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Música Africana de Raíz e Música Aculturada Intinerário e Convergência

Escrito por  Jorge Macedo
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O termo tradicional inspira-se na sobrevivência das culturas, no espaço e no tempo. As renovações passageiras de valores, que se substituem uns aos outros, fora de um tronco comum contínuo, despesonalizam as comunidades.

O termo tradicional inspira-se na sobrevivência das culturas, no espaço e no tempo. As renovações passageiras de valores, que se substituem uns aos outros, fora de um tronco comum contínuo, despesonalizam as comunidades.

A persistência e resistência dos valores à erosão provocada pelas renovações, passageiras, que se substituem uma às outras, constituem o alicerce das identidades culturais. Identidade que se tornam civilizações, pelos séculos fora. Pois civilização é quase a eternização das identidades.

Em nossos estudos etnomusicológicos abandonamos terminologias classificatórias, tais como música tradicional, música popular, música moderna. Porquê? - Porque são ambíguos. O termo tradicional tem mais a ver com a situação das músicas no espaço e no tempo, do que com uma diferença de valores, de estrutura.

Efectivamente, o tango argentino e uruguaio, o samba brasileiro, a rumba e conga cubanos, o fado português, o jazz, etc. já ultrapassam cerca de mais um século de existência e quase ninguém as considera cultura tradicional. São designados pelo seu nome o termo popular sofre doutra ambiguidade: nasceu de sentimento de classe.

E não exprime a qualidade dos géneros, função que deve desempenhar qualquer termo classificatório. A propósito destes desvios de sentido e significação a etnomusicóloga egípcia E Shawam Castelo Branco diz: “muitos conceitos fundamentais como a música, arte, música erudita, música popular, música ligeira, foram examinados e novas definições mais válidas universalmente foram propostas” (Boletim nº 46 da Associação Portuguesa de Educação Musical, Julho/Setembro, Lisboa 1985).

Feita esta precisão, ao falarmos do itinerário da música africana pelo mundo, sentimos que somos forçados a fazer uma repetição do que a História, vários estudos já se encarregaram de divulgar. Mas como sentimos que este Simpósio pretende fazer lembrar uma realidade quase esquecida pelos agentes culturais e governos africanos, passamos a dizer umas palavras sobre o assunto.

Na religião, nas crenças, sortilégios, nas artes, na música e na dança, a alma cultural africana é parte insubstituível das culturas dos países afro-latino - americanos, da América do Norte e não só. Não só, porque a cultura musical africana está na origem e/ou é parte integrante de músicas como o tango argentino e uruguaio, o samba brasileiro, a rumba e conga cubanas, o spirituals negros, os blues, o jazz, o Pop, o Pop-rock. Como estes géneros são estimados e adoptados na maior parte dos países do mundo, eles internacionalizaram a música africana. É por isso que se pode afirmar que, musicalmente falando a cultura dos povos de quase todos os continentes têm como um dos seus agentes mais dinâmicos a alma cultural africana.

Esta internacionalização se deve aos nossos irmãos que foram prestar serviço escravo nas Américas e na Europa. Trata-se de um itinerário doloroso, através da qual os africanos, com derramamento do seu suor e do seu sangue nas plantações de algodão, cana-de-açúcar e de tabaco e a sua alma gererosa fizeram os alicerces da economia transatlântica e implantaram a sua alma na cultura afro-americana e internacional.

Visto que a música africana se internacionalizou primeiro nas américas, depois no mundo pelas razões atrás apontadas, não se compreende que alguns agentes culturais africanos ainda andem à procura de cultura universal para valorizarem a sua música, que já se internacionalizou.

Este paradoxo leva-nos a tirar as seguintes conclusões: é preciso mobilizar os africanos para tomarem consciência da situação em que se encontra este ramo importante da nossa cultura. Esta tomada de consciência deve priorizar a classificação etnomusicológica de todos os ângulos de abordagem. Só assim se pode garantir atitudes correctas em relação a este património. É preciso abandonar a designação música tradicional que o colonialismo impôs para a humilhar, considerando-a barulho, ruído, coisa sem valor.

Hoje os estudiosos lutam por entrar nas culturas e dentro delas encontrar terminologia classificatória endógena nas suas línguas nacionais. Concordámos. Os nossos povos designam as suas canções e danças segundo a sua função.

Na língua Kimbundu de Angola os marimbeiros classificam as suas músicas, como por exemplo: “Mwimbu wa kufundisa “ (Canto para enterrar o Sobha), “Mwimbu wa Kuhingisa Sobha” (canto para entronização do Sobha), Mwimbu wa Kwendesa Sobha (canto para levar o Sobha à sua casa ou “Lumbu” ou “Mbanza”). A classificação das músicas africanas não carece do conceito cronológico.

Com efeito, as ancestrais e não aculturadas resistem ao tempo e é através delas que os nossos povos exprimem os seus sentimentos, as suas preocupações sócio-políticas, o seu ideal de beleza, em todas as épocas.

Por isso elas são sempre modernas. Na diáspora elas receberam contributos europeus, daí resultando novos géneros, que não anularam o tronco comum ancestral.

Antes pelo contrário, enriqueceram-no. Em nossos países, principalmente desde os anos 1950, os músicos transportam para as guitarras, sopros e instrumentos de percussão internacionais as nossas músicas de raíz. Com os arranjos que foram introduzindo, vão aparecendo novos géneros. Estes géneros devem ser classificados como música de raiz aculturada. Aculturada porque recebem valores novos, geralmente doutras músicas africanas e não africanas.

Uma nota importante: em Angola as músicas aculturadas recebem o nome dos rítmos das canções/dança de raiz. No Congo, o imortal Franco, africanizou a rumba cubana. E aqui reside um dos aspectos da convergência das músicas africanas: a reafricanização de géneros africanizados da diáspora. O que é preciso é olhar para estas questões com uma objectividade teórica e uma clarividência dos fenómenos.

O que parece modernidade a alguns estudiosos de cultura, não passa de enriquecimento das culturas de raíz, à base de valores acrescentados. Valores estes que devem enriquecer as identidades culturais das músicas e não as devem tornar produtos culturais apátridas.

Luanda, 31 de Julho de 2003-07-20

Jorge Macedo

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