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Representações étnicas no romance O meu nome é Legião, de Lobo Antunes

Escrito por  Gabriela Nunes de Deus Oliveira
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Gabriela Nunes de Deus Oliveira1

Introdução

No romance O meu nome é Legião (2009), do escritor português António Lobo Antunes, encena-se um contexto de violência e marginalidade que pode ser observado nas periferias dos grandes centros urbanos. Na obra, oito jovens suspeitos, moradores do Bairro 1o de Maio – bairro próximo a Lisboa, conhecido pela "degradação física e inerentes problemas sociais" (ANTUNES, 2009, p. 9) –, roubam dois carros em uma noite, cometendo, a partir de então, uma sequência de crimes ao longo da madrugada.

Ao retratar um cenário metropolitano português em que convivem brancos, negros e mestiços, os dois últimos grupos (descendentes de imigrantes africanos) ocupando um lugar inferior na hierarquia social, a obra tematiza de forma contundente questões relacionadas às representações étnicas ligadas aos estereótipos raciais. Sendo assim, este trabalho pretende analisar O meu nome é Legião verificando o modo como a narrativa problematiza discursos raciais estereotipados. Para tanto, laçaremos mão do referencial teórico proveniente de Homi Bhabha (1998) e Stuart Hall (2006). Na análise do romance, também serão importantes as contribuições críticas de Ana Fonseca (2009) e Agripina Vieira (2007).

Uma legião de locutores
O meu nome é Legião é construído a partir da figura do inquérito policial, elaborado pelo agente de primeira classe Gusmão, policial prestes a se aposentar encarregado de investigar a ação dos jovens. Sendo o locutor dos três primeiros capítulos do livro, Gusmão descreve a conduta dos suspeitos designados pelos nomes Capitão, Cão, Guerrilheiro, Miúdo, Hiena, Galã (todos mestiços), Gordo
1 Mestranda em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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(negro) e Ruço (branco). Os oito jovens, de idades compreendidas entre os doze e os dezenove anos, eram acusados de cometer vários crimes (dentre eles furto e homicídio) durante uma madrugada, fato que levou a polícia a organizar uma operação com o objetivo de prendê-los. A ação policial resulta em um incêndio no Bairro 1o de Maio, além de ocasionar a morte de alguns membros do grupo.
Embora se trate de um relatório técnico, que pressupõe objetividade, o discurso de Gusmão é permeado por reflexões, divagações, comentários pessoais e lembranças: além de expressar seu ponto de vista acerca dos acontecimentos narrados – "o que este país tem de sobra são mestiços e pretos" (ANTUNES, 2009, p. 33) –, o agente de primeira classe relaciona tais acontecimentos às suas memórias. Dessa forma, ao relatar os fatos, a personagem menciona, dentre outras lembranças, momentos de sua infância – o seu relacionamento com a mãe, o pai e, mais tarde, com o padrasto –, seu casamento terminado em divórcio e suas tentativas frustradas de se relacionar com a filha, já no presente:
[...] por família entendo não apenas os meus pais e o meu padrasto mas a minha ex-mulher e a minha filha, não quero entrar por aí, limito-me a registrar que existiram no meu passado e a minha filha um bocadinho no presente um domingo por mês no norte onde a visito sei lá porquê, creio que na esperança de um diálogo que não tivemos e continuamos a não ter [...] (depois do divórcio a minha ex-mulher embelezava as cartas em que exigia dinheiro com floreios assim e escusava de as ler, bastava examiná-las para perceber quanto) [...] e eu idoso, exausto, de regresso de Ermesinde [...] concluindo que nada merecia a viagem, certamente não a minha filha [...]. (ANTUNES, 2009, p. 28-59)
Ao longo do relatório de Gusmão, o qual é permeado por suas digressões, observamos "um jogo peculiar de intensificação e diluição das vozes narrativas, por meio da utilização ou da ausência de travessões a antecederem as falas", como observa Agripina Vieira (2007). Essa intensificação e diluição das vozes ocorre na medida em que se confere a palavra a várias personagens cujas falas se interpenetram, o que gera, por vezes, uma indefinição, uma dificuldade em se compreender que personagens assumem a enunciação ao longo da narrativa. A existência de várias vozes de locutores é sinalizada desde o título do romance, o
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qual faz referência a um trecho bíblico que relata o encontro de Jesus com um homem possuído por vários demônios. Devido à possessão demoníaca, o homem encontra-se excluído, privado do convívio social, habitando túmulos e desertos. Ao ser interpelado por Jesus, o espírito maligno responde: "Meu nome é Legião" (Lc 8.30). A fala do endemoniado presente na narrativa bíblica, descrita nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, é usada como título e epígrafe do romance antuniano, funcionando como um prenúncio da organização discursiva da narrativa – construída a partir de múltiplas vozes. A voz presente tanto no título, quanto na epígrafe do livro sinaliza a existência de uma legião de locutores, ligados de alguma forma à história do grupo de delinquentes. Tal técnica de interpenetração de vozes enunciativas manifesta-se em todo o romance: após os três capítulos iniciais correspondentes ao relatório de Gusmão, tomam a palavra as testemunhas do caso ouvidas pela polícia e dois jovens suspeitos. Cada personagem que compõe essa legião de locutores apresenta sua versão dos acontecimentos, inserindo no depoimento suas lembranças, o que contribui para a multiplicação de vozes.
