testeira-loja

Algumas Questões Sobre A Literatura Angolana

Escrito por  Pepetela
Classifique este item
(54 votos)
As primeiras obras literárias escritas por angolanos e publicadas em Angola datam da segunda metade do século XIX. Não discutiremos aqui, porque nem competência para isso tem, se essas primeiras obras conhecidas poderão identificar uma literatura.

As primeiras obras literárias escritas por angolanos e publicadas em Angola datam da segunda metade do século XIX. Não discutiremos aqui, porque nem competência para isso tem, se essas primeiras obras conhecidas poderão identificar uma literatura. Para tanto suponho ser necessário um corpus de obras suficiente, alguma continuidade e autores com qualidade comprovada, critérios que me parecem ser até certo ponto subjectivos. Alguns pesquisadores lançam a hipótese de antes de 1849, ano em que foi editado o livro de poemas “Espontaneidades da minha alma”, de Maia Ferreira, iniciando a edição de obras de autores angolanos, ter havido outros patrícios a escrever, mas até hoje ainda não conseguiram mostrar-nos as evidências. Por isso se tem considerado ser esse o ano do início. E para curiosidade poderei acrescentar que a primeira obra de ficção publicada se trata do romance “Scenas d’África” de Pedro Félix Machado, em 1880. Esta geração da segunda metade do século XIX produzia poesia, ficção, relatos de viagens, mas sobretudo textos jornalísticos.

Com efeito, havia uma intensa actividade jornalística, com periódicos de vida efémera, sobretudo em língua portuguesa, mas também utilizando alguns deles as línguas kikongo, kimbundu e umbundu, da grande família das línguas banto do centro e sul de África. Uma característica desta imprensa angolana, centralizada quase exclusivamente em dois centros urbanos da costa atlântica, Luanda e Benguela, era ter uma forte carga social e política, aproveitando a relativa liberdade de expressão existente num momento de grandes lutas em Portugal, potência colonizadora, entre a monarquia dando nítidos sinais de esgotamento e um sentimento republicano crescentemente reforçado. Liberdade de expressão relativa, pois os jornais tinham vida efémera, fechados constantemente pelo poder político, para reaparecerem sob nova roupagem. Se compararmos o quadro redactorial dos títulos aparecidos, veremos a constância com que certos nomes de pessoas se apresentam. Um grupo de intelectuais criava um jornal, editava dois ou três números, o jornal era proibido, e um ou dois meses depois o mesmo grupo criava um novo, de mesma linha editorial mas com nome diferente, até voltar a ser proibido. A razão óbvia era que essa intelectualidade da época, misturada cultural e racialmente, era extremamente crítica da colonização portuguesa e do pouco caso que o Estado fazia da necessidade de desenvolvimento do território e da instrução e tratamento sanitário da população africana.

Revelador do estado de espírito desta brilhante geração de intelectuais foi a polémica que estalou no fim do século XIX a propósito de um artigo escrito por um português e que revelava um racismo insofismável. Tal foi a quantidade de respostas e críticas a esse escriba nos jornais locais, que o resultado acabou por ser compilado num livro chamado “A Voz de Angola clamando no deserto.” Para exemplo, citarei dois pedaços de um artigo de José Fontes Pereira no jornal “O Futuro de Angola” e que acabaram por fazer parte desse livro de denúncia:

"Que tem Angola beneficiado sob o governo português? A escravatura mais negra, a zombaria e a ignorância mais completa. Os piores de todos são os colonos, indolentes, arrogantes, com poucos cuidados e ainda menor conhecimento. Contudo, até o Governo tem feito o mais que pode para estender a humilhação e o vilipêndio sobre os filhos desta terra, que possuem, todavia, as qualificações necessárias para promoção. Que civilizadores e que portugueses! (…) Os filhos desta terra não podem ter confiança alguma na boa fé do bando colonialista português cujos membros são apenas crocodilos a chorar para engordar as suas vítimas. Conhecemo-los todos. Fora com eles!"

Os argumentos e o tom da linguagem me parecem suficientemente esclarecedores. Estes intelectuais de facto advogavam os valores da democracia e uma larga autonomia para Angola, senão a independência. Arrisco dizer que de qualquer forma se pode detectar nalgumas vozes uma certa ambiguidade, pois enquanto reclamavam a maior liberdade para as populações urbanas e o fomento das suas actividades e enriquecimento, ao mesmo tempo apoiavam as campanhas militares dos portugueses para subjugarem os reinos livres do interior e consideravam as populações rurais não civilizadas e necessitando urgentemente de serem instruídas à força. Uma espécie de imposição da democracia e da civilização pelo argumento das armas, ideologia que no fundo permanece em alguns espíritos do nosso tempo em relação a outras realidades e com consequências muito graves. Explica-se essa posição ambígua de alguns dos nossos intelectuais em relação às populações do interior pelo facto de esta elite ser representativa de uma classe média que tinha beneficiado da sua posição de intermediária na situação colonial, uma espécie de sub-administradores e sub-empresários africanos agindo em nome dos verdadeiros administradores e empresários coloniais. Os seus interesses estavam ligados ao crescimento do comércio no interior, ao aumento dos postos de funcionários pela anexação de mais territórios e ao crescimento do próprio exército português, que conferia empregos nos postos intermédios de oficiais, estando evidentemente o oficialato superior reservado aos originários da Metrópole europeia. Os interesses da sua classe de origem levavam portanto alguns deles a encorajarem uma política de ocupação militar e intransigência em relação aos reinos independentes do interior.

