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Macunaíma: um discurso de ressignificação da identidade nacional brasileira a luz do pós-colonial

Escrito por  Vanessa Canedo, Larissa Magalhaes, Adelia Miglievich-Ribeiro
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Resumo: Este trabalho analisa um clássico da literatura nacional "Macunaíma", de Mário de Andrade, de forma a pensar a resignificação e reconstrução das identidades do homem/povo brasileiro. Para tanto, pretende-se trazer para a discussão os Estudos Pós-coloniais com ênfase à problematização da identidade por Stuart Hall, também ao "hibridismo" de Canclini e às discussões sobre "DissemiNação" de Homi Bhabha. As reflexões estão estruturadas em quatro sessões: a primeira trata da apresentação crítica de "Macunaíma", em seguida, faz-se uma análise do "hibridismo" e das tensões e transformações do ideário do "homem brasileiro" e, na terceira sessão, discute-se a identidade como uma produção metafórica. Conclui-se os apontamentos das ideias de nação, frisando-se a cultura nacional como a "zona de instabilidade oculta" onde o povo vive, trabalha e habita. Assim, espera-se poder participar, nalguma medida, dos desafios epistemológicos que se colocam hoje ao pensamento
social brasileiro como área de conhecimento consagrada na sociologia brasileira.

Abstract:This paper analyzes a national literary classic "Macunaíma", Mário de Andrade, in order to consider
reframing and reconstruction of the identities of the man / Brazilian people. To this end, we intend to bring to the discussion Post-colonial with emphasis on the problematics of identity by Stuart Hall, also the "hybridity" of Canclini and discussions about "dissemination" of Homi Bhabha. The reflections are organized into four sessions: the first deals with the critical presentation of "Macunaíma" then it is an analysis of "hybridity" and the tensions and transformations in the ideals of the "Brazilian man" and the third section discusses the identity as an output metaphorical. It notes that the ideas of nation, pointing to national culture as the "zone of occult instability" where people live, work and lives. Thus, it is expected to participate, to some extent, the epistemological challenges facing today's social thinking of Brazil as an area of knowledge embodied in
Brazilian sociology.

Palavras-chave: identidade, Pós-colonial, homem brasileiro, nação.

Keywords: identity, Post-colonial, brazilian man, nation.

 

Vanessa Canedo 1
Larissa Magalhães 2
Adelia Miglievich-Ribeiro3

 

Introdução
"Macunaíma" foi publicado em 1928, pelo escritor brasileiro e modernista Mario de Andrade. Neste período, o Brasil já sentia os ares trazidos pela indústria e já nem tanto os ares tranquilos da fazenda. A semana de arte moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, sob os auspícios de Graça Aranha, durou apenas três dias e se dirigiu a um público elitizado e não tão bem receptivo; seus desdobramentos, porém, afetaram para sempre a cena cultural brasileira. Buscando pensar o país a partir do ingresso da cultura brasileira numa ordem


1 Graduanda em Ciências Sociais e integrante do Pivic-Ufes (2011-2012). E.mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. . 2 Licenciatura e bacharel em Ciências Sociais. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - PGCS/UFES.Bolsista Capes. E.mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. .
3 Dra. em Sociologia (PPGSA-IFCS-UFRJ). Professora do DCSO e docente permanente dos Programas de Pós- Graduação em Ciências Sociais (PGCS) e Letras (PPGL). Bolsista sênior do Programa Cátedras Ipea/Capes para o Desenvolvimento (2010-2012). E.mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. .


