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I Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades 26 a 29 de Junho de 2012- Universidade Federal do Espírito Santo (GT: Africanidades e Brasilidades em Literaturas).

Escrito por  Denise Rocha
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Celebração cabo-verdiana e brasileira: O poema Você, Brasil, de Jorge Barbosa (1902-1971).

 

Denise Rocha 1


RESUMO: Alguns autores da geração da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo (1922), bem como outros, que escreveram sobre o realismo do nordeste brasileiro, na década de 1930, influenciaram os fundadores da moderna literatura cabo-verdiana: Baltazar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes. Para consolidar a identidade cultural das dez ilhas do arquipélago de Cabo Verde, eles lançaram Claridade- Revista de Letras e de Artes (1936). Com uma mirada afetiva transatlântica, Jorge Barbosa (1902- 1970) dedicou alguns de seus poemas ao Brasil e a Manuel Bandeira. Em Você, Brasil, ofertado ao poeta brasileiro Ribeiro Couto, Barbosa celebra o vínculo de fraternidade existente entre Cabo Verde e o Brasil, unidos pela geografia, pelo passado colonial, pela língua, e pela diáspora negra.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura Cabo-verdiana; Jorge Barbosa; Brasil; fraternidade.

INTRODUÇÃO
Em 1951 e 1952, Gilberto Freyre a convite de António Salazar percorreu as colônias africanas e escreveu Aventura e rotina (1953), no qual ele teceu os seguintes comentários a respeito das relações entre o Brasil e Cabo Verde:
Cabo Verde está literàriamente mais preso ao Brasil que a Portugal. Também a sua música e as suas danças populares recebem constante influência do Brasil... Supondo, como supõe o cabo-verdiano, ser o Brasil tão negróide quanto Cabo Verde, todo triunfo brasileiro repercute aqui como um triunfo da gente mais fraterna que a de Cabo Verde tem no mundo. Todo triunfo brasileiro não só nos esportes como na música, nas ciências, nas artes plásticas, nas letras, é considerado em Cabo Verde um triunfo ou uma vitória de que o cabo-verdiano tem mais direito de participar do que ninguém, entre os povos de língua portuguesa. Mais de um cabo-verdiano foi o que me disse com a maior clareza: que se sentia mais brasileiro do que português da Europa. Que Cabo Verde devia ser província do Brasil. E não há cabo-verdiano que não sonhe em ir para o Brasil. (FREYRE, 1953, p. 299).
1 Dra. em Literatura e Vida Social, UNESP- Assis. Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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Gilberto Freyre observou o profundo amor que os cabo-verdianos devotavam à terra brasileira, sua gente, sua música, sua cultura, e sua língua portuguesa abrasileirada: Um sentimento que cristalizava uma forma de repúdio à ligação com Portugal colonizador, e de um desejo latente de emigração para o Brasil.
Nessa viagem ao arquipélago de Cabo Verde (outubro de 1951), em São Vicente, Freyre conheceu Jorge Barbosa, sobre o qual escreveu as impressões:
Convoco-o [o colega, citado apenas como o judeu] para mais de um uísque numa espécie de ex-shipchandler onde encontro gente diversa. E onde a conversa é livre. O poeta Jorge Barbosa, já o conheço desde o dia da minha chegada a São Vicente: ele precisa de ir ao Brasil, onde está agora o Professor Baltasar Lopes, autor de boas páginas de ficção que me lembram as do admirável mineiro que é Ciro dos Anjos. Jorge Barbosa sonha acordado com o Brasil. (FREYRE, 1953, p. 298).
Nessa escrita afetiva sobre o contato com Jorge, na qual informa a respeito doo diálogo brasileiro-cabo-verdiano, evidenciado na presença do prosador e poeta Baltazar Lopes, em visita ao Brasil, cuja obra, em parte, tinha influência de Ciro dos Anjos, Freyre comenta: "Jorge Barbosa sonha acordado com o Brasil". Depois desse breve encontro, Barbosa publicou em Caderno de um Ilhéu (1956), agraciado com o Prémio Camilo Pessanha da Agência- Geral do Ultramar, os poemas: Carta para o Brasil, Carta para Manuel Bandeira e Você, Brasil. Esse último foi dedicado ao brasileiro Ribeiro Couto, escritor e funcionário da embaixada brasileira em países europeus (1930 e 1940), que foi o grande divulgador da literatura brasileira aos escritores de Cabo-Verde.
