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Cruz e Sousa, poeta abolicionista e as suas raízes africanas

Escrito por  Ueliton Farias Alves
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Uelinton Farias Alves1

Resumo

Este trabalho cumpre a finalidade de abordar referências e origens africanas no poeta Cruz e Sousa, numa tentativa de situá-lo no campo da questão racial que tanto demarcou o processo evolutivo de sua obra literária e de sua militância política abolicionista.

Palavras-chave: Cruz e Sousa; luta abolicionista; literatura afro-brasileira.

Abstract
This study meets the purpose of address references and sources in African poet Cruz e Sousa, in an attempt to situate it in the field of the racial issue that both demarcated the evolutionary process of its literary and its political militancy abolitionist.

Keyword: Cruz e Sousa; fight abolitionist; african-Brazilian literature.

Résumé
Cette étude répond à l'objectif de traiter les références et les sources dans les pays d'Afrique et poète Cruz e Sousa, dans une tentative de le situer dans le domaine de
1 Jornalista profissional e professor de literatura brasileira. É autor de seis livros, dentre os quais O Abolicionista Cruz e Sousa (1987), Reencontro com Cruz e Sousa (1990) e o recém-lançado Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil (Pallas, 416p, 2008). Recebeu o honrado prêmio Silvio Romero de Crítica e História Literária, da Academia Brasileira de Letras (1991) e a Medalha de Honra ao Mérito pelo Governo de Santa Catarina, em 1998. Atualmente exerce a crítica literária, escrevendo para o Caderno Ideias, do Jornal do Brasil, entre outros. É também contista e romancista, tendo publicado Os crimes do rio vermelho, romance policial saído em 2001.

la question raciale que les deux délimité le processus d'évolution de ses œuvres littéraires et son militantisme politique abolitionniste.
Mots-clé:
Cruz e Sousa; lutte abolitionniste, la littérature afro-brésilienne.
Os primeiros tempos
Os primeiros homens a pisarem em terra catarinense, na contagem linear do tempo, chegaram nela pelos primórdios do Descobrimento do Brasil, aí nos idos do ano de 1500. Nessa bela terra aportaram, por exemplo, o português Henrique de Montes e o castelhano Melchior Ramirez, que sobreviveram à expedição do navegador espanhol João Dias de Solis, entre 1515 e 1516.2 A esse propósito se refere, textualmente, o escritor Virgílio Várzea, em sua obra a respeito de sua terra natal:
Descoberta em 1515 por João Dias de Solis, navegante espanhol, em viagem pelo sul do Brasil, a Yjuriré-mirim [em guarani, "boca pequena d ́água"] dos selvagens foi visitada ainda por outros pilotos dessa nação, ou que navegavam debaixo da sua bandeira: Sebastião Caboto, em 1525; Diogo Garcia, em 1527; e Álvaro Nunes Cabeza de Vaca, em 1540. Alguns anos depois, em 1554, abordou-a também outra frota castelhana que ia para o Prata, e que, forçada por um temporal, ali arribara para refrescar.3


De alguma forma, não eram homens comuns, tinham conhecimento, ou seja, eram homens "letrados", pois, de acordo com os testemunhos, "sabiam ler, escrever e contar".4 Isto não quer dizer, todavia, que por ela, pela ilha de Nossa Senhora do
2 Virgílio Várzea. Santa Catarina, a Ilha. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1984, p. 5.
3 Virgílio Várzea. Op. Cit., p. 5.
4 Olívia da Maia Mazzolli. O ensino em Santa Catarina, de 1515 a 1834. Revista Atualidades, jan. / fev. 1949.

Desterro, anos antes, não tenham passado outros navegadores, talvez mesmo espanhóis5.
Mesmo em 1538, estiveram, de passagem, também por ela, os frades franciscanos Bernardo de Armenda e Afonso Lebron (assim, com r), estabelecendo- se na região conhecida como Porto dos Patos, em um sítio denominado Ibiaçá, por cerca de três meses, praticando a catequese junto aos habitantes locais, no caso os indígenas.6

De acordo com a estudiosa Olívia da Maia Mazzolli, entre 1553 e 1597, a Ilha pode ter recebido mais alguns sacerdotes: os padres Leonardo Nunes (a Aba-ré- bebê, ou seja, o "padre que voa" na língua nativa), com o propósito de "recolher algumas senhoras castelhanas", da expedição de João Salazar, Agostinho de Mattos e Custódio Pires.7 Além deles, neste mesmo período, Santa Catarina pode ter recebido ainda os irmãos Pedro Corrêa, João de Sousa e Fabiano Lucena, cuja ação, "teria sido violentamente combatida pelos caçadores de escravos vermelhos"8.
Em todos os tempos, a igreja, através de seus missionários, é que assume a missão de tentar povoar a terra inóspita e praticamente sem habitação do homem branco, a não ser um e outro desembarcado ou abandonado em terra à própria sorte, ou seja, náufragos, deserdados, que viviam ao léu, sem destino. Contudo, vindo de Roma, por meados do século 17, no entanto, o padre Fernão Cardin buscou esse objetivo, envidando esforços para cumprir resolução superior, que era a de criar "missões", e se possível "fundar residência na região dos Patos".

5 Virgílio Várzea, em nota à página 7 do seu citado livro, diz: "Há dúvidas sobre a origem desta denominação dada à Ilha e às terras do continente a que pertence. Almeida Coelho, no seu Memória, bem como outras crônicas são concordes em afirmar que a Ilha recebeu o nome depois de Erecta a Ermida sob a invocação citada, por sua vez ocorrera a Velho Monteiro [Francisco Dias Velho] por se chamar Catarina, a filha de sua predileção. Mas, não há sobre o fato o menor documento. Depois, existe a versão de que esse nome fora dado à Ilha por Gonçalo Coelho (ou Cristóvão Jacques) em 1501 ou 1502, na sua viagem de exploração pelas costas do Brasil, pois que esse navegante, aos pontos da costa visitados, ia dando o nome do santo ou santa a quem era consagrado o dia em que a frota avistava ou abordava esses pontos. Essa versão parece-nos a mais provável. Em todo o caso, nada há até hoje de definitivo a respeito."
6 Lucas Alexandre Boiteux. Instrução Pública em Santa Catarina. Jornal do Commercio, março de 1944.
7 Ementário da Legislação do Ensino do Estado de Santa Catarina, 1835 a 1979. Florianópolis: IOESC, 1980, p. 10.
8 Op. Cit.

Até a essa época e um pouco mais adiante, não há registro de escravos africanos em terras catarinenses. Pelo menos que o sabemos. Conforme citam os fatos históricos, ainda não havia, nessa época, pois não se estabelecera qualquer tipo de tráfico com a costa d ́África, mais sim tendo indígenas reduzidos à esta condição "pelos santistas e vicentistas, que eram os maiores escravocratas da costa brasileira".9 Passado algum tempo, ou seja, ainda pelo século 17, com efeito, pela pequena colônia fundada pelo bandeirante Francisco Dias Velho, que veio aportar à Ilha por volta de 1651, em companhia da mulher, dos cinco filhos e de cerca de 500 índios, já totalmente adaptados à convivência com os brancos. Virgílio Várzea10, e outros historiadores de sua época dizem ainda que o corajoso colono trouxe também "dois padres da Companhia de Jesus e um agregado de nome José Tinoco, cuja família se compunha de um filho e duas filhas." Não há citação de escravos negros ou africanos. É mais do que provável a existência de escravos negros africanos ou traficados de outras regiões para Santa Catarina, acreditamos nós, desde os primórdios do Descobrimento. Mesmo Dias Velho, segundo Fernando Henrique Cardoso11, citando Afonso d ́E. Taunay, "deixou na sua herança 25 escravos pretos", de acordo com o que se infere do seu inventário.12 Versões dão conta que Francisco Dias Velho, ao contrário do que afirma Virgílio Várzea, só estivera na Ilha anos depois de 1651. Então vejamos:


Finalmente, coube a Francisco Dias Velho fixar-se na Ilha, fundando nela uma póvoa.
Francisco Dias Velho, paulista, de ilustre prosápia e que, na sua mocidade, acompanhara o pai em incursões feitas ao gentio dos Patos, recebeu-a. Havia sido ele Alaceide e juiz ordinário na sua vila natal, onde se casou com Maria Pires Fernandes, da poderosa família dos Pires e de cujo matrimônio teve doze filhos.
Em 1678, o paulista requereu ao Governador da Capitania duas léguas em quatro de terras na Ilha de Santa Catarina, onde já tinha
9 Oswaldo Rodrigues Cabral. Nossa Senhora do Desterro 2 Memória. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1979, p. 379.
10 Virgílio Várzea. Santa Catarina – a Ilha, Ed. Lunardelli, 1985, p. 7.
11 Fernando Henrique Cardoso. Negros em Florianópolis, Relações Sociais e Econômicas. Florianópolis: Editora Insular, 2000, p. 46.
12 Não há certeza se o sobrenome Velho, de forte estirpe paulista, venha do parentesco de Domingos Jorge Velho, o bandeirante que passou à história como o assassínio de Zumbi, o líder negro do Quilombo dos Palmares, em 1695.

igreja de Nossa Senhora do Desterro e culturas, além de outras mais em terra firme, sendo, assim, provável que, antes dessa data, possivelmente em 1675, já tivesse fixado moradia na Ilha, para a qual se transferira com a família, agregados e escravos, época em que teria dado início a todos aqueles trabalhos que alegou para obter a doação.13
A existência de uma população escrava, no Desterro, de acordo com Oswaldo Rodrigues Cabral, "data dos dias do seu fundador", ou seja, Francisco Dias Velho. Mas esse historiador trata ainda de escravos vermelhos. Em outra parte do seu volumoso trabalho,diz textualmente: "nos começos do século XVIII, é provável que já houvesse um ou outro negro, mas sem a condição de escravo".14
Logo a seguir, nesse mesmo capítulo, se refere Oswaldo Rodrigues Cabral que "Frezier viu no Desterro, em 1713, alguns homens de cor e assinala que eram livres. Em 1763, Dom Pernetty, da expedição de Baugainville, confirma a existência de escravos. Dizia ele que os escravos viviam seminus, na sua maioria cobertos com um simples chalé em torno dos ombros, sendo raros os que usavam camisa e vestia, já as mulheres, andavam também nuas, a não ser quanto a uma espécie de faixa larga, que lhes ia da cinta ao joelho.15

O historiador nos informa que pelos relatos do desbravador Langsdorff, já nos começos do século 19, este detinha-se a relatar fatos sobre os negros que encontrou em sua passagem pela Ilha: seminus ou inteiramente nus, deitados no chão, pelas travessas e ruas do seu depósito, à espera dos compradores. Segundo a mesma fonte, mal cobriam "as vergonhas" com trapos de zuarte. Procediam dos mercados do Rio de Janeiro, pois não havia comércio de escravos, diretamente, da Costa d' África com Santa Catarina.
Ao findar do século 18, mais precisamente em 1796, de acordo ainda com dados fornecidos pelo historiador Oswaldo Rodrigues Cabral, "o quadro populacional da Vila do Desterro, segundo estatística levantada pelo Governador João Alberto Miranda Ribeiro, somava uma população branca de 2652 indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, aos quais se ajuntavam, forros, 75 pardos e 35 pretos;
13 Oswaldo Rodrigues Cabral. Nossa Senhora do Desterro, cit., p. 41. 14 Nossa Senhora do Desterro – Memória 2, p. 379.
15 Ob. Cit.

os escravos eram 206 pardos, de ambos os sexos, e 789 negros, homens e mulheres. Em resumo, 3757 pessoas, das quais 995 eram escravos, formam aproximadamente 26, 5%, mais de um quarto da população.
No Livro de Registro de Óbitos de Escravos da Matriz de Nossa Senhora do Desterro, havia o registro de 776 falecimentos de escravos, entre 1779 a 1811, provando desta forma o grande povoamento dessa população em substituição a indígena, e a elevada mortandade desses indivíduos, sendo a maioria dos negros cativos do grupo Banto, como no resto do país, das nações Cabinda, Congo, Moçambique, Cassanges, Benguelas; já do grupo Sudanês, estes mais raros, achavam-se na Ilha Minas, que eram Nagôs, Cabo Verdes e Songas.

Pela valiosa pesquisa de Oswaldo Rodrigues Cabral, temos as seguintes informações:
Em 1811, encontrei um Manoel Cabo-Verde, que foi vendido no Desterro e, em 1817, uma Baldina, da mesma nação, que obteve o preço de 153 mil réis, mais do que o soldo anual de um Coronel. Dos Minas, encontrei mais duas ou três vendas anuais, cinco em 1810, variando o preço entre 102 e 192 mil réis, exceto um deles, arrematado em praça por 54 mil réis. Dos Songas, em 1811, outra Balbina e o seu filho, crioulo, de nome Gabriel, foram vendidos por 166 mil réis; por um Antônio se pagou apenas 85, mas, em 1820, por um Dogo houve quem desse 224 mil réis. Mas, o número de peças de tais nações foi sempre pequeno.
Já não acontecia assim com os do grupo Banto, mais numerosos. Os Benguela eram bem cotados, em 1810, valendo de 150 a 200 mil réis. Eram os mais numerosos, não só aqui como no Rio de Janeiro, seguidos dos Congos, cujo valor oscilava entre 130 e 140 mil réis, mas muitas vezes, o seu preço elevava-se, mesmo, a 200 mil réis – preço que também chegava a ser pago pelos Angolas, igualmente numerosos. Em 1815 surgem compras de Cabindas e Monjolos, valendo estes mais do que aqueles. Em menor número seguiam-se os Quissamãs, os Camundongos e os Moçambiques.16
Por esse período, 1817, já trafegava pelas ruas esburacadas da pequena cidadezinha, a carruagem que pertencia à elegante mulata do Governador D. Luís Maurício da Silveira17 (1805-1817), um fidalgo, que tinha a patente de tenente do
16 Op. Cit., p. 381.
17 Oswaldo Rodrigues Cabral, Notícia 1, p. 163.

Regimento de Vieira Teles, de Lisboa.18 Ela era uma espécie de Chica da Silva do Desterro; ele, um João Fernandes, a gozaram da delícia do amor e da intriga da população recatada e preconceituosa da época. A cidade que se povoava, ao mesmo tempo era ocupada pelos escravos, cada vez mais numerosos.
Na verdade, pelos números censitários, os primeiros registros da população de escravos se dão a partir de 1803, quando se localizam cerca de 4215 indivíduos, para uma população de "brancos e libertos" de cerca de 13628, ou seja, os escravos representavam, àquela época, 23,5% do total da população. O primeiro censo populacional se deu de fato em 1712, com se aferiu a módica numérica de uma população de 500 pessoas, mas sem qualquer referência sobre "brancos e libertos" ou "escravos" ou de porcentagem desse grupo étnico. Portanto, naquele ano, não podíamos assegurar se já haviam negros em Santa Catarina (embora acreditamos que sim), muito menos na cidade do Desterro. Mas de acordo com o historiador Walter F. Piazza, um profundo conhecedor da história de Santa Catarina, entre 1750 e 1780, cerca de 326 escravos foram batizados ou tiveram óbitos na cidade, enquanto esse número, entre 1781 e 1800, era de 837, de 1801 e 1830, de 2240, e de 1394 entre 1831 a 1850, e de 1212, entre 1851 a 1880. Isto, apenas no Desterro. Os escravos, segundo Piazza, chegavam por "vias indiretas", isto é, vindos dos portos do Maranhão, Recife e Olinda, Salvador e Rio de Janeiro, ou "por via direta", ou seja, dos portos de Angola ou de Moçambique, "como se pode constatar em pesquisas arquivais".19

De fato, o período colonial, pelo menos em Santa Catarina, é um dos mais pobres em dados estatísticos sobre o número de escravos, mesmo nos arquivos paroquiais, o que só vai ter uma sensível mudança com a chegada da Família Real, a partir de 1808, que aporta no Rio de Janeiro vindo de Portugal.
De certa forma, só após este período é que os mercadores de escravos catarinenses começam a intensificar, pelo que parece, os seus pedidos de mão-de-
18 Oswaldo Rodrigues Cabral, História de Santa Catarina, p. 99. Uma aquarela da coleção do prof. Newton Carneiro, do Paraná, adquirida em Lisboa, reproduzida no livro Nossa Senhora do Desterro, Notícia, p. 163, dá uma idéia dessa mulata na carruagem andando pela cidade.
19 Walter F. Piazza, A escravidão negra numa província periférica. Florianópolis: Editora Unisul / Garapuvu, 1999, p. 11, citando também de sua autoria O escravo numa economia minifundiária, São Paulo: Resenha Universitária, 1975, pp. 36-39.

obra escrava, numa clara percepção dos benefícios pecuniários advindos desta forma de exploração humana. Na província, mesmo no período colonial (até por volta de 1800), o uso de escravos era direcionado, em geral, para as áreas de pesca ou nos serviços das embarcações. Piazza assinala que, no período colonial, a província "possuía pequeno número de propriedades agrícolas de grande extensão", o que, de certo modo, estimulava "o processo de recompra de escravos para as áreas do país de economia de exportação desenvolvendo-se, então, um comércio interprovincial de escravos."20 Afora o trabalho de embarcação, sobretudo na pesca da baleia, o escravo era usado para a faina dos serviços domésticos, no caso das mulheres, que se prestavam a tarefas de engomadeira, doceiras, amas-secas ou amas-de-leite, enquanto os homens, além da atividade de pesca, ou nas atividades da construção civil, como pedreiros, exerciam outros ofícios manuais, como tanoeiros, marceneiros, vendedores ambulantes, carpinteiros, estivadores, lavadores de vidros e artífices de um modo geral.

