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Uanhenga Xitu: O Elo Entre A Tradição E A Modernidade

Escrito por  Marilúcia Mendes Ramos
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Na palestra proferida aos estudantes de literatura africana da Universidade de São Paulo, em 25 de agosto de 1983, Uanhenga Xitu* se autodefine “como um registrador de algo que se passava no meio e no ambiente da sua convivência”. O seu contacto com o mundo urbano o faz vivenciar no próprio meio em que nasceu e cresceu a desconfiança dos velhos iniciados.

Na palestra proferida aos estudantes de literatura africana da Universidade de São Paulo, em 25 de agosto de 1983, Uanhenga Xitu* se autodefine “como um registrador de algo que se passava no meio e no ambiente da sua convivência”. O seu contacto com o mundo urbano o faz vivenciar no próprio meio em que nasceu e cresceu a desconfiança dos velhos iniciados – guardiões dos segredos dos ofícios tradicionais, das ervas que curam, dos feitiços, da magia, da palavra desencadeadora de força, da história de seu povo – que tinham os jovens que partiam para as grandes cidades como traidores de suas tradições e merecedores de tratamento semelhante ao dispensado aos estrangeiros. Mas com o declarado respeito às tradições, Uanhenga Xitu tem conseguido junto aos seus os elementos para descrever os mais ricos cenários sobre “o concreto, o real e o irreal que se passava, e ainda se passa, nas sanzalas, nos quimbos, nas bualas e povoações de Angola”(1).

Uanhenga Xitu diz que o homem é a grande preocupação de sua obra, por isso busca relatar as complexas contradições de pensamento social a cada passagem: “Escrevi, e continuarei a escrever, o homem do mato, da sanzala e a sua transformação quando emigra para a cidade ou quando regressa para a sanzala. Muitas dessas passagens vivi-as na pele”(2).

Uanhenga Xitu situa sua obra entre duas culturas bem conhecidas por ele: a tradicional e a moderna, e os traços dessas suas duas componentes poderão ser notados no diálogo entre o rural e o urbano presente em seus textos.

O autor passeia por esses dois mundos distintos, trazendo para o espaço do texto os problemas que foram surgindo pelo contacto com outras culturas. No capítulo III de Os discursos do “Mestre” Tamoda, a propósito da morte de um rapaz, que o povo do lugar disse ser por feitiço, instala-se um conflito religioso. O pai queria para o filho um enterro “religioso, católico contrariando todos os parentes da sua parte e os da família da ex-esposa, esta já feita protestante. (...) Ainda apareceram uns terceiros reinvindicadores, os de mahamba ( quimbandas), que teimosamente não concordaram que a igreja se imiscuísse numa morte dessas”. Para complicar um pouco mais, já no cemitério, após falarem o padre e o pastor, chegou a vez do ‘Mestre’ Tamoda fazer seu discurso fúnebre – aliás, os discursos fúnebres fazem parte de tradição africana. A cena do discurso de Tamoda, repleto de neologismos, acaba se tornando cómica pelos vários pedidos de “silencioso” para falar, pela tentativa de ressuscitar o morto e pela queda da casa de abelhas selvagens que saem a picar todo o povo do enterro, que evidentemente abandona o defunto.

O autor também trata das consequência do convívio com as duas culturas no capítulo V de Os discursos do “ Mestre” Tamoda: “ Na nossa época, o contacto com a civilização europeia e a influência das Igrejas fizeram com que muito do bom e de valor ficasse, ou fosse deturpado. Mas nem por isso se perdeu de todo. Embora ainda haja reminiscência de um antigamente que, hoje, se fosse materializado, chocaria as pessoas, até aquelas insensíveis; para a nova geração e a sua mentalidade, compreende-se”. Anda na introdução desse capítulo, percebe-se que o narrador passa pela questão da conveniência que se instalou em viver sob diferentes regimes, pois quando interessa, os “indivíduos ditos civilizados, e inclusive brancos cognominados cafrealizados” invocam o “segundo o regime da terra”, para obter mais “facilmente aquilo que ele de outra forma ou através dos ditos civilizados não podiam”(3).

O autor vai passear pelo mundo das tradições em que foi criado e dele extrai belíssimos elementos para compor sua obra. Ao passar pela sua infância na sua sanzala, põe as crianças a brincar os jogos infantis –brincadeira que na África tradicional visa a socialização. As crianças aparecem a cantar e a dançar como é costume. O autor põe Kihitu – personagem da obra homónima – a aprender com os velhos o ofício tradicional de ferreiro, traço da cultura tradicional africana. Fiel ao que ouviu de seu povo, relata a furiosa tempestade que se ergue e que a tudo devasta no instante em que Kahitu morre. Narra com tanta minúcia o instante mágico em que a avó de Kahitu é visitada pelo “kituta” no lago, quando quase morre ou perde a criança que esperava – a mãe de Kahitu – que o leitor quase enxerga a cena. Essa passagem é mesclada pela magia, pelos costumes, pelas crenças e principalmente pela tradição, é em virtude do não cumprimento de um ritual de sacrifício a uma divindade que Kahitu nasce aleijado.

Em suas obras, Uanhenga Xitu passeia no meio de seu povo e se mistura a ele, deixando de ser “eu” para ser “nós”, num sentimento de profunda identidade. Assim é que por vezes o narrador é ao mesmo tempo personagem e é também o próprio autor. No episódio do campeonato desportivo, o narrador se coloca como tal, como autor e como se tivesse assistindo aos jogos: “Era um desporto meio morto quanto ao público espectador, mas nesse campeonato, dada a publicidade e o interesse que despertava, atraiu muita assistência. Valores nossos conhecidos, contavam-se apenas os senhores Diogo Caricoco, Columbano Pares, Saldanha Palhares e outros tantos que a memória me falha, mas apenas para o treino”. Em certas passagens o autor/narrador se põe entre parênteses a discorrer sobre um traço da tradição para que o leitor possa entender melhor a narrativa e também os costumes da terra, o que acontece em vários episódios, como no capitulo V:

“( Em Angola existiam regiões em que era hábito os possuidores de mais de uma mulher oferecerem uma das esposas, geralmente a mais nova e bonita, para dormir na mesma cama com a visita: dizia-se que era para fazer companhia e aquecer a vista. É uma deferência, uma grande atenção dedicada a essa visita. Mas ai da visita se tocasse nela! É um suplício. Mas, em parte, media-se também o temperamento e as qualidades do cavalheirismo da visita.[...]”.4

Parece que o autor experimentou dessa hospitalidade porque expressou opinião a respeito do que sente a vista: “É um suplício”. No capítulo VI de Os discursos de “Mestre” Tamoda o autor passeia pela estação de trem na qual Tamoda deverá embarcar para ir a Luanda discursar no casamento de Marajá e Arlete e passa a descrever o lindo cenário, a contar episódios ali ocorridos e contados pela gente de lá e a narrar sobre o significado da estação nas vidas das pessoas do lugar, pois “No dia de passagem do comboio, a estação dos caminhos de ferro é lugar para muito cavaco, histórias, demandas e, muitas vezes, se fazem reuniões familiares, e justiça também [...]”. Em meio às descrições o narrador exclama: “Panorama vistoso! É a África, apesar das suas contrariedades e dos seus gritos de dor, que ainda é um dos continentes que pode oferecer lindas-e-lindas paisagens e panoramas pitorescos, deslumbrante e encantadores. É um ponto de África...” Um pouco mais à frente o narrador solta outra exclamação, mas é de lamento e de denúncia:

“... o cricricar dos grilos e a música estridente das cigarras, a benzerem-se do quanto ainda lhes resta da sombra, da frescura e tranquilidade desse lugar! [...] Luanda assassinou a área: é o que acontece com as povoações, sanzalas e quimbos que ficam próximos das grandes cidades: são sufocadas pelas necessidades das cidades. E quando se pensa apenas no lucro de hoje sem fazer-se para o amanhã, redunda-se na já constatada situações caótica das populações atingidas por secas quase seguidas. Não há chuvas! Deve-se em parte por não haver árvores, não haver sombra!”

Ainda no passeio pela estação, passa pela histórica figura do Dr. Menezes,

“médico, negro, de grande fama em toda a Angola e querido pelos pretos que o conheceram, e aos que nunca o viram, mas só de ouvir falar. De monóculo, debruçado sobre a janela foi reconhecido pelos antigos desterrados em 1922 para S. Tomé. É ele, é ele mesmo!!! Um mundo correu sobre o Leão tão afamado [...] É ele mesmo, forte, pedaço de homem, defensor dos negros; personificava o negro de Angola na sua cor e atitudes tirando-o do seu complexo doentio, era figura de prestígio, admirada e reverenciada em toda a Angola, sobretudo na área de Icolo e Bengo, onde se contaram e contam história e lendas relacionadas com Dr. Menezes, depois do regresso de S. Tomé e Príncipe dos desterrados da Revolta conhecida por Zuzé Dia Mbala, José Bernardo, comerciante de maus instintos, opressor e escravocrata que reduziu em mais de um século o desenvolvimento socio-económico-cultural da gente dessa área, causando danos irreparáveis (fez órfãos, viúvas, despejou sanzalas inteiras, fez fechar e queimar escolas)”(5).

Mas se enquanto o autor faz seu passeio pelo lugar que o viu nascer ele nos faz compartilhar de suas tristezas, de suas emoções, de suas preocupações, também nos faz rir com os discursos do Mestre Tamoda, mas principalmente com sua actuação quando da sua segunda ida a Luanda. Tamoda embarcou e depositou no chão do trem um cesto com ovos e limões que levava para Luanda. Acontece que um bêbado, ao tentar ir para seu lugar, cai sentado no cesto de ovos. O narrador descreve com minúcia a cena:

“O pior ainda é que nesse cesto estavam os papéis do discurso para o casamento e a relação dos putus escolhidos para serem bundados, lozados (atirados, pronunciados) no casamento do Marajá e nalgumas cerimónias. O homem quando se levantou tinha as calças brancas borradas do amarelo da gema que lhe escorria pelas pernas. Tamoda pôs-se a gritar desvairado: bolas, que hecatombe, que dilúvio, que terramoto, que desgraça, que catástrofe, empestaram-me os papéis e os discursos com izanguizangui (clara de ovos ou líquidos gelatinosos). Os meus papéis, ai surucucu deste animal bajoujo, fundório que me enlamou na desgraça! – Tamoda berrava de braços abertos e sacudia os papéis salpicando com gema e clara os passageiros aborrecidos com tudo isso e aquilo, e para mal dos seus pecados, o homem gemado e bem transformado, escorrega novamente no escorregadio da clara e gema e cai de novo no cesto! Qual espremedor de fruta, saíam em esguichos pelos buracos do cesto e esmagado por peso de um homem de mais de 80 quilos e abonado de largos matacos?! Veio o revisor dos bilhetes acompanhado do condutor do comboio e, dirigindo-se ao Tamoda: - Informa, que barulho e algazarra é esta, queres lutar? – Não, senhor condutor, este kabujanganga encuou toda a cloaca na ninhada dos meus ovos, causando esta lagoa de izanguizangui”(6).

O narrador deixa o trem seguir sua lenta viagem e chega antes a Luanda e penetra no seio de uma família burguesa colonial de Angola, esclarecendo ao leitor onde Tamoda chegará. E aí observa como a burguesia busca resolver seus problemas sociais, explora suas contradições, a falsa moral, o mundo das aparências, o prestígio acima das leis, o modo como se relaciona com a comunidade indígena e com os seus costumes. Os membros da família gozam de grande prestígio social, sendo visitados por grandes figuras da Igreja e do Governo constantemente. Os empregados da casa são negros que trazem de suas sanzalas crenças e conhecimentos que não põem de lado, mas usam até mesmo em favor do branco.

Uanhenga Xitu passeia também entre suas próprias obras. Assim é que temas já tratados no Mestre Tamoda e Kahitu reaparecem numa relação intertextual em Os discursos do Mestre Tamoda, tais como a perda da virgindade pela moça cobiçada, a negativa em declarar o nome do autor da façanha, a ideia do suicídio, a preocupação com a honra, também a questão dos jogos, do casamento inconcluso, da chantagem emocional... Além da intertextualidade com a obra anterior a Os discursos do Mestre Tamoda, também se nota que Uanhenga Xitu passeou pelo Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, o que se nota pelo fato de o autor atribuir a Arlete certo comportamento que tudo tem a ver com a melodramatização de Mariana, só que, como a próprio Arlete diz, “no seu caso não se perdia por amor de alguém. Praticara desporto, simplesmente, com Marajá”.(p.114)

