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I Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades – 26 a 29 de Junho de 2012 Universidade Federal do Espírito Santo. GT Africanidades e Brasilidades em Literatura

Escrito por  Denise Aparecida do Nascimento
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As falsas verdades ou a História construída em:
"O Vendedor de Passados", de José Eduardo Agualusa.

INTRODUÇÃO



Denise Aparecida do Nascimento1


"A memória é sempre transitória,

notoriamente não confiável e passível de

esquecimento; em suma, ela é humana e

social." (Andréas Huyssen)

 

"O presente é construído na destruição e

reconstituição da tradição." (Walter Benjamin)


" A literatura nos ensina a melhor sentir, e

como nossos sentidos não têm limites, ela

jamais conclui." (Antoine Compagnon)

Da segunda metade do século XX em diante, com a modernização das cidades, cujos valores sócio-culturais encontram-se em permanente estado de transição, o homem passa a enfrentar um outro problema proporcionado por esse meio moderno: a constante sensação de vazio, de não-pertencimento e de não-identificação com o

1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

lugar em que se encontra. Diante dessa realidade desconfortante, reconhecer o que há de insólito torna-se o grande desafio e a grande angústia da contemporaneidade.
A concepção da identidade há muito entrou em crise, a idéia de indivíduo pleno e centrado perdeu a consistência, bem como expõe Stuart Hall: "Em essência (...) as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno..." (HALL, 2001, p.07). É neste contexto que se busca respaldo nas memórias, pois nelas estão não só os fatos passados que superam as barreiras do tempo, como também a possibilidade do retorno àquilo que se define ou se identifica como origem ou raiz.
O sentido primeiro que a palavra memória sugere é a presença constante do passado. Na perspectiva do sociólogo francês Maurice Halbwarchs, memória é um "fenômeno social"; sua obra consiste na afirmação de que a memória individual existe a partir de uma memória coletiva, posto que todas as lembranças são constituídas no interior de um grupo. A origem de várias idéias, reflexões, sentimentos e paixões que atribuímos a nós são, na verdade, inspiradas pelo grupo. A história de uma sociedade se faz e refaz em um processo contínuo que permite a compreensão do passado e possibilita novas percepções para o presente e o futuro.
Para Andréas Huyssen, os discursos da memória surgiram, essencialmente no Ocidente, nos anos de 1960 e privilegiavam as histórias alternativas, visto que emergiam logo após os movimentos de descolonização e movimentos sociais de alguns países da América Latina pós-ditadura ou da África do Sul pós-apartheid. A partir de 1980 tomaram um novo fôlego com as discussões sobre as memórias do Holocausto. É necessário ressaltar, que embora tenha se tornado uma espécie de "globalização" da memória do Holocausto, chegando ao risco desse fato histórico ser esvaziado de sentido, já que alguns eventos historicamente muito diferentes são a ele associados - como os genocídios de Ruanda ou de Bósnia, por exemplo – (Huyssen, 2001, 12), não há como negar seu efeito revisionista.
A forma como se convencionou compreender a História como uma grande narrativa metódica e verdadeira de fatos econômicos, sociais, políticos e culturais ocorridas na vida da humanidade ou de um povo, há muito caiu por terra e vem
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sendo constantemente revolvida para evitar novas construções historiográficas calcificantes.
Em Sobre o conceito de História (1987) Walter Benjamin salienta que a História que deveria ser desnudada é a dos vencidos, a das vozes caladas e soterradas em meio aos escombros do passado violento e opressor. Toda História Oficial está atrelada a um conjunto de verdades que "pertencem à retórica do poder" (BAUMAN, 1998,p.143). Essas verdades são produções que visam justificar e preservar as desigualdades ou implantar e a reafirmar as relações de dominação e submissão entre os detentores dessas produções. A consciência de que a História Oficial é uma montagem seletiva de fatos encadeados de maneira linear e ininterrupta, ou seja, de que é uma ficção abre as possibilidades de se rever a história por outros ângulos e traz à tona a história das pessoas comuns, pequenas e vencidas, conforme Benjamin. Para o pensador, "destruição" significa exterminar com algo que é falso ou enganoso, mas não pelo simples fim, ao contrário, é a partir da ruína, é recolhendo os "cacos" que o novo se faz; é no movimento de "destruição – restauração- reprodução" que se dá a redenção do presente.