Resistências escravas

Não se pode dizer que a escravidão em Santa Catarina fora branda, como desejam alguns historiadores respeitados. Raimundo Magalhães Júnior cita em seu livro sobre Cruz e Sousa, passagem do texto de Oswaldo Rodrigues Cabral, que diz que os escravos catarinenses ou em Santa Catarina "em geral eram bem tratados" e só "excepcionalmente castigados com vigor ou desumanidade"21. O biógrafo lembra ainda o historiador catarinense, quando este diz que "quase todas as classes possuíam escravos, inclusive as irmandades religiosas, e o hospital local, para os seus serviços mais pesados e humildes." Em um texto intitulado "O Padre", publicado no livro Tropos e Fantasias (1885), o poeta fala de um padre escravocrata,
20 Piazza, Op. Cit, p. 14.
21 Poesia e Vida de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p. 2.

chamando-o de "o abutre de batina"22, numa referência as crueldades praticadas pela Igreja no período da escravidão.
Oswaldo Rodrigues Cabral diz, textualmente:
Em geral, por morte dos senhores eram distribuídos aos seus filhos aos quais fossem mais afeiçoados, ou então libertos. Todavia como tal condição, em geral, lhe acarretaria uma situação de miséria se deixassem a casa do senhor, nelas continuavam como domésticos, mesmo sem ganho algum, salvo o alimento, a roupa escassa e o teto, sendo poucos os que iam tentar a vida fora23.
Walter Piazza, em livro já referido24, parece não corroborar com as informações de que a escravidão em terra catarinense era suave, o que, em tese, seria uma contradição, pois a escravidão, por si só, já é uma violação, um roubo, uma violência. De acordo com Piazza, existem dados nos arquivos catarinenses comprovando fugas de escravos desde 1769, com a conseqüente instrução régia a ser dada aos capitães–do-mato para prender os fugitivos ou mesmo matar os negros que resistissem ou insistissem na fuga. O historiador esclarece que também encontrou documentos "sobre a formação de quilombos", quer na Ilha de Santa Catarina, ou seja, em Desterro, na região hoje conhecida como Lagoa da Conceição, quer no continente, na área da freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Enseada de Brito25.

Numa correspondência datada de 2 de setembro de 1769, enviada do Rio de Janeiro, o Conde de Azambuja, então vice-rei do Brasil, se dirigia ao Juiz Ordinário e demais membros da Câmara do Desterro, dando uma ordem "a respeito dos negros fugidos aprovo a providência que vossas mercês deram aos 'Capitães-do-Mato' os quais e todas as mais pessoas mandadas legitimamente a essas diligências, resistindo-lhes os negros, os podem matar sem nisso incorrerem em crime, porque
22 Cruz e Sousa. Obra Completa Volume 2, Prosa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 2008, p. 26.
23 História de Santa Catarina, p. 168.
24 A escravidão negra numa província periférica, p. 19.
25 O escravo numa economia minifundiária, pp. 113-123.

assim determina em geral a Ordenação a respeito de todos os criminosos, e pelo que toca aos negros fugidos".26
Os quilombos, mesmo com toda a repressão, continuariam a se proliferar em Santa Catarina, sobretudo na cidade do Desterro, onde no ano da Independência, em 1822, registra-se um na Lagoa e outro na Enseada do Brito. Outras freguesias também farão suas queixas sobre a presença de formação de quilombos, como Canasvieiras, Santo Antônio, Rio Vermelho e São José. Alguns capitães-do-mato se tornam conhecidos nessa época, por nomeação oficial: Francisco Joaquim Fumaça e Jerônimo Lopes de Carvalho.

Data desse período, talvez, a grande aceleração do comércio de escravos para Santa Catarina, possivelmente com grande entrada para Desterro, visto que a cidade começava a ser tornar o centro propulsor de toda a província, corporificando- se em sua capital, como é até o presente momento. A ascensão do número de cativos na província, no entanto, se deve, segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, à "evidente melhoria das condições econômicas dos moradores".27 Mais tarde, por volta de 1831, com a abolição do trafico de escravos, comunicado por um Aviso Imperial, datado de 17 de janeiro, a situação não mudaria, porque Santa Catarina, não recebia "escravos de fora", diretamente das fontes exportadoras, "sempre os obteve no mercado interno", o que não provocou nenhuma alteração no quadro atual vigente na província, pelo contrário, o Aviso Imperial, apenas fez elevarem-se os preços dos mesmos, sem diminuir a demanda. Esse mesmo historiador relata que, coincidentemente, o que as estatísticas revelam é um aumento no número da entrada de escravos na região, sendo que em 1840, este número atinge a casa de 12.511; em 1844, ele chega a 14.382; em 1853, alcança 15.025; em 1857, totaliza 18.187. Após esse período, essas porcentagens vão se reduzindo drasticamente, mas por uma razão bastante peculiar, como assinala em seu trabalho Oswaldo Rodrigues Cabral:

26 Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Núcleo Ouvidoria Geral de Santa Catarina. L 2 do Registro Geral da Ouvidoria de Santa Catarina, 1767-1792, folhas 60.
27 Nossa Senhora do Desterro – Memória II, p. 383.

Desse ano em diante, inicia-se o decrescimento, devido, principalmente, à venda de cativos para fora da Província, conseqüência não só da extinção do tráfego, inicialmente burlada mas depois energicamente fiscalizada e mantida pelos navios ingleses, como da maior procura de peças, no mercado interno, para suprir as necessidades da lavoura, em expansão, nas grandes províncias, como para os trabalhos domésticos nas grandes cidades. Os pequenos centros foram sendo paulatinamente esvaziados.28
Diz mais adiante o historiador que Santa Catarina procuraria obstar a saída de escravos para fora dos seus limites, ainda que muito pouco pudessem representar para a sua economia esses indivíduos, como fatores de produção, dada a exigüidade do seu número com dedicação nas fainas agrícolas, então ainda muito pouco desenvolvidas, estando a maioria aplicada aos trabalhos pertinentes à navegação e, principalmente, aos serviços domésticos e urbanos. Entre os anos de 1852 a 1859, saíram da província, talvez por meio ilegal, cerca de 1.071 escravos.