O autor em seu passeio transita por temas já clássicos, como o racismo, mas de modo bastante peculiar. N’Os discursos do Mestre Tamoda o conflito branco x preto aparece, mas provocado por motivos de ordem sentimental, e a questão do racismo também se faz presente, mas não de forma enfática, caso do episódio da vitória de Arlete no pingue-pongue, que corre com a raquete levantada para o lugar dos peões-de-pé descalço e dá um abraço no Marajá, dizendo que a vitória era dele e não dela. O narrador comenta então: “Não agradou a muitos este abraço e sobretudo aos sul-africanos e belgas”. Dessa mesma forma, a denúncia do racismo também está presente numa outra passagem, quando Arlete se recusa a viajar com a mãe, mas sendo forçada pelo pai, atira-lha um segredo que há muito guardava:

“Pai, nunca desobedeci a nada quanto me pediram; mesmo naquele dia em Joanesburgo (África do Sul), quando me deixou no quarto, levando os meus irmãos à festa do Burgomestre da cidade, senhor Wagner, e amigo da nossa casa em Lourenço Marques, eu fiquei a chorar, obedeci. Mas sabia pelo criado que eu tinha ficado porque o senhor Wagner fizera questão para não me levar por ser a filha menos clara e na mesa iriam visitas de honra que não veriam com bons olhos pessoa de cor...”(7).

Nesse passeio que Uanhenga Xitu faz pelo lugar em que nasceu e do qual extraiu os elementos para compor uma obra rica em imagens e em história, ele resgata questões como o culto às divindades, o pagamento de sacrifícios aos deuses, os discursos proferidos em cerimónias, a bigamia, os jogos infantis de socialização, o valor da palavra, o resgate de valores, o mágico, o fantástico, os lugares e as figuras lendárias de sua terra, o respeito pelos velhos – arquivos vivos da história de seu povo.

É em virtude do seu contacto com o mundo urbano onde exerceu cargos como: membro do Comité Central do MPLA, Comissário Provincial de Luanda, Ministro da Saúde, embaixador, dentre outros, pôde retractar o mundo burguês colonial de Angola, explorando suas contradições.

Salvato Trigo, no prefácio de Os discursos do Mestre Tamoda, diz, a respeito de Uanhenga Xitu, que ele é

“o escritor da Literatura Angolana que tem uma forma de expressão linguístico-literário que mais próxima estará da língua literária de Angola que há-de ser o resultado da ataraxia, que é preciso perseguir e conseguir, entre a oratura, ou a oralitura, se pretender, e a literatura. [...] sendo um escritor com uma visão simultaneamente rural e urbana, não admira que tenha uma natural propensão para juntar nos seus textos essa dupla componente da sua formação cultural, que o mesmo é dizer provocar o encontro da oratura com a literatura ou do oral com o escrito.” 8

(*) Uanhenga Xitu é o nome Kimbundo de Agostinho André Mendes de Carvalho, que nasceu a 29 de Agosto de 1924 na Sanzala de Calomboloca (Icolo e Bengo). Em 1959 foi preso pela polícia política do governo português, permanecendo, de 1962 a 1970, no campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde). Foi no cativeiro que começou a escrever os seus contos, dentre eles “Kahitu”. Em 1974 publica “O meu discurso”, “Mestre Tamoda”, “Bola com Feitiço”, “Manana” (2. Edição em 1976 publica “Vozes na Sanzala” (Kahitu): em 1977 “Mestre Tamoda e outros contos”, “Maka na Sanzala”; em 1980 publica “Os sobreviventes da máquina colonial...depõem”.

NOTAS

XITU, Uanhenga –“Palestra proferida pelo autor, em 25 de Agosto De 1983, aos estudantes de Literatura Africana [...] da Universidade De São Paulo, in Os discursos do ‘Mestre’ Tamoda, edição realizada para o INALD, Editora Ulisseia, Lisboa, p g 171 .idem 1 XITU, Uanhenga – Os discursos do ‘Mestre’ Tamoda, edição realizada para o INALD, Editora Ulisseia, Lisboa, Cap. V,pg.51 idem, cap. V, pg. 53/4 idem, cap. VI, pg. 66 e subsequentes idem, cap. VI, pg. 77/8 idem, cap. VI, pg. 111 idem, prefácio de SALVATO TTRIGO, pg. 13

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