De acordo com Compagnon o conceito de "literário" traz em sua definição a idéia de que para ser realmente "literária" a obra deverá desempenhar algumas funções tais como: a possibilidade de autoconhecimento, sair do individualismo e atravessar o outro e ser uma fortaleza contra a barbárie (COMPAGNON, 2003, p.36). Recuperando a citação de Compagnon diríamos que a literatura nos faz escapar das forças da alienação e/ou da opressão, além disso, ocupa a história e desocupa os lugares fixos, a cristalização do lugar comum, a fossilização dos sentidos na medida em que cria novas significâncias no interior das culturas.
Este trabalho pretende avaliar a relação dos conceitos de Literatura, Memória e História no romance O Vendedor de Passados do escritor angolano José Eduardo Agualusa. O livro apresenta questões tais como: verdades, mentiras, ficção e realidade, tudo agindo sobre os personagens principais, apontando a maneira como o passado constrói o presente, como o presente modifica o passado e como ambos, interligados, projetam um futuro promissor a essas personagens.
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Construindo histórias
Ao longo da história da humanidade, o século XX talvez tenha sido aquele em que os homens conseguiram criar e ampliar, com incomparável habilidade e intolerância, a capacidade de destruição. O homem tem uma natural inclinação à agressividade e diante de "circunstâncias favoráveis" se realiza nas guerras, fenômeno que mais caracteriza o potencial humano de produzir e propagar a destruição.
No violento processo de independência que assolou antigas províncias africanas, tais como Guiné-Bissau, Moçambique dentre outras colônias portuguesas, Angola apresentou um caso diferenciado no movimento de descolonização; devido aos grupos de libertação que não lutaram somente contra os portugueses, mas também entre si. O que garantia não só a expulsão dos europeus como também a manutenção da violência e da opressão sobre o povo angolano. Assim, ainda que oficialmente Angola tenha sido liberta de Portugal em 11 de novembro de 1975, o país só se viu livre da guerra civil em 2002.
José Eduardo Agualusa Alves da Cunha nasceu em Huambo, Angola, em 1960. Viveu no Brasil, em Angola e atualmente vive em Portugal. Como se autodenomina afro-luso-brasileiro deixa transparecer a difícil tarefa de definir sua identidade e assumir sua miscigenação, além disso, um sentimento de "estar simultaneamente dentro e fora" dos locais que habita, permeia seu trabalho. Desse modo, seu pseudo- estrangeirismo traduz um sentido de ser "um estranho", como alguém que ocupa, mas que não preenche aquele espaço.
"O escritor imaginativo tem, entre muitas outras, a liberdade de poder escolher o seu mundo de representação, de modo que este possa coincidir com as realidades que nos são familiares, ou afastar-se delas o quanto quiser." (Freud)
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Considerado um "morador do mundo", Agualusa retrata em seus trabalhos vários registros dos lugares por onde passou ou morou. No romance O Vendedor de Passados, por exemplo, o autor, cita alguns lugares de sua passagem, a saber: Lisboa, Rio de Janeiro, Pantanal de Mato Grosso, floresta de Taman Negara, Goa e Berlim (p.54). Há certa dificuldade em classificar os textos de Agualusa como sendo apenas fruto de sua criatividade ou não, visto que é recorrente em seus romances e contos um hibridismo de gêneros literários passando por biografias, romances epistolares, romances históricos e crônicas. A inserção de elementos históricos – fatos e personagens – pode ser compreendida como uma imagem espelhada da narrativa oficial do lugar de onde o autor fala, aqui especificamente, de Angola. Embora seus livros sejam visto por muitos leitores como verdadeiras teses sobre Angola, Agualusa não participa de nenhum projeto de reconstrução política no país, mas também não se furta em usar seu trabalho, na contramão do discurso oficial e atrair a atenção da sociedade, pois:
Todos os romances são, de alguma maneira, romances políticos. E num país como Angola, o escritor também não se pode distanciar demasiado, também tem a responsabilidade de criar algum debate. A literatura tem de ter essa ambição, ser capaz de alterar, por pouco que seja, a sociedade.(Cf. entrevista II).
Todo bom contista é por excelência um bom memorialista. O contador de histórias pode ter sido testemunha do fato ou ainda sobrevivido a ele. Agualusa reúne essas características ao recontar em seu romance "O Vendedor de Passados" partes importantes do passado angolano em uma narrativa ágil articulando um presente fantástico a um passado histórico verdadeiro. A história em "O Vendedor de Passados" gira em torno de cinco personagens, a saber: Félix Ventura (o inventor de passados); José Buchmann (um cliente de Ventura); Ângela Lúcia (fotógrafa e amada de Félix), Edmundo Barata dos Reis (mendigo e ex-agente do Ministério) e Eulálio, a osga. Todos guardam em comum um passado triste e incerto, que vem à tona e vai se entrelaçando de maneira surpreendente. Na verdade, ao perceber que histórias individuais que aparentemente estão separadas, que vão se entremeando para dar sentido ao que à primeira vista não tem sentido, fortalece a idéia de que
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cada um tem sua própria história, e cada história está inserida em um contexto maior.
Félix Ventura é um sujeito que vive do ofício de inventar passados nobres para uma elite emergente da Angola pós-colonial e pós-guerra. Bem sucedido na função e com uma clientela firme, a vida de Félix Ventura toma um rumo novo e inusitado quando surge um "estrangeiro" em sua porta querendo comprar um passado. O sujeito se identifica como um fotógrafo nômade especialista em registrar imagens de guerra e sofrimentos e deseja fixar residência no país, mas gostaria de ter um passado mais nobre. O trabalho é feito: "(...) Tinha ali um bilhete de identidade, um passaporte, uma carta de condução, documentos esses em nome de José Buchmann, natural da Chibia, 52 anos, fotógrafo profissional".(p. 41).
Ao criar um personagem cuja função é recriar o passado dos outros, Agualusa nos fornece ferramentas para pensar em Ventura como a representação do escritor: capaz de criar estórias, usando a sua imaginação construtiva, agindo em alguns casos como um detetive/historiador atrás de fontes, interpretando e dialogando com essas fontes até dar corpo ao seu trabalho, como faz o próprio Agualusa. Na passagem a seguir Agualusa se auto-apresenta na voz do personagem Félix Ventura em um difícil jogo de se revelar/esconder: "Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura – (...) – Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade."(p.75).
Outro ponto interessante a destacar no romance é a presença de uma possível meta-narrativa. Para Jean-François Lyotard (1993), a pós-modernidade trouxe junto consigo o fim da crença nas grandes narrativas, aquela que organiza e totaliza conhecimentos e experiências. O que passa a prevalecer a partir de então são os pequenos relatos, as pequenas histórias que nos levam "para além" da História. Aqui o trabalho de Agualusa pode ser lido como a construção dessa narrativa "menor" ou de segunda ordem, repleta de experiências vistas e sentidas por indivíduos comuns, como ele próprio.
Percebo a meta-narrativa em "O vendedor de Passados" no momento em que Félix Ventura inventa passados para seus clientes no intuito de individualizar e
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destacar a história dos fictícios antepassados destes. Destacamos para ilustrar a invenção do passado nobre do personagem Ministro da Panificação e Laticínios:
_ Este é o seu avô paterno, Alexandre Torres dos Santos Correia de Sá Benevides, descendente em linha directa de Salvador Correia e Benevides, ilustre carioca que em 1648 libertou Luanda do domínio holandês...
― Salvador Correia?! O gajo que deu o nome ao liceu?
― Esse mesmo.
―Julguei que era um tuga. Algum político lá da metrópole, ou um colono qualquer, por que mudaram então o nome do liceu para Mutu Ya Kevela?
―Porque queriam um herói angolano, suponho, suponho, naquela época precisávamos de heróis como de pão para a boca. Se quiser ainda lhe posso arranjar outro avô. Consigo documentos provando que você descende do próprio Mutu Ya Kevela, de N'Gola Quiluange, até mesmo da Rainha Ginga. Prefere?
― Não, não, fico com o brasileiro. O gajo era rico?
― Muito rico. Era primo de Estácio de Sá, fundador do Rio de Janeiro... (p.120).
A fantasmagoria é uma aparência de realidade que engana os sentidos
Talvez o elemento mais estranho do livro seja o narrador, este se configura no corpo de uma espécie de lagartixa ou uma osga (forma mais comum entre os angolanos e os portugueses). Aliás, vale lembrar que osgas e albinos são personagens recorrentes na narrativa de Agualusa. Em entrevista o autor se diz atencioso com todos aqueles que, por um motivo ou outro, são perseguidos ou discriminados, é o que acontece com os albinos, por exemplo. Esses não são bem quistos em muitos lugares da África. Quanto a osga ele simplesmente justifica que gosta de osgas por lembrar sua boa infância em Benguela (C.f. entrevista I).
Eulálio sonha, há um total de seis sonhos descritos na narrativa, nessas viagens oníricas a osga ouve as vozes de seu passado que emergem como espectros, para recontar sua vida anterior de quando pertencia ao mundo dos humanos. No espaço fantasmagórico dos sonhos há uma aparente realidade que engana os sentidos, nesse cenário perturbador em que fragmentos de sonhos, de memórias e de ficção se articulam em favor dos relatos e das experiências vividas encontramos os elementos indissociáveis de uma visão da Modernidade como o lugar privilegiado do
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uso das máscaras, da presença de simulacros e espelhos, o que vem a potencializar uma realidade inquietante.
Jentsch citado por Freud no texto "O estranho" escreve que "ao contar uma história, um dos recursos mais bem-sucedidos para criar facilmente efeitos de estranheza é deixar o leitor na incerteza de que uma determinada figura na história é um ser humano ou um autômato..."(FREUD, 1976, p.04), mesmo não sendo a osga um autômato, a estranhamento ainda se configura, pois o animal ri, sonha, filosofa, faz observações, enfim se comportar como a um ser humano.
O fato de a osga ocupar um espaço privilegiado – fixada às paredes ou ao teto, vendo o mundo de cabeça para baixo ou de costas – permite-lhe um ponto de vista distanciado, mais objetivo. No entanto, não deixa de estar implicada na narrativa, vendo tudo sem ser vista. Além da relação com Félix Ventura, a osga desenvolve uma ligação de quase "simbiose" com a casa – que se torna uma extensão de seu pequeno corpo e grande testemunha das histórias passadas ali. A casa de Félix é descrita como um ser que respira, com coração pulsante e possui um calor uterino, úmido e quente que, se não gera a vida, pelo menos propicia a vida; é a representação do lugar seguro (e ao mesmo tempo estranho) já que possui lugares onde o próprio dono não costuma explorar: "A casa vive. Respira. Ouço-a toda a noite a suspirar" (...) "O corredor é um túnel fundo, úmido e escuro..." (p.09). É o lugar onde a vida acontece em meio ao caos angolano.
Assim, nesse jogo de ambivalências segue a história. Histórias feitas de sonho. Memórias construídas de areia. Literatura para compreender ou para começar a compreender a história...a memória....
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Considerações Finais
Em um misto de ficção e realidade, José Eduardo Agualusa incita uma revisão do passado de cada indivíduo a começar pelo personagem principal Félix Ventura, um sujeito que desconhece seu passado real e, talvez por isso, compense esse fato criando passados para os outros.
Angola aparece aqui representada pela casa "viva", as vozes que nela vociferam são como ecos de um passado que não deve ser esquecido, mas constantemente revolvido. José Eduardo Agualusa diz não escrever como forma de protesto, mas seu trabalho reflete uma experiência vivivda, a sua vida. A essência do seu trabalho promove uma reavaliação histórica estabelecida pelo jogo de lembrança e esquecimento, ainda que não seja proposital.
No fundo, toda fonte, seja literária ou não, representa a opinião daquele que narra os fatos. Mesmo um documento oficial narrando dados acontecimentos, a despeito de sua linguagem técnica, necessariamente foi redigida por um indivíduo que, sendo humano, não se furta de transmitir suas impressões pessoais. Nada que é humano está isento de emoção e de uma perspectiva particular de observação do mundo.
Este artigo procurou evidenciar como a confluência entre Literatura, História e Memória é observada em "O Vendedor de Passados" no movimento que busca a reconstituição do passado individual e coletivo através da preservação da memória, e explicitada no relato "pseudo-histórico" de Agualusa.
"Um barco cheio de vozes". (Agualusa)
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BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. In: Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense.1987.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: Literatura e Senso Comum. Belo Horizonte: UFMG, 2003, p.26.
FREUD, Sigmund. O estranho. In: História de uma neurose infantil e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
HALBWACHS, Maurice. A memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes louro. Rio de Janeiro : DP&A, 2001.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000, p.165.
Entrevistas com Agualusa disponíveis em:
(I) - www.agualusa.info/.../baseportal.pl?...=/agualusa/. Acesso em: 28/07/2010
(II) – www. apostolado-angola.org. Acesso em 07/07/2010 Sobre a história de Angola, disponível em:
www.lusoafrica.net. Acesso em: 17/07/2010

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