O século 19 foi, certamente, o que mais contou com a mão-de-obra escrava em terras catarinenses, substituindo, de uma vez por todas, a mão-de-obra indígena, que era bastante numerosa nos primeiros tempos, conforme já vimos.
De certa forma, não foi nada fácil tal convivência. As condições difíceis, as doenças, os maus-tratos, o clima frio (inóspito, sobretudo, para quem vinha chegado da Costa da África ou dos centros urbanos quentes como o Rio de Janeiro), a pobreza, a falta de convívio com filhos ou parentes separados pelas circunstâncias da vida, tudo isso tornava a existência pesada e bastante custosa, provocando, não só desânimo, mas uma ansiedade de querer sempre revoltar-se, rebelar-se, dos escravos. Mesmo os pretos livres, que conquistaram a custo suas alforrias, mesmo eles, sofriam a discriminação pela cor da pele, que os estigmatizava pela vida afora, sem direitos, sem cidadania, sem méritos, e sempre vistos com desconfiança.
Mesmo os libertos, eram proibidos de frequentarem as escolas, conforme um dos decretos da época.29 Quando isso não acontecia, o preconceito não permitia o seu ingresso, ou as famílias brancas não queriam que seus filhos habitassem os
28 Oswaldo Rodrigues Cabral, Op. Cit, p. 383.
29 Arto 12, $$ 1o e 2o da Lei no 716, de 22 de abril de 1874, a mesma que mandava restaurar o educandário Ateneu Provincial.

mesmos espaços que os negros conviviam. Num despacho chegado ao governo da província e provindo do Ministério da Agricultura, que ficava na Corte, solicitava informações se havia em Santa Catarina "estabelecimentos ou associações apropriadas à educação dos filhos livres de mulheres escravas".30 Em resposta ao Ministério da Agricultura, talvez diretamente ao seu ministro da época, a Câmara do Desterro, disse, textualmente: "infelizmente, nenhum estabelecimento existe no Município, nem lhe consta que os hajam em toda a Província, em condições de prestar-se à educação daqueles ingênuos, nem lhe parece provável que, por iniciativa particular se consiga a fundação deles, ou de associações de semelhante ordem, atendendo à falta de elementos para levá-los a efeito.31" Ora, se não os havia para os brancos, por uma falta absoluta de preocupação com o ensino da prole, muito menos com os negros, fossem escravos ou forros. E esta era uma realidade que mais facilmente podia existir no Rio de Janeiro, ou em outra região também desenvolvida do país, como São Paulo, Bahia ou Pernambuco.32
Assim se daria a vida escrava e dos escravos até, pelo menos, 13 de Maio de 1888, com a abolição oficial da escravatura no país.

As origens de Cruz e Sousa

As bases da origem africana do poeta Cruz e Sousa, no Desterro, se estabelecem entre o final do século 18, pela década de 1790, ou talvez pelo início do século 19, entre 1800 e 1810. De certo modo, é um período de franca ascensão do aumento do número de escravos na província, que passam a servir, sobretudo, às irmandades religiosas e aos hospitais de caridade, para os serviços mais ordinários. São trabalhos que estabelecem também uma nova hierarquia profissional entre essa população. Os que trabalhavam nos centros urbanos - fossem nas embarcações de pescadores, fossem nas lavouras, fossem nos comércios dos seus senhores, na
30 Nossa Senhora do Desterro – II Memória, p. 408.
31 Op. Cit., p. 409.
32 No Rio de Janeiro, em 1853, por exemplo, existe a experiência do professor Pretextato, que abriu em sua casa uma escola destinada a meninos pretos e pardos. In Adriana Maria P. da Silva, Aprender com perfeição e sem coação. Rio de Janeiro: Plano Editora, 2000.

forma de negro de ganho - eram vistos de maneira diferente dos outros negros que trabalhavam no âmbito doméstico, em termos de relacionamentos amorosos.
Numa passagem do seu livro, Oswaldo Rodrigues Cabral relata que, até certo ponto, "as crioulas nem sempre se derretiam para os machos da casa". Segundo ele, quando amavam "era quase sempre algum cabra de boa figura, lustroso nos músculos, alvo nos dentes, bem encarapinhado, forte, com bodum penetrante a acender-lhes o cio, negro que passava sorrindo sob um fardo de carne seca, ou outro gênero qualquer, e não o pobre crioulo que via sair de casa, debaixo do barril de titica, à noite, para ir levá-lo à praia."33
Cruz e Sousa nasceu no dia 24 de novembro de 1861, na cidade do Desterro. A data antecipava-se em dez anos à promulgação da Lei do Ventre Livre (1871), quatorze anos à Lei dos Sexagenários (1875) e 27 anos à Lei Áurea (1888), que decretou a Abolição da Escravatura do Brasil. Seus pais viviam sob o jugo do coronel Guilherme Xavier de Sousa, soldado valoroso que em várias ocasiões serviu o império do Brasil nas mais distantes regiões do território nacional. Quando o poeta nasceu – em plena vigência do regime escravista – o pai, conhecido como Mestre Guilherme, era escravo do coronel e trabalhava como pedreiro; a mãe, Carolina Eva da Conceição, era alforriada, e convivia na casa-grande, onde trabalhava certamente nos serviços domésticos, lavando e cozinhando para a família dos senhores do marido, com quem ainda não era casada oficialmente, ou seja, no papel, no religioso, o que só irá acontecer em 1871, estranhamente, após a morte do militar.

Pela ascendência paterna, o poeta, era neto de João, "escravo que foi do finado Francisco de Sousa Fagundes", e de Luiza Rosa da Conceição, que era "natural e batizada na Matriz desta Paróquia", e do lado materno, era neto de Eva, sendo a genitora do poeta também "natural e batizada na Matriz desta cidade." 34 Por falta de outras informações não contidas na certidão de casamento dos pais de Cruz e Sousa, não ficamos sabendo quando os mesmos nasceram, ou igualmente quanto
33 Nossa Senhora do Desterro II Memória, p. 407.
34 Certidão de Casamento de Guilherme e Carolina. Arquidiocese de Florianópolis. Arquivo da Cúria Metropolitana. Paróquia de Nossa Senhora do Desterro, livro 18, folhas 26, de 16 de agosto de 1871. (Apud. Iaponan Soares – Ao redor de Cruz e Sousa, p. 69).

a João, Luiza e Eva35. Este seria um dado importante para estabelecermos uma data cronológica para uma leitura do tempo de vida e época de cada um, em especial.
Mas os documentos nos dão uma certeza: os pais do poeta já nasceram no Desterro, o que nos induz a pensar que, pelo menos eles, não foram trazidos de nenhuma outra região do país, como o Rio de Janeiro, ou mesmo da Costa da África, como talvez os avós do poeta. Outra certeza é que não passaram pelo processo de vendagem ou de transferência da cidade, como era costume da época. Francisco de Sousa Fagundes era da família da esposa do coronel, Clara Fagundes Xavier de Sousa, talvez seu pai. Com a morte dele, em 1861 (aliás, no mesmo ano do nascimento do poeta), já octagenário, pode ser que seus escravos tenham sido transferidos, por testamento, aos herdeiros, talvez seus filhos ou irmão.

Sobre Francisco de Sousa Fagundes consta que, pelo final do século 18, a pedido do governador Silva Paes, teria recebido a incumbência de transportar açorianos para Santa Catarina, em substituição ao antigo transportador, que, no transporte feito, levou quase à morte toda a tripulação e passageiros, fazendo com que muitos desistissem da viagem, temendo a morte, que era quase certa, em troca do povoamento da província, de acordo com que determinavam as instruções reais.
Não sabemos se Francisco de Sousa Fagundes era do ramo de transporte, pois, de qualquer forma, era preciso ter experiência para cruzar o Atlântico, numa viagem que podia durar até três meses. O que de fato conhecemos dele é que fora músico notável, discípulo de José de Almeida Moura, o primeiro a ensinar música em Santa Catarina, tendo ficado conhecido, sobremaneira, por ter aperfeiçoado "a arte musical em Santa Catarina"36, superando o seu mestre, com "a aplicação de regras ignoradas até então." Da sua geração, ficaram Luis e Antonio de Sousa. Em 1850 mantinha um colégio, no qual ensinava piano e canto, escola que ficava no largo que, mais tarde, recebeu o nome de Brigadeiro Fagundes, em homenagem ao seu irmão João de Sousa Fagundes, herói da Guerra do Paraguai, que apesar de perder

35 Paschoal Apóstolo Ptisica diz que Cruz e Sousa poderia ter tido um tio, de nome Jose, alfaiate de profissão. Numa fonte cristalina, p. 185.
36 História de Santa Catarina, p. 180.

um braço no campo de batalha, em função dos ferimentos recebidos, retornou a atividade militar.37
Como ditam os documentos, nada muito certo sobre o estabelecimento da origem do poeta, mas Santa Catarina, sobretudo a cidade do Desterro, era o ponto de confluência para a convivência de sua família, ligada, a princípio, à família Fagundes de Sousa, antes do que, nos parece, da ligação com o coronel Xavier de Sousa. De qualquer maneira, o pedreiro Guilherme continuaria sendo, mesmo após o nascimento do filho João da Cruz, escravo no solar do local que passou a ser conhecido como Chácara do Espanha, residência do militar. Na condição de escravo, teve dois filhos – o outro era Norberto da Conceição, nascido no ano de 186438. Filho de escravo, era certamente escravo, embora a mãe fosse forra, ou liberta, de acordo com as informações vigentes, o que não garante que ela proviesse do mesmo grupo de escravos de Francisco de Sousa Fagundes.
De qualquer maneira, Mestre Guilherme só alcançaria a condição de liberto após a morte do Guilherme Xavier de Sousa, já nessa época marechal-de-campo, patente conquistada pelos seus feitos na Guerra do Paraguai, de onde veio bastante doente, falecendo no ano de 1870. De qualquer maneira, antes disso, com testamento ou não, deve ter alforriado o seu escravo. Só assim Guilherme pode finalmente se casar, direito conferido aos ex-escravos ou por autorização do seu senhor ou por ordem da igreja39.

