriados” (p. 157); “Ah, não! Vadios na escola, não! Malandros, vadios de musseque! Negros! Todos iguais, todos iguais...” (p. 164), quanto pelo tom raivoso com que são proferidas: “A fala irritada da mulher cambuta e gorda fazia-lhe ainda tremer os óculos na ponta do nariz” (p. 157); “O berro encheu a sala e o miúdo levantou da carteira onde estava esquivado desde o princípio da conversa” (p. 162). Em nenhum momento essa figura odiosa deixa transparecer um gesto de bom senso ou de segurança profissional. Além de não contribuir para que em sua classe se realize um trabalho de crescimento através da harmonização das diferenças, ela promove a acentuação da injustiça, na medida em que actua sob a batuta do preconceito. Sua acção contrasta inteiramente com o que se espera, segundo Freinet, dos relacionamentos na sociedade escolar:

“Na escola deve-se conservar ordem, disciplina, autoridade e dignidade, mas a ordem que resulta de uma melhor organização do trabalho, a disciplina que se torna solução natural de uma cooperação activa no seio de nossa sociedade escolar, a autoridade moral primeiro, técnica e humana depois, que não se consegue com ameaças ou castigos, mas por um domínio que leva ao respeito; a dignidade do educador que não se pode conceber sem respeito total pela dignidade das crianças que ele quer preparar para a função de homens (Freinet, p. 92)”

Como sublinhamos anteriormente, o ódio da professora “cambuta” concentra-se contra a figura do negro e, ao acusá-lo publicamente sem conhecimento de causa, abre espaço para que toda classe siga o seu exemplo. Notemos que, inicialmente, “ninguém que se acusou” (p. 157), mas quando a professora profere o “és sempre tu que arranjas complicações” (p. 157), desencadeia-se a fúria de toda a gente e as acusações chegam de todos os lados, aprisionando Zito num círculo de hostilidade que o imobiliza: “parecia era boneco”. No entanto, isso não lhe tira a coragem nem a força interior: “não chorava com soluços, só as lágrimas é que corriam na cara arranhada” (p. 158). Dentro do círculo da discriminação e da injustiça, destacam-se as faces da coragem e da resistência: a “cara arranhada” de Zito Makoa deixa entrever os “olhos orgulhosamente raiados de sangue” do Matoso. Da forja do autoritarismo surgem as têmperas indomáveis dos que escrevem com as tintas da subversão a história dos que foram colocados à margem.

Distanciando-se de sua função de educar, essa professora passa a desempenhar papel similar ao do policial cuja obrigação – na sociedade colonial – é manter a ordem estabelecida pelo poder e submeter os que lutam para subverté-la. E, mais uma vez, é em Fanon que encontramos raspaldo para o que afirmamos:

“Nas regiões coloniais, o gendarme e o soldado, por sua presença imediata, por suas intervenções directas e frequentes, mantêm contacto com o colonizado e o aconselham, a coronhadas ou com explosões de napalm, a não se mexer. Vê-se que o intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário não torna mais leve a opressão, não dissimula a dominação. Exibe-as, manifesta-as com a boa consciência das forças da ordem. O intermediário leva a violência à casa e ao cérebro do colonizado (1968, p. 28)”.

A figura da professora “cambuta”2 ameaça e amedronta, banindo qualquer possibilidade de cumprir – pela sua acção de mestra – o que Snyders preconiza como essencial na comunidade escolar: a garantia da segurança do crescimento cultural e da alegria:

“A condição primordial para um educador bem-sucedido é que, ao longo de todas as suas dificuldades pedagógicas - sobrepostas evidentemente às dificuldades pessoais e familiares – o professor mantenha um potencial elevado de alegria, pois seu papel é convencer os alunos de que a escola e a existência, agora, e aquilo que os espera depois merecem que eles se esforcem em crescer (1993, p. 88)”.

Sua conduta, como vimos, não só inibe o estreitamento das relações sociais, mas também incentiva atitudes racistas que aprofundam o ódio e as dessensões. Como promover a alegria, se ele retracta apenas raiva, irritação e crueldade? Como levar ao crescimento, se sua filosofia é podar, reprimir, anular?

À medida que penetramos no denso tecido que compõe esta narrativa, amplia-se, aos nossos olhos, a oposição que se revela entre o lado sombrio da pedagogia – traduzido em opressão e silenciamento – e o que simboliza a luminosa alegria de uma aprendizagem fundamentada na confiança e na igualdade. Esta, contrariando os estatutos praticados pela mestra, floresce e frutifica nos domínios da força solidária que anula as desigualdades.

