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A Escrita Reinventando a História e a Nação

Escrito por  Ana Mafalda Leite
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1 Ana Mafalda Leite

 

Introdução

Observando o leitor a ficção moçambicana ou a angolana e procurando desvelar as várias formas de narrar - recriando - a nação, seus espaços e seus mitos – observa-se de que maneira o olhar do escritor é coadjuvante à criação da ideia de "nação", num trajecto entre a memória, a história, entre a espacialização territorial e a viagem e as estratégias escolhidas de género e ou narratológicas. Verificamos a adequação de novos modos de "narrar", que integram, no seu tecido linguístico e genológico, cruzamentos de tradições culturais, oriundas dos territórios nativos e do ocidente. O tópico da História é uma marca relevante na construção da ideia de nação na narrativa pós-colonial e o da viagem pode ajudar a configurá-lo pela memória, bem como pelo(s) género(s) escolhido(s), autobiográfico, memorialístico, ou outro.

Assim, é comum a revisão dos discursos de fundação da nação, recorrendo os autores angolanos e moçambicanos a narrativas que colocam em causa noções como: origem, genealogia, raça, género, indigenismo, poder, comunidade. Constata-se também uma insistência na revisão dos documentos da história colonial no limiar com a pré-colonial, de acordo com pontos de vista endógenos, que se fundamentam em testemunhos de base oral ou em revisão das fontes historiográficas e da documentação escrita, ou ainda na imaginação. Nesta perspetiva observa-se por vezes a tendência para a ficcionalização das fontes e o recurso à citação recriada e reinventada. Por outro lado há uma sensível aceitação de que a história colonial e a pré-colonial são feitas de entrelaçamentos e mobilidades, muitas vezes descontinuidades imprevistas, que contradizem o discurso hegemónico e ufanista das genealogias de origem, bem como a doxa
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das dicotomias antagónicas.
Ao lermos as narrativas angolana e moçambicana detectam-se também
trânsitos internos no sentido de remapeamento de centros hegemónicos e alargamento a outras zonas subalternizadas da nação. Desta forma pode perceber-se a viagem como roteiro de reconfiguração da Memória, ou, diferentemente, a viagem ser tratada como reconstituição e discussão da noção de fronteira. A viagem enquanto tópico nas narrativas mostra-se, no entanto, como sendo essencialmente uma viagem interna, dentro do espaço territorial do Estado-Nação, no sentido de reconhecimento das diferentes geografias nos mapas de Angola e Moçambique, alargadas para lá das cidades-capitais, dando lugar aos espaços rurais, a outras cidades e lugares, silenciados histórica e culturalmente. A viagem revela-se nos textos ficcionais como uma forma de conhecimento da diferença cultural, bem como da aceitação da heterogeneidade da nação.
Relativamente a formas de escrita verifica-se uma insistência no romance histórico com variantes, no memorialismo, no cruzamento entre memorialismo e autobiografia. A memória enquanto género textual combinatório implica a dissolução de fronteiras genológicas, incluindo também a poesia. O exercício da memória como narrativa executa assim o trabalho de reconstituir os recalcamentos da guerra civil nos dois países, bem como a reconstituição de passados esquecidos e sem referência, ou ainda a afirmação de subjectividades no quadro de um imaginário socialmente considerado comunitário.
Temas da História e da Memória Colonial e Pré-Colonial
A História permanece como um tema especialmente convocado entre os autores angolanos e moçambicanos, uma vez que permite a representação da memória. Seja pela modalidade do romance histórico, em suas variadas formas, seja apenas nas frequentes alusões a fatos e personagens com presença concreta na vida do país, a atividade narrativa tanto em Angola como em Moçambique mantém uma ligação com os percursos históricos mais ou menos distantes do presente pós-colonial, de modo a repensar diferentes narrativas sobre a nação.
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Assim, uma das recorrentes tendências das Literaturas Africanas contemporâneas, tanto em Angola, como em Moçambique, é a revisitação da História pela literatura, e tome-se como exemplo as obras de Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Boaventura Cardoso, ou de Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho, Marcelo Panguana. Grande parte dos atuais escritores angolanos e moçambicanos percebe que seus respectivos países necessitam de diferentes perspectivas da história.
Por conseguinte, torna-se imperiosa a revisão crítica da história colonial e também da história oficial. Observamos que vários romances apresentam uma releitura do passado, uma "história-invenção", que procura tornar visíveis os conteúdos recalcados. Uma história que se volta para as trilhas da arte, se oferecendo como resistência a um mundo dominado pelo poder colonial, reativando memórias, revisitando culpas e esquecimentos, não maniqueistamente, mas procurando olvidar vitimizações e heroizações unilaterais, frequentes nos discursos históricos que sempre opuseram vencidos e vencedores. Formas de pensar a nação actual enquanto lugar de heterogéneas combinatórias culturais.
Dois romances moçambicanos que questionam a história e a nação
Ao analisarmos Choriro de Khosa e um outro romance de Marcelo Panguana, O Chão das Coisas, verificamos que o romance de Khosa relativiza o fetichismo das origens, ao mostrar que toda a origem é bastarda e enquadra-se numa nova sensibilidade crítica do romance africano contemporâneo, inaugurada especialmente com Le Devoir de Violence (1964) de Yambo Ouologuem, que questiona os passados gloriosos e míticos, bem como um certo discurso ufanista negritudiano da genealogia. Choriro é uma narrativa que também coloca em causa a questão do que é ser Africano, evidenciando o fenómeno histórico da circulação de mundos na África pré-colonial, de culturas em colisão, de intercâmbios e mobilidades, que a critica política e cultural tende a silenciar ou ignorar. Similarmente o romance de Marcelo Panguana, O Chão das Coisas, mais do que uma narrativa histórica, é uma alegoria sobre o poder e um questionamento sobre a necessidade da afirmação das subjectividades, do sujeito
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enquanto singularidade, no quadro de um imaginário da nação, que considera em especial a noção identidade, enquanto comunidade ou grupo. Tanto antes da colonização, como após as independências, o poder em África sempre foi figurado pela noção de virilidade e de masculinidade, concepções que o narrador de Panguana desestabiliza e põe em causa, desmistificando a dupla poder/potência, assim como figurações gloriosas do passado pré-colonial, e por outro a própria concepção de poder e de autoridade.
Nesta sequência de ideias vou orientar-me na análise destes dois romances moçambicanos por perspectivas teóricas propostas pelo ensaísta camaronês Achille Mbembe. Segundo ele, no período pós-colonial surgiram novos imaginários sobre o Estado e a Nação nos países africanos. Merecem atenção em especial duas vertentes: a primeira que reconhece diferentes identidades, culturas e tradições, mas que considera apenas a noção de comunidade e de grupo e não a de individuo. A segunda que se baseia no princípio da diferença e do reconhecimento de identidades particulares, critério que serve, no entanto, para excluir e marginalizar certas componentes da nação, permitindo as distinções entre autóctones e alienígenas.
Le premier tente de résoudre l'apparente contradiction entre citoyenneté et identité en préconisant une philosophie de refondation de l'État et de la nation dont le príncipe de base est la reconnaissance constitutionnelle dês identités, des cultures et des traditions distinctes. Cette tradition de pensée nie l'existence d'individus en Afrique. À ses yeux, seules existent les communautés. Il n'y aurait d'individualité que de groupe. Le groupe serait la manifestation par excellence de l'individualité de chacun de ses members (MBEMBE, 2010, p. 207).
Par contre, dans les configurations plus perverses, les tentatives de reconstruction de l'état et de la nation sur la base du principe de la différence et de la reconnaissance des identités particulières servent à exclure, à marginaliser, voire à éliminer certaines composantes de la nation. C'est notamment le cas dans des pays où les distinctions entre autochtones et allogènes sont reprises dans la lutte politique (MBEMBE, 2010, p. 208).
É partindo destas reflexões que o nosso ensaio vai estudar duas obras da ficção moçambicana: Choriro (2009) de Ungulani Ba Ka Khosa e O Chão das Coisas (2010) de Marcelo Panguana, enquanto textos que problematizam
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diversamente a representação da ideia de Nação, questionando estes novos imaginários através de temas no limiar da história pré-colonial e colonial.
O romance de Khosa pretende reconstruir uma memória do passado, mais ou menos remoto, na sua articulação com o presente, o que veremos de que modo, mais adiante. Também o romance de Marcelo Panguana se situa num tempo limiar entre o início da colonização e a situação anterior, mas o seu propósito é mais alegórico, uma vez que as datações e as referências de época se indefinem e são muito ténues. De qualquer modo os dois romances situam-se no século XIX, antes das decisões tomadas na Conferência de Berlim.
Estas narrativas justificam as asserções de Stuart Hall2, quando nos diz que a ideia de nação e de cultura nacional é também um discurso, bem como os sentidos provocados pelas narrativas que daí advêm. Com efeito, tanto Ungulani Ba Ka Khosa como Marcelo Panguana, e outros romancistas moçambicanos, usam estratégias poético-ficcionais, capazes de recolocar metaforicamente a relação entre literatura e história, quando o desafio é escrever sobre os acontecimentos da sua terra, nomeadamente quando se trata do tempo confluente entre situação pré-colonial e colonial, época em que a informação é escassa e basicamente oriunda dos arquivos coloniais.
Não se trata de abordar o documental como ficção, mas da necessidade de estratégias desenvolvidas no campo da literatura para reinventar o passado. Se a historiografia não permite, a maioria das vezes, a abordagem das narrativas marginais, das vivências esquecidas, e das emoções que com elas foram experienciadas, a literatura pode ser campo para a invenção de diversas formas de narratividade, em que a pesquisa histórica e antropológica repõe acontecimentos e eventos singulares, envolvidos no desconhecimento, ou caídos no esquecimento.
A época colonial pela ausência, na maioria dos casos, de fontes locais, necessita de ser recontada a partir de um ponto de vista endógeno, como é o caso das narrativas dos dois autores. A visitação destes passados de sombra3 é
2 Uma cultura nacional é um discurso [...] As culturas nacionais ao produzir sentidos sobre a "nação", sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas. (HALL, 2001, p. 51).
3 Le discours africain postcolonial surgit donc d'un "hors-monde", de cette zone sombre et opaque que définit le non-être dont traite Hegel dans sa Raison dans l'Histoire. (MBEMBE, 2010: 79).
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reconfigurada, a partir do presente, repensando-se este também com a herança perdida de narrativas insólitas, como estas que ocupam o nosso trabalho.
Semelhante trabalho ficcional sobre a relação colonial faz uso de estratégias poético-retóricas, que surpreendem o leitor pela sua carga oximórica, por vezes irónica, por vezes trágica, mas simultaneamente reveladora.