Tanto é verdade que Mestre Guilherme fora libertado com a morte do marechal-de-campo Guilherme Xavier de Sousa, pois ao falecer sua viúva em 1875, Clara Fagundes Xavier de Sousa, esta ainda possuía nove escravos, os quais possivelmente lhe servissem de empregados na grande chácara. Numa nota ao pé de página, Raimundo Magalhães Júnior nos informa que, poucos "haveres deve ter deixado o marechal, pois a 23/5/1871 um decreto atribuía à viúva pensão mensal de
37 Nossa Senhora do Desterro, p. 57.
38 Era afilhado de Henrique Schutel, grande animador musical do Desterro, e também grande músico, ligado a Francisco de Sousa Fagundes, em cuja casa, Cruz e Sousa freqüentaria na juventude, sobretudo para mostrar seus versos.
39 Com o casamento, ocorrido em agosto de 1871, foi feito um apontamento na certidão de batismo do filho João da Cruz: "Pai Guilherme Sousa, por subseqüente matrimônio", que até então não tinha, conforme regulamento da época.

cento e oitenta mil-réis, 'sem prejuízo do meio soldo', acrescentaria outro decreto, a 8/7/1871 pela Regente, D. Isael, e o Ministro do Império, João Alfredo. D. Clarinda pouco proveito tirou dessa pensão, pois morreu em 1875, tendo, em testamento, libertado os nove últimos escravos que lhe restavam".40
O poeta, nessa época, tinha quinze anos de idade. Estudava no Ateneu Provincial Catarinense, instituição de ensino onde cursava Humanidades, ao lado do irmão, Norberto da Conceição Sousa. È provável que Guilherme Sousa e Carolina, sua esposa, tenham permanecido ao lado da viúva do militar; mas, também podemos deduzir que eles tenham mudado de residência em algum desse período, embora esta hipótese seja pouco viável. Data dessa época, no entanto, o início do relacionamento de Cruz e Sousa e a jovem Pedra Antioquia da Silva, a quem dedica poemas, e a quem endereçou, alguns anos depois, uma poesia intitulada "Amor", que tinha essas estrofes iniciais:

Amor, meu anjo, é sagrada chama Que o peito inflama na voraz paixão, Amo-te muito eu t'o juro ainda Deidade linda que não tem senão!
Em entrevista a um jornalista carioca, Mário Hora41, Pedra disse que conheceu Cruz e Sousa quando ele morava na parte térrea do sobrado do marechal Guilherme Xavier de Sousa, e ela, mocinha, era empregada de uma casa em frente à dele, residência do professor Anfilóquio Nunes Pires, que dava aulas no Ateneu Provincial e conhecia bem o poeta e seus familiares. Ele, nascido em 1861; ela, então, em 1862.
Não existem grandes informações sobre o relacionamento dos pais do poeta com os seus senhores. Boa parte dos biógrafos tem asseverado que todos conviviam pacificamente, sem sobressaltos. Depoimentos de alguns amigos de Cruz e Sousa – como Virgílio Várzea, por exemplo – atestam que a família do poeta sempre foi bem tratada pelos seus senhores. Quando o Marechal Guilherme retorna da Guerra do
40 Poesia e vida de Cruz e Sousa, p. 7.
41 A noiva de Cruz e Sousa. A Noite, 7 de setembro de 1915.

Paraguai, no final de 1869 ou início de 1870, já doente, combalido, e relatam os biógrafos que o menino, de oito anos, o recebera vivamente, lendo-lhe alguns versos, de sua própria lavra. O militar, espantado, criva o moleque de perguntas que são respondidas com todo o acerto. Foi aí, então, que profere uma frase que tem sido repetida com bastante freqüência e retórica: "Tens inteligência, crioulo!", para logo depois refletir: "Ora, para que havia de dar esse crioulo!".
Esta história foi divulgada pela primeira vez pelo biógrafo Abelardo F. Montenegro, em livro publicado em 1954.42 O historiador conta também que a esposa do Marechal Guilherme foi quem ensinou as primeiras letras ao futuro poeta e que "lhe tomava as lições na mesa do jantar". Em seguida diz que a esposa do militar matriculara o menino na escola primária. Pode ser que sim, pois a família de D. Clara Fagundes Xavier de Sousa possuía uma pequena escola, na qual também se ensinava música e canto, muito embora o poeta Araújo Figueredo, em suas memórias ainda inéditas, intituladas "No caminho do destino", diz que viu o poeta negro pela primeira vez, quando menino, exatamente numa sala de aula. Relata ele:

Conheci Cruz e Sousa quando eu tinha seis anos e ele oito, e estudava as primeiras letras em casa da professora Camila, à Rua dos Ilhéus, hoje Visconde de Ouro Preto, ao lado esquerdo de quem sobe. A professora era comadre de minha mãe e morava numa casa de nossa propriedade. Um dia, em que lá chegamos, encontramos, sentado, em companhia de outros rapazes e raparigas, numa esteira ao meio da sala, um crioulinho muito simpático, de testa espaçosa, olhos vivos e atraentes, lábios grossos e dentes de uma alvura de marfim brunido. Soaram as doze badaladas do meio-dia; e ele e todos os seus camaradas levantaram-se um a um, deram suas lições, rezaram em coro um Pai Nosso e saíram, para voltarem de novo às duas horas.43
Logo em seguida, continua o memorialista, citando uma fala da professora: "Viu comadre Bela aquele crioulinho de olhos muito vivos, que acabou de sair?" [diante do espanto da comadre] "Pois é o mais estudioso dos discípulos e o mais
42 Cruz e Sousa e o movimento simbolista brasileiro. Fortaleza: A. Batista Fontelene, 1954, p. 30. De acordo com o autor, a revelação foi feita por D. Emília Schutel.
43 O manuscrito dessas memórias, que estavam sob a guarda da filha do poeta, Isabel de Araújo Figueredo, moradora dos Coqueiros, hoje falecida, estão depositadas no Setor de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, desde o início da década de 1990.

obediente." Araújo Figueredo, que seria um dos mais dedicados amigos do poeta negro, relata mais adiante que a mãe não imaginava o quanto ia adiantada a educação daquele menino, "não tardando muito a retirar-se da escola por não ter a sua professora mais o que lhe ensinar."
Como já aludimos, não acreditamos que houvesse uma relação desencontrada entre os escravos e seus senhores. Mas, muitas informações prestadas pelo historiador Abelardo F. Montenegro requerem ser avaliadas. É verdade que documentos sobre a educação de Cruz e Sousa praticamente não existem. Tudo que se sabe, pelo relato do seu livro, no geral, foram baseados em depoimentos, quando muito de pessoas já idosas, cuja memória podia mesmo falhar. Assim é também a história da herança deixada pelo Marechal Guilherme, que faleceria a 20 de dezembro de 1870, a menos de um ano de sua volta da guerra, aonde chegou a substituir Caxias no comando do Exercito brasileiro. Não cremos ser verdadeira a história da herança, tendo em vista a situação financeira da viúva.
São muitas as histórias que requereriam mais tempo para serem explicadas e esclarecidas. De qualquer maneira, do nascimento do poeta e até a sua fase adulta, é bem provável que muita gente tenha concorrido para tornar a sua vida mais amena, coadjuvando os esforços dos pais, que muito se sacrificaram pela sua educação e vida profissional. Ao tempo de sua entrada para Ateneu Provincial Catarinense, em 1874, não antes44, notamos os esforços do pai, através de um documento que ficou durante muito tempo esquecido nos arquivos do Governo do Estado de Santa Catarina. Nesse documento, é visível que Mestre Guilherme intercede legalmente por uma matricula no educandário para os seus filhos menores. Eis o documento, assinado pelo diretor do Ateneu, Jacinto Furtado de Mendonça Paes Leme, que já conhecia cada um dos filhos do solicitante, que não sabia ler nem escrever:

Directoria do Atheneo Provincial / Desterro 17 de junho de 1874 / Ilmo. Rmo Snr. / Em cumprimento ao que V. Rma de mim exige em
44 Abelardo F. Montenegro diz, erradamente, à página 30 do seu livro: "É provável que, notando a ineficiência do ensino primário, dona Clarinda – a viúva do Marechal Guilherme – matriculasse o negrinho no Ateneu".

