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"É Preciso Não Aceitar"

Escrito por  João Melo
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Esta nova edição, em boa hora ampliada e revista pelo autor, de Poemas de Circunstância, do grande poeta e cidadão angolano António Cardoso, já foi comentada, em termos propriamente literários, no prefácio escrito pelo meu amigo Manuel Dionísio, jornalista e também poeta de indubitáveis recursos.

Esta nova edição, em boa hora ampliada e revista pelo autor, de Poemas de Circunstância, do grande poeta e cidadão angolano António Cardoso, já foi comentada, em termos propriamente literários, no prefácio escrito pelo meu amigo Manuel Dionísio, jornalista e também poeta de indubitáveis recursos. O que eu vou, agora, é apenas tentar justificar - como se isso fosse necessário - a edição, em 2003, de um livro de poemas escritos entre 1949 e 1960, logo, claramente datados. Procurarei fazê-lo não só do ponto de vista dos receptores, mas também dos próprios textos, enquanto visões e testemunhos poéticos de uma época decisiva para a história do nosso país, por razões que não preciso de relembrar, mas também do mundo.

O exercício que pretendo fazer assenta em três motivações concretas. A primeira é antecipar-me desde já àquele tipo de críticos da literatura angolana, em especial exógenos, que costumam apreciá-la à luz dos seus preconceitos e/ou rancores político-ideológicos e que, por isso dizem abominar toda a poesia dita “engajada”. A segunda é fazer justiça a um autor e a um cidadão angolano, talvez um dos “últimos moicanos” ainda existente entre nós, certamente para espanto ressentido de todos os cristãos-novos, de súbito convertidos à “democracia do bastão” inventada pelo senhor Bush ou pelo menos aos seus dólares e às suas “ajudas”. Enfim, a terceira é alertar, principalmente, os jovens, para que estudem melhor a nossa história, inclusive a literária, a fim de não se deixarem seduzir pelo canto demagogo daqueles que procuram convencê-los de que o sucesso pode ser alcançado sem estudo e sem sacrifício.

Porquê que é importante - eu diria, mesmo, estimulante - ler estes 214 poemas escritos por António Cardoso há mais de trinta anos atrás? Os onze anos em que estes poemas foram escritos - de 1949 a 1960 - coincidiram, é bom notá-lo, antes de tentar responder à pergunta que acabo de fazer, pela expansão mundial do imperialismo americano, uma vez que os Estados Unidos foram, como se sabe, o principal vencedor da Segunda Guerra Mundial, mas também (ou talvez por isso mesmo) pela rápida derrocada dos sistemas coloniais tradicionais, construídos pelas potências europeias. Do ponto de vista interno, esse período correspondeu à formação, em base unitárias e modernas, de um inédito e promissor projecto nacionalista em Angola, organizado à volta do MPLA.

A oportunidade e as virtualidades do mais recente livro de António Cardoso podem, desde logo, ser realçadas em termos de conjuntura nacional. Em termos globais, essa conjuntura é caracterizada pelo facto de Angola, esgotada a tentativa de implantação do socialismo - o qual, pese embora o modelo burocrático, autoritário e monolítico em que se baseava, tinha em perspectiva a construção de uma sociedade moderna -, viver presentemente uma fase de transição extremamente complexa, em que o chamado “capitalismo selvagem” convive com uma série de fenómenos potencialmente desagregadores e que podem atrasar ou mesmo fazer retroceder o processo de modernização do país.

A questão é que a estratégia - exclusivista e, do ponto de vista cultural, positivista ao máximo - utilizada pelas forças que conduziam esse processo de modernização fracassou, pelo que as mesmas, embora tenham vencido as sucessivas guerras que foram obrigadas a enfrentar, conseguindo, assim, manter-se no poder, foram obrigadas a uma série de cedências a outras forças, cujo projecto contém um grande número de ingredientes centrífugos, os quais começaram a vir à tona com o clima de liberdade política formal vivida no país desde o início dos anos 90. Entre esses ingredientes, que, aqui ou ali, têm sido usados como novas bandeiras políticas, é de citar o regionalismo, o separatismo, o racismo e outros.

O nó górdio de toda essa problemática - e de cuja resolução depende o estabelecimento de uma agenda nacional aberta e dinâmica ou fechada e regressiva - é o seguinte: as diferenças de todo o tipo existentes entre os angolanos devem ser tratadas como mais-valia ou como factores impeditivos do seu desenvolvimento como nação e como povo? A diferença mais visível é, obviamente, a de natureza epidérmica (as raças não existem, meus senhores!), pelo que também é a de mais fácil e imediata instrumentalização. Mas que ninguém se iluda: se a sociedade permitir que esse tema, em vez de discutido científica e serenamente, dentro de um espírito de unidade, seja transformado numa bandeira demagógica e populista, com propósitos excludentes, logo outra diferença qualquer passará a ser utilizada com a mesma intencionalidade.

A cultura, em especial a literatura, mas não só (recentemente, também o Carnaval...), é um dos terrenos em que esse tipo de diferença tem sido demasiado utilizado de maneira profundamente equivocada e mesmo perigosa, para ser suave. A propósito, é bom notar que, neste momento, analisar, por exemplo, a composição do poder político desse ponto de vista, digamos assim, “cromático”, seria mais ou menos bizarro e inútil; por outro lado, mesmo do ponto de vista económico, a chamada “lista dos milionários” publicada recentemente pelo Angolense, correcta ou exagerada, serviu pelo menos para provar que a riqueza, em Angola, não é uma questão de cor da pele.

Para não sobressaltar demasiado os presentes, vou dar apenas dois exemplos da abordagem lamentavelmente equivocada do tema racial no terreno da literatura. Livros cujas personagens centrais não sejam negras são considerados por alguns como não-angolanos e até mesmo como “literatura colonial”. Recentemente, o único jornal diário do país - que, lembre-se, é público - divulgou, em duas edições sucessivas, duas páginas inteiras de um colunista afirmando que os jovens escritores não precisam de dominar a língua em que se expressam - por acaso, o português -, pois essa língua “é do colono”, e atacando violentamente aqueles que criticam os livros mal escritos. O próximo passo, possivelmente, será excluir da categoria de cidadãos angolanos, como simples corpos estranhos, os autores desses livros ou dessas críticas.

Talvez por estarem distraídos com o espectáculo televisivo da guerra do Iraque ou, então, por estarem a tratar da vida, poucos dão a importância devida a estas manifestações, que estão longe de serem meras conversas de café. Desde logo, o próprio poder político, contrariando a mais legítima tradição histórica do MPLA, revela-se incapaz de dinamizar o debate ideológico, pondo-o realmente ao serviço do projecto de modernização, que é muito mais do que construir estradas e pontes que caem às primeiras chuvadas. Por seu turno, os intelectuais, fechados nas suas redomas de vidro ou paralisados pelas suas frustrações ideológicas ou pelos seus complexos de culpa, não produzem ideias novas. O risco é evidente: os destinos do país podem, subitamente, cair nas mãos de forças demagógicas e populistas ou mesmo na rua.

É preciso dizer que os demagogos e populistas, qualquer que seja o campo político-institucional ao qual estejam vinculados, querem dividir-nos a todo o custo, mesmo que para isso condenem a juventude, especialmente, a permanecer no atraso e na ignorância. Vale a pena, pois, ler estes Poemas de Circunstância, de António Cardoso, para sabermos um pouco mais de onde todos nós, angolanos, viemos, prevenindo-nos, assim, de todas as tentativas de tergiversação do presente, sejam elas fundadas em discursos restauracionistas, formulados em Muangai, ou em meras caricaturas neo-liberais, ocultando práticas vorazes e predadoras, que pouco têm a ver com a verdadeira modernização e inovação.

Por outro lado, a actual conjuntura internacional faz também deste livro uma obra pertinente e necessária, demonstrando que a importância dos livros para os seus leitores tem, digamos assim, razões que a crítica de laboratório desconhece. É verdade que é apenas um livro, cujo conteúdo são somente palavras. Mas, como escreveu recentemente o escritor brasileiro Paulo Coelho, as palavras são a única arma que possuímos e a sua força aumenta, precisamente, em momentos históricos como aquele que a humanidade vive presentemente, incrédula, impotente e temerosamente.

Na realidade, quase tudo já foi dito sobre o carácter unipolar do mundo actual, dominado por uma única potência imperial, a qual tem nome e sobrenome: Estados Unidos da América. As verdadeiras motivações da guerra unilateral desencadeada por essa potência contra o Iraque também são suficientemente conhecidas, para as repetirmos aqui. O que faltava dizer foi afirmado há dias por um dos laureados com o Oscar, em Hollywood: os senhores do mundo tentam desesperadamente convencer-nos de que as ficções que criam é que são a realidade.

Assim, o que se passa hoje no Golfo Pérsico pode ser resumido com uma dupla constatação: um presidente fictício (eleito pela minoria do povo americano) decidiu unilateralmente começar uma guerra, que inevitavelmente mudará o mundo, por razões absolutamente fictícias; uma vez começada a guerra, à revelia dos desejos da esmagadora maioria da humanidade, as grandes televisões mundiais - inclusive as de língua portuguesa - tentam impingir-nos as suas ficções, a mais hipócrita das quais é que as guerras podem ser “limpas”, como se a invasão anglo-americana da antiga Mesopotâmia fosse um mero espectáculo ou uma feira de novas tecnologias assassinas.

Confirma-se, por conseguinte, a lição dos inúmeros teóricos que não abdicam de aliar o humanismo ao saber científico, segundo a qual, e apesar do real crescimento quantitativo de informações (eu diria de pseudo-informações...) que circulam no mundo, os homens sofrem hoje de um gritante défice de comunicação, a chamada entropia comunicativa.

Na verdade, a comunicação - de que o jornalismo é uma das actividades mais vulgarizada - é um processo social que exige o cruzamento e a troca (ou comunhão) de informações produzidas, de preferência, em circunstâncias iguais, o que, notoriamente, está cada vez mais longe de suceder. É por isso que, normalmente, um profundo vazio se sucede à gritaria diária dos grandes meios de comunicação internacionais.

Diante disso, faz-nos pelo menos estar de bem com a nossa consciência re-ler estes Poemas de Circunstância, de António Cardoso, um homem que jamais se vergou diante de todas as amargas vicissitudes por que passou ao longo da sua vida. Com efeito, e embora escritos em outras circunstâncias, os 214 poemas que compõem este título ajudam, no seu conjunto, a entender esse extraordinário e - arrisco-me a dizê-lo - invencível poder da palavra ante as mais profundas e indignas situações de injustiça de que os homens são capazes.

Duas características gerais dos poemas seleