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A Bicha e a Fila

Escrito por  Carmo Neto
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Sobre as palavras Bicha e Fila, a sociolinguística prova-nos que as interligações são complexas e podem definir diferentes formas, comprovando-se, consequentemente, uma co-variação do fenómeno linguístico e social, em vários aspectos da expressão de indivíduos que pertencem a sociedade cultural e geograficamente diversificadas.

As diferenças no espaço geográfico, as variações diatópicas intercontinentais – neste caso, Angola, Brasil e Portugal – comportando inclusivamente normas linguísticas distintas (o Português de Portugal – de Angola e do Brasil), evidenciam com clareza que uma língua se reveste de complexidade, não podendo nos prescindir de uma delimitação precisa dos factos analisados pelos dois autores, que controlam as variações actuantes em vários níveis dos eixos de diferenciação.
>> E porque falamos de sociolinguística ou "sociologia" de duas palavras e violação semântica, remeto-vos a leitura do texto dos autores para o conceito de bicha e fila aqui chamados (3º paragrafo e seguintes das páginas 117 a 118): "Bicha é um conjunto de pessoas colocadas umas atrás das outras com vista a obtenção de um benefício. Já agora, acrescenta-se, por vezes com sapatadas de cavalos ou bastonadas da polícia".
>> "A nossa definição servia quando nós nos opúnhamos a fila por descriminar bichas e guetizá-la para o inferno da exclusão dos homossexuais. Exactamente, porque exclui uma palavra do léxico normal, limitando a sua fala a uma ofensa em que bicha passa a designar homossexuais, é um dos maiores crimes contra a humanidade e os direitos humanos, isto é, retirar uma palavra que vinha no dicionário com os respectivos significados para a apropriação dela de uso da ofensa e descriminação. A bicha é a bicha, vê só as bichas enormes que dão a volta à esquina para fazer serviço militar obrigatório, aqui é ir para a guerra, meio caminho para a morte, talvez seja uma fila, será? E, por isso, devíamos alterar a definição para bicha que será um conjunto de pessoas colocadas umas atrás das outras, voluntária ou obrigatoriamente, com vista à obtenção de um resultado, quer seja um benefício ou um outro resultado imposto que pode redundar em prejuízo. Iremos aperfeiçoar o conceito, ah, ah, ah, ah. De quê que me estou a rir? Lá na Melói, de repente formam-se longas bichas nas bombas de gasolina, com carros diversos e compatíveis com diferentes classes sociais sempre que passa a notícia de que o preço baixou uns cêntimos. E ainda o papá sabe que lá na Tuga há bichas na saúde, pessoas cancerosas, outras a cegar, em transplantes então é o fim, é outro tipo de bicha porque se espera em casa um ou dois anos, nem como é que esses pacientes que tu fazes evacuar se safam lá, tem um acordo filha, além disso onde entra massa fica tudo resolvido. Mas aqui, papá, dizem que umas das bichas mais penosas é a dos passaportes e depois da pessoa ter o passaporte vai para bicha dos vistos, principalmente na embaixada de Portugal e do Brasil, espera não acabou e é toda uma sequência de descargas de adrenalina e litradas de suor, porque depois tem o purgatório do aeroporto, filas para tudo, bagagem, polícia de fronteiras revistas depois de se ter passado no raio x e o pior é que no fim pode não haver lugar no avião porque foi vendido a outra pessoa ou, três horas depois, mandarem desembarcar porque o avião está avariado. Papá, esta gente do nosso povo que se inicia a viajar de avião, logo em voos internacionais e de longa distância, quando chegam ao destino e depois da fila de lhe carimbarem o passaporte, receberem, encontrarem as malas e chegarem à porta do aeroporto é para elas um milagre, um milagre das bichas graças à cerveja. Por falar nisso vou tomar uma a estalar como aprendi aqui."
>> Segundo Maria Teresa Salgado, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o leitor sente-se de facto iniciado nas diferenças culturais entre Brasil, Angola e Portugal e é estimulado por considerações antropologicas, filosóficas culturais, políticos sociais etc. mas o que a obra nos propõe, antes de tudo, é um exercício literário de alta qualidade, começando por uma ampla exploração e domínio das palavras até o manejo de estratégias literárias que envolvem o romance, como já apontamos, sobretudo na deliciosa exploração da ironia e do humor.
>> A obra, editada pela União dos Escritores Angolanos, é composta por 180 páginas e tem como protagonistas dois amigos médicos:
>> Miguel e Manuel escrevem "A bicha e a Fila e o bicheiro", a distâncias intercontinentais: Angola, Brasil, Portugal e França. A acção vai evoluindo com as tecnologias de informação e comunicação: datilografam, escreviam em máquinas Remington ou Olivetti, método preferido por Manuel. O aparelho, de antiquário, dava ao Manuel uma verdadeira fruição da escrita – a ele, que era "um doente por velharias". As cartas para elaboração dos textos do romance eram enviadas por correio, de avião, pelo amigo tripulante Ari, mais tarde por fax e, finalmente por correio eletrónico. Já o Miguel tinha melhores condições de trabalho, usufruía do DDI (ligações telefónicas directas), telefone computador e tinha uma professora particular de informática, Yara, que veio a ser sua namorada. Manuel Rui, figura incontornável das letras angolanas, ao longo da sua vida de escrita manteve sempre uma estreita colaboração com diversos jornais e revistas desde os tempos de Coimbra, no triângulo da Língua Portuguesa entre Angola, Portugal e Brasil.
>> Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), bem como da União dos Artistas e Compositores Angolanos (UNAC) e da Sociedade de autores Angolanos. O autor do Hino Nacional de Angola e de canções com parceiros como Rui Mingas e André Mingas (Angola); Paulo de Carvalho e Carlos do Carmo (Portugal), Martinho da Vila e Cláudio Jorge (Brasil). Ensaísta, cronista, dramaturgo, poeta, escritor e crítico literário, habitua-nos, nas suas obras, à ironia, comédia e humor sobre o que ocorreu após a independência de Angola.
>> Enaltece a sua ironia com o seu amigo Marco Guimarães. De nacionalidade brasileira e portuguesa, Marco Guimarães é pós-graduado em Medicina e tem formação em várias áreas: Astronomia, Física, Fisioterapia e Veterinária. Dedicou a maior parte da sua vida profissional ao ensino da fisioterapia. Cronista, escritor, professor universitário, as suas crónicas são contextualizadas no campo da filosofia, da literatura ficcional e da sociologia, para uma Revista da área de Saúde. Escreveu o seu primeiro romance, "De escritores, fantasmas e mortos", sob o pseudónimo de Paul Lodd. O seu segundo romance, "Meu pseudónimo e eu", foi nomeado como um dos 20 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura, 2012. É ao seu terceiro romance, "A Bicha e a Fila", escrito em parceria com Manuel rui, que aqui fazemos referência.
>> A obra suscita grande interesse, pois aborda de uma forma satírica e mordaz, os problemas sociais da época. Uma análise sociológica analisada no trauma social, sintetizando a história, a gastronomia, economia, a educação, pode dizer-se, que é um retrato realista da sociedade angolana, feita de forma irónica e satírica mas com subtileza. No romance "A Bicha e a Fila", os escritores revelam Angola dos meados da década de 70 e anos 80.
>> Nessa época, as bichas em Angola eram efectuadas em frente das lojas do povo, supermercados, depósitos de pão, peixaria, talhos, e em hospitais, para marcar uma consulta. As bichas eram a salvação de rendimentos económicos para a maioria da população da cidade de Angola e no país Angola, enfrentava-se muita confusão, faz sentido, admitir que a bicha ao mesmo tempo que dava alguma ordem aos utentes em delírio que esperavam para ser atendidos, trazia também grande ansiedade, pois muitas vezes acontecia que os funcionários vinham anunciar, depois de os beneficiários terem esperado muito tempo, na bicha para aquisição dos bens alimentares, vestuários e/ou electrodomésticos, que já não havia alimentos, que já tinha acabado tudo!... Havia também os bicheiros, indivíduos que ocupavam, em vez de outros, o respectivo lugar nas bichas, e vendiam os lugares, faziam uma fortuna com o negócio. Como excepção, as lojas das empresas multinacionais, frequentada por estrangeiros e cooperantes, e as lojas dos técnicos superiores, dos oficiais superiores, responsáveis e dirigentes – as lojas francas. Na fase inicial da independência em Angola, muitos funcionários auferiam de um ordenado nominal baixo. Contudo, o Estado criou um cartão, que permitia o acesso às lojas do povo. Nessas lojas vendiam-se produtos nacionais e importados em moeda nacional, o kwanza, calculado ao câmbio oficial. O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar ou da qualificação profissional do portador. As lojas do povo destinavam-se primeiro à classe não dirigente, porém, a prática do "comércio paralelo, candonga" começou a generalizar-se (Ennes 1994, cit. Por Domingos, 2012: p. 79). O sector informal da economia tornou-se, mais do que nunca, um espaço de sobrevivência para a grande maioria da população. Os negociantes compravam vários cartões, adquiriam várias grades de cervejas estrangeiras, vendiam e adquiriam um bilhete de passagem para o estrangeiro, preferencialmente Portugal, para depois passarem dali a outros países europeus ou no continente americano.
>> Em Portugal ou América, sobretudo o Brasil, encontrávamos valiosos a filas dos prazeres, em três categorias: fila dos prazeres absolutos, que é aquela em que espera com satisfação, para admirar uma obra de arte; fila dos prazeres relativos, relacionada com a espera no motel, onde se correm riscos em prazeres masoquistas; as filas neutras: essa, Miguel relaciona-as com a fila que a sua filha enfrentará em Lisboa, para conseguir receber o título de pós-graduação; as filas das crianças miseráveis, relacionadas com as crianças que passam fome. No entrelaçar do cenário, neste romance os autores descrevem e relacionam que as filas mais decentes eram as filas da Comunhão, para receber a Hóstia. A narrativa concretiza-se, como ficção extremamente bem realizada, a reprodução de um momento cultural de incontestável importância para o desenvolvimento da história de Angola.
>> Manuel Rui inspirando-se na sociedade que vivia uma situação de adaptação com a vida, cria uma riqueza inconfundível nas suas obras, faz ponte de uma trajectória, pelo meio, de uma linguagem singela, típica da nova literatura africana e um sentido de humor refinado, muito eficaz, que leva o leitor de um sorriso permanente até à risada inconveniente, cinjamo-nos os exemplos -, "bicha, bicheiro, fila e bicho para vocês, brasileiros, bicha é o que aposentou o apêndice frontal (pénis) e passou a usar a parte traseira (ânus), nas trepadas, não é mesmo? (...) Bicha no Brasil é o paneleiro para nós em Portugal, e tu bem o sabes. (...) Fernando, deixa o Lino prosear um pouco sobre os paneleiros portugueses ou bichas brasileiras." (Rui e Guimarães, 2013: p. 25)."
>> As suas obras suscitam grande interesse, ao público-leitor, entretanto, aborda a trama em análise sociológica sintetizada num retrato realista da urbe brasileira, portuguesa e especificamente a angolana, feita de ironia e sátira, mas uma ironia subtil.

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