Ofício de hontem datado acompanhado as petições (que ora devolvo) de D. Genoveva Maria Capistrano, Emilio Caetano Marques Aleixo e Guilherme de Sousa, passo a expor a V. Rma o meo juízo a respeito. O menor José Francisco da Paz de que trata a petição de D. Genoveva Maria Capistrano, foi um dos melhores alunos do Collegio da Conceição, não só pela sua inteligência e aplicação como pelo exemplar comportamento e bons costumes de que deo sempre exuberantes provas, e por isso julgo-o, mais do que nenhum outro no caso de merecer todo o favor concedido pelo Artigo 13 do acto de 23 de Maio ultimo, acrescendo mais que é órfão de Mái e Pai tendo este, falecido na Campanha do Paraguai.

Os menores de nome João e Norberto filhos de Guilherme de Sousa, são dous meninos muito aproveitaveis, este, pela sua vivacidade, e aquele pela aplicação; ambos forão alumnos do Collegio da Conceição aonde sempre estudarão com aproveitamento e por isso, sabendo mais do que o pai, pobre jornaleiro, tudo sacrifica pela educação desses dous meninos, julgo-os no caso de serem favorecidos. / Quanto à petição de Emilio Caetano Marques Aleixo, apenas posso afirmar que conheço-o como empregado provincial, há muitos annos, pobre e chefe de numerosa família. – nada podendo diser sobre seo filho Athanasio porque apenas o conheço de vista. / Deus guarde a V. Rma / Ilmo Rmo Snr Cônego Joaquim Eloy de Medeiros / Jacinto Furtado de Mendça. Paes Leme / Director do Atheneo Proval.
A transcrição do documento é longa, mas necessária, pois foi uma oportunidade não desperdiçada pelo pai do poeta, "pobre jornaleiro", muito menos pelo próprio poeta, que foi um dos alunos mais brilhantes. Sobre sua fase de estudante, depõe Firmino Costa, condiscípulo do poeta no Ateneu, quando o recém- empossado presidente da província, João Capistrano Bandeira de Melo, resolve, como é de praxe, argüir os alunos, na presença dos professores e talvez do próprio reitor da escola. Após algum tempo, ao término dos exames escritos, o presidente verifica que o aluno negro João da Cruz e Sousa era o que melhor havia se apresentado nas respostas. Não acreditando no que presenciara, recomendou ao examinador da turma a autorização necessária para fazer, no exame oral, algumas perguntas ao estudante. Narra, então, o jornalista:

As perguntas feitas pelo presidente foram todas respondidas com acerto. Não contendo o entusiasmo, o chefe do Poder Executivo Catarinense levantou-se da cadeira em que se achava para abraçar o estudante negro, e, dirigindo-se depois disso ao presidente da banca examinadora, recomendou, com a necessária reserva, que desse a tão aplicado estudante a nota de distinção e aos demais a de reprovação. E assim foi feito.45
O pesquisador Iaponan Soares, que estudou o período, diz que falhou a memória do velho jornalista. Ele apurou que na edição do jornal O Conservador, de 26 de novembro de 1875, além de Cruz e Sousa, foram aprovados os estudantes Carlos Augusto Pereira Guimarães e Francisco Agostinho de Sousa e Mello. Como reconhece o pesquisador, a educação do poeta e do irmão foi uma difícil conquista pessoal do pai, "um ex-escravo que teve sensibilidade suficiente para não querer para os filhos o caminho incerto dos que não tinham instrução." Portanto, se o Marechal Guilherme Xavier de Sousa e sua esposa contribuíram para essa educação isso se deu só na fase de alfabetização do pequeno João da Cruz.
Com uma educação esmerada, e aproveitando dela da melhor maneira possível, para orgulho do Velho Guilherme, e da mãe Carolina, que chegava ouvir impropérios nas ruas, chegando a perder serviço de algumas senhoras, a carreira do filho ia de vento em popa. O certo é que das salas do Ateneu Provincial, após terminar o curso de Humanidades, passou a ministrar aulas, tanto em sua casa, como quer Abelardo F. Montenegro46, quanto no centro da cidade.47
Dos bancos escolares para a cátedra, foi um pulo; daí para as paginas dos jornais, são outras histórias.

A militância estética e abolicionista

O poeta deu uma grande guinada em sua vida após a saída do Ateneu Provincial Catarinense. Sob a influência dos amigos e sob o efeito dos ótimos resultados escolares obtidos, para destacar-se nos eventos realizados na cidade, ora
45 Firmino Costa. Cruz e Sousa, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 17- 18, ano de 1919.
46 Op. Cit., p. 32.
47 D. Machado, em artigo intitulado "Reminiscências", publicado no jornal República, de 18 de abril de 1923, diz que nesse tempo Cruz e Sousa dava aulas noturnas na Rua do Ouvidor, hoje Deodoro, "cujos alunos pagavam ao abalizado mestre uma ninharia mensal."

como orador, ora como declamador das suas próprias composições. Era como se precisasse aparecer, marcar presença, dizer que existisse. Era preciso mostrar para o povo da cidade que o filho de um pedreiro humilde podia se diferenciar da casta seleta que há tantos anos dominava o cenário da ilha, em termos políticos e intelectuais. No seu depoimento à imprensa, para falar do poeta, Pedra Antioquia da Silva chegou a dizer que o então noivo Cruz e Sousa chegou a declarar, quando estava ao seu lado, que um dia ia governar Santa Catarina e que também haveria de morrer, mas iria deixar nome.
A consciência intelectual de Cruz e Sousa começa, sem dúvida, nos bancos escolares, na fase acadêmica do Ateneu Provincial Catarinense. Talvez de tanto ver seu nome publicado nos jornais, na divulgação das notas que recebia nas disciplinas, tomou gosto pelo jornalismo. Esta é uma hipótese. Outra, é pela convivência. No Ateneu foi colega de Oscar Rosas, José Artur Boiteux, Hercílio Luz, Firmino Costa, entre tantos outros, que passariam à história ou como grandes jornalistas ou políticos.

Em um dos seus primeiros textos, um sonetilho, publicado em 1879, o nascente poeta faz um lamento da vida (em terceira pessoa, mas poderia ser a dele mesmo), onde ele diz que anda cansado da "mundana lida", e que tem a "lira toda espedaçada / A alma de suspiro retalhada". Em outra passagem ele grita: "Ai! Que viver mais desgraçado!...", para dizer que "Quem assim tem a vida amargurada / Antes já morrer, ser sepultado." O poeta fala de "feras dores", que se encontra envolvido "no véu dos dissabores", fechando o soneto com este terceto, igualmente desesperador:
Oh! Cristo eu não sei se só a mim Deste essa vida d'amargores,
Pois que é demais sofrer-se assim!