Brancos, negros e mestiços: visões estereotipadas
A população do Bairro 1o de Maio, que ganha voz no romance, era formada por "gente de Angola, criaturas mestiças ou negras" (ANTUNES, 2009, p. 24), segundo a personagem Gusmão. Vemos, dessa forma, que, ao retratar a vida no bairro, O meu nome é Legião coloca em cena grupos e espaços invisíveis em termos culturais: "Os homens e as mulheres que nestes bairros se abrigam são transparentes enquanto operários, enquanto trabalhadores da construção civil, enquanto empregadas domésticas, enquanto cozinheiras" (FONSECA, 2009, p. 1). Sendo essas personagens descendentes de africanos que optaram por viver em Portugal, a realidade representada no romance liga-se diretamente aos movimentos migratórios das ex-colônias portuguesas em direção à antiga metrópole, movimentos esses que foram intensificados a partir da segunda metade do século XX, como esclarece Stuart Hall (2006). De acordo com Hall, um dos efeitos da globalização é a compressão espaço-tempo. Como resultado dessa compressão, com o processo geral de descolonização ocorrido em âmbito
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global depois da Segunda Guerra, os países europeus não puderam deixar para trás as consequências de seu imperialismo. Neste contexto, a interdependência global passa a atuar em ambos os sentidos – do centro para a periferia e da periferia para o centro, conforme explica o autor:
O movimento para fora (de mercadorias, de imagens, de estilos ocidentais e de identidades consumistas) tem uma correspondência num enorme movimento de pessoas das periferias para o centro, num dos períodos mais longos e sustentados de migração "não-planejada" da história recente. Impulsionadas pela pobreza, pela seca, pela fome, pelo subdesenvolvimento econômico e por colheitas fracassadas, pela guerra civil e pelos distúrbios políticos, pelo conflito regional e pelas mudanças arbitrárias de regimes políticos, pela dívida externa acumulada de seus governos para com os bancos ocidentais, as pessoas mais pobres do globo, em grande número, acabam por acreditar na "mensagem" do consumismo global e se mudam para os locais de onde vêm os "bens" e onde as chances de sobrevivência são maiores. (HALL, 2006, p. 81)
Desse modo, parte da população das ex-colônias visualiza melhores condições de vida nas sociedades descolonizadoras, dirigindo-se a elas. No caso dos habitantes do Bairro 1o de Maio, classificado como "um pudim de edifícios de matérias não nobres, fragmentos de andaime, restos de alumínio, canas" (ANTUNES, 2009, p. 24), em que se misturam pessoas, corvos, pombos, cabritos e cactos, as condições de vida não se apresentam tão favoráveis. Como observa Renato Cordeiro Gomes (1999), o ambiente urbano é marcado por um alto grau de segregação humana, e, dessa forma, é notória a existência de fronteiras físicas e simbólicas entre os diferentes segmentos sociais que compõem uma sociedade estratificada segundo hierarquias rígidas. No romance antuniano, a existência dessas fronteiras faz com que os moradores do Bairro, mesmo não estando em um contexto de país periférico, continuem às margens, habitando as periferias das cidades. Assim, a narrativa de Antunes ilustra o contexto pós- colonial em que, conforme ressalta Ana Fonseca (2009), o africano que migra para Portugal permanece excluído, marginalizado social, econômica e geograficamente. Na obra, os grupos periféricos – invisíveis em âmbito cultural – somente ganham destaque, tornando-se "hiper-visíveis, quando por alguma razão
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ameaçam a segurança e o conforto dos centros urbanos" (FONSECA, 2009, p. 1), transgredindo, por meio da violência, as fronteiras estabelecidas na sociedade.
