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Revalorização Da Palavra Ou Proposta Para Determinação Do "Lugar E Origem Da Beleza"?

Escrito por  Conceição Cristóvão
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“A linguagem do poeta é vitalmente metafórica, isto é, assinala as relações das coisas antes inapreendidas, e perpetua a apreensão delas, até que as palavras que as representam, se tornam, pelo tempo fora, sinais de parcelas ou classes de pensamento, em vez de figuras de pensamentos integrais.”

“A linguagem do poeta é vitalmente metafórica, isto é, assinala as relações das coisas antes inapreendidas, e perpetua a apreensão delas, até que as palavras que as representam, se tornam, pelo tempo fora, sinais de parcelas ou classes de pensamento, em vez de figuras de pensamentos integrais.”

Quem assim escreve em “Defesa da Poesia” é Percy Bysshe SHELEY, que, para além de ser o mais notável poeta lírico britânico e uma das vozes mais sonantes do Romantismo europeu, é também um grande teórico no domínio da Estética.

Ao propormo-nos erigir um texto de apresentação ao mais recente livro do confrade e amigo João Maimona, ocorreu-nos reler alguns dos seus belos poemas, analisá-los e, acto contínuo, tecer alguns comentários.

Mas como é consabido, a análise é, etimologicamente falando, a “decomposição de um todo nos seus elementos constitutivos”, pressupondo também a descrição individual de cada uma das partes, com o escopo de deslindar as relações existentes entre tais partes, obrigando o crítico ou analista a tomar uma posição racional, i. é, um posicionamento objectivamente científico, onde os “elementos textuais devem predominar sobre a subjectividade do sujeito receptor.”

E em assim sendo, tendo também em devida conta o facto de o nosso também amigo Jorge Macedo ter produzido (no sentido material e espiritual do termo) um brilhante prefácio, onde magistralmente faz uma leitura subterrânea do livro, com um nível de elaboração intelectual à altura do livro e do autor, nós limitar-nos-emos a fazer uma breve leitura comentada do poema Surpresa dos lábios, como forma de apresentação e tentando não desmerecer o convite que nos foi formulado por esse poeta africano, de seu nome João Maimona. Depois de “o cambuta de Kibocolo”, como também os amigos o tratam, se ter imposto no mundo da literatura com um primeiro título “Trajectória Obliterada”, num discurso poético de rara beleza, que por sinal foi vencedor do Prémio Sagrada Esperança, sempre igual a si mesmo, a posteriori, foi impondo rupturas constantes no plano da elaboração lexical e da gramática poética, por via dos títulos dados a estampa, como sejam: - “Les Roses Perdus de Cunene”, “Traço de União”, “As Abelhas do Dia”, “Quando se Ouvir o Sino das Sementes”, “Idade das Palavras”, “No Útero da Noite” e “Festa de Monarquia”, para além de um texto dramático, sugestivamente designado por “Diálogo com a Peripécia”.

Hoje, na esteira de Saussure e Peirce, nomes a reter quando se fala de semiologia ou semiótica, vamos analisar a vida dos sinais nos poemas que Maimona no oferece para determinar o “Lugar e a Origem da Beleza”. Por certo, tarefa ingrata para quem, como nós, se assume apenas como leitor atento e admirador da poesia de Maimona.

Ora bem! Por exemplo, quando em “Surpresa dos Lábios”, o autor escreve: do brilho das janelas surgem admiráveis / dignitários da harmonia. // quando cumprimentava as máscaras / da floresta, redondos eram os quartos / onde se dissipavam seios queridos. / lábios de morcegos tranquilos. / e mulheres mulheres que sabiam visitar forasteiros. // ... , nota-se claramente o alto investimento que ele faz no plano do significado e do significante, fugindo à tentação de mutilar o significante, naquilo que Maurice-Jean Lefebve, relativamente à linguagem não literária, afirma : “le signifiant s’abolit totalement devant le signifié, qui reste seul et tout au moins le temps d’une pensée, celle qui se révèle à ce moment-là utile à notre action cognitive ou pratique”.

Dito de outro modo, as palavras comuns, as palavras por nós usadas e que fazem parte do nosso léxico activo ou passivo, com Maimona, elas adquirem novos significados, mantendo sempre o seu poder significante .

Só assim se entende o elevado poder sugestivo dos seus versos, resultante da sua fértil lavra, ou seja, da sua imaginação. Não há dúvida que Maimona é um dos poetas mais criativos da sua/nossa geração e não só. Ele faz das palavras autênticas fontes ou cadinhos de surpresa, já que, no seu próprio dizer, “entre a surpresa dos lábios e as jornadas / de crueldade gelada, a chama inabitada. // entre a invenção da palpitação e o leito / do poema, a água abolida das estações. // enquanto as mulheres se enfeitam com / o calor das nações, treme a cidade inacabada.”

O autor do livro que temos o grato prazer de apresentar explora ao máximo tudo o que à sua volta está ou, como diria Shelley, ele tem na linguagem, na cor, na forma, nos hábitos de acção, religiosos e civis, verdadeiros instrumentos e materiais da poesia, o que faz dele, enquanto poeta, um partícipe do eterno, do infinito, do uno.

Com isso o nosso May faz da poesia, não um atributo da profecia mas da profecia um atributo da poesia, como, de resto, advoga o mesmo teórico atrás referido.

Para demonstrar isso mesmo, Maimona diz que “quando cumprimentava as máscaras / da floresta, redondos eram os quartos / onde se dissipavam seios queridos. / lábios de morcegos tranquilos. / e mulheres que sabiam visitar forasteiros. // e do brilho das janelas cresciam / jornadas de crueldade gelada.”

Se, por um lado, este discurso metafórico patenteando, obviamente, um certo grau de hermeticidade linguística, cria dificuldade de apreensão do sentido ao mais comum dos leitores, por outro, é bem a demonstração do investimento consciente que o autor faz na palavra, explorando até a exaustão a multiplicidade de sentidos possíveis de serem descobertos.

Como já teremos dito em outros momentos e a propósito de outro grande poeta, na poesia de Maimona estão patentes, pelo menos, duas das três vozes que S. Eliot diz existirem na poesia: - a voz do poeta falando para si próprio ou para ninguém e a voz do poeta falando para um público (pequeno ou grande).

Quem quiser descobrir os maravilhosos mundos subjacentes no imenso mundo encerrado nas páginas do livro que estamos apresentando, deve adquiri-lo e fruir do prazer de uma boa leitura; serão sempre necessárias, para além da leitura lúdica, outras tantas, para perceber como os poetas, pelo verso conseguido, reinventam, a seu modo, o mundo onírico e o mundo real, objectivo.

Ou, “terão os lábios abandonado suas muralhas? / terão os quartos entregues à harmonia / deixado de ocultar seios queridos? / ou terá a surpresa dos lábios reconstruído / suas muralhas à porta da cidade inacabada?” - Interroga-se o poeta.

Nós, ousados como somos, respondemos pela voz do próprio poeta: - Isso foi em tempos que já lá vão, quando “o cio das estações cancelava / uma imensa transparência.” E nós, todos nós, desconseguíamos descobrir o “Lugar e Origem da Beleza”, que o poeta Maimona traz para nosso conhecimento dos seus leitores centrais e periféricos.

Bem haja a Poesia! Bem haja May!

Marçal, Agosto de 2003.-

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