Falando ou não de si, Cruz e Sousa marca a sua estreia literária na imprensa (este é, na verdade, o seu segundo texto publicado), ela se destaca por um alto grau de simbolismo, a sua forte dose de amargura, talvez advinda pela constatação
dolorosa da grande carga do conhecimento, que não acompanha, no seu caso, os progressos sociais da sua vida e dos seus pais, ou diante do esclarecimento que o saber ou a ciência tenha lhe trazido, após passar pelos bancos escolares.
Seja em um caso ou em outro, Cruz e Sousa, a partir desse momento de sua vida, será cada vez mais contundente nas suas críticas sociais, no seu modo de ver o mundo, bem como no seu posicionamento perante os poderosos do Desterro. Militante da imprensa, não deixa de lado suas raízes africanas, e é por causa dela, sobretudo, que se lança ao ardente fogaréu abolicionista, travando na trincheira de combate a luta aguerrida pelo seu fim, conseqüentemente com a liberdade dos seus irmãos de cor (para não dizer de raça, coerente com as contradições do seu novo conceito). As ruas e as redações dos jornais são o seu palco, da mesma forma que os palcos dos teatros e as tribunas armadas para tal fim específico. Usa do poder de sua palavra e da força de sua pena para dizer o que pensa sobre o regime que escraviza seres humanos, como até pouco tempo atrás escravizou os seus pais, seus avós e outros parentes seus.
Nos seus versos prega a redenção de sua gente, apelando até mesmo para as situações miraculosas, como se lê no trecho da poesia "Entre Luz e Sombra", publicada em setembro de 1882:

Lançai a luz nesses crânios Que vão nas trevas tombando E ide assim preparando
Uns homens mais p'ro porvir! Fazei dos pobres aflitos
Sem crenças lares, proscritos, Uns entes puros, benditos Que saibam ver e sentir!...
No jornalismo, será uma espécie de arauto: não dará trégua aos poderosos, que quase sempre estão ligados à empresa da escravidão. Cada vez mais agressivo, cada vez mais tomado pela emoção, pelo deboche, para ironia. O sistema escravista vai ter nele um fiel inimigo, que não dá descanso aos próceres escravocratas. Tem consciência plena do seu papel social, e sabe que, a sociedade, hipócrita como é, o
esmagará assim que tiver condições. Para evitar isso, tenta se adiantar, apelando para as consciências como um bom brasileiro:
Esperemos, tudo embora!... Pois que a sã locomotiva,

Do progresso imagem viva Não se fez a um sopro vão!... Aguardemos o momento
Das mais altas epopeias, Quando o gládio das ideias Empunhar toda a nação!...48
Em textos em prosa, denuncia os escravocratas da capital de sua província, que trabalham unidos para manter o nefando comércio de gente. A um determinado senhor de escravos, um tal de Estevão Brocardo, que preferia maltratar o seu escravo a libertá-lo, contrariando a opinião geral, disse ele, textualmente, com coragem: "O sr. Estevão Brocardo tem um escravo que debaixo do ódio, vermelho e terrível do seu senhor, do seu dono, tem suportado as calamidades atrozes da dor, do desespero e da perseguição." Não querendo vender o escravo, o seu senhor mantinha-o sob o látego e o eito: "S.s.s.s. deveriam saber que antes do mais estava a justiça e a verdade, desde que o escravo encontrou quem o abonasse, o sr. Brocardo e os dignos britadores do erro, ao menos para alardear magnanimidade a crença abolicionista, deviam consentir nesse abono, precisamente; e ainda isso, dentro da circunstância precisa da particularidade especial, do mau trato que recebe o escravo".49 Não satisfeito, o poeta finaliza o texto falando do "fato tremendo e repugnante", lamentando não poder "dar um pontapé vigoroso na alma pequenina do Sr. Estevão Brocardo", mas resolvia bater "palmas por lhe darmos hoje no seu vulto de escravocrata essa bonita e franca bofetada.... de luz."
48 Cruz e Sousa. Sete de Setembro A Regeneração, Desterro, 10 de setembro de 1882; in Obra Completa, Nova Aguilar, 1995, p. 336.
49 O Moleque, Desterro, 3 de maio de 1885.

Nem mesmo os chefes de policias e outras autoridades policiais, a quem ele dizia estarem irmanados "nessa grande opereta canalha do deboche social"50, passavam ilesos à sua mordente pena:
Triolé fura essa pança
Do Delegado – és um russo; Revolução nessa dança... Triolé fura essa pança,
Fura, fura como a lança
Ou como no boi um chuço; Triolé fura essa pança
Do Delegado – és um russo.51
Com essa pena desabrida, Cruz e Sousa, editor de O Moleque, passa a ser visado pela burguesia local. Num banquete realizado na Ilha pela colônia francesa, que acontecia no Grande Hotel, toda a imprensa foi convidada, juntamente com seus respectivos editores, menos o editor de O Moleque. A reação de Cruz e Sousa não deixou recado para ninguém:

Uma vez que O Moleque não é um trapo sujo do monturo, um caráter enluvado com sífilis moral por dentro, um pasquim ordinário e safado, um bêbado de todas as esquinas ou um leproso de todas as lamas, havia obrigação... de ser O Moleque considerado como gente... Só não se distribuiu convite para O Moleque é porque o seu redator- chefe é um crioulo e é preciso saber que esse crioulo não é um imbecil.52
Em outra passagem, Cruz e Sousa mantém o seu tom de reprovação ante a atitude da sociedade catarinense perante a sua pessoa:
O Moleque não é o esfola-cara das ruas, na frase de Valentim Magalhães, nem o abocanhador peralta e atrevido que salta à noite os muros altos para lançar a prostituição no seio das famílias, não é o garoto das praças públicas, o gamin das latrinas sociais, o tartufo ensacado e enluvado que arrasta a sua imbecilidade córnea pelos clubes, pelos teatros, pelas reuniões, pelos passeios. É um jornal
50 Idem.
51 O Moleque, Desterro, 10 de maio de 1885. 52 O Moleque, Desterro, 12 de julho de 1885.

moço; moço quer dizer nervoso; moço quer dizer sanguíneo, cheio de pulso forte, vibrante, evolucionista, adiantado.
Mesmo não sendo chamado para solenidades, mesmo criticado, chamado nas ruas de "neguinho mau rimador" ou "pretinho de água doce".53 Pelas colunas dos jornais, apelidavam-no de "Costada" ou "Cruz da Ideia", patrono, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, dos "micróbios da terra, satélites do sol presidencial" (numa referência a Gama Rosa, presidente da província, entre 1883 -1884), "pobres meninos ou tristes águas condoreiras". Levar um editor negro a sério era algo bastante difícil de supor. Mas o poeta não esmorece, continuando no seu périplo contra os escravocratas e os poderosos da terra. Numa página ainda desconhecida do poeta negro, intitulada O abolicionismo54, Cruz e Sousa amplia sua crítica, num texto que é bem significativo de sua produção nesse período, condenando a empresa da escravidão. Diz ele:

A onda negra dos escravocratas tem de ceder lugar à onda branca, à onda de luz que vem descendo, descendo, como catadupa de sol, dos altos cumes da ideia, propagando a pátria para uma organização futura mais real e menos vergonhosa. Porque é preciso saber-se, em antes de se ter uma razão errada das coisas, que o abolicionismo não discute pessoas, não discute indivíduos nem interesse; discute princípios, discute coletividade, discute fins gerais.
Num outro trecho, continua o poeta negro:

Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa ante as nações disciplinadas e cultas. Não se compreende, nem se adaptando ao meio humanista a palavra "escravo", não se adapta nem se compreende da mesma forma a palavra "senhor".
Para o poeta, a humanidade do passado, por uma falsa compreensão dos direitos lógicos e naturais, "considerou que podia apoderar-se de um indivíduo qualquer e escravizá-lo", ao mesmo tempo em que via como única maneira de
53 Citado por Abelardo F. Montenegro, em sua obra. 54 Regeneração, Desterro, 22 de junho de 1887.

eliminar este sistema a conscientização de todos no objetivo de fazer "desaparecer esse erro, esse absurdo, esse crime". Para ele, militante ardoroso, colaborador da Sociedade Carnavalesca Diabo a Quatro, entidade de luta pela abolição da escravatura, dirigida pelo sapateiro Manuel Joaquim da Silveira Bittencourt, também conhecido como Artista Bittencourt, o desfecho estava próximo:
A Escravidão recua, o Abolicionismo avança, mas avança seguro, convicto, como uma ideia, como um princípio, como uma utilidade. Até agora o maior poder do

Brasil tem sido o braço escravo: dele é que parte a manutenção e a sustentação dos indivíduos de pais dinheirosos; com o suor escravo é que se fazem deputados, conselheiros, ministros, chefes de Estado. Por isso no país não há indústria, não há índole de vida prática social, não há artes.
Como não mede palavras, a sua "pena deslustrada", como ele mesmo gostava de dizer, ia fundo na raiz do problema, atingindo de cheio o alvo de suas críticas:
Os senhores filhos de fazendeiros não querem ser lavradores, nem artífices, nem operários, nem músicos, nem pintores, nem escultores, nem botânicos, nem floricultores, nem desenhistas, nem arquitetos, nem construtores, porque estão na vida farta e fácil, sustentada e amparada pelo escravo dos pais, que lhes enche a bolsa, que os manda para as escolas e para as academias.
De sorte que, se muitas vezes esses filhos têm vocação para uma arte que lhes seja nobre, que os engrandeça mais do que um diploma oficial, são obrigados a doutorarem-se porque se lhes diz que isso não custa e que poderão, tendo o título, ganhar mais facialmente e até sem merecimento, posições muito elevadas, e mesmo porque, ser artista, ser arquiteto, ser industrial, etc., é uma coisa que, no pensar acanhado dos escravocratas, dos retrógrados e dos egoístas, não fica bem a um nhonhô nascido e criado no conforto, no bem-estar, no gozo material da moeda dada pelo braço escravo.

Das contribuições desse período, esta é uma das mais representativas e críticas extraídas, de suas páginas jornalísticas. Quem mais sofreu cargas fortes devido as fortes contribuições literárias de Cruz e Sousa na imprensa desterrense, por incrível que pareça, foi a mãe do poeta, Carolina Sousa, "grande e muscular, lavadeira-engomadeira que também fazia comida pra fora"55. Há registros que muitas
55 Affonso Várzea. Paixões de Cruz e Sousa. O Jornal, 5 de fevereiro de 1956.

senhoras da cidade deixaram de lhe dar serviços em suas casas por causa da petulância do filho que queria escrever nos jornais, como os brancos.
De qualquer maneira, não paria mais de alfinetar os poderosos, na sua altivez cada vez mais aumentava, na medida em que era desafiado para novos embates. Cruz e Sousa sabia que, com o passar dos anos, sua situação na província ia ficando mais insustentável. Tentou sair algumas vezes, empregando-se numa companhia de teatro, viajando o país, com pousos em diversas províncias do império, angariando simpatias literárias, mais nada, além disso. De certa forma, era reconhecido como um autêntico abolicionista, como um homem ligado às causas humanitárias, socialistas, verdadeiro homem de letras e poeta. Sua produção fala dos pobres, dos miseráveis, dos rotos, que, àquela época, semelhavam "a flores dos esgotos". Na capital da Bahia, onde esteve de passagem, chegou a ser ovacionado publicamente, pelos clubes abolicionistas "Libertadora Baiana" e "Luis Gama". Em um dos seus discursos, na ocasião, teve grande concorrência e repercussão, a ponto de um homem do povo se oferecer para destinar tudo o que tinha em dinheiro em troca de sua alforria. Em sua fala, da tribuna, dizia sob os aplausos da grande assistência:

A Abolição, a grande obra do progresso, é uma torrente que se despenca; não há mais pôr-lhe embaraços à sua carreira vertiginosa. As consciências compenetram-se dos seus altos deveres e caminham pela vereda da luz, pela vereda da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, essa trilogia enorme, pregada pelo filósofo do Cristianismo e ampliada pelo autor das – Châtiments – o velho Hugo. Já é tempo, cidadãos, de empunharmos o archote incendiário das revoluções da ideia, e lançarmos a luz onde houver treva, o riso onde houver pranto, e abundância onde houver fome.
No texto desse mesmo discurso, divulgado pelo O Moleque, em 1885, a mira de Cruz e Sousa também atinge os monarcas, pregando, com isso, a redenção da República no Brasil, no lugar da perpetua Monarquia:
É aí que desaparecem, na noite da história, os Carlos I e Luis XVI, as Maria Antonieta e Rainha Isabel, é aí que desaparece o cetro, para dar lugar à República, a única forma de governo compatível com a dignidade humana, na frase de Assis Brasil, no seu belo livro República Federal.
Infelizmente só a primeira parte do discurso foi publicada na imprensa, no caso o jornal O Moleque, que deixou de circular logo em seguida. Mas a mensagem, mesmo que fragmentada, dá uma ideia do pensamento adiantado do poeta negro Cruz e Sousa para a época.

Tópicos finais

Seria extensivo continuar propalando a militância de Cruz e Sousa no campo da luta antirracista, antipreconceituosa, antiescravagista do final do século 19, sobretudo na branca e praticamente européia, então, província de Santa Catarina. Com familiares fortes, com respeito às raízes africanas, sobretudo na figura do pai e da mãe, Cruz e Sousa galgou as escadarias do mundo do saber, do conhecimento, sem perder a sua essência. Sua obra completa pode ser cotejada para afirmar esse propósito, em suas páginas estão impressos os versos, poesias, sonetos, os textos em prosa, que demonstram o papel desempenhado, pelo poeta negro, com relação a sua participação nesse importante processo político de nossa História.
É preciso lê-lo para julgá-lo melhor. Os paradigmas do passado precisam ser derrubados, para dar lugar a novas análises à luz dos novos documentos que surgiram nos últimos anos. Visões inovadoras precisam obter a chance de serem mostradas, para também elas terem a oportunidade do julgamento dos leitores.
Não podíamos fechar este rápido estudo sem mencionar um trabalho curioso, porém com alguns pontos de confluência com relação à origem africana do poeta, sobretudo no que diz respeito ao cafre bantu. Joaquim Ribeiro, um professor de grandes méritos, em um estudo pouco divulgado e conhecido dos biógrafos de Cruz e Sousa, faz um levantamento da linguagem usada na obra do poeta negro catarinense. Para ele, há um parentesco que liga Cruz e Sousa as suas origens africanas. Diz ele que o uso de aliterações é um fator, antes de mais, de
aproximação de Cruz e Sousa com o falar dos negros bantus, citando diversos exemplos nesse sentido.

Joaquim Ribeiro diz, logo a princípio, que não "é possível separar Cruz e Sousa de sua herança étnica". Para ele, em Cruz e Sousa o estilo do poeta pode ter confluência com a sua raça. "Estilo é raça", diz o estudioso. Ele sabia acertadamente que Cruz e Sousa por ser negro, "devia trair, na sua linguagem, algo de sua ascendência racial". Em outro tópico, ele assevera que se procurarmos essa conexão entre a raça do poeta e o seu estilo, "vamos encontrar a 'chave' de uma das mais predominantes características do estilo de Cruz e Sousa". As aliterações, para Joaquim Ribeiro, é a chave dessas aproximações e o caminho para interpretar Cruz e Sousa pelo seu lado racial. De acordo com o estudioso, os negros bantus da África, na sua incipiente gramática, conhecem a concordância aliterada, que é, aliás, um fator capital de sua estrutura fraseológica. Daí ele passa a enxergar "vestígios" na obra de Cruz e Sousa dessa linguagem ou do falar bantu. Cita, para exemplificar, um ilustre africanólogo, de nome Bently, através dessa frase: "O matadi mama mampembe mampewa i man mama twamwen".
Para ele, o prefixo ma que aparece no substantivo matadi vem obrigatoriamente nos adjetivos, verbos e pronomes que ao substantivo se referem: mama, mampembe. Num outro exemplo, tirado de uma referência fornecida pelo professor João Ribeiro, ele confirma o que vem falando: "Z'êre z'mandou z'dizê".
Ou seja, "ele mandou dizer". Em seguida, destaca diversos trechos da obra de Cruz e Sousa para mostrar a força da aliteração e confirmar os tais "vestígios" da cultura bantu na obra do poeta negro brasileiro. Como por transcrever as estrofes famosas do poema "Violões que choram...":
Vozes veladas, veludosas vozes Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos vivas, vãs, vulcanizadas...
***
ricos e raros resplandecem... ***
tentálicas tentações de seus braços tentáculos ***
pomos pomposos de pasmos sensibilizantes ***
finos frascos facetados ***
força fina e fria ***
velho vento vagabundo ***
leva ao longe este lamento ***
frusco e bronco biombo ***
soberbos e solenes soberanos
*** langue lesma
*** raras rosas

São inúmeros os exemplos que poderiam ser pinçados da obra de Cruz e Sousa, como um reflexo da língua negro-africana "apenas filtrado através do estilo
literário do poeta negro"56. Cruz e Sousa, sem dúvida, era um negro autêntico, sem mescla de sangue europeu, talvez seja o caso mais proeminente de um negro, cujos pais tenham saído da senzala, que tenha alcançado o mais alto domínio do idioma e se elevado por meio dele.
Logicamente, sua vida e sua obra ainda necessitam de estudos mais condizentes com o papel histórico de sua luta e de sua militância abolicionista, política e republicana. Vamos esperar que tais estudos, afinal, apareçam.


Referências bibliográficas


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56 Joaquim Ribeiro. Vestígio da concordância bantu no estilo de Cruz e Sousa. Autores & Livros, Suplemento Literário de A Manhã. Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 1947.

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