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Angola: Pelo Fio das Estórias, a Face Revelada

Escrito por  Maria do Carmo Sepúlveda Campos
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Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo – a luz do candeeiro e a luz da primavera – dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombras e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir. Por: Sophia de Mello Breyner Andersen

Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo – a luz do candeeiro e a luz da primavera – dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombras e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir. Por: Sophia de Mello Breyner Andersen

Caminhamos pelas trilhas de Angola ao lado dos oprimidos e com eles lemos a crueldade da opressão, a violência da guerra e a miséria do preconceito. Com os que desertaram da eterna luta pela conquista da dignidade vivemos o desencanto, e com os que forjam a resistência, sentindo em seus corpos as marcas do poder, avaliamos o abismo das desigualdades. Nossa trajectória em terras angolanas deu-se pelos mapas da ficção e, através deles, buscamos decifrar a dor dos humilhados, a arrogância dos poderosos, a esperança dos resistentes e a coragem que descobriram o preço da liberdade.

Luuanda foi o primeiro e irrecusável convite e, pela fascinante narrativa de Luandino Vieira, nos decidimos a enfrentar o desafio de conhecer Angola. Mais tarde, encontramos Manuel Rui e a pungente força de sua voz somou-se às denúncias de Pepetela e de Arnaldo Santos. Estava concretizado o namoro e a paixão crescia diante de cada descoberta: novos olhares de encanto, o fascínio pelo mistério e a confirmação de antigos desejos forjavam a aliança e selavam a cumplicidade que nos induzia a partilhar as mesmas trilhas.

Não estávamos sozinhos nesta caminhada. Acompanhávamos os passos de Paulo Freire (e sabemos quão produtiva foi a sua passagem pela África) sem perder de vista as rotas traçadas por Fanon para trazer à luz o desejo dos que se encontram nas margens. Afinal, “os condenados da terra” e os “oprimidos” não representam, de igual maneira, a face sofrida dos excluídos?

Sob a bandeira de Freinet e de Makarenko fomos levados ao interior da batalha pela educação e, assim, pudemos criticar a pedagogia silenciadora da menina Vitória, da professora “cambuta” e dos representantes do Centro de Investigação Pedagógica, assim como revelar a luminosa face de uma educação libertadora representada por União e pela professora dos filhos de Diogo.

Madrugávamos para viajar com Ngunga e conhecer, pelo seu olhar – ora maduro, ora inocente – , o coração da guerra pela libertação, as ruínas das estruturas sociais e a esperança da transformação da sociedade angolana através do resgate da dignidade e da construção de um carácter incorruptível. E a noite nos encontrava a sofrer com a menina Santa os maus tratos da madrasta, a dor da diferença e a urgência de buscar um motivo para viver. Em nossos sonhos, porém, abraçávamos a confiança de um novo amanhã para Angola ao recordarmos o sorriso do Zito Makoa, a solidariedade de Zeca Silva, Ruca e Beto: “onda ninguém amarra com corda, quem me dera ser onda” (p.63). e nossa alma se alegrava com a possibilidade da esperança.

Nesta pequena jornada de aprendizagens, chegamos, pela convivência com estas companheiras personagens, a algumas conclusões que desejamos registrar: Ngunga, iniciando nas trilhas da liberdade, realizou uma caminhada que ampliou sua visão de mundo e o capacitou a tomar, em momentos dramáticos de sua existência, as mais difíceis e irreversíveis decisões para alcançar seu sonho de ser guerrilheiro e lutar pela independência; enquanto Santa, criada por uma madrasta repressora, tendo aprendido as dores dos castigos físicos e a humilhação do desrespeito aos seus desejos, encontrou-se, conduzida pelos seus conflitos, nas perigosas fronteiras entre a loucura e a razão, tendo de lutar ferozmente para auto-afirmar-se e realizar seu sonho de ser mãe. As consequências de uma educação castradora podem ser avaliadas no tímido comportamento de Gigi e em suas redacções limitadas pelo medo de errar e pela necessidade de imitar uma expressão estranha ao seu universo, ao passo que, como resultado da acção libertadora da camarada professora, temos a riqueza expressiva de Ruca, que registra sua idéias numa redacção onde a liberdade de criação tem o seu lugar garantido. Muitos gestos solidários reforçaram o poder de resistência dos que lutaram, assim como posição arbitrárias inibiram o desabrochar da confiança e aprofundaram diferenças.

Agora, estamos chegando ao fim do percurso e reconhecendo a impossibilidade de trazer para o nosso limitado texto muitos outros personagens que já fazem parte da nossa vida. Ao lado dos que elegemos, tornariam mais expressivo o perfil desta caminhada: a menina Glória1 – outra face de Vitória – permaneceu resguardada em sua escola, mantendo fora da cena suas inseguranças e sua medos; Kahitu2, exemplo de perseverança e generosidade, capaz de superar o estigma da diferença, permanecerá em nossa memória, aguardando um novo encontro; o velho Pedro (SANTOS), 1985), representação primorosa do mistério que envolve e mitifica os portadores da sabedoria, também não teve seu lugar neste tecido que, com o fio das estórias, revelou as faces da aprendizagem. Porém, por constituírem presenças tão marcantes, permanecerão inesquecíveis e, quem sabe, serão capazes de, algum dia, propor nova parceira...

Por enquanto, a força do silêncio que se abateu sobre Angola nos contagiou. Agora, a veemência dos noticiários a revelarem a face dilacerada de uma nação que permanece lutando contra a ganância dos poderosos ( o “outro” agora são muitos), alimentado uma guerra sem fim.

É urgente, para realimentar nossa esperança, descobrir outras notícias encontrar diferentes estórias, fabricar novas utopias e, sobretudo, acreditar que muitos são os “que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir”.

Notas

1 Vieira, Luandino. “Estória d’ Água Gorda.” In: No Antigamente, na Vida. Lisboa: Edições 70, 1977 2 Xitu, Uanhenga. “Kahitu”. In: “Mestre Tamoda” e Kahitu. São Paulo: Ática, 1984

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