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Literatura, Território E Questões Sobre Hibridismo

Escrito por  Elisalva Madruga Dantas
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Jogo de apropriação estética das palavras, a literatura, como bem o observa Maria Aparecida Baccega, constrói, destrói e reconstrói realidades, apropriando-se da palavra que pulsa na materialidade do intercâmbio da vida social (1993, p. 136) .

Impulsionadas pelo desejo de criar uma nova realidade em contraposição àquela imposta pela política colonizadora, as literaturas africanas de língua portuguesa, no seu início, surgem marcadas pelo signo da utopia, da contra-cultura. Signos, diga-se de passagem, que ainda hoje, apesar da independência conquistada, persistem, em decorrência dos conflitos de natureza diversa ainda não resolvidos, conforme se pode observar nas obras de Pepetela (A Montanha da Água Lilás, 2000), de Ruy Duarte de Carvalho (Observação Directa, 2000), Manuel Rui (Da Palma da Mão, 1998), Mia Couto (O Último Vôo do Flamingo,2000), para ficarmos apenas com esses nomes.

É esse viés contra-cultural e utópico que aproxima essas literaturas, com destaque para a angolana e a caboverdeana, da literatura brasileira, sobretudo dos poetas e escritores que, nos anos 20 e 30 do século XX, contribuíram para a consolidação de uma identidade cultural brasileira, ao reagirem de modo sistemático aos paradigmas sócio/culturais vigentes, calcados no quadro de referências herdadas da cultura colonizadora. Afinal, muito mais que nós brasileiros, os africanos sofreram na pele o processo de desterritorialização, vendo-se abruptamente inseridos num outro universo, no qual sua língua, suas matrizes míticas, seus costumes foram rechaçados e substituídos impositivamente pelos da cultura do povo dominador. Trazê-los de novo à cena colocava-se como condição sine qua non para o processo de reterritorialização. Urgia, como propôs, entre nós, Oswald de Andrade, transformar o tabu em totem.(1978, p.15) Ressacralizar o que fora dessacralizado. Transformar, portanto, o valor oposto em valor favorável.(1978, p.77) Urgia, pois, restabelecer o espaço africano, preencher os vazios provocados pela desterritorialização, voltando-se para o local, para o cotidiano, na busca da reconstrução da sua singularidade, daquele traço “uno” que, sobrepondo-se às divergências locais internas, assinalaria, no concerto das nações, a sua diversidade. Como bem o afirma Renato Ortiz, “a identidade dos povos se apresenta, assim, como diferença contraposta ao que lhe é exterior. Ela é modal, a expressão da história de cada país”. ( 2000, p.59)

A busca da reconstrução da singularidade, no entanto, implica não só um olhar introspectivo para a realidade interna como meio de melhor compreender e definir sua própria centralidade, mas também um diálogo com a realidade externa para uma maior compreensão e afirmação de sua diversidade.

Se, através do olhar introspectivo, mergulharam os africanos nas suas raízes, para delas extraírem a seiva vital para o resgate da sua historicidade, ou seja, da sua tradição, dos seus costumes, sufocados, negados pela política colonizadora; o diálogo com a realidade externa, através do qual se reflete o processo de transversalidade cultural, marcado por um movimento antitético de rejeição/aceitação, negação/afirmação, subversão/absorção, rompimento/ligação, ao mesmo tempo em que revela o embate travado com a cultura portuguesa, evidencia e explicita o entrelaçamento da cultura africana com a brasileira, principalmente no que diz respeito às manifestações literárias.

Como os nossos modernistas e, dentre esses, aqueles ligados ao Pau-brasil e à Antropofagia, os africanos são impulsionados pelo desejo de construção de uma identidade nacional, conforme exemplificam , de modo incontestável, esses versos do angolano Maurício Gomes, extraídos do poema Exortação , cujo título é bem sintomático do sentimento de angolanidade que move o poeta:

“Ribeiro Couto e Manuel Bandeira,

poetas do Brasil,

do Brasil, nosso irmão,

disseram:

“- É preciso criar a poesia brasileira,

de versos quentes, fortes, como o Brasil,

sem macaquear a literatura lusíada.

Angola grita pela minha voz,

Pedindo a seus filhos nova poesia!

Desse modo, a exemplo dos brasileiros, partem os africanos para a realização de um inventário da vida africana, através da documentação dos seus costumes, do registro da paisagem, da caracterização da psicologia e da índole do povo africano, liberto da perspectiva folclorista exótica que direcionara o olhar colonial. Sentimento reiterado também pela recorrência dentro do poema de refrões assinaladores da necessidade sentida de imprimir à poesia uma marca literária genuinamente angolana:

"É preciso inventar a poesia de Angola

...........................................................

É preciso escrever a poesia de Angola!

...............................................................

É preciso criar a poesia de Angola!

..............................................................

É preciso forjar a poesia de Angola!"

Atitude, portanto, bastante semelhante à de Oswald de Andrade no seu "Manifesto Pau-Brasil", quando clama, quando exorta para a construção de uma literatura essencialmente brasileira, uma poesia pau-brasil de exportação, liberta dos “cipós maliciosos da sabedoria” (1978, p.6), em oposição à poesia de importação espelhada em valores de fora .

Terra e povo, como não poderia deixar de ser, passam a constituir as vigas mestras que darão sustentação à fundação poética dessa identidade. Conscientes de que a afirmação do ser africano passava, antes de tudo, pela afirmação do ser negro e pela reterritorialização do território africano, em termos físico e cultural, os poetas da África de língua portuguesa, a exemplo dos da América, das Antilhas e das ex-colônias francesas, sentiram também a necessidade de proclamar a sua negritude:

“Oh!

meus belos e curtos cabelos crespos

e meus olhos negros como insurrectas

grandes luas de pasmo na noite mais bela

das mais belas noites inesquecíveis das terras do Zambeze.

..............................................................................................

Oh! E meu peito da tonalidade mais bela do breu

e no imbondeiro da nossa inaudita esperança gravado

o totem mais invencível totem do Mundo

e minha voz estentórea de homem do Tanganhica

do Congo, Angola, Moçambique e Senegal.”

e de redemarcar o espaço africano. “Ao espaço – como bem o afirma Pires Laranjeira – associa-se um sentido de desejo de posse como contraponto da despossessão” ( 1995, p. 382) Daí , porque, a nomeação de país, cidades, bairros, ruas, florestas, rios, desertos e outras localidades mais, no corpo das literaturas africanas, ainda de acordo com Pires Laranjeira, pode ser vista como ‘signo visível do anti-colonialismo”( 1995, p.373).

Signos que nos remetem ora para um passado histórico, alterado pela ação do colonizador, como no caso dos vários poemas existentes sobre ruas, Rua da Maianga de Mário António, Lacônico da Rua da Maianga, de David Mestre.

“Passei na rua

da Maianga

a ver se

a via:

havia não”

Ora para um futuro, utopicamente projetado. Para um espaço que no presente ainda não é, mas que virá a ser. Reflexo, portanto, de uma consciência antecipadora, confirmadora da observação de Ernst Bloch de que “a mania de ‘querer o melhor’ continua presente no homem como motivo de despertar e de futuro, mesmo quando as circunstâncias históricas o impedem e o oprimem” ( MÜNSTER, 1997, p. 21).

“À bela pátria angolana

nossa terra, nossa mãe

havemos de voltar

Havemos de voltar

À Angola libertada

Angola independente”.

Poema, cujo título, ao mesmo tempo em que remete utopicamente para o que Bloch chama de “aurora”, ou seja, “um futuro que aclara as trevas e os tormentos de uma existência ainda não preenchida”, presentifica uma certeza ( MÜNSTER, Op. Cit. p.28).

Em termos expressivos, na linha do “Como falamos. Como somos”(1978, p.6), defendida por Oswald de Andrade, os africanos procedem à incorporação da fala popular, da oralidade típica do falar espontâneo do povo, buscando resgatar a língua rejeitada pelos dominadores, o que no dizer de Maria Aparecida Baccega, comentando esse procedimento no âmbito da literatura angolana, “representa, sem dúvida, o resgate da dignidade; /.../ antecipa, na escrita, o caminho da construção do que já se chegou a chamar de ‘pretuguês” (Op. Cit. p. 140).

O primeiro passo a ser dado foi, pois, romper com o lusitanismo lingüístico, subverter a sintaxe e o léxico na busca da reestruturação de uma expressividade africana, no caminho do que, entre nós, propôs Oswald de Andrade quanto à absorção da “língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica”. Da “contribuição milionária de todos os erros” (1978, p.6), através de um processo de miscigenação cultural, decorrente da junção do português, língua imposta pelo colonizador, com as línguas nativas. Junção em que, os africanos subvertem o processo do hibridismo cultural, transformando-o de valor oposto em valor favorável, substituindo, assim, o canibalismo da cultura européia, canibalismo visto, conforme observa Eduardo Subirats, como “gênero negativo de hibridação” pela antropofagia, “ritual artístico da criação a partir da memória e da regeneração das comunidades históricas através dela” ( 2001, p. 116).

Desse modo, ao invés de um meio de destruição, de degradação, através do qual o processo de miscigenação abafa, recalca a cultura do outro, transforma-se numa forma antropofagicamente positiva de absorção da cultura alheia em benefício do resgate e da preservação da própria cultura. A hibridez lingüística, ou seja, a junção do português com as línguas nativas deixa de ser uma imposição da política colonial e se constitui numa estratégia política calibanesca, conscientemente adotada pelos africanos que dela farão uso para melhor reivindicar a sua autenticidade cultural.Em outras palavras, dela se valerão como forma de “resistência política ou antropofágica aos poderes da negação, aos discursos da identidade (no caso de África, os discursos de viés luso-tropicalista), e às sua exclusões teológicas, lingüísticas e políticas globais” ( SUBIRATS, 2001, p. 107).

Para o angolano Costa Andrade, “o uso do português no processo de revitalização cultural e integração das /.../ línguas nacionais não constitui /.../ a introdução de um elemento de justaposição cultural. Com a alteração das reações políticas e sociais também se alteraram radicalmente as relações culturais e interlínguas em Angola. A justaposição violenta deu lugar a esse carácter da supra-individualização /.../ e das relações em termos iguais” ( ANDRADE, 1980, p. 131).

Para além do aspecto lingüístico, a subversão da forma de expressão se dá também na ruptura com os padrões estéticos calcados nos modelos europeus. Entre os africanos percebe-se a mesma necessidade sentida por Oswald de Andrade de “ver com os olhos livres”, de não seguir “nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo” (1978, p.9). De estabelecer “uma nova perspectiva”. “Uma nova escala”(1978, p. 8). Portanto, a necessidade de abandonar como diz o angolano Maurício Gomes no seu já citado poema Exortação, os “moldes arcaicos”, por de lado “as suaves endeixas” em favor de uma “poesia inconformista”, “diferente”, “revolucionária como arte literária”, “desprezando regras estabelecidas, idéias feitas, pieguices, transcendências...” Em termos conteudísticos, as afinidades afro-brasileiras são motivadas pela necessidade sentida de, na linha do antropofagismo, tão bem observado por Subirats, “estabelecer um diálogo aberto entre a memória do passado e os projetos do futuro”( Op. Cit., p. 98). Daí a importância, por exemplo, da temática da INFÂNCIA, tão explorada por brasileiros e africanos, como maneira de recuperar, por meio da memória, fatos, tipos e coisas que, embora fizessem parte de uma vivência individual, tinham a ver com o todo coletivo, revestindo-se desse modo, de uma significação histórica. A título de ilustração citem-se entre os brasileiros, os poetas Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, os escritores José Lins do Rego e entre os africanos, o angolano Luandino Vieira, os poetas Antonio Jacinto, Aires de Almeida Santos entre tantos outros. O diálogo, porém, estabelecido entre a memória do passado e os projetos do futuro, levam também, como dizia Raul Bopp a respeito do movimento antropofágico brasileiro, à “descida às fontes genuínas”(1977, p. 41), buscando, na tradição ancestral, os mitos, as crenças, as superstições importantes para os alicerces da construção identitária, conforme ocorre, dentro da literatura brasileira, nas obras Macunaíma de Mário de Andrade, Cobra Norato, de Raul Bopp, e dentro da literatura angolana, nas obras de Pepetela e de Ruy de Carvalho. Como “no fundo de cada utopia não há somente um sonho, há também o protesto” (1978, p. 194), conforme bem o afirma Oswald de Andrade, um outro traço de afinidade literária afro-brasileira está na identificação dos poetas/prosadores africanos com os nossos poetas/prosadores da década de 30 e mesmo posteriores, empenhados na denúncia dos males da sociedade. Jorge Amado com seu Capitães da Areia, Graciliano Ramos com sua Vidas Secas, Carlos Drummond de Andrade e seu Sentimento do Mundo, João Cabral de Melo Neto com Morte e Vida Severina são por eles lidos e antropofagicamente absorvidos. Mas se essas afinidades foram e ainda são ressaltadas e aclamadas tanto pelos próprios escritores africanos como pelos estudiosos de suas literaturas, um aspecto dela merece, a nosso ver, ser observado, tendo em vista o redimensionamento dessas relações. Trata-se do enfoque unilateral dessas afinidades, ou seja, a observância apenas da ressonância brasileira em África, sem se atentar para as ressonâncias africanas na nossa cultura. Dado que precisa ser mais estudado e analisado para melhor compreensão da nossa brasilidade, conforme regista com acerto o angolano Arlindo Barbeitos ao se referir à relação existente entre o Brasil e a África. Diz ele: “Durante muito tempo sentimos uma certa fascinação pelo Brasil, e ainda sentimos... Porque a gente tem consciência de como a nossa gente influiu no Brasil./.../ o nosso modo de ser se desenvolveu em África e, por conseguinte, nem sequer em relação a eles nós devemos assumir uma posição de inferioridade – devemos, sim, assumir uma posição de parentesco, que ele existe, é indiscutível... esse parentesco significa responsabilidade... E inclusivamente no sentido – com toda a prudência – de mudança no próprio Brasil, de maior respeito por aquilo que é africano...” E ressalta ainda Arlindo Barbeitos : “ O brasileiro que conhece a história de África conhece um pouco a sua história/.../ porque ela é uma parte do passado, também do seu país”. ( LABAN, pp. 545-617)