universalista, um jovem que se destaca é Mario de Andrade, que tinha por característica uma capacidade enorme de estudo e de compilação dos mais diversos elos da cultura brasileira.
Pensar o Brasil a partir da lógica do que foi escrito por Mario de Andrade em "Macunaíma" é entender o país mediante uma reelaboração de temas folclóricos-populares e de mitos da modernidade, como se folclore também fosse. A narrativa se passa em uma atmosfera fantástica e o personagem principal da rapsódia surge na contraposição do que se entendia por "sujeito moderno". Macunaíma, o personagem, constitui-se de maneira subversiva como o anti-herói. Seria ele o "híbrido" percebido na crítica pós-colonial hoje? Esta é nossa primeira provocação.
Macunaíma procura pensar um problema chave de qualquer nação, em nosso caso: "o que faz do brasileiro um brasileiro e não outro?". Há no livro a intenção de mostrar as mudanças que o país passou, e que se evidenciavam na metrópole de São Paulo e trazer os paradoxos da modernidade. O embate de Macunaíma com Venceslau Pietro Pietra pode ser lido como uma tentativa do "herói de nossa gente", logo, o agente de nossa cultura local, resistir ao impulso modernizador homogeneizante impetrado, como podemos dizer hoje, pelo ocidente.
Macunaíma viaja durante toda a obra por vários lugares numa lógica de tempo-espaço particular na narrativa, não há uma linearidade ou coerência com o tempo do real. Ele virará inseto, peixe e pato. Todas essas transformações se dão de acordo com as circunstâncias com as quais Macunaíma se depara.
Do seu gozo com Ci, a "mãe do mato", nasce seu filho que morre; a mãe, inconsolada sobe por um cipó ao céu e se transforma numa estrela, mas deixa seu poderoso muiraquitã com Macinaíma. Num embate com Capei, monstro fantástico, o anti-herói perde o talismã dado por Ci e fica sabendo que uma marisqueira, que encontrou a pedra em uma tartaruga, achou-o vendeu a um proprietário de uma mansão em São Paulo. Macunaíma decide partir para São Paulo em busca de seu amuleto.
—... Ei cascavel faça ninho si eu não topo com a muiraquitã! Si vocês venham comigo muito que bem, si não, homem, antes só do que mal acompanhado! Mas eu tenho opinião de sapo e quando encasqueto uma coisa agüento firme no toco. Hei de ir só pra tirar a prosa do passarinho uirapuru, minto! da lacraia.
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Depois que discursou Macunaíma deu uma grande gargalhada imaginando na peça que pregava no passarinho. (ANDRADE, 1978, p.17)
Macunaíma descobre que quem está com seu muiraquitã é Venceslau Pietro Peitra, "comedor de gente". Depois de uma tentativa frustrada de negociação da sua pedra, Macunaíma recorre à magia para tentar reaver sua pedra, vai para o Rio de Janeiro e procura um terreiro de candomblé para castigar Venceslau. Ao retornar a São Paulo, escreve uma carta para as icamiabas - uma tribo de mulheres chefiada por Ci - sobre sua vida na grande cidade. A carta revela ao leitor a tentativa de um indígena em entender a "civilização paulistana". Ao final da missiva, registra seu estranhamento sobre os "paulistanos": "eles falam numa língua e escrevem noutra" (ANDRADE, 1978, pg 57)
O nosso anti-herói, depois de reaver sua pedra e derrotar Pietro Pietra, retorna para sua terra. Por fim, o "herói sem nenhum caráter", tal como chamado na trama, vai para o céu e transforma-se na Ursa Maior.
A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu. (ANDRADE, 1978, p.101)
Existem razões para entender por que Macunaíma se tornou uma peça literária tão conhecida no universo cultural brasileiro. Uma das ideologias brasileiras mais fortes é a que se refere à participação igualitária das "três raças" na formação do Brasil, sem se enfrentar a grave questão da desigualdade no recebimento do bônus por cada qual de nossas matrizes fundadoras. Conforme Santiago:
[...] uma ideologia que permite conciliar uma série de impulsos contraditórios de nossa sociedade, sem que se crie um plano para sua transformação profunda [...] se constitui na mais poderosa força cultural do Brasil, permitindo pensar o país, integrar idealmente sua sociedade e individualizar sua cultura (Santiago 1988, p.69. Os colchetes são nossos).
É importante salientar que o livro desafiou, em seu tempo, a produção literária vigente no Brasil, propondo um inédito tipo de linguagem e buscando um tratamento de aspectos da cultura brasileira sem nenhum sentimento de inferioridade, fugindo da ideia generalizada de atraso, e valorizando a diferença. A ausência de caráter do brasileiro não se remetia a qualquer
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julgamento moral mas à constatação da impossibilidade de se pensar a brasilidade como uma entidade psíquica permanente. O Brasil, segundo Mário de Andrade, era a mistura das histórias orais das várias regiões e de seus (des)encontros.
1) Pontes entre "Macunaíma" e "Culturas Híbridas"
Em seus estudos sobre cultura e comunicação, Canclini (1997) propõe discutir a realidade latino-americana rompendo com o eurocentrismo que situou a cultura local secularmente como "atrasada" ou "incivilizada". Esse intento aproxima-o das intenções de Mário de Andrade que, em 1928, buscou uma identidade nacional para o Brasil em distinção dos modelos europeus que moldavam quase que completamente a autoconsciência dos artistas e literatos brasileiros.
Ainda segundo Canclini, a "cultura" somente pode ser pensada sob a perspectiva de processo, portanto, em constante transformação. Cultura é ação. Como Macunaíma, de Mário de Andrade, é metamorfose e não tem caráter. Ao problematizar a globalização, o crítico mexicano ressalta que nem esta é capaz de apartar a cultura de sua relação com o local, mas impõe uma conexão entre "local" e "global" que gera realidades híbridas. Híbrido também é Macunaíma em São Paulo ou no Rio de Janeiro, em meio aos carros e à indústria.
Os deslocamentos são realizados a todo tempo por Mario de Andrade. O descendente de índio que luta com monstros ou gigantes também luta com os guardas da cidade de São Paulo. O Macunaíma que envereda na grande São Paulo, busca o muriaquitã que fora parar nas mãos de Venceslau Pietro Pietra. Nosso anti-herói que no terreiro de macumba da Tia Ciata buscara ajuda, tenta também uma bolsa de estudos para a Europa junto ao governo, a fim de encontrar seu amuleto. Macunaíma narra, por fim, sua historia a um papagaio que pôde salvá-la do esquecimento
Macunaíma é o elemento disjuntivo da modernidade jamais realizada tal como o telos iluminista eurocêntrico deu como destino inexorável da humanidade. O anti-herói nasce das fendas da modernidade e a põe em xeque, passeia por São Paulo, "entra e sai da modernidade" de acordo com as circunstâncias. Mário de Andrade antecipou em seu modernismo crítico a percepção das interculturalidades na sociedade nacional.