1- A revista Claridade (1936-1960)
A tradição literária cabo-verdiana remonta ao final do século XIX: a publicação de O escravo (1856), de autoria de José Evaristo d ́Almeida, considerado o primeiro romance cabo-verdiano; e o surgimento do Almanaque Luso-Africano, no qual apareceram poesias, lendas, anedotas, historietas, e letras de canções. (FERREIRA, 1973, p. 110 e 111).
No ano de 1910, ocorreu a publicação de Canções crioulas e músicas populares de Cabo Verde por José Bernardo Alfama. Nota-se a preocupação dessa geração em fazer jus ao crioulo existente nas ilhas, como expressão
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genuína de um idioma de raiz lusa com essência local. Nos primeiros números da revista Claridade (1936) alguns dos textos divulgados no crioulo nativo.
Em dezembro de 1935, Jorge Barbosa publicou sua primeira obra, Arquipélago, que "rompia a tradicional dependência dos modelos metropolitanos e tornava-se pioneira da moderna poesia cabo-verdiana" (FERREIRA, 1989, p. 89).
A pesquisadora Elsa Rodrigues dos Santos, em As Máscaras poéticas de Jorge Barbosa e a mundividência cabo-verdiana (1989), escreveu:
Arquipélago, o primeiro livro de Jorge Barbosa, constitui um marco na literatura cabo-verdiana, pois é a partir dela que se pode falar de caboverdianidade, isto é, da consciencialização das realidades étnico-sociais e culturais da terra cabo-verdiana, dando lugar a uma literatura que rompe com os moldes europeus, especialmente portugueses. (SANTOS, 1989, p. 40).
Três meses depois da publicação de Arquipélago, Jorge Barbosa, em união com Manuel Lopes e Baltazar Lopes (Osvaldo Alcântara, seu pseudônimo como poeta), que eram leitores de alguns escritores participantes da paulistana Semana de Arte Moderna (1922), e do realismo nordestino na década de 1930, iniciaram um processo de fundação da moderna literatura cabo-verdiana, com o lançamento da Claridade- Revista de Letras e de Artes (1936), que tinha como objetivo a criação da "cabo-verdianidade" (nova identidade), com ênfase regional, por meio da análise das condições socioeconômicas e políticas locais, e publicação de três textos poéticos da tradição oral em língua crioula - "lantuna & 2 motivos de finaçom (batuques da ilha de Sant ́Iago)", entre outros.
Publicada em Mindelo, Ilha de São Vicente, em março de 1936, Claridade trouxe à luz poemas, contos, novelas, excertos do romance Chiquinho, de Baltazar Lopes, bem como artigos de etnografia e de tema social: Tomadas de vista, de Manuel Lopes e Estudos sobre o crioulo, de Baltazar Lopes. Os três primeiros números saíram em 1936 e 1937, e os demais seis, nos anos 1947 a 1960. Ela foi considerada: "uma revista extraordinariamente moderna para o seu tempo, antecipadora de tendências e movimentos que só muito mais tarde se revelarão em outras literaturas africanas de língua portuguesa". (OLIVEIRA, 2012, nota 1, p. 85). Para a docente Simone Caputo Gomes (USP):
Ao assumir a afinidade com o Brasil e sua cultura mestiça e autônoma, os escritores claridosos – em processo de emergência da consciência cultural e nacional, como os irmãos africanos de Angola, Moçambique, São Tomé e Guiné Bissau – evidenciaram a determinação em refletir-se
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em (e por meio de) outros espelhos, mais próximos porque detentores de um itinerário histórico igualmente colonizado. (Gomes, 2008, p. 112)
Mediador cultural entre escritores cabo-verdianos e brasileiros, nos anos 1930 e 1940, Ribeiro Couto escreveu uma carta ao escritor Manuel, em setembro de 1936 a respeito do recebimento dos dois primeiros exemplares da revista:
Sr. Manuel Lopes,
Creio que é ao Osório de Oliveira que devo a remessa, que me foi feita do 1.o e agora do 2.o número de "Claridade". Isto é, devo-a ao senhor [Manuel Lopes], mas por indicação do Osório. [...] acompanho com o máximo interesse o enriquecimento literário e o "caso" histórico-social de Cabo Verde... Vejo com grande alegria que os seus poemas, como os de Jorge Barbosa e os de Osvaldo Alcântara [Baltasar Lopes], apresentam as mais íntimas afinidades com a poesia brasileira do chamado "Movimento moderno", cujos livros, pelo menos nos extratos publicados na imprensa, devem conhecer. Oportunamente, e sobretudo quando reúna documentação maior, hei-de-me referir, em artigo ou em livro, a esse fenómeno de fraternidade, a tão grande distância. Salta aos olhos que a literatura do grupo de "Claridade" está mais perto do Brasil do que de Portugal. (COUTO apud SANTOS, 1989, p. 207- 208).