Questionamento da Origem em Choriro
A narrativa de Khosa coloca em causa a segunda configuração de imaginário da nação, apresentado por Mbembe, nomeadamente ao repensar a noção de origem, de nativismo, bem como as distinções entre autóctones e alienígenas.
Situamo-nos em Tete e Sena no tempo dos prazos, algures "nos anos quarenta, cinquenta do século dezanove" (C: 15). Com efeito, a partir do século XVII, com a desagregação dos velhos impérios e estados, surgiram no vale do Zambeze novos domínios, onde mercadores, ex-militares, aventureiros, portugueses ou mestiços afro-indianos, estabelecidos como proprietários das terras, doadas, compradas ou simplesmente conquistadas, ocupavam propriedades estatais, sujeitas a uma renda anual em ouro e constituíam uma verdadeira estrutura militar. Localizados ao longo do rio Zambeze eram domínios extensos atribuídos por um período de três gerações, feudos que se dedicavam fundamentalmente ao comércio do ouro, do marfim e de escravos.
Ungulani centra a sua história na figura de um branco, que se metamorfoseou em negro, culturalmente, anterior aos chefes facínoras e guerreiros que fizeram palco nos prazos, anos depois, como Kanyemba ou Mataquenha:
"O tacto demonstrado por Gregódio no trato com os chefes cedo se mostrou frutífero, pois os indígenas, que jamais haviam convivido com um branco que se ambientou na língua e nos costumes, acolheram-no como um dos seus. De aniamatanga, o mesmo que branco, passaram a chamá-lo Nhabezi, o curandeiro, por mostrar grande habilidade no trato de ervas e mezinhas" (C: 33).
A narrativa produz-se em sucessivos relatos fragmentários, feitos a partir
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do funeral, "Choriro", de Nhabezi, admirado e respeitado como rei local:
"O branco Nhabezi era rei e senhor de vastas terras na confluência dos rios Lângua e Zambeze. Cruzavam-se no seu reino povos matrilineares e patrilineares, mas o poder achicunda, tipicamente patrilinear, foi prevalecendo sobre os casamentos e sucessões" (C: 36).
Este branco é um personagem aculturado, diferente de outros portugueses que, aproximadamente na mesma época, se enquadraram no espírito colonial de forma distanciada das gentes locais, interessados no desbravamento de mapas e roteiros, descrições botânicas e geográficas, como o caso de Hermenegildo Carlos de Brito Capelo e Roberto Ivens:
destemidos exploradores da causa imperial, como ficaria registado à posteridade na História das explorações coloniais, não lhes interessava os homens e os seus hábitos, mas os traços sinuosos dos rios, os montes e vales, a geografia da exploração. O sextante e o magnetómetro eram instrumentos de maior valia que os cansados carregadores de amostras da selva e savana africanas (C: 43-44).
A Nhabezi, trânsfuga do exército imperial, os hábitos e costumes das gentes da terra impregnaram-se no sangue. Comungava os mesmos verbos que os locais. Não era estrangeiro. Traçara o destino da aculturação como um patamar à integração que o conturbado tempo guiado pelas trocas mercantis via como aventura utópica em tempo de intenso trabalho escravo (C: 43- 44).
Os diversos personagens, que vão comentando sobre a figura de Nhabezi, a partir da sua morte, os amigos, as mulheres, os filhos, os guerreiros, numa troca de diálogos e narrativas encaixadas, permitem a construção da sua personalidade, das suas qualidades humanas como chefe, amigo, marido e pai. E permitem também o desvelar da sua descendência, das diferentes estórias de cada um dos filhos, bem como das várias mulheres. No caso dos filhos é interessante ver como a narrativa de vida mostra as opções diversas de cada um, aqueles que optaram pela sua costela portuguesa, os que se urbanizaram e assimilaram, ou aqueles que ficaram directamente ligados ao reino.
O romance de Khosa relativiza o fetichismo das origens, ao mostrar que
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toda a origem é bastarda e enquadra-se numa nova sensibilidade crítica do romance africano contemporâneo, inaugurada pelos escritores Ahmadou Khourouma com Les Soleils des Indépendances (1970) e especialmente com Le Devoir de Violence (1964) de Yambo Ouologuem, que questionam os passados gloriosos e míticos, bem como um certo discurso ufanista negritudiano da genealogia4.
Semelhante procedimento, já iniciado em Ualalapi, quando Khosa questiona criticamente a figura do ditador Ngungunhane, revendo as genealogias históricas e de fundação do que viria a ser o actual Estado Nação moçambicano. Mas Choriro é uma narrativa que também coloca em causa a questão do que é ser Africano, evidenciando o fenómeno histórico da circulação de mundos na África pré-colonial, de culturas em colisão, de intercâmbios e mobilidades, que a critica política e cultural tende a silenciar ou ignorar5.
Nesta perspectiva, é necessária uma reavaliação dos quadros históricos pré-coloniais, como refere Achille Mbembe, que propõe uma estética do entrelaçamento, referindo-se a uma modernidade africana pré-colonial, que se cumpriu entre itenerâncias, amálgamas e sobreposições:
Rappeler cette histoire de l'itinérance et des mobilités est la même chose que parler des mixages, des amalgames, des superpositions – une esthétique de l'entrelacement, comme l'on a déjá évoqué.I(....) Il y a , en effet, une modernité africaine précoloniale qui n'a pas encore fait objet d'une prise en compte dans la créativité contemporaine. (MBEMBE, 2010, p. 228).