Híbrida também é a rapsódia que Mário de Andrade realiza. Nas primeiras páginas da obra, enumera algumas danças tribais existentes no Brasil e elege símbolos e significados de diferentes grupos, culturas e regiões. Macunaíma, o personagem, índio, é preto, torna-se branco, mestiço. Canclini, por sua vez, em "Culturas Híbridas" (1995), percorre um caminho entre diferentes manifestações culturais e artísticas, desde passeatas de cunho reivindicatório, pinturas, música, grafite e a simbologia dos monumentos urbanos. Ao refletir neste "trânsito", recusa o paradigma binário de tradicional/moderno, subalterno/hegemônico que baliza a modernidade idealizada. Nas percepções das diferenças entre o "brasileiro falado" e o "português escrito", Macunaíma, a obra e o personagem, expressa a "heterogeneidade multitemporal" de Canclini. Macunaíma contraria o caráter de totalização e generalização que legitima a autoridade discursiva moderna, inaugura a "alteridade recíproca" e propõe o entrelaçamento conflituoso entre culturas.
1) A crítica pós-colonial
Na criação de uma narrativa para o Brasil, Mário de Andrade elege Macunaíma como o "herói da nossa gente", nascido na mata, filho das tribos silvícolas e sujeito "preguiçoso" e conhecedor dos gozos do sexo, nas "brincadeiras" mil de que mais gostava. Suas metamorfoses em face dos desafios objetivos em sua saga aproximam-no do que Canclini observa, ao se referir a uma modernidade (que não é a pós-modernidade) que nos permite a consciência de que nos constituímos em processos infindos de hibridação.
Nem tudo pode ser hibridizado, sabe Canclini. Antes, entramos e saímos de processos de hibridação o tempo todo. O que não existe é a possibilidade de um purismo se trata de enxergar as histórias dos povos. Mas, a sociedade nacional é também um enredo, menos importante para Canclini, sobretudo em sua experiência diaspórica, já em fins do século 20; contudo, vital para Mário de Andrade que, em inícios de 1920, focava-se em nossa singularidade como partícipe do "concerto das nações". Falamos de contextos e preocupações distintas que separam os autores. Ainda assim, observamos que a narrativa de Andrade fala em oposição ao "discurso colonial" de um povo em feitura que pode "entrar e sair da modernidade" e reinventá-la.
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As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso — um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. Os sentidos sobre a nação com os quais nos identificamos constroem simultaneamente as identidades. Estão contidos nas estórias que nos são contadas, memórias que conectam o presente ao passado e imagens que vamos construindo. Como o argumento clássico de Benedict Anderson (1983), a identidade nacional é uma "comunidade imaginada".
Stuart Hall (2006) salienta que a narrativa da cultura nacional baseia-se na busca de se reunir as historias e literaturas nacionais, símbolos, rituais, e experiências que representam e dão sentido a esta nação. Localiza-se uma hipotética "origem", cria-se o mito fundacional, aquele que situa o começo da nação, do povo e de seu caráter, a partir do qual se pensam as continuidades da tradição que é, inevitavelmente, tradição inventada mediante as práticas de cunho ritualístico ou simbólico que fomentam valores e rotinas que permitem a hibridização entre passado e futuro. Portanto, há que se pensar a nação como um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade ainda que atravessadas por profundas divisões e diferenças internas, "unificadas" apenas através do exercício de diferentes formas de poder cultural. Como nas fantasias do eu "inteiro" de que fala a psicanálise lacaniana, as identidades nacionais continuam a ser representadas como unificadas ainda que o que tenhamos seja no máximo fragmentos. É também Hall que assevera que "não tem qualquer nação que seja composta de apenas um único povo, unia única cultura ou etnia. As nações modernas são, todas, híbridos culturais" (2006, p.7).