Esta elite depositava muitas esperanças no espectro da República que se perfilava no horizonte. E de facto em 1910 esta foi proclamada em Portugal. Curiosamente, é a partir de então que mais se fazem sentir os efeitos nefastos do colonialismo em relação a esta classe intermediária africana. A República adoptou uma política diferente de povoamento de Angola, com o envio para África de mais colonos, naquilo que se chamou um primeiro ensaio de colonização de povoamento. Estes colonos faziam uma concorrência mais acentuada nos postos de trabalho, em particular da função pública. A classe média africana, na sua maioria constituída por mestiços, foi aos poucos perdendo as suas posições e mesmo fisicamente sendo relegada para a periferia das cidades coloniais, que foram progressivamente se tornando mais brancas de população. Também se acentuavam as atitudes racistas e de discriminação, quer na escola, no trabalho ou na vida cultural e social. O que chocava particularmente os intelectuais que se iam manifestando era o facto de muitos dos recém-chegados, que acabavam por abocanhar os melhores empregos e posições, terem muito menor instrução e preparação que os angolanos segregados para a periferia da cidade e da sociedade colonial. E, paradoxalmente, a repressão foi-se acentuando e acabou por eliminar definitivamente a relativa liberdade de expressão existente no século anterior, com a monarquia. Terminou a participação dessa intelectualidade angolana na imprensa escrita e terminou também a possibilidade de chegar às tipografias e casas de edição. Assim, a partir do século XX, houve uma regressão enorme na actividade literária, pelo menos na sua divulgação. Um período de sombras se seguiu àquela brilhante segunda metade do século XIX. Excepção notável e única foi a publicação nos anos vinte do romance “O Segredo da Morta” de Assis Júnior. E os livros publicados anteriormente deixaram de circular e tornaram-se totalmente desconhecidos da juventude que tinha vontade de se cultivar e saber um pouco sobre o passado dos seus.

O facto curioso e que acaba por servir de ponto fulcral desta comunicação é a existência no mesmo país de duas gerações literárias com muitos pontos em comum, como se uma fosse a sequência lógica da outra, mas sendo afinal a primeira quase absolutamente desconhecida da segunda. Já me explico.

A partir da Segunda Guerra Mundial e com o movimento de emancipação dos povos coloniais começado com a luta de independência dos Estados Unidos da América e seguido pelas rebeliões emancipadoras das colónias hispânicas no continente americano e mais tarde da Ásia, as ideias de independência chegaram a África. Em Angola, alguns jovens, preocupados com a miséria e a opressão provocada pelo domínio português, criaram em 1948 o Movimento dos Jovens Intelectuais, que lançou a palavra de ordem “Vamos Descobrir Angola”. Destacaremos alguns nomes de pessoas que se tornaram escritores e intelectuais importantes, alguns tendo depois enveredado pela luta propriamente política. São eles Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, António Jacinto, Aires de Almeida Santos, entre outros eventualmente de vulto menor. Estes jovens, estudantes e funcionários, animaram tertúlias literárias e de discussão, culminando na publicação da revista “Mensagem”, hoje considerada um marco da identidade angolana. Esta geração iria também determinar a segunda metade do século XX, tal como a sua antecessora do século anterior. Tive ocasião de perguntar a alguns deles o que conheciam, quando iniciaram a sua actividade, do que fora escrito antes. E a curiosa resposta é que sabiam da existência desses intelectuais do século anterior, alguns até pertenciam às mesmas famílias e chegara-lhes às mãos um ou outro artigo de jornal, guardado religiosamente, mas pouco mais conhecimento tinham. Quer dizer, por acção da repressão colonial, não houve passagem de testemunho de uma geração para outra, de um século para outro. Foi preciso começar tudo de novo. No entanto, como as situações acabavam por ser semelhantes, os jovens do “Vamos Descobrir Angola” tinham posições sociais e políticas muito próximas das dos seus ilustres antepassados.

Só depois da independência foi possível encontrar e editar alguns livros do século XIX e que entretanto tinham desaparecido completamente das estantes das casas de família. Só depois da independência, de facto, as gerações mais recentes têm conhecimento do que fizeram as anteriores e pode falar-se de uma continuidade na literatura angolana. Mas temos a lamentar a perda de muitas obras, de que temos referência mas às quais não conseguimos acesso para as ler e reeditar. Assim se passa com a maior parte da obra de Cordeiro da Matta, quiçá o mais importante escritor angolano do século XIX, gramático, etnógrafo, jornalista, poeta e romancista, de que pouco neste momento resta.