Por outro lado Ungulani faz também uma revisão da noção de indigenismo, enquanto perspectiva que luta pela salvaguarda de costumes e de identidades, consideradas ameaçadas. Postura em sintonia com Achille Mbembe que recorda que o nativismo é, de certa maneira, uma invenção colonial:
4 Cette nouvelle sensibilité se demarque de la Négritude au moins à trois niveaux. Premièrement elle relativise le fétichisme des origines en montrant que toute origine est batârde; qu'elle repose sur un tas d'immondices. (MBEMBE, 2010, p. 222).
5 En fait, l'histoire pré-coloniale des sociétés africaines fût, de bout en bout, une histoire de gens sans cesse en mouvement à travers l'ensemble du continent. Encoire une fois c'est une histoire de cultures en collision, prises dans le maelstrom des guerres, des invasions, des migrations, des mariages mixtes, de religions diverses que l'on fait siennes, de techniques que l'on échange, et de marchandises que l'on colporte. L'Histoire culturelle du continent ne se comprend guère hors du paradigme de l'itinérance, de la mobilité et du déplacement. (MBEMBE, 2010, p. 227).
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Dans sa version benigne, l'indigénisme apparaît sous la forme d'une idéologie qui glorifie la différence et la diversité et qui lutte pour la sauvegarde des coutumes et des identités considerées comme menacées. (...) Les indigénistes oublient que, dans leurs formes stéréotypées, les coutumes et les traditions dont ils se réclament furent souvent inventées non par les indigènes eux – mêmes, mais en fait par les missionnaires et les colons. (MBEMBE, 2010, p. 229).
No fundo, Nhabezi, que é caracterizado, como não sendo estrangeiro, acaba por ser uma figura que nos mostra a ironia, e uma das formas de entrelaçamento cultural e de bastardia das origens, ao ser africanizado ao invés de transmitir os seus valores culturais, uma vez que é ele que se adapta à cultura e hábitos locais, mudando o seu modo de vida de acordo com o ambiente. A transformação de Gregódio em Nhabezi é quase um travestimento. O processo de africanização e de aculturação da personagem revela como a história, nas suas margens, entretece paradoxos produtivos, e mostra-nos como o inicio da era, e da estruturação, do estado colonial não segue necessariamente uma linearidade, mas antes mobilidades contraditórias. Por outro lado esta história de vida testemunha as particularidades dos povos do vale do Zambeze e o grau de aculturação e mestiçagem aí característicos, a começar pelos guerreiros achicundas.
Conta-se em Choriro, a morte de uma época e o início efectivo da empresa colonial, conta-se também o esquecimento a que esses tempos foram votados, por isso o choriro é, aparentemente, o enterro de um passado sem continuação:
Há os que são lembrados pelos livros, outros pela memória oral. Eu quero estar presente em todos os momentos do meu reino e em todas as memórias. Morrerei quando não mais se souber que aqui começou a terra de nhabezi e aqui terminou o território a seu mando. Aí será o fim da nossa história. Não mais teremos as nossas árvores, os nossos animais , as nossas águas. Outros espíritos escreverão a sua história sobre os escombros daquilo que um dia foi uma terra, um povo, uma história. Diz-me o Chatula que a noite da nossa decadência será rápida e avassaladora (C: 122).
O livro encena o fim de uma época, em que se avizinhava toda a violência da empresa colonial, que a Conferência de Berlim viria a apressar alguns anos mais tarde, com as partilhas territoriais, e em que entretanto "Legiões de homens
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desbravavam as terras à procura de ouro, marfim e escravos que atulhavam galeões que cortavam os mares, distribuindo raças estigmatizadas em terras novas e velhas. O tempo pouco se prestava ao são convívio humano" (C: 43-44). Mas por outro lado, o romance de Khosa recupera do esquecimento este episódio para o tornar presente nas múltiplas raízes entrelaçadas e itinerantes da fundação, do que é hoje a nação moçambicana.
As informações que constroem esta narrativa sobre Nhabezi são de natureza vária, escritas e orais, algumas de arquivo histórico, e são estrategicamente utilizadas e ficcionadas pelos narradores de Choriro. Uma delas é o registo escrito de António Gonzaga, ou Chicuacha, amigo e cronista de Nhabezi, outra personagem, que abandona a sua identidade "colonial" para se transformar culturalmente: "Chicuacha, seu confidente e cronista, em terras já suas e com o título de Mambo, e não de Governador, ou Capitão general, ou Juiz e Procurador, mas Rei, como o é de Portugal, mas em terras de menor lonjura" (C: 32). Ficamos a saber que Nhabezi o quis como cronista e confidente, que lhe deu terras e abriu as portas da confiança junto aos grandes e pequenos do reino. Chicuacha "era respeitado por todos, não por ser branco como Gregódio, mas pela sua notória capacidade de aculturação que remontava aos tempos em que queria largar a sotaina, vestimenta de pouca valia nos sertões africanos" (C: 12).
Muito terá acontecido nas vésperas. (...) No calendário local, o tempo passou a ser dividido entre antes e depois da morte de Nhabezi. Dos acontecimentos das vésperas, o que em letra ficou foram os registos de Chicuacha, o andarilho. Do mundo vivido, da memória popular, sobraram ecos, pequenos cacos. No entender de Chicuacha, Nhabezi viveu o seu tempo (C: 117).
São também da autoria de Chicuacha, o "andarilho", algumas das narrativas encaixadas no romance como a de Dona Josefina Castelbranco, prazeira. Por sua vez Chicuacha o narrador "oficial" desdobra-se em outras vozes narrativas, nomeadamente com o testemunho de outros informadores:
Tyago Chicandari, responsável dos messiri, contaria anos mais tarde a Chicachua que ao chegarem à terra dos ansengas, na região do Zumbo, os chefes locais mostraram-se desconfiados porque experiência ruim com gente guerreira tiveram com as hostes nguni que por ali passaram (...) A introdução do arroz, milho e feijão junto aos reinos ansengas e outros contribuiu pra
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que lhe dessem, em definitivo, terras de cinco dias de comprimento e três de largura. A cimentar os laços, o rei ofertou- lhe a filha Nfuca como esposa e conselheira nos rituais do Mbona, o culto das chuvas (C: 35).
Reparamos nesta citação que ao contrário de outros estrangeiros, como é o caso dos ngunis, Nhabezi conquistou a confiança dos povos locais. Apesar de ser referido no texto que "da memória popular, sobraram ecos, pequenos cacos", a narrativa é resultante de uma combinatória de testemunhos orais com os escritos, em reformulação ficcional, como é o caso, por exemplo, dos relatos de Frederick Selous, comerciante inglês, que assistiu aos actos de Kanyemba, e narra parte da sua história, a ter lugar anos depois, ou aqueles omitidos por Livinsgtone:
Consta que o despautério à hospitalidade de Nhabezi marcou-o de tal modo que se coibiu de anotar aspectos da sua estada em terras do monarca branco nos livros sobre Viagens Missionárias e Pesquisas na África do Sul e a Narrativa de uma Expedição ao Zambeze e seus Tributos" (C: 96).
Omissão agora resgatada pela narrativa de Khosa, que reescreve e celebra o desenterro de uma época, marcada por trangressivas mobilidades culturais e entrelaçados cruzamentos, em que as genealogias e as raízes se misturam, em dispersão, nos alicerces do passado da formação de uma nação cultural e racialmente heterogénea, como é Moçambique hoje.
Alegoria sobre o Poder e a Impotência em O Chão das Coisas
O romance de Marcelo Panguana, O Chão das Coisas, mais do que uma narrativa histórica, é uma alegoria sobre o poder e um questionamento sobre a necessidade da afirmação da subjectividade, do sujeito enquanto singularidade, no quadro de um imaginário da nação, que considera em especial a noção de identidade, enquanto comunidade ou grupo.
Em termos intertextuais Marcelo integra uma referência mais ou menos directa a um romance do escritor senegalês Sembène Ousmane, Xala (1973), romance que criticamente parodia o poder através da personagem El Hadji Abdou
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Kader, no período pós-independência, próspero homem de negócios, que ao decidir arranjar uma terceira esposa, fica impotente e tenta curar-se recorrendo a feiticeiros e curandeiros.
Assim, a personagem principal do romance de Panguana, que se chama Xala, reenvia-nos de imediato ao romance referido, mas, agora, no texto do escritor moçambicano, o protagonista é um príncipe varão do reino tonga, que descobre a sua impotência, por altura de suceder ao trono. Com efeito, o romance de Marcelo começa também, tal como o de Khosa, com um enterro, o do rei Nhingitimo, colocando-se o problema da sucessão.
Relativamente à época sabemos que se trata do século XIX, uma vez que as referências cronológicas são implícitas, por informações como, por exemplo, a venda de armas de fogo pelos brancos aos guerreiros dos diferentes reinos do sul, e observamos que o narrador ora usa essa palavra,"reino", ora outras como "nação" ou como "tribo" ou "terra", mostrando-nos a proliferação de pequenos reinos, e grupos, cujas identidades, culturalmente diversas, muitas vezes em conflito de poder, proliferavam no sul de Moçambique.
Os homens encontram-se neste momento diante de um rio. Seguem atentamente a direcção que as águas tomam, deslizando céleres através do leito largo, para irem, desaguar, depois, lá longe, ao mar distante, onde se dizia circular barcos grandes comandados por homens brancos que costumavam atracar ao longo da costa a fim de realizar as suas negociatas (OCDC: 50).
Mas a imprecisão temporal de Panguana pode também remeter-nos para uma discursividade similar à da narrativa oral, que por vezes o romance ensaia: "Em tempos que já vão" (133); "era uma vez uma batalha" (143), talvez apelando a atenção do leitor para a insólita exemplaridade de uma história, cujo interesse reside na reflexão dos temas tratados, e não tanto na representação histórica. E os protocolos de contar histórias oralmente surgem uma vez ou outra:
Nenhuma vez é como quem diz, pois que, de acordo com Diassi, prestigiado conselheiro da Casa Grande, aquele que conhecia todas as coisas, apenas uma vez isso acontecera. Fora há tanto tempo. Tanto. As suas palavras despertaram curiosidade, toda a gente se calou para escutar a históra que Diassi se preparava para contar, o que viria a suceder quando ele se convenceu que o próprio silêncio também aguardava (OCDC: 57).
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A impotência é o tema fundamental da narrativa, e já por si é inesperado, tendo em conta a prevalência falocêntrica do poder em África. No entanto, é centrada nessa temática que a narrativa se desenvolve. O príncipe Xala decide fugir do seu reino e perder-se pelas florestas, desaustinado com a sua sorte e meio enlouquecido:
Era um rei, ou quase isso, e os reis foram sempre depositários de todas as virtudes, de todas as competências, não falhavam, nem sequer abandonavam uma mulher na cama sem que antes tivesse feito aquilo que um homem deve fazer a uma mulher (OCDC: 37).
A esta hora toda a aldeia deve saber que por quem todos esperam para tomar conta do poder não passa de um homem desesperado, fugitivo, incapaz de enfrentar a sua realidade (OCDC: 40).
Com efeito, tanto antes da colonização, como após as independências, o poder em África sempre foi figurado pela noção de virilidade e de masculinidade, concepções que o narrador de Panguana desestabiliza e põe em causa, desmistificando por um lado possíveis figurações gloriosas do passado pré- colonial, e por outro a própria concepção de poder e de autoridade.
De fait, aussi bien avant, pendant, qu'après la colonisation le pouvoir en Afrique a toujours cherché à revêtir le visage de la virilité.(....) La communauté politique s'est toujours voulue, avant tout l'équivalent d'une société des hommes ou, plus précisément, des vieillards. Son effigie a toujours été la verge en érection. On peut d'ailleurs dire que l'ensemble de sa vie psychique s'est toujours organisé autour de l'évenement qu'est le gonflement de l'organe viril. Au demeurant, c'est ce qu'a si bien su exprimer le roman africain postcolonial. (MBEMBE, 2010, p. 216).
O Chão das Coisas: Comunidade e Individualidade
Como vimos no texto inicialmente citado de A. Mbembe a outra vertente
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sobre o imaginário do Estado e da Nação nos países africanos reconhece diferentes identidades, culturas e tradições, mas considera fundamentalmente a noção de comunidade e de grupo, e não a de individuo.
Ao invés da figuração de um príncipe forte e valente, deparamo-nos na narrativa de Panguana com um sujeito perdido, incapaz de assumir responsabilidades, e em fuga perante a ideia de assumir o seu reino. O escritor procede ao questionamento das chefias, enquanto entidade simbolizadora de um poder grupal, mostrando a singularidade de um indivíduo, confrontado com as suas fraquezas: " - Ninguém a não ser que esteja louco pode brincar com o poder..." (OCDC: 42).
Não é um protagonista exemplar que nos é apresentado no romance de Marcelo, pela sua capacidade de união e força; pelo contrário, é um sujeito desvalido e enlouquecido o príncipe que se perde pela noite e pelos caminhos, deixando a sua corte sem rumo, e em estado de questionamento sobre o poder e o seu exercício. Reparamos que deste modo a noção de poder torna-se equivalente à de potência fálica, realizando-se a alegoria através da história e do comportamento de Xala.
Le phallus est donc au travail. C'est lui qui parle, ordonne et agit. C'est la raison pour laquelle, ici, la lute politique revêt presque toujours les allures d'une lute sexuelle, toute lute sexuelle revêtant, ipso facto, le caractère d'une lutte politique. Il faut donc chaque fois en revenir à la verge du potentat si l'on veut comprendre la vie psychique du pouvoir et les mécanismes de subordination en postcolonie (MBEMBE, 2010, p. 217-218).
As divisões e lutas pelo poder, que são encenadas em O Chão da Coisas, mostram também como a ambição e a luta pelo poder levou ao enfraquecimento dos reinos do sul perante um inimigo maior e comum, que lhes vendeu armas, propiciando e atiçando a guerra:
- Faça-o entender que só terá a ganhar se um dia juntarem as suas forças. Falam a mesma língua. O sangue que corre nas vossas veias cruzou-se pelos caminhos. São quase as mesmas, as vossas tradições. Se estiverem unidos e formarem uma nação serão bastante poderosos!
- E se Nhinguitimu não aceitar? - Então mate-o!" (OCDC: 105).
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Por outro lado, no decorrer do romance é também questionada a questão do género e suas relações com o poder, quando se ponderava a substituição no poder de Xala pela sua mãe, Samata: "os homens indecisos consideravam a entrega do poder a uma mulher uma verdadeira afronta."(OCDC: 57). Verificamos que a história encaixada de Rabia, em que se relata a sua devoração de homens e uma promiscuidade absoluta, é reveladora dos preconceitos relativamente ao imaginário sulista dos homens sobre as mulheres e sua irresponsabilidade perante o poder.
Contou que a primeira mulher que dirigira os destinos de um reino tinha o nome de Rabia. Apenas Rabia e mais nada. E o seu nome ficaria para sempre gravado na memória de muitos por ter legado ao seu povo uma triste história que, se poucos a conheceram se deveu ao facto de conter pormenores considerados imorais e que os mais velhos evitavam contar à volta das fogueiras (OCDC: 57).
Outro preconceito, tratado criticamente nesta narrativa é o da diferença cultural, mostrando a forma como é percepcionada a mistura entre grupos culturalmente diferentes, e como a noção de "estrangeiro" surge no interior de um mesmo território:
O sono, contudo, tardava em aparecer, e os seus olhos, cansados pareciam estar a ver os pretendentes perfilados no seu quarto, esperando cada um, que Samata se levante da cama para os convidar nos segredos da noite. Que se diga a verdade: eram homens que não lhe interessavam. Pertenciam a tribos diferentes da sua. Gente com hábitos e costumes estranhos. Sendo assim, como poderia Samata misturar o seu sangue ronga e nobre com o de qualquer desconhecido? Como poderia misturar a sua bela cultura com uma outra estranha? (OCDC: 69).
A causa da impotência de Xala é descoberta no final da narrativa, quando sabemos que resulta de um acto ritual feito pelo pai em troca da fertilidade da terra. A fim de que a seca das terras fosse combatida, Nhingitimu ofereceu a virilidade do filho ao "chão":
-Ofereça como sacrifício a virilidade do vosso filho varão para que se espalhe na terra martirizada. Só assim se apaziguará a ira dos antepassados. Caso contrário a terra tornar-se-á cada vez mais
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seca, dura como as pedras (OCDC: 151).
- O que fizeram à minha virilidade? – Encontra-se debaixo destas terras, Xala, no chão das coisas! ( OCDC, p.149).
O poder pertence à terra e não dos homens, pertence ao chão. Xala no encalço de uma resposta ao seu problema ouve a história que o nyanga conta e que explica a razão da sua impotência. Afinal, a terra e todos aqueles que nela vivem vale o sacrífício do poder de um rei. O chão das coisas, terra, nação, tribo, reino, é a comunidade, o grupo, e a sua sobrevivência é mais importante que a potência do falo soberano.
Se a comunidade prevalece em desfavor do símbolo da chefia, significa isto dizer que o poder das chefias deve ser questionado quando está em causa uma ideia de nação, é o que parece também querer dizer-nos o romance.
Mobilidades e Entrelaçamentos
Lorsqu'il s'agit de la créativité esthétique dans l'Afrique contemporaine, voire de la question de savoir qui est "Africain" et ce qui est "africain", c'est ce phénomène historique de la circulation dês mondes que la critique politique et culturelle a tendance à passer sous silence." (...) L ́histoire culturelle du continent ne se comprend guère hors du paradigme de l'itinérance, de la mobilité et du déplacement. C'est d'ailleurs cette culture de la mobilité que la colonisation s'éfforça, en son temps, de figer à travers l'institution moderne de la frontière (MBEMBE, 2010, p. 227).
As narrativas de Ungulani Ba Ka Khosa e de Marcelo Panguana apresentam Moçambique, enquanto lugar culturalmente heterogéneo, cujo passado precisa de ser repensado e reavaliado. Choriro e O Chão das Coisas questionam as representações unívocas do passado e das origens, questionam o indigenismo e o poder das chefias, a anulação das subjectividades, a questão do género, no quadro de uma moderna representação da nação, trazendo estas questões à discussão no actual presente histórico; procuram activá-las no presente, em processo de reflexão crítica.
A História representada nos dois romances não pode ser contada de uma perspectiva única. De facto nas duas narrativas entrecruzam-se personagens de
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origens distintas, africana, europeia, cuja diversidade e origens compõem uma imagem cultural heterógenea, característica também de Moçambique actual.
Semelhante heterogeneidade cultural é representada também pela variedade de pontos de vista e ainda pela escolha de diferentes vozes narrativas, que demonstram dois aspectos. Por um lado, a fronteira entre o histórico e o literário é oscilante, por outro destaca-se a necessidade de procurar testemunhos distintos, documentais e ficcionais, para repensar momentos de pré-fundação da nação de hoje.
Coexistindo com a reflexão sobre a uma época histórica de limiar, verificamos o tratamento de diferentes tópicos nas duas obras. Em O Chão das Coisas o tratamento da impotência estrutura-se na narrativa de Marcelo Panguana a par de outra temática insistente, a da indefinição entre morte e vida, uma vez que no final não percebemos se Xala está vivo ou morto; o poder fica nesse estatuto de indefinição e não é protagonizado, fica em estado de falência, fantasmático; no romance de Ungulani observamos a celebração da morte, enquanto metáfora do enterro de uma época, que subsiste na bastardia das origens, negando os preconceitos nativistas e de pureza e as lógicas indigenistas.
Nas duas narrativas de Khosa e Panguana somos confrontados, no entanto, com a actualização crítica do cenário colonial, em diferentes épocas, nomeadamente com a revisão dos papéis dicotómicos escravo/senhor, colonizado/colonizador, negro/branco, bem como com os propósitos coloniais de missionarização e ocidentalização, que resultam, muitas vezes, no seu contrário, em africanização e conversão aos hábitos religiosos e linguísticos locais. A revisão dos arquivos é escrita numa perspectiva inovadora, mostrando que o processo colonial não funcionou apenas numa direcção, nem linearmente, mas teve muitos contrapontos insólitos e mobilidades perversas, tendo em conta os seus objectivos.
Nos dois romances a morte tem também um papel essencial porque cria uma ponte entre passado e presente. No romance de Khosa assistimos à previsão do desmonoramento e ruína de um reino e seus limites territoriais: "O reino de Gregódio deixará de ter contornos exactos nos mapas da dominação efectiva. [...] Os mapas da memória perderão a cor e o vigor de outrora. Na verdade seremos o sonho de nós mesmos..." (C: 137). No romance de Panguana
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acompanhamos um fantasma do poder que acaba por regressar ao seu lugar, entretanto assumido por uma mulher. Questiona-se o símbolo da chefia, a posição do senhor, a invulnerabilidade dos que tudo podem, quando afinal se tornam subalternos e escravos da sua impotência e capacidade de mandar. O poder pertence ao chão, ao povo, à comunidade, à terra que produz e recolhe os corpos, à terra que dá abrigo à morte.