Imersas nesse contexto social urbano caracterizado pela intensa segregação, as personagens do romance manifestam em seus relatos um discurso ancorado em estereótipos raciais. De acordo com Homi Bhabha (1998), o estereótipo é uma estratégia discursiva fundamental nas relações de dominação, tais como as relações estabelecidas entre colonizadores e colonizados. Procurando construir uma teoria do discurso colonial, Bhabha constata:
Um aspecto importante do discurso colonial é sua dependência do conceito de "fixidez" na construção ideológica da alteridade. A fixidez, como signo da diferença cultural/ histórica/ racial no discurso do colonialismo, é um modo de representação paradoxal: conota rigidez e ordem imutável como também desordem, degeneração e repetição demoníaca. Do mesmo modo, o estereótipo, que é sua principal estratégia discursiva, é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre "no lugar", já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido... como se a duplicidade essencial do asiático ou a bestial liberdade sexual do africano, que não precisam de prova, não pudessem na verdade ser provados jamais no discurso. (BHABHA, 1998, p. 105)
Assim, o estereótipo é caracterizado por uma ambivalência: cria uma representação fixa, de conhecimento geral, que, por outro lado, deve ser exaustivamente afirmada e reafirmada, repetida. As representações fixas, estereotipadas, correspondem a uma simplificação:
o estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença (que a negação através do Outro permite), constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e sociais. (BHABHA, 1998, p. 117, grifos do autor)
Rejeitada a diferença, o outro é reduzido a um conjunto limitado de características que autoriza a discriminação. Desse modo, por meio do estereótipo, o discurso colonial, por exemplo, apresenta o colonizado como "uma população de tipos
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degenerados com base na origem racial de modo a justificar a conquista e estabelecer sistemas de administração e instrução" (BHABHA, 1998, p. 109).
Os estereótipos raciais em O meu nome é Legião manifestam-se em todo o discurso das personagens, a começar pelo fato de, no romance, o outro africano ser considerado inferior ao branco português: negros e mestiços são estigmatizados, como pode ser visto na fala da personagem Gusmão, segundo o qual "semi-africanos" e negros são criaturas mais propensas à crueldade e à violência gratuitas, se comparados aos brancos (ANTUNES, 2009, p. 24). Ao classificar esses grupos étnicos como "criaturas", o agente de primeira classe os desumaniza, sendo essa desumanização mais evidente no seguinte trecho do romance: "Os mestiços hão-de enterrá-los descansem dado que os macacos se enterram uns aos outros, é da natureza dos bichos cavarem com as unhas sem entenderem porquê, esses instintos deles" (ANTUNES, 2009, p. 105, grifo nosso). Nesse excerto, os mestiços – e por extensão os africanos – não apenas são representados como criaturas despojadas de humanidade, mas também são animalizados, ou bestializados, na medida em que são comparados a bichos guiados unicamente por instintos.
A presença desse estereótipo que aproxima o negro a bestas ou animais também é verificada no relato de personagens que mantêm relações próximas com os mestiços, tais como o padrasto de um dos jovens delinquentes. Essa personagem, um homem branco, assim se refere às pessoas do Bairro:
o miúdo mestiço, a minha esposa mestiça, os primos mestiços [...] (acasalam entre si como os bichos)
sumidos em gretas, furnas [...]
(até escaravelhos comiam garanto) [...]
as atitudes que não se compreendem dos bichos e dos pretos provavelmente à espera de nada que a morte não os preocupa, [...] os mestiços não choram porque o mecanismo das lágrimas não nasceu com eles [...], dividem tripas no seu idioma de consoantes compridas. (ANTUNES, 2009, p. 113-122)
Aos olhos desse homem, a bestialidade dos hábitos de reprodução e alimentação dos mestiços é similar à conduta dos animais. Mesmo sendo casado com uma mestiça, o homem, em todo o seu discurso, animaliza os negros, afirmando, por
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exemplo, que eles são desprovidos dos mecanismos biológicos que lhes possibilitariam chorar, capacidade inerente aos humanos.
Sendo negros e mestiços reduzidos a características tipificadas, o repúdio ao africano é visível no discurso das personagens brancas, como observamos no depoimento do viúvo idoso, que, tendo se casado novamente, mas agora com uma mestiça, classifica a esposa da seguinte forma: "Claro que é mestiça e portanto má rês, apontem-me um preto como deve ser, trabalhador, honesto e por mais que se esforcem não encontram nem um" (ANTUNES, 2009, p. 197). Para o marido, a mestiça, cujo cheiro era "mais denso que o dos raposos no cio" (ANTUNES, 2009, p. 198), era, assim como todos os negros, mais uma desonesta, uma ladra interessada apenas em roubar seu dinheiro, o que o leva a pensar por que não se casara com uma rapariga branca, "atendendo a que as brancas sempre nos roubam menos" (ANTUNES, 2009, p. 201).
Se as narrativas das personagens brancas do romance são marcadas por um discurso discriminatório, que constantemente afirma as características tipificadas dos negros, no relato das personagens negras e mestiças podemos perceber uma internalização dos estereótipos e uma consciência da condição inferior em que se encontram na sociedade. A irmã de um dos suspeitos, por exemplo, interiorizando a imagem que os brancos têm acerca dos negros, envergonha-se de sua cor, perguntando-se, em um ato de aceitação de sua suposta falta de humanidade: "teremos alma nós pretos?" (ANTUNES, 2009, p. 167). Procurando livrar-se do estigma do rebaixamento social ocasionado pelo fato de ser mestiça, a personagem tenta provar sua dignidade afirmando reiteradamente que mora em um bairro de brancos, além de sempre procurar demonstrar seu valor:
não sou uma infeliz sem vergonha nas esquinas por dinheiro por vício [...], sou uma senhora casada, tenho marido, um filho para educar e um emprego sério, [...] larguei o Bairro aos dezasseis anos não por estar grávida de um branco, não insistam nisso, mas derivado a arranjar emprego em Lisboa. (ANTUNES, 2009, p. 165)
Podemos encontrar na fala e na conduta das personagens descendentes dos africanos uma rejeição à cor negra, uma vez que tais personagens se auto-
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representam de forma semelhante à representação que delas têm os brancos. É essa rejeição que observamos nas atitudes de Gordo, que mantinha um relacionamento com Georgete, uma prostituta branca, de cinquenta anos. Segundo Georgete, o jovem negro vivia "a esfregar a cara cheio de anéis na vontade de se limpar da cor dele" (ANTUNES, 2009, p. 63). A tentativa de se desvencilhar da cor negra era impossível não só para Gordo, mas também para Georgete, que, vivendo com o jovem e experienciando a realidade do Bairro, sente que se "contamina" ao manter contato com aquele ambiente e com aquelas pessoas: "eu preta no meu cheiro de preta porque aquilo que tive em mim de branca perdi-o" (ANTUNES, 2009, p. 86).
A rejeição à cor negra também pode ser verificada na fala da mãe de um dos delinquentes, que indaga: "– Porque não sou branca eu? – Porque não somos brancos todos? – Porque não moramos em Lisboa porque nos tratam mal porque não temos dinheiro?" (ANTUNES, 2009, p. 152). Como vemos, essa rejeição está intimamente ligada à consciência da situação de exclusão social e econômica que os negros vivenciam. Sendo o discurso de todas as personagens permeado por estereótipos raciais, a cor negra, no romance, representa a inferiorização social e a humilhação (FONSECA, 2009, p. 9).
Os estereótipos raciais que se espalham no discurso e na postura das personagens brancas, negras e mestiças legitimam a segregação social e as práticas de subordinação existentes na sociedade retratada no romance. Se ao longo do período colonial a redução dos povos africanos a características tipificadas foi utilizada para justificar o domínio do homem branco e ressaltar sua superioridade em relação ao negro (BHABHA, 1998, p. 109), nos tempos pós- coloniais, em que o africano migra para a metrópole descolonizadora, o discurso que eleva o branco em detrimento do negro é perpetuado por meio dos estereótipos, os quais são utilizados com o fim de manter uma ordem social que subordina e exclui o outro. Assim, a degradação do Bairro 1o de Maio e as condições precárias de vida a que os moradores do local estavam sujeitos, bem como as violências descritas no romance e a própria operação policial que
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culmina em um incêndio e na destruição do Bairro são justificadas e legitimadas por discursos raciais estereotipados.
É válido ressaltar que, nesse contexto de exclusão e marginalidade, tanto as personagens brancas, quanto as mestiças e negras experienciam a solidão nos seus relacionamentos desprovidos de afeto, como se constata no relato de quatro personagens do romance: Gusmão, com seu casamento desfeito, relacionava-se com a ex-esposa por meio de cartas "floreadas" pela mulher de acordo com a quantia de dinheiro que ela lhe pedia; além disso, o policial, que assume: "não tive amigos e não sei se me apetecia tê-los" (ANTUNES, 2009, p. 58), também não conseguia manter uma relação estável com a filha. O homem branco, casado com uma mestiça, padrasto de um dos jovens, perguntava-se se sua esposa não seria um animal, assim como todos os negros supostamente são, e tentava se lembrar, em vão, da feição de seu pai, afirmando: "o que esqueci com a idade caramba, lugares sentimentos pessoas" (ANTUNES, 2009, p. 137, grifos nossos). A mãe de um dos suspeitos, mestiça, confessa: "não sei se gostei do meu namorado, não sei se gostei de pessoa qualquer na vida, acho que não gostei de ninguém, sou sozinha" (ANTUNES, 2009, p. 150). O jovem Guerrilheiro, por fim, relata como, seguindo os conselhos da mãe, asfixiou a irmã, a qual detestava as pessoas, inclusive os familiares, por sofrer de um problema na perna, causado por uma mordida de cobra.
Com esses exemplos vemos que as relações interpessoais e familiares – sejam as relações conjugais, sejam as relações entre pais e filhos – apresentam-se desgastadas. Isso tem como consequência o distanciamento dos indivíduos: isoladas de seus pares, às margens da socialização, as personagens tentam em seus relatos lidar com suas memórias e seus sofrimentos. Desse modo, o romance problematiza os estereótipos raciais ao colocar brancos e negros na mesma condição de carência afetiva, de isolamento e solidão.
Considerações finais
O romance O meu nome é Legião é construído a partir de múltiplas vozes de locutores cujos discursos são ancorados em estereótipos raciais. As personagens
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brancas expressam em seus relatos um repúdio aos descendentes de africanos, os quais, por sua vez, internalizam a visão estereotipada, aceitando sua condição inferior aos brancos. A forma como negros e mestiços se enxergam está ligada à consciência da situação de exclusão social e econômica que essas personagens vivenciavam.
O estereótipo, na narrativa, corresponde a uma estratégia discursiva que legitima tanto as condições precárias de vida experimentadas pelos moradores do Bairro 1° de Maio, quanto a subordinação de negros e mestiços aos brancos. Embora as personagens brancas sejam consideradas superiores às demais, no que diz respeito a seus relacionamentos interpessoais, elas se encontram no mesmo nível de negros e mestiços, uma vez que todas as personagens, apesar de se relacionarem com as outras, expressam uma solidão em seus relatos. Assim, as barreiras interraciais se diluem, na medida em que, no romance, todos vivenciam uma pobreza afetiva, sendo excluídos e privados de relações estáveis.

REFERÊNCIAS

BHABHA, Homi K. A outra questão: o estereótipo, a discriminação e o discurso do colonialismo. In: _____. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Reis, Gláucia Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998, p. 105-138.
BÍBLIA. N. T. Lucas. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1997, p. 1308- 1351.
FONSECA, Ana Margarida. O meu nome é solidão: representações da pós- colonialidade na ficção de António Lobo Antunes. 2009. Disponível em: http://ceh.ilch.uminho.pt/publicacoes/Pub_Ana_Fonseca.pdf. Acesso em: 20 out. 2011.
GOMES, Renato Cordeiro. Modernização e controle social – planejamento, muro e controle espacial. In: MIRANDA, Wander Melo (Org.) Narrativas da modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p. 199-213.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1992.
VIEIRA, Agripina. Uma voz que diz... o mal. 2007. Disponível em: http://alawebpage.blogspot.com.br/2007/09/agripina-vieira-sobre-o-meu-nome- e.html. Acesso em: 20 out. 2011.

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