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Enlirização (Processos e Técnicas de Criação Poética)

Escrito por  Jorge Macedo
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IV

Cioso de seu ofício, o poeta é um cisne que foge de sensibilidade reducionista do fenómeno literário. Posto que época, após época (20, 30 anos?),

 

Cioso de seu ofício, o poeta é um cisne que foge de sensibilidade reducionista do fenómeno literário. Posto que época, após época (20, 30 anos?), as “novas poesias”, se vão sucedendo umas após outras, necessário se torna repensar a cada passo o fenómeno para não se tornar prisioneiro das vogas estilísticas, as quais “em” seu e a “seu” tempo se afirmam como última palavra, acabando por serem menosprezadas por novas e outras correntes.

Este menosprezo joga o jogo no estreitamento da sensibilidade poética, que se requer de vistas largas e sem fronteiras. Pois, como se disse em número III da presente reflexão, as literaturas são o somatório de todas as correntes e idades literárias, época após época, como o reconhece Adonias Filho, em seu prefácio “A Nova Poesia Brasileira”, inserto na obra Antologia da Nova Poesia Brasileira (1):

“E porque realizavam (os poetas da “nova poesia”) experiência comum, trabalhando uma só atmosfera e provocando ressonância geral através das manifestações próprias, tornaram-se agentes da continuidade que histórica e culturalmente concentra os movimentos-prè-modernismo, modernismo, pós-modernismo, pós-modernismo de “nova poesia” - na mesma poesia. A necessidade em manter-se essa continuidade, de algum modo a afirmação tradicionalista a que não escapa qualquer movimento literário, não responde apenas pela herança do clássico modernista sobre a nova poesia. Responde pela presença, nela, dos elementos líricos derivados do cancioneiro popular e anónimo que não a perturbam na intelectualização. Situada aí, em todas essas bases que têm a oralidade como origem extrema, a “nova poesia” Não seria irreconciliável com as velhas e as mais recentes posições”.

Com efeito, assentando as correntes literárias em estilísticas próprias, os recursos de significação contrastam em razão de diferenças de codificação. É em razão deste princípio que os modernismos, as “novas vagas” não são só, por esse facto, corolário de melhor e maior poesia, no espaço e no tempo

O que se chama modernismo em literatura equivale mais à conquista de expressões originais, aí quando o escritor e a sua geração estilística compreendem que a linguagem é um universo infinito, onde se movem sempre milhentos mundos estéticos por descobrir.

E se a História Universal da Literatura ensina que a permanente busca de originalidade é factor de enriquecimento do património das Belas Letras, também ela dá relevo a um número significativo de obras que, pelo seu vanguardismo temático-estético, superiores e inigualáveis, caminham avantajadamente, frente a épocas e modernidades.

Publicado em 1572 (2), Os Lusíadas, de Luís de Camões, há cinco séculos que nenhuma obra épica os suplanta.

Na literatura angolana, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto, Mário António, Alda Lara, Ernesto Lara Filho, Aires de Almeida Santos, Bessa Victor, Maurício Gomes, etc., escreveram poemas imorredoiros, difíceis de apagar na memória colectiva dos angolanos.

Em Angola novos e velhos poetas caminham lado a lado, contemporâneos, heterogéneos, subscrevendo cada um em seu idolecto páginas dignas de nota, certos que uma literatura é uma orquestra composta por vários instrumentistas, tocando instrumentos diversos, de timbres diferentes e partituras, cuja harmonia e beleza, resultam do concurso de todas as vozes musicais, no espaço e no tempo. Razão por que, a literatura se pode definir como uma inesgotável polifonia interpretada por várias épocas e gerações.

Luanda, 12 de Abril de 2002-04-09

Jorge Macedo

Notas

- LOANDA, Fernando Ferreira de, Antologia da Nova Poesia Brasileira, Rio de Janeiro, 1970, pp. 366 - citação de página 14 - CAMÕES, Luís de, Os Lusíadas, Porto, 1958?, - data citada página 20.

Enlirização (Processos e técnicas de criação poética) V

O talento, o génio, o domínio de poéticas ou teorias do ramo concorrem para o conseguimento de textos, estética e estilisticamente de valor maximizado.

No que concerne a regras de elaboração, hoje em dia é mais corrente escrever-se poesia em verso livre, introduzido no mundo das Letras pelo poeta norte-americano Walt Whitman, na obra Folhas de Erva (Leaves of Grass, 1855).

Relativamente à forma, Gustave Kahu, poeta e principal teorizador do VERSO LIVRE, procurou estabelecer-lhe os princípios, que podem ser assim resumidos: O verso deve possuir sua existência própria e interior, consubstanciada numa coerente unidade semântica e rítmica; A unidade do verso será então definida como fragmento mais curto possível, em que haja uma pausa da voz e uma conclusão de sentido; A estrofe não terá mais um desenho prè-estabelecido, mas será condicionada pelo pensamento ou pelo sentimento; A inversão e o cavalgamento serão recursos que devem ser banidos do verso (p 689) “ (1)

Para além de outras e cada vez mais renovadas conquistas de novas linguagens, os princípios atrás citados, encontram-se quase sempre imanentes em textos de inigualável qualidade.

A título de exemplo se transcreve, do poeta angolano, João Tala, o poema intitulado

SE OS MEUS OLHOS ADORMECESSEM

No entanto, eu quero saber se os meus olhos

Se contemplam em teus lençóis de neve: berço

Dividido a dois: nunca pensei deste lado novo,

A vida em tuas águas sempre excitadas pela

brasa e pelos desejos. Com as amêndoas que

redundam em Íris verdadeira, sentada em sua

propriedade : vastos campos de flores que se

alongam, léguas que se quebram nos joelhos.

Os pés imigram sobre a tapeçaria, são impérios.

É uma ilha o que pisas e desfloras? Só depois

Sobem os meus pés repletos de sialorreia farta

e desejos. Nunca foram amados como quando

de novo as léguas se quebravam na cintura.

Sob os pés adormece a ilha glabra. Na ilha busco

os pés que dormem, o perfume de uma amarga víscera.

são os meus olhos em teus pontos cruciais. (p)10

- CUNHA, Celso e CINDLEY, Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Editora João Sá da Costa, Lisboa, 2888, pp. 734 - TALA, João, A Forma dos Desejos, União dos Escritores Angolanos Luanda, 1997, pp. 24

Enlirização (Processos e técnicas de criação poética) VI

Poetas há que conseguem grandes voos criativos e de significação, recorrendo ao verso métrico. É o que acontece com o poeta brasileiro Nilo Aparecido, no soneto “O Bloqueio” :

Incapaz de romper este bloqueio

Contemplo a minha ilha: além das brumas

A lua do conflito. Pó de espumas

E de regressivas asas me rodeio.

O tempo é de aridez sob o presente

Abstenção do ser, previsto alude.

Sem radiogramas e sem latitude

eis-me perdido para o continente.

Oh as interferências repentinas

fundas cavilações submarinas

Com seus cerceamentos e seus torpedos.

Sem outra alternativa - a inércia ou a chaga

Decide o rumo: me arremesso à vaga

Para me desligar dos meus rochedos (1)

Dos dois textos poéticos, atrás citados, do angolano João Tala e do brasileiro Nilo Aparecido Pinto, exemplar e altamente bem elaborados, regras-chave há a retirar.

E a primeira diz respeito à coerência semântica do léxico poético, das imagens, dos enunciados, com o tema de cada composição. Ambos os artistas procuraram o termo apropriado, o vocábulo condicente com o tema interpretado, sem fazer concessões a errâncias terminológicas arbitrárias, desfasadas do universo significativo e/ou das figuras apropriadas e não quaisquer.

Ao léxico poético ou a/s palavra/s carregadas de muita conotação, ou estilisticamente figuradas em top de arroubo imagético, os dois poetas juntaram.

Enorme talento criativo, a partir de um campo semântico servido dos subuniversos temáticos, quanto significativos que os envolvem, por vezes até a quase exaustão dos recursos.

Versando um tema erótico, recorrendo a linguagem refinada, elegante, subtil, não desbragada, Tala arquitectou seu mini-texto em várias bases estruturais, nomeadamente sub-elementos temáticos (lençóis de neve, berço dividido a dois, águas excitadas pelos desejos, a propriedade das amêndoas ou formato do óvulo sexual, campos de flores ou o prazer conexo ao acto, imigração dos pés sobre a tapeçaria ou ritmos da excitação, léguas ou as distância entre o desejo e o “consumatum est “, ilha ou lugar do repouso do gozo fruído).

- LOANDA, Fernando Ferreira de, Antologia da Nova Poesia Brasileira - 45 , Livros de Portugal, Rio de Janeiro, Orfeu, 3ª edição, 1968).

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