Outrossim os temas como o da origem, pertença, identidade, raça, são problematizados também nas duas narrativas Com efeito, os fenómenos de aculturação e de miscigenação que tiveram lugar no vale do Zambeze, como se lê na narrativa de Khosa, esbatem também os mitos de origem e de raça e confundem princípios de pureza identitários. As várias histórias de vida dos filhos de Nhabezi testemunham essa irreverência perante a mitificação de preconceitos de origem. E uma das muitas narrativas que se encontram em Choriro, é a de um dos netos do rei branco, David de nome:
então com cinco anos, pouco saberia do avô porque a morte o levaria em plena juventude, num embate com as tropas comandadas por João de Azevedo Coutinho, português que muito se orgulharia, em idade de reforma, de ter pacificado terras indígenas ao domínio do império. De feições apretalhadas, David não resistiu ao chumbo de Coutinho que jamais saberia que matara, em combate, o neto de um conterrâneo que assumira a integração e miscigenação cultural como seu modo de vida (C: 115).
Os silenciamentos das mobilidades do passado colonial são revisitados nos romances de Khosa e de Marcelo Panguana de vários modos, através da releitura crítica do passado, que se actualiza subtilmente no presente histórico. Se as cerimónias do enterro de Nhabezi, ladeadas de abutres, testemunham o desmoronar de uma época, mostram como esses destroços e réstias se reconfiguram no presente. A morte e o esquecimento a que são votados lugares e tempos podem também evocar, subtilmente, a subalternidade de certas regiões do país, como o vale do Zambeze, bem como a subalternidade do norte e da periferia rural, lugares desconhecidos, inominados e remotos, relativamente aos centros urbanos do sul e do poder actual.
Com efeito, os tempos enterrados do país, que as cerimónias mortuárias
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representadas nos dois romances simbolizam, erram fantasmaticamente numa espécie de limbo, em que os laços do presente não se estruturam com o passado. Ora, o que os romances de Ba Ka Khosa e de Marcelo Panguana encenam é exactamente a problematização de uma ideia de nação, a partir de passados diversos, tentando repensar as margens esquecidas de acontecimentos que aí tiveram lugar, bem como actualizando vozes subalternas. Daí o recurso aos tópicos das origens bastardas e amalgamadas, à falência do poder, à valência das subjectividades, à ambiguidade fantasmática desses mortos que invadem o presente, recorrendo os autores a um arsenal retórico, que potencializa a recomposição da dimensão histórica pré-colonial, em limiar com a colonial:
Não restará nada à superfície que fará lembrar que um dia os nossos homens fabricaram armas e pólvora; a nossa memória será encaixotada em palavras que não comportarão os anos da nossa glória. Os que mais mortes e guerras provocarem serão os mais lembrados. Fixa isto, Nfuca. O que Chicuacha vai apontando não terá grande significado, porque é comum à alma humana acordar, comer, dançar, dormir, viver e procriar. A diferença estará em um branco ter bebido o sangue negro. O que quero na verdade, Nfuca, é continuar a existir por estas terras por anos sem fim, como uma alma protectora (C: 122).
Reler o passado, repensar o presente da nação moçambicana, são alguns dos trilhos experimentados por Marcelo Panguana e Ungulani Ba ka Khosa nestes dois romances. Muitas são as sugestões de reflexão para os leitores sobre a necessidade de enquadrar de forma crítica e nova, sem preconceitos, as memórias históricas do Ocidente e de África, assim como a questão das origens e do ser africano, os debates em torno de figuras do poder, a importância das subjectividades e do género.
Os tópicos afins da relação colonial, os mitos em torno das ideias de origem, de raça, de identidade, de poder, continuam actuais e as novas sensibilidades dos escritores moçambicanos, como é o caso de Khosa e Panguana, que fazem a sua revisão crítica, representando a sua nação enquanto espaço moderno de cruzamentos, de diferenças, tolerância e espírito crítico relativamente a ortodoxias de genealogia, género e outras, potenciadoras do fechamento de África a uma dimensão global e humanista.
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Au contraire, cette critique (postcoloniale) insiste sur le fait que l'identité s'origine dans la multiplicité et la dispersion; que le renvoi à soi n'est possible que dans l'entre-deux, dans l'interstice entre la marque et la demarque, dans la co-constitution. Dans ces conditions, la colonisation apparaît comme une domination mécanique et unilaterale qui force l'assujetti au silence et à l'inaction. Au contraire, le colonisé est un individu vivant, parlant, conscient, agissant et don't l'identité est le résultat d'un triple movement d'effraction, de gommage et de réécriture de soi (MBEMBE, 2010: 83).
Outros espíritos escreverão a sua história sobre os escombros daquilo que um dia foi uma terra, um povo, uma história. (C)
Contou que à noite quando fecha os olhos, surgia-lhe um sonho terrível. Sonhava que carregava uma enorme urna para toda a parte. (OCDC)


Referências bibliográficas


HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A
Editora, 2001.
KHOSA, Ungulani Ba Ka. Choriro. Maputo: Alcance Editores, 2010. MBEMBE, Achille. Sortir de la grand nuit. Paris: La Découverte, 2010. PANGUANA, Marcelo. O chão das coisas. Maputo: Alcance Editores, 2010.

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