No entanto, hoje que é possível fazer comparações, temos também a destacar algumas diferenças entre a postura das duas gerações a que nos temos referido. Enquanto a do século XIX teria algumas atitudes ambíguas, como dissemos, a do Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola era mais radical na denúncia da opressão colonial e advogava sem peias a independência de Angola. A sua própria literatura, particularmente a poética, era muito eivada de preocupações políticas, na senda da literatura socialista da Europa e por influência da ideologia marxista. Nesta conformidade, os temas e personagens populares eram valorizados, embora essencialmente urbanos. Há uma busca constante de manifestação de solidariedade em relação aos humilhados e explorados, já não considerados bárbaros e incivilizados como apareciam em alguns escritos do século anterior. E na mente destes jovens intelectuais, o País constituía um todo, embora em parte desconhecido, para o qual era preciso caminhar com humildade, e não apenas considerar a faixa litoral onde se fixavam as principais cidades e onde se produzia (e produz) a cultura dominante.

Esta questão não foi totalmente resolvida pela geração que deu origem ao nacionalismo moderno, como alguns autores designam os intelectuais que depois dirigiram partidos e movimentos de libertação e conduziram a luta pela independência. Por muito cuidado que tivessem em não excluir qualquer sector da população angolana, o certo é que a sua vivência quase exclusivamente urbana levava a sua literatura a pouco tratar o campo. A mesma característica se revela nos que os seguiram, como é o caso da minha geração, escritores que começam a escrever nos anos cinquenta e sessenta do século passado. Com efeito, por razões que se podem explicar pela história do País, as populações camponesas sempre estiveram relativamente ausentes da literatura, não por uma vontade deliberada de exclusão mas por falta de vivência dos escritores, quase todos provenientes das cidades e dominando muito mal ou mesmo nada as línguas faladas nas regiões rurais. Nesse aspecto continua a haver paralelismo com a geração do século XIX. Basta referir como exemplo que a literatura angolana desconhece a figura do jovem do campo que vai para a cidade e sofre o choque da mudança de vida e cultural. Este tema é comum aos primeiros passos das literaturas africanas que conheço e curiosamente (ou talvez sintomaticamente) não se encontra na angolana. Obviamente porque os escritores não nasceram nem se socializaram no campo.

Um factor que pode ter marcado uma diferença entre as duas gerações é o das influências externas. Enquanto a elite do século XIX era muito marcada pela literatura portuguesa da época, oscilando entre o chamado romantismo e o realismo, que fazia gala em conhecer e que muitas vezes se gabava de dominar tão bem como os portugueses, a geração de 1950 tinha outras leituras e mais universais. Assim, um Agostinho Neto por exemplo reconhecia ser grande admirador do afro-americano Langston Hughes ou do cubano Nicolas Guillén e um Mário Pinto de Andrade ou um Viriato da Cruz eram profundos conhecedores da literatura brasileira de então e da que começava a fazer-se em África. Enquanto a geração do século anterior estava portanto ainda muito ligada à vida intelectual e política do Reino de Portugal, a nova geração tinha já feito a ruptura, procurando outras referências e apontando novos caminhos. Penso que nesse aspecto a poesia de Viriato da Cruz, embora escassa e pouco divulgada, marca a divisão das águas e é a que, por todos os ângulos pelos quais possa ser observada, apresenta um corte definitivo com a portuguesa e tem todos os ingredientes de uma literatura verdadeiramente angolana. Os temas são inegavelmente angolanos, as figuras humanas também e mesmo a linguagem é o prenúncio do resgate de palavras, expressões, novos conteúdos semânticos e sintácticos, influenciados pelas línguas africanas. Foi de facto a poesia de Viriato que abriu o caminho para Luandino Vieira na prosa da década seguinte. Se hoje em dia é relativamente fácil ler um livro e saber imediatamente que se trata de um autor angolano, por características intrínsecas do texto, creio justo fazer esta reverência a Viriato da Cruz.

Temos assim duas gerações de fundadores, separadas por cerca de cinquenta anos de silêncio. Este hiato não impedirá de colocar o nascimento da literatura angolana na segunda metade do século XIX? Merecerão esses homens de letras quase isolados no universo o título de fundadores, ou apenas o de percursores, não por culpa própria, mas das circunstâncias que lhes enformaram a vida e a obra? Os literatos e estudiosos que investiguem e respondam. Eu sou apenas um prático da literatura e por isso somente levanto questões, como o cão de caça levanta perdizes. Que essas perdizes sejam ao menos saborosas e ainda não contaminadas por todos os tóxicos que o nosso tempo vai lançando sobre as coisas.

José Fontes Pereira, citado em ERVEDOSA, Carlos – Roteiro da Literatura Angolana, 3 edição, Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1985.

Ler 39225 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips