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I Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades - 26 a 29 de Junho de 2012 Universidade Federal do Espírito Santo. GT Africanidades e Brasilidades

Escrito por  Marianna Guimaraes 1, Valeria Rosito 2
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Universidade Federal do Espírito Santo

Grupo de Trabalho: Africanidades e Brasilidades em Literaturas

"Nem todas as crianças vingam"- memória, escrita e voz em Machado,

Carolina e Conceição


Marianna Guimarães1

Valeria Rosito (Orient.)2

 

A tradição dos oprimidos nos ensina que o "estado de

exceção" em que vivemos é na verdade a regra geral.

Walter Benjamin, Sobre o conceito da História
O trabalho analisa um recorte do conto Pai contra mãe de Machado de Assis em contraponto com o livro Quarto de despejo- diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus. Toma-se a linguagem em ambos para apontar uma luta frequente para a sobrevivência, que revela choque de classes sociais com valores e desejos controversos. Fragmentos de Poemas da recordação e outros movimentos, de Conceição Evaristo, fazem a ligação entre as duas primeiras partes do corpus, principalmente no que diz respeito à fome; mediando raça, gênero e classe social. Como embasamento teórico, serão utilizadas algumas reflexões de Walter Benjamin referentes à história e à memória, voltadas para as dialogias opressor e oprimido, vencedor e vencido e dominador e dominado.
O enredo do conto de Machado gira em torno de Cândido Neves, que se casa com Clara, que logo engravida; entretanto Cândido vive de pegar escravos fugidos, depende dessas fugas para ganhar dinheiro. As dificuldades financeiras fazem-no ter de confrontar com a ideia de mandar o bebê para a Roda dos Enjeitados. Dias depois do nascimento, no caminho à Roda, depara-se com Arminda, uma escrava fugida que valia uma boa recompensa em dinheiro a sua devolução. Então Neves consegue apreendê-la e entregá-la para seu senhor.
1 Graduanda do curso de Letras- Port./Esp./Lit. pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
2 Professora adjunta do curso de Letras Português/Literaturas pela Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro; Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Embora essa estivesse grávida e implorando por sua liberdade, Neves impiedosamente permanece com a ideia de devolvê-la, gerando uma briga corporal de resistência partindo de Arminda, o que causa nela um aborto "espontâneo". Já a obra Quarto de despejo- diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, aponta a cruel realidade dessa regra geral apresentada por Benjamin, onde descreve em seu diário o cotidiano dos esquecidos e despejados na contramão de um Brasil rumo ao progresso. Carolina, a narradora-personagem moradora da favela do Canindé-SP, rema contra a maré. Vive em um mísero barraco com seus três filhos pequenos que frequentemente não têm o que comer. Trabalha durante quase todo o dia catando papel, ferro, etc. para vender. "Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade." (JESUS, C. M., 2001, 72)
Considerando o contexto temporal, Pai contra Mãe, 1856, e Quarto de Despejo, 1955 a 1959, percebemos que um se contextualiza na época da escravidão de negros e o outro, na época da escravidão da fome. Como exemplo, temos os seguintes trechos: "cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos." (ASSIS, M., 2010, 83) e "E assim, no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual- a fome" (JESUS, 2001, 27). O primeiro referencia uma atividade de meados do séc. XIX de caça aos escravos que fugiam com frequência. Já o segundo desmoraliza a extinção da escravidão no Brasil, em 13 de maio de 1888, quando a narradora diz que ainda lutava contra a escravidão.
Em memória de seus antepassados (em que se podem incluir Machado de Assis, seus personagens e Carolina Maria de Jesus), Conceição Evaristo publica em 2008 Poemas da recordação e outros movimentos. É metaforizado o sofrimento de todos aqueles que sofreram e ainda sofrem por fome, preconceito racial, e os que foram submetidos à tortura ou outros meios ofensivos. Seus versos são marcados pelas lágrimas de todos os oprimidos que buscam fortalecer-se na esperança de cada dia, idealizando a liberdade de todas as vozes caladas e esquecidas; sejam dos escravos, das mulheres ou dos famintos. De acordo com Benjamin, "o dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer" (BENJAMIN, 1994, 224), e é isso que faz
Evaristo, mnemonicamente desperta em seus versos a esperança, num passado "desacordado", que perdeu os sentidos e foi esquecido pela história; o passado dos oprimidos; dando vozes e expressões até para os que já morreram, como no poema Vozes-Mulheres:
[...] A voz de minha avó ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. [...]
Nesse trecho selecionado, percebe-se a "subordinação" de suas progenitoras, onde suas vozes, vindas de diferentes gerações, ecoam obediência e revolta. Analisando-o em seus efeitos de linguagem, pelo contexto escravocrata supracitado nas obras de Machado e Carolina, percebemos o marco histórico da libertação mencionado acima. Nessas duas vozes-mulheres do trecho, encontramos o período em que a escravidão ainda vigorava na voz de sua avó, que obedecia a um "branco-dono de tudo", o que causa o impacto de coisificação da pessoa, já que é dono de tudo, até dela. E encontramos o período pós- libertação, vivido por sua mãe, marcado pela migração dos negros, rumo à favela, destino daqueles que sobrevivem com o pouco ou com o nada. Enquanto a voz de sua avó só ecoava obediência, a voz de sua mãe já pronunciava mesmo que baixinho, a revolta, no fundo de cozinhas alheias.
A insubmissão à ordem escravocrata, em "Pai contra mãe" já se postula: "Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. [...] Além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói." (ASSIS, 2010, 82) Percebe-se nessa passagem que o negro escravo ou apanhava de seu senhor, ou apanhava da fome- pois sem dinheiro não sobreviveria por muito tempo. Ambas pancadas doíam, mas muitos preferiam a dos donos.
(EVARISTO, 2008)
No livro de Carolina, uma das principais causas da miséria, citada pela própria autora, é o alto custo de vida: "Atualmente somos escravos do custo de vida." (JESUS, 2001, 9) Assim, por mais que ela passe o dia todo catando papel, geralmente falta o que comer, e ela recorre ao lixo para não morrerem de fome, ("Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer [...]") (JESUS, 2001, 35). Além disso, o medo de enfraquecer e não poder mais trabalhar a assusta, fazendo-a sucumbir aos produtos descartados nas lixeiras: "Eu não quero enfraquecer e não posso comprar. Eu tenho um apetite de Leão. Então recorro ao lixo." (idem, 83)
Na realidade social do conto de Machado, os escravos que fugiam para não serem submetidos a pancadas, faziam com que a ordem escravagista submetesse uma outra camada ao ofício de caçá-los e devolvê-los aos seus senhores. Já em outro contexto, de acordo com os relatos de Carolina, os moradores da favela do Canindé (operários e mendigos) eram escravos, não por possuírem um dono, mas por possuírem quase nada, e serem submetidos a condições míseras de vivência e à fome: "Devo reservar as palavras suaves para os operarios, para os mendigos, que são escravos da miseria." (sic) (JESUS, 2001, 54). Sobretudo, Carolina também pensava em usar a literatura como denúncia na esperança de extinguir a favela (embora não fosse somente esta a razão para a sua escrita), porém a realidade é que "de quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem sua matriz nas favelas e as sucursaes nos lares dos operarios." (sic) (idem, 36).
No ensaio de Benjamin, datado de 1933, "Experiência e pobreza", encontra-se a seguinte passagem:
A crise econômica está diante da porta, atrás dela está uma sombra, a próxima guerra. A tenacidade é hoje privilégio de um pequeno grupo dos poderosos, que sabe Deus não são mais humanos que os outros; na maioria bárbaros, mas não no bom sentido. Porém os outros precisam instalar-se, de novo e com poucos meios.
(BENJAMIN, 1994, 119)
o que corrobora a ideia apresentada por Carolina Maria de Jesus anteriormente, de que "quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é
fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria?" (JESUS, 2001, 35)
Por trabalhar durante boa parte do dia, e ser mãe solteira de três filhos, Carolina diferencia-se das outras mulheres da favela sustentadas por homens, instituições de caridade ou pedem esmola. "Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade."(sic) (JESUS, 2001, 14) Pode-se perceber sua indignação em relação às práticas das outras mulheres da favela que, mesmo em situação de submissão (e muitas vezes agressão por parte do cônjuge), sustentam essa ordem e desdenham Carolina. Nesse contexto e exemplo, identificamos também determinada revolta de Carolina referente aos homens, onde, segundo seus conceitos, deveriam sustentar seu lar e sua família, o que não acontece na maioria dos casos conhecidos por ela, inclusive o seu. Para ela, os homens não passam de ilusão, onde só procriam e partem, deixando para a mulher a missão de criar os filhos (com exceções), como pode ser justificado neste trecho: "Eu, nuca tive sorte com homens. Por isso não amei ninguem. Os homens que passaram na minha vida só arranjaram complicações para mim. Filhos para eu criá-los." (sic) (JESUS, 2001, 166)
Sobretudo, ela é um exemplo de firmação dentro do papel de gênero, visto que contraria a posição que deveria assumir dentro dele, de submissão. Não se permitia fazer uma vida conjugal por acreditar que homens só complicavam ainda mais a vida, além de agredirem suas companheiras: "E elas, tem que mendigar e ainda apanhar." (sic) (JESUS, 2001, 14). Assim, tivera somente casos amorosos no período da narrativa (como, por exemplo, nos encontros relatados com o senhor Manoel e com o cigano Raimundo). Mas não somente o papel de gênero é contrariado por ela, pois, além de se mulher, é negra e pobre.
Devido uma herança brasileira escravocrata, machista e capitalista, muitos ainda naturalizam noções de que negros são servos dos brancos, mulheres dos maridos e pobres dos ricos. Quanto à raça, Carolina diz que "o branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? [...] Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém", apontando para a igualdade existente entre os seres compreendida nas mesmas disposições naturais.
Carolina orgulha-se por catar papel, não por gostar da profissão ("Eu cato papel, mas não gosto" (JESUS, 2001, 26)), mas por justificar o dinheiro que recebe como um mérito ao trabalho. "Cato papel. Estou provando como vivo!" (JESUS, 2001, 17) Deixa claro que resiste à vida que leva por causa dos filhos, que não escolheram nascer, pois se não houvesse esse forte motivo, cederia às várias vontades de suicídio que lhe passaram pela mente.
Em contrapartida, encontramos em Cândido Neves, personagem do conto Pai contra mãe de Machado de Assis uma outra justificativa para o ofício que segue. Neves "não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade [...] por sua vontade [...] empregos foram deixados pouco depois de obtidos." (ASSIS, 2010, 83) Começou a praticar um ofício muito conhecido naquele tempo, que era pegar escravos fugidos, prática essa que lhe encantava, já que "não obrigava a estar longas horas sentado". Percebe-se então que a sobrevivência da família está no centro do interesse que move esses personagens e estabelece sua relação com o trabalho. Neves era o homem da casa e precisava cumprir o papel cabível ao gênero, sustentar a família, enquanto Carolina contrariava esse papel por não desejar a figura masculina para cumpri-lo. Carolina precisava manter seus três filhos, Neves ainda esperava o seu primeiro. Carolina catava papel por não ter outra escolha e profissão, Neves escolheu pegar escravos por lhe ser mais cômodo. Ambos ofícios exigiam atenção, força e paciência. Carolina precisava encontrar papel para obter dinheiro e Neves precisava encontrar escravos. Por muitas vezes Carolina não conseguia o necessário para a alimentação de sua família e passava fome, enquanto a família de Neves nunca chegou a esse extremo, pois "comia-se fiado e mal; comia-se tarde" (ASSIS, 2010, 87) mas não faltava. Aqui, nota-se que a maneira que Neves utilizava para driblar a falta de comida era fiando com algum comerciante. Em contraste, mesmo se Carolina quisesse, talvez não conseguiria comprar fiado, pois mesmo com dinheiro não é bem atendida, como mostra no trecho: "Cheguei no açougue, a caixa olhou-me com um olhar descontente. [...] Voltei para a favela furiosa. Então o dinheiro do favelado não tem valor?" (JESUS, 2001, 132- 133)
Neves, quando obrigado a deixar a casa em que vivia, foi morar de favor com a família nos "quartos baixos da casa" de uma senhora velha e rica conhecida da tia
de sua esposa, "ao fundo da cocheira". Nesse caso o caçador de escravos passa a ser também considerado despejo, por duas vezes, judicialmente e simbolicamente; uma quando despejado de casa por dever três meses de aluguel ("Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor..." (ASSIS, 2010, 90)) e outra pelo recinto para o qual se muda, visto que os quartos baixos de uma casa também são usados como descarte de objetos fora de uso; estando ainda atrás dos animais, pois vão viver nos fundos de uma cocheira. Já Carolina considera o lugar em que vive, a favela, um quarto de despejo da cidade, pois, segundo ela, os favelados são considerados "objetos fora de uso" descartados e/ou esquecidos ou "projetos de gente humana". Os moradores da favela são muitas vezes comparados a corvos e porcos, além do hiperônimo animais. Isso se deve ao fato de comerem comidas estragadas jogadas no lixo e viverem na lama encontrada na favela: "o custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada. Temos que imitar os animaes" (sic) (JESUS, 2001, 100).
Outra personagem marcante no conto Pai contra mãe é Arminda, uma escrava fugida, grávida, que é resgatada por Cândido Neves e devolvida ao seu senhor. Segundo a etimologia, Arminda é aquela que possui armas, apontando para a luta pela liberdade que travou com o responsável por seu resgate. "Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. [...] No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou." (ASSIS, 2010, 93-94) Como apontado no início, nem todos os escravos eram submissos. Arminda é uma exceção que também contraria às ordens social e simbólica: rebela-se e foge. Quando comprado, um escravo passa ser mercancia, objeto possuidor de um dono. Ideologicamente, deixa de ser humano para ser mercadoria, sem expressão de opinião e de vontade; totalmente explorado e oprimido. Deixa de ter vida própria e nome. Na frase "O fruto de algum tempo entrou se vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono", percebemos essa noção de pertencimento, onde o "dono da escrava" causa o impacto de materialização da personagem, como se ela fosse um objeto digno de posse.
No poema "O feto que em mim brota", de Conceição Evaristo, encontramos uma dialogia com a passagem em que Arminda perde seu filho, começando pelo título
onde o verbo brotar remete à denominação do bebê, chamado de fruto no momento do aborto de Arminda. Neste trecho do poema,
Do meu corpo
o feto ossificado
há de brotar um dia.
Ele apenas se escondeu nos vãos de minhas sofridas entranhas, enquanto eu de soslaio assunto a brutalidade
do tempo.
(EVARISTO, 2008)
pode-se pensar numa ligação não contextual, mas linguística com o conto de Machado, visto que a descrição do poema indica uma mulher a espera de um bebê e já a espera de Arminda, no conto, foi abortada. Há, de certa forma, uma comparação com vegetação no conto, em que o bebê é chamado de fruto, e também no poema, onde o verbo 'nascer' é substituído por 'brotar'. Já na segunda frase desse trecho, observa-se um processo pelo qual Arminda passou, do "esconderijo" do feto em seu ventre. E não foi de soslaio que percebeu a brutalidade do tempo, mas de frente, de corpo e alma, vinda de uma ordem social perversa. Nessa perspectiva, encontramos a ideia principal do título deste trabalho, em que para justificar sua forte contribuição para o aborto de Arminda, Neves tranquiliza sua mente e seu coração com a assertiva de que "nem todas as crianças vingam".
Adotando os significados para o verbo 'vingar' tem-se, nesse contexto, desenvolver-se e crescer (no sentido vegetal), e sobreviver (no sentido humano); onde as duas primeiras significações reforçam a discussão apontada de naturalização do indivíduo em Machado, que hipoteticamente significaria "nem todas as crianças desenvolvem-se". Entretanto, pensando ainda nessas significações, temos o termo sobreviver no diário de Carolina Maria de Jesus, quando ela descreve muitos casos em que crianças não vingam, sendo um deles, devido à bebida alcoólica. Refere-se, no caso, à moradora da favela Zefa que "quando está gestante bebe demais. E as crianças nascem e morrem antes dos doze meses. Ela odeia-me porque os meus filhos vingam..." (sic) (JESUS, 2001, 14) Observa-se aqui outra semântica desse verbo 'vingar' em que não há mais a
naturalização do indivíduo, mas a humanização ou personificação dele. Quando Carolina diz "os meus filhos vingam" está comparando com os filhos da Zefa que morrem.
Quanto à justificativa de Neves com a assertiva explorada, encontra-se uma ironia perversa em que ele baseia seu ato numa naturalidade seletiva, deixando de referenciar o lastro histórico. Ou Neves entregava a escrava e com a recompensa recuperava e criava seu filho ou ele deixava a escrava fugida ter o seu bebê em liberdade. Era um filho pelo outro!
Outro poema de Evaristo que endossa a discussão desse trabalho é Os bravos e serenos herdarão a terra, onde em um dos trechos diz:
O cotidiano plenifica-me
de dor, abandono e busca.
O grão de arroz, que soçobra
na pia, me emociona nasalizando-me a voz
e brilha como um diamante
preso nos campos vazios
onde a fome brinca
escovando os dentes dos famintos com uma pasta dentifrícia
feita de saliva seca
que sabe a fome.
Conceição Evaristo, 2008
Pode-se observar claramente nesse trecho que a comida é motivo de emoção para os que vivem na linha da pobreza e a justificativa desse fato encontra-se na comparação "brilha como um diamante", pois o diamante, uma joia cara, é comparado com o arroz, um alimento simples que para o pobre e faminto tem grande valor. Esse contexto liga-se ao cotidiano de Carolina, pois seu estômago encontra-se sempre vazio, deixando-a fraca. Mas não só a dor física a persegue, mas também a dor do abandono de autoridades públicas que, segundo ela, deveriam extinguir a favela e proporcionar melhores condições de vida para os moradores que se encontram em sua mesma situação. Quando pode comer arroz e feijão, contenta-se e orgulha-se, já que são poucos os momentos:
Fiz comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetaculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia
de festa para eles. O arroz e feijão [...] são os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até o feijão nos esqueceu.
(sic) (JESUS, 2001, 38)
Corroborando com a ideia já apresentada em Evaristo esse trecho de Carolina, apresenta a satisfação e contentamento da família de Carolina ao ter arroz e feijão para comer, considerados para os pobres alimentos raros. Enquanto no poema de Evaristo o brilho do arroz era comparado a uma joia, no livro de Carolina era chamado de "novo rico amigo dos fidalgos". Enquanto no poema o grão de arroz que soçobra na pia emociona, ele fervendo na panela de Carolina vira um espetáculo: "as panelas fervendo no fogo também serve de adorno. Enfeita um lar." (sic) (JESUS, 2001, 94)
Assim, considerando as observações feitas em torno dos textos abordados, nota- se que a ordem social e simbólica, tanto para os personagens de Machado quanto para o presente de Carolina e para os antepassados de Evaristo formam exemplos de submissões e insubmissões. Somente a escravidão de negros fora extinta, mas a da fome permanece viva e forte, perpetuando classes oprimidas, "vencidas" e "dominadas". Enquanto a voz de Arminda solta gemidos, Carolina diz que "a voz do pobre não tem poesia" e a voz de Evaristo "ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome". São tempos distintos, marcados, de certa forma, pela mesma ambição: esperança de dias melhores, visto que, muitas vezes pela fome e pela perversidade das relações históricas e simbólicas entre homens e mulheres, "nem todas as crianças vingam".

Referências Bibliográficas:

ASSIS, Machado. Contos- Machado de Assis. Porto Alegre: L&PM, 2010. (Coleção L&PM POCKET).
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura história da cultura. 7. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras escolhidas v. 1) EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. (Coleção Vozes da Diáspora Negra, v.1).
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo- Diário de uma favelada. 8. Ed. São Paulo: Ática, 2001.

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