Daí, pois, a necessidade de nos empenharmos em favor da criação de novos espaços e da ampliação dos já existentes, em nossas universidades, para o estudo e divulgação dessas transversalidades culturais, dentro de uma perspectiva transnacional, liberta de qualquer viés hierárquico de valorização. Viés que só viria obscurecer o aspecto ativo, criador das convergências existentes. Afinal, como assinala com pertinência Leyla Perrone-Moisés, “sobre determinado chão cultural /.../ podem ocorrer confluências, coincidências de temas e de soluções formais que nada têm a ver com influências, mas com a existência de certas condições literárias em determinado momento histórico. Verificada essa possibilidade, a questão de ‘quem disse primeiro’ torna-se inessencial”( 1990. P. 95).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Fernando Costa. "Línguas nacionais e identidade nacional. In: Literatura Angolana (Opiniões). Lisboa: Edições 70, 1980. ANDRADE, Oswald. “A crise da filosofia messiânica”. IN: Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. ANDRADE, Oswald. “Manifesto Antropófago”. IN: Idem. Ibidem. ANDRADE, Oswald. “Manifesto Pau-Brasil”. IN: Idem. Ibidem. ANDRADE, Oswald. “A marcha das utopias”. IN: Idem. Ibidem. BACCEGA, Maria Aparecida. "História e arte. Reflexões sobre a literatura angolana". Revista USP, Dossiê Brasil / África, n. 18, 1993. BOPP, Raul. Vida e Morte da Antropofagia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1977. CRAVEIRINHA, José. Xigubo. Maputo: AEMO, 1995, pp. 29-31. FERREIRA, Manuel. No Reino de Caliban - Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa. V.2, Lisboa : Seara Nova, 1976, pp. 85-89. LABAN, Michel. Angola. Encontro com Escritores. V. 2, Porto: Fundação Eng. António de Almeida, s/d. LARANJEIRA, Pires J. Luís. A Negritude Africana de Língua Portuguesa. Porto: Afrontamento, 1995. MÚNSTER, Arno. "O filósofo Ernst Bloch como arquiteto de uma ontologia do "ser-ainda-não". In Utopia, Messianismo e Apocalipse nas Primeiras Obras de Ernst Bloch. São Paulo: UNESP, 1997. NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. Luanda, UEA, 1985, pp. 130-1. ORTIZ, Renato. Um Outro Território. Ensaios sobre Mundialização. 2 ed. São Paulo: Olho d'Água,2000. PERRONE-MOISÉS, Leyla. "Literatura comparada, intertexto e antropofagia". In: Flores na Escrivaninha. Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. SUBIRATS, Eduardo. "Antropofagia contra a globalização". In A Penúltima Visão do Paraíso. Ensaios sobre Memória e Globalização. São Paulo: Studio Nobel, 2001. "Surrealistas, canibais e os outros bárbaros". In: Idem. Ibidem.

1 Poema publicado na antologia No Reino de Calibã, organizada por Manuel Ferreira. 2 Versos extraídos do poema "Manifesto", de José Craveirinha 3 Extraído de Subscrito a Extraído de Subscrito a giz. 60 poemas escolhidos giz.

4 Versos extraídos do poema "Havemos de voltar", de Agostinho Neto.

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