No entrelaçar da trama urdida com os frágeis fios de delação, da mentira, do rancor, da hostilidade e do racismo (para não nos alongarmos em enumerar tantos outros), surge a resistência traçada pelas linhas que constituem a beleza do bordado: os gestos solidários, a delícia experimentada nas trocas, a confiança de compartilhar o mas íntimo segredo, a coragem de arriscar-se em nome da amizade, enfim, o pagamento das fronteiras raciais e o nascimento de uma esperança para a (re)construção cultural. E, mais uma vez, nebulosos se tornam os limites entre realidade e ficção quando colocamos face a face o texto – espelho sobre o qual ora nos debruçamos – e o depoimento de Luandino: “[...] foi a vivência da infância que ditou valores como solidariedade, valores como amizade, o muito respeito que tenho pela vida e o medo nenhum que tenho pela morte!”3

Concretiza-se, como ficção extremamente bem realizada, a reprodução de um momento histórico de irrefutável importância para a libertação de Angola: o estabelecimento da luta armada.

Os bastidores dos movimentos de resistências são sugeridos nas estrelinhas desta narrativa de Luandino através do episódio do bilhete escrito por Zito Makoa: “ANGOLA É DOS ANGOLANOS” e do clima de suspense e sigilo que se cria em torno destas palavras tão dificilmente resguardadas pela coragem de dois “pioneiros” que – mesmo representando raças distintas – pactuam com o sonho de liberdade cuja expressão é registrada pelas letras gordas e tortas de uma criança angolana. A luminosidade da esperança de novas conquistas expande-se na segunda parte do texto e fundamenta-se na possibilidade de mudança a partir do encontro dos desiguais. Quando Zeca vai em busca do amigo que se encontra isolado em seu castigo: “Não podia deixar o Zito sozinho, fechado no quarto do director, sem ninguém, abandonado com as dores...” (p. 165) depara-se com a beleza da manhã, símbolo da existência de um espaço possível de ser conquistado:

“No jardim da frente tinha pardais a cantar nos paus e, nessa hora das onze, um sol bonito e quente brincava às sombras com as folhas e as paredes. Trepado num vaso alto, Zeca Silva, o coração a bater de alegria parecia que ia lhe saltar do peito, empurrou a janela de vidro do quarto do director e chamou: - Zito! O amigo veio devagar, desconfiado e medroso, mas, quando viu era ainda a cara do Zeca a espreitar, quis pôr um riso no meio do choro calado, mas não conseguiu. Desatou mesmo a chorar com toda vontade. - Zito, deixa não chores. O bilhete está aqui, o nosso bilhete está aqui. Ela apanhou. Aquele era outro (p. 166)”.

Arriscar-se além de seus limites, ultrapassar as fronteiras sociais, raciais e políticas para ir ao encontro do outro significa assumir com ele a mesma bandeira de luta, e nesta – “ANGOLA É DOS ANGOLANOS” – concretiza-se o verdadeiro sentido da aprendizagem vivenciado por Zito Makoa e Zeca Silva: a descoberta da confiança, o significado da igualdade e a doçura da alegria. com isso, os dois amigos enfrentaram a hostilidade dos colegas, a crueldade da professora e a autoridade do director para preservar a mensagem de liberdade que lhes infundia coragem e resistência. A causa passa aos pertencer a dois, na medida em que Zeca também assume a posse do bilhete. A peleja apenas se inicia: muitos ferimentos, dores, traições e lágrimas ainda virão surpreendê-los na estrada que escolheram, porém, a força paciente do peixe (Makoa) aliada aos pacíficos gestos do pardal (Zeca) selam uma aliança que, a exemplo de muitas outras que se efectuarão, desenha-se no céu de Angola como promissor “colar de cores amigadas” (VIEIRA, 1987, p. 13). “Cada cor é o arco-íris” (VIEIRA, 1987, p. 89).

NOTAS

1 Arnaldo Santos, ao introduzir na narrativa vocábulos como: cassumbula, muxito, atreza etc., regista em seu texto marcas da língua do colonizado. 2 Usando o adjectivo cambuta (anã), Luandino remete para a pequena estatura profissional da professora. 3 LABAN, Michael. “Encontros com Luandino Vieira em Luanda”. In: Luandino. José Luandino Vieira e sua Obra. 1980, p. 18.

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