Couto enfatiza a "fraternidade" existente entre Cabo Verde e o Brasil, "as mais íntimas afinidades com a poesia brasileira do chamado "Movimento moderno"", e aquelas escritas pelos poetas Jorge Barbosa e Osvaldo Alcântara.
Nessa carta de Ribeiro Couto, enviada de Haia (Holanda) a Manuel Lopes, o autor atribui o envio dos dois números da revista Claridade a José Osório de Oliveira, poeta e crítico português, que divulgou, nos anos 1930, a literatura cabo- verdiana na Europa e no Brasil. Em artigo publicado em Claridade, na edição de março de 1936, José Osório, que esteve em São Vicente (1927), afirmou que:
Os caboverdeanos precisavam dum exemplo que a literatura de Portugal não lhes podia dar, mas que o Brasil lhes forneceu. As afinidades existentes entre Cabo Verde e os estados do Nordeste do Brasil predispunham os caboverdeanos para compreender, sentir e amar a nova literatura Brasileira. Encontrando exemplos a seguir na poesia e nos romances modernos do Brasil, sentindo-se apoiados na análise do seu caso, pelos novos ensaístas Brasileiros, os caboverdeanos descobriam o seu caminho. (OSORIO (1936) apud OLIVEIRA, 2010, p. 4).
O artigo Uma experiência românica nos trópicos, de Baltazar Lopes, publicado na revista Claridade (janeiro 1947), e iniciado com uma saudação ao "eminente sociólogo brasileiro Gilberto Freyre", aborda a expansão da língua
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portuguesa no mundo colonial luso. Para Lopes, a falada em Cabo Verde era um dialeto do português, com características africanas, principalmente:
[...] na ilha de S. Tiago, com as suas manifestações culturais típicas – o batuque (de origem jalofa, segundo Marcelino Marques de Barros), a tabanca, o cimbó, a magia negra, o tamborona, o folclore novelístico, o seu catolicismo especial, a maior ocorrência de vocábulos de origem africana – ainda se encontra na fase da adaptação, de que, aliás, pelas informações que tenho, certas zonas da ilha se vão afastando, em direcção à aceitação. (LOPES (1947) apud CLARIDADE fac-símile, 1982, p. 19).
Para Baltazar Lopes, o processo de aculturação ocorrido, em Cabo Verde, provocou seu maior afastamento, cultural e linguístico, em relação ao restante da África. A respeito do negro do Brasil, ele constatou, que o mesmo estava mais distante da "aceitação", embora tivesse maior proximidade ao aspecto linguístico:
É curioso verificar que o afro-brasileiro, que, de um modo geral, se apresenta ainda, quanto ao seu comportamento, na fase da adaptação, isto é, mais afastado do que o caboverdiano da meta do processo aculturativo, que é a aceitação, está todavia muito mais perto linguìsticamente do que este. (LOPES (1947) apud CLARIDADE fac-símile, 1982, p. 19).
2- Jorge Barbosa e o amor pelo Brasil.
A obra poética de Jorge Barbosa, publicada em vida, foi Arquipélago (1935), Ambiente (1941) e Caderno de um ilhéu (1956), pelo qual foi agraciado com o Prêmio Camilo Pessanha, bem como dois contos de sua autoria que surgiram na Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea. (LOPES, 1960, p. 277). Jorge Barbosa ordenou seus poemas inéditos em três obras - Expectativa, Romanceiro dos pescadores e Outros poemas -, as quais foram publicadas, em 1993, por Elsa Rodrigues dos Santos, com o título de Poesias inéditas e dispersas. Essa mesma pesquisadora organizou, juntamente com Arnaldo França, a obra completa dele: Obra poética do autor caboverdiano (2002). Para Wellington R. Guimarães:
a poesia de Jorge Barbosa tem por base as realidades étnico- sociais e culturais de Cabo Verde, como o mar, as rochas, a luta do cabo-verdiano contra as adversidades climáticas e geográficas do arquipélago e contra as crises políticas e sociais. As temáticas da emigração e da evasão também são muito focadas e desenvolvidas. Todas estas questões constituem a "insularidade" temática da poesia de Jorge Barbosa. (GUIMARÃES, 2010, p.11).
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Leitor da poesia de Manuel Bandeira, de Jorge de Lima, de Mário de Andrade e de Ribeiro Couto, bem como da narrativa de Jorge Amado e de Rachel de Queirós, entre outros, o cabo-verdiano evoca em parte de sua obra temas por eles abordados. No poema Carta para Manuel Bandeira (em diálogo com o poema Estrela da Manhã), que foi publicado, originalmente, na revista Claridade, número 4, janeiro de 1947, Jorge Barbosa reflete a sua simpatia pelo poeta brasileiro de Vou-me embora pra Pasárgada.
Esse sentimento estendido à terra, à gente e à literatura brasileira cristalizou-se em poemas: Carta para o Brasil, Você, Brasil, e Palavra Profundamente (referências aos poemas Sonho de uma Terça-Feira Gorda (Carnaval); Profundamente, Palinódia e Vou-me embora pra Pasárgada (Libertinagem); e A Mário de Andrade Ausente, de Belo Belo).
Poema com liberdade rítmica e estrutural, com oito estrofes, publicado em Caderno de um ilhéu (1956), Você, Brasil foi escrito depois do encontro de Barbosa e Gilberto Freyre (1951). O poeta atua como um etnólogo, que faz um estudo comparativo entre duas culturas, a brasileira e a cabo-verdiana, em tom de lirismo intimista e confidencial.
O próprio título indica o amor pelo país sul americano, que é comprovado pelo convite ao leitor e à leitora a fazerem parte de uma viagem transcendental e mítica ao Brasil, por meio de um percurso cultural e literário, através de algumas regiões brasileiras que foram temas de escritores modernistas. O sujeito lírico evoca a terra e a gente brasileira, sua cultura material e espiritual, ao percorrer o roteiro imaginário de sua poética, iniciado no Rio de Janeiro (Manuel Bandeira), através de São Paulo (a capital de Mário de Andrade e o interior de Ribeiro Couto), Pernambuco (Manuel Bandeira e José Lins do Rego) até a Bahia de Todos-os-Santos (Jorge Amado) e ao Ceará (Rachel de Queirós).
Em sua carta geográfica sentimental, que atua como uma narrativa sobre as similitudes entre o Brasil e Cabo Verde, unidos pela estrada líquida atlântica e pela diáspora humana (gente e hibridização da língua portuguesa e do catolicismo), o poeta declama seus sentimentos, falando de si próprio ("Eu gosto de Você, Brasil"), e de seu povo ("Nós também"), ao elencar elementos identitários cabo-verdianos, como a bebida, os violeiros, e o café.
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O eu-lírico inicia o poema com uma declaração de deslumbramento, de ternura e de fascínio pela gigantesca terra sul americana, localizada na outra margem do oceano: "Eu gosto de Você, Brasil,/ porque Você é parecido com a minha terra./ Eu bem sei que Você é um mundão/ e que a minha terra são/ dez ilhas perdidas no Atlântico,/ sem nenhuma importância no mapa...". Seu olhar subjetivo sobre a cartografia dos territórios localizados ao sul, de diferentes dimensões geográficas e estratégicas, reflete seu âmago insular repleto de solidariedade pelo "mundão", como sinal de igualdade de condição, apesar das oposições, unidas pelo passado colonial.
O poeta conhece, por meio de narrativas orais e escritas, "a maravilha do Rio de Janeiro, São Paulo dinâmico,/ Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.", e constata a enormidade delas, enquanto que confessa que as urbes de sua terra são "três pequenas cidades". Apesar disso, ele diz que o Brasil é parecido com a sua terra, bem como seus moradores: "seu povo que se parece com o meu,/ que todos eles vieram de escravos/ com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros". A referência à multietnicidade e à multiculturalidade, existentes nas sociedades brasileiras e cabo-verdianas, e oriundas das mesclas afro-europeias, formaram um novo povo, que se confraterniza por meio da música e das danças, entre outros aspectos, e se celebra na literatura de Jorge Barbosa. O ilhéu e o continental sul americano não reverenciam a matriz luso-cristã, mas sim, o resultado harmônico e dialogante de povos levados pelas correntes oceânicas, que apesar dos grilhões, conseguiram transmitir sua cultura para as sucessivas gerações, transformando-a em patrimônio nacional do Brasil e de Cabo Verde.
A língua portuguesa, idioma do colonizador, se integrou a todas as formas de expressão linguística e cultural das diferentes etnias levadas para o arquipélago e para o Brasil, via Guiné, e criou uma maneira específica de comunicação: "E o seu falar português que se parece com o nosso falar'', O português falado na sociedade brasileira assemelha-se àquele existente na cabo- verdiana: "ambos cheiros de um sotaque vagaroso,/ de sílabas pisadas na ponta da língua,/ de alongamentos timbrados nos lábios/ e de expressões terníssimas e desconcertantes". Portanto, o povo mestiço, de diferentes linhagens, estirpes e procedências do continente africano, conseguiu marcar uma genealogia comum por meio de um idioma oficial, o português, que, na atualidade, apresenta
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especificidades em sua sintaxe e léxico, que refletem as culturas de origens dos falantes no início do processo colonial, com marcas de pronúncia e de oralidade que lhes confere peculiaridades de raiz afro.
A irmandade entre brasileiros e cabo-verdianos espelha a "alma da nossa gente humilde [...] A alma da sua gente simples". Para o poeta, os dois povos irmãos têm um maneira simples de ser, natural, ingênua, que os aproxima, também, em suas formas de vivência espiritual, com o espírito humano, mesclado com manifestações afro-católicas, plenas de superstições, de acordo com a cosmovisão ocidental: "Ambas cristãs e supersticiosas,/ sortindo ainda saudades antigas/ dos sertões africanos, compreendendo uma poesia natural,/ que ninguém lhes disse,/ e sabendo uma filosofia sem erudição,/ que ninguém lhes ensinou". O eu-lírico evoca tempos imemoriais, de povos reunidos para ouvir narrativas tradicionais orais, que traduziam conhecimentos e aptidões inatas, diferenciadas daquelas estruturas e temáticas estabelecidas pelos cânones ocidentais, mas com essência semelhante. As rodas socioliterárias dos "sertões africanos" foram perpetuadas no continente de origem e no da diáspora negra, e por isso, são celebradas pelo poeta, e transmitidas como padrões imutáveis de sabedoria anciã de gênese popular. A filosofia de origem étnico-tribal reflete o conhecimento, a explicação, a reflexão e o aprofundamento de grupo de pessoas que estudavam os fatos e suas causas, e os transmitiam ao seu povo, em forma de legado eterno, que foi levado por aqueles emigrantes do êxodo involuntário. A constatação sobre a existência da riqueza filosófica e poética de etnias africanas difere daquela ausência promulgada pelos colonizadores em sua cruzada civilizatória em prol dos povos considerados inferiores.
O conhecimento a respeito dos vínculos culturais e religiosos entre o Brasil e Cabo Verde é ampliado com a revelação do poeta sobre o entusiasmo seu e o de sua gente pela música e dança brasileiras de matriz africana:
E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas. dos seus cateretês, das suas todas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta dança e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também... (BARBOSA, on-line, s.d.).
Os ritmos e a forma espontânea das danças do Brasil, que assemelham aqueles ouvidos e bailados no arquipélago emocionam o poeta que se recorda
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também das analogias existentes nas mornas, polcas e outros cantares, e na adversidade climática: "[...] as secas do Ceará são as nossas estiagens,/ com a mesma intensidade de dramas e renúncias". Porém, o eu-lírico enfatiza uma grande diferença geográfica: "[...] é que os seus retirantes/ têm léguas sem conta par fugir dos flagelos,/ ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem/ porque seria para se afogarem no mar...". A questão do êxodo rural, provocado pela seca, revela que os limites territoriais e de fertilidade agricultável do arquipélago tolhem a migração dos trabalhadores para outras paradas-ilhas, pois ao contrário do Brasil, que tem outros espaços adequados a uma agricultura sustentável, mesmo que de subsistência, as áreas e bolsões de pobreza dos ilhéus, submetidos à ação implacável do vento Lestada, são muito maiores.
No monólogo-carta-celebração do poeta ao Brasil, ele elenca elementos constituidores da identidade nacional cabo-verdiana, como a "nossa cachaça,/ O grog de cana que é bebida rija"; "os nossos tocadores de violão"; "o nosso café da ilha do Fogo" que "é melhor do que o seu", com toque de orgulho ingênuo e simples. Aproveita para falar de seu desejo profundo: "ver de perto as coisas/ espantosas que todos me contam/ de Você [...] Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto/ e você veria como é que eu sou bom camarada".
De sonhos de assistir os "sambas no morro"; de conhecer uma cidadezinha do interior que "Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura"; de participar de festejos na terça-feira de carnaval; de dançar maxixe com uma cabocla no sertão, o poeta revela o seu sonho em conversar com dois colegas literatos: Manuel Bandeira e Jorge de Lima. Este, médico, ao qual queria fazer uma consulta a respeito de seu fígado enfermo, no aguardo de uma receita poética. Nessa última estrofe, o sujeito-lírico expressa seu fascínio pela fala brasileira, antes de concluir a concretização real de uma viagem ao Brasil:
Havia de falar como Você
Com um i no si
- "si faz favor -
de trocar sempre os pronomes para antes dos verbo -"mi dá um cigarro!". (BARBOSA, on-line, s.d.).
CONCLUSÃO
A respeito de Jorge Barbosa, a pesquisadora Elsa Rodrigues dos Santos escreveu que ele nunca teve a "pretensão de ser culto", no entanto era: "no
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sentido de apreensão do conhecimento do mundo e na capacidade de indagar. Nessa ânsia pelo desconhecido sonhou muitas viagens, sobretudo para o Brasil, que nunca realizou". (SANTOS, 1989, p. 28).
A viagem imaginária do poeta cabo-verdiano pelo Brasil - através das cidades/ estados descritos pelos escritores do Modernismo – o Rio de Janeiro de Manuel Bandeira; a São Paulo de Mário de Andrade e de Ribeiro Couto; o Pernambuco de Manuel Bandeira e de José Lins do Rego, que também imortalizou a Paraíba, o Ceará de Rachel de Queirós, e o Brasil negro de Jorge de Lima; pelos ritmos nacionais, alguns de seiva africana (sambas, batucadas, cateretês, maxixes); pelo hibridismo religioso afro-católico-, culmina com o desejo do Poeta em falar, no idioma português-brasileiro, com Bandeira e Lima e celebrar a fraternidade entre eles e suas pátrias.
O poema Você, Brasil, que apresenta o encontro poético entre o "mundão" e as "dez ilhas perdidas no Atlântico", publicado no ano de 1956, pela voz emocionada de Jorge Barbosa, em uma espécie de poesia declamatória sobre as afinidades solidárias entre o Cabo Verde e o Brasil, reflete uma das etapas do processo colonial, levado à América por meio da via atlântica, e que apesar das nódoas da escravidão e da opressão, não conseguiu tornar invisível a profícua raiz africana no espaço brasileiro continental - humano e literário.

BIBLIOGRAFIA.

BARBOSA, Jorge. Você, Brasil. Disponível em: http://descobrindoaafrica.blogspot.com.br/. Acesso em: mai. 2012.
CLARIDADE: Revista de Artes e de Letras. Edição fac-símile de celebração dos cinquenta anos da publicação do primeiro número. Org. de Manuel Ferreira. 2. ed. Linda-a-Velha: Editor A.L.A.C.- África, Literatura, Arte, Cultura, 1982.
FERREIRA, Manuel. Aventura crioula. 2. ed. Lisboa: Plátano, 1973.
FREYRE, Gilberto. Aventura e rotina: Sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e ação. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde e Brasil: Um amor pleno e correspondido. In: ______. Cabo Verde: literatura em chão de cultura. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Praia, CV: Instituto da Biblioteca Nacional do Livro, 2008. p. 111-124. GUIMARÃES, Wellington R. As ressonâncias de Manuel Bandeira (e do Modernismo Brasileiro) em Jorge Barbosa. Dissertação de Mestrado em Letras- Estudos Literários. Faculdade de Letras, UFMG, 2010.
LOPES, Baltazar (Org.). Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea. Cabo Verde: Henriquinas, 1960.
OLIVEIRA, Vera Lúcia. Brasil e Cabo Verde: duas margens do mesmo mar. Navegações, Porto Alegre, v. 3, n. 1, p. 84-87, jan./jun. 2010.
SANTOS, Elsa R. As Máscaras poéticas de Jorge Barbosa e a mundividência cabo-verdiana. Lisboa: Caminho, 1989.

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