A "raça", conforme sabemos é também uma categoria discursiva - não biológica - organizadora de formas de falar, sistemas de representação e práticas sociais que se utilizam de um conjunto frouxo, frequentemente pouco específico, de "diferenças" em termos de características físicas — cor da pele, textura do cabelo, características físicas e corporais etc. — como marcas simbólicas, a fim de diferenciar socialmente um grupo de outro (HALL, 2006, p.17).
O texto de Macunaíma é revelador das experiências híbridas e fronteiriças daqueles que vivem na condição neocolonial. Pela construção do "herói de nossa gente", Mario de Andrade questiona a subestimação dos brasis da mata, da sexualidade, da magia, da esperteza,
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da preguiça a pretexto da elevação de uma cultura letrada, sobretudo importada da França, que não explicava nossas gentes. Ao recusar a narrativa moderna ocidental não inferiorizava as misturas conflituosas que aqui se deram mas elevava-as à condição de lócus de enunciação. A cultura como luta política destaca, por Mário, os milhares de Macunaímas, analfabetos e inteligentes, feios e príncipes; oprimidos e redimidos que são tantos brasileiros.
Bhabha (2007) já salientara que o espaço do povo-nação não pode ser interpretado se não como movimento metafórico que transita entre nossas representações, formações culturais e processos sociais. Como Canclini chamou, processos de hibridação, ora mais evidentes em sua heterogeneidade, ora mais discretos, sempre, contudo, ambíguos. Ao tentar escrever a história, ou discurso de uma nação, o tempo da modernidade ocidental deve ser repensado, porém. As nações modernas não mais se explicam pela "metáfora progressista da coesão social moderna – muitos como um". Uma nação é as culturas híbridas que as conformam num dado momento. Em seus rearranjos, os "poderes oblíquos" agem e fazem da modernidade apenas uma máscara.
Considerações finais
Edward Said (2003), sobre sua vida de garoto no Cairo, narra:
E assim lá estava eu, um palestino, anglicano, menino que falava inglês, árabe e francês na escola, árabe e inglês em casa, vivendo na intimidade quase sufocante e profundamente marcante de uma família cujos parentes estavam todos na Palestina ou no Líbano, sujeito à disciplina de um sistema escolar colonial e a uma mitologia importada que não deviam nada àquele mundo árabe entre cujas elites coloniais floresceram pelo menos durante um século. (SAID, 2003, p.102)
A perspectiva pós-colonial que reúne Said, Hall e Bhabha, dentre outros, revela o quanto há de arbítrio nas metanarrativas modernas e monolíticas. Um dos mais eficazes discursos modernos concerne ao Estado-Nação e se constitui na ficção de culturas rígidas e estanques e na negligência aos conflitos, às rupturas, aos silenciamentos, aos genocídios. O pós-colonial duvida das configurações modernas e as submete à crítica.
Bhabha (2007, p.204), a partir de seu conceito de "DissemiNação", quer pensar a nação a partir de suas margens: as minorias, os conflitos sociais, o "arcaísmo" chocando-se
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com o "moderno". Subverte, em suas palavras, a "visão homogênea e horizontal associada com a comunidade imaginada da nação". Assevera ainda Bhabha (p.72) sobre a necessidade de se suspeitar da lógica direcionada, historicista e ordenada a partir da qual, até hoje, foram narradas às histórias dos povos feitos colônias. Revisita as velhas categorias pelas quais o mundo social foi descrito, destaca as ambiguidades, a "indecidibilidade", a provisoriedade das negociações e das hierarquias, dos embates e das cópias, das discriminações e dos estereótipos.
Macunaíma com seu anti-heroísmo e sua "desgeografia" contesta a narrativa binária da civilização ocidental. Sua flexibilidade (no lugar, de identidade fixa), sua heterogeneidade, cria elo entre mundo selvagem e grande metrópole mediados, cá e lá, por elementos mágicos e mercadológicos num só tempo. Podemos provocar: o que há de mais mágico do que o talismã quando vira mercadoria?
Mário de Andrade experimenta em Macunaíma a ironia em face da sofreguidão por definições (de por fim a algo) que caracteriza o imaginário moderno. A "falta de caráter" do herói do livro é o modo como o autor escolhe dizer ao leitor que não espere um Brasil acabado, muito menos homogêneo. Também que este não queira fechar os olhos ao índio e ao negro em nós, brasileiros, de tantos brasis por onde Macunaíma transita e se transforma. Somos o impulso modernizador e também nossas raízes. Somos continuidades e descontinuidades. Somos metamorfoses.
Sequer podemos supor, como nos alerta Canclini, que a tradição não é moderna, se circula no circuito do consumo, o mercado dos bens culturais. Sem contar que não basta se vincular a um repertorio de objetos e mensagens exclusivamente modernos para participar do "culto moderno". Exige que se saiba incorporar a arte e a literatura de vanguarda, assim como os avanços tecnológicos, e não menos as matrizes tradicionais que se tornam marcas de privilegio social e distinção simbólica (CANCLINI, 1998, p.74). Ler Macunaíma, de Mário de Andrade, é também uma distinção cultural.
Há divergências, entretanto, entre Mário de Andrade, em 1928, e Canclini, em fins de 1980. O primeiro descontrói o Brasil para, quiçá, se ver, num futuro, uma nação menos estranha aos próprios brasileiros. Canclini, argentino, exilado, instalado no México, estudioso
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das culturas das fronteiras, mais especialmente entre o México e os EUA, também, professor e pesquisador em inúmeras universidades, no México e fora dele. Experiente das diásporas, não propõe pensar um país – não poderia pensar sua comunidade de origem, a Argentina, que não mais reconhece. Em seus círculos intelectuais também na Itália ou em França, sua obseção não é a dos modernistas brasileiros que buscam uma solução ao "enigma nação". Noutro contexto, suas motivações e de seus pares moveram-se. Trata-se para Canclini de se entender as culturas híbridas em tempos de globalização, sem qualquer privilégio à categoria nação como se dá em Mário de Andrade.
O que nos motivou a uni-los, porém, justifica este ensaio e propõe novos desdobramentos. Ainda que buscando a nação brasileira, Mário de Andrade depara-se apenas com culturas híbridas e é destas que nos fala por toda a narrativa. Se se propunha a nos apresentar o Brasil moderno, ao fim, não é o que fez; ao contrário, Andrade desautoriza, tais quais os pós-coloniais farão mais tarde, o "pacote moderno". A Paulicéia não seduz Macunaíma. Ele volta para a mata, mas não é mais o mesmo, nem a floresta. O que os pós- coloniais nos ensinam, talvez, é que não é apenas o Brasil híbrido. A modernidade o é; ou melhor, somos feitos, como tudo a nosso redor, através de processos de hibridação, transitamos entre identidades, reinventamos raízes, nos misturamos, ou rejeitamos as misturas. Há relações de poder nestes processos, há tentativas de congelamento e de hierarquizações, mas, para se compreender a realidade, se é esta nossa pretensão, há que se estudar simultaneamente a cantiga de ninar e o Ipad neste mundo de modernidades partilhadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
CANCLINI, Néstor García. La épica de la globalización y el melodrama de la interculturalidad. In: MORÃNA, Mabel. (Org.). Nuevas perspectivas desde/sobre América Latina. Santiago: Cuarto próprio, 2000.
______. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 2. ed. São Paulo: Edusp, 1998.
______. Cultura y Comunicación: entre lo global y lo local. La Plata: Ediciones de Periodismo y Comunicación, 1997.
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______ La modernidad después de la posmodernidad. In: BELUZZO, Ana Maria de Moraes (Org.). Modernidade: vanguardas artísticas na América Latina. São Paulo: Memorial da América Latina, 1990.
Hall, Stuart. A identidade Cultural na Pós-modernidade. Tradução: DP &A. Editora, 2006. MORAES, Eduardo Jardim. Modernismo Revisitado. Estudos Históricos 2. Identidade Nacional. Cpdoc/ FGV. São Paulo. 1988. P. 220- 238.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SANTIAGO, Silviano. 1988. A trajetória de um livro. Macunaíma: O herói sem nenhum caráter. Por Mário de Andrade. Ed. e org., Telê Porto Ancona Lopes. Florianópolis: Editora da Universidade Federal de Santa Catarina.
ANDRADE, Mario. Macunaíma. O herói sem nenhum caráter. São Paulo: Livaria Martins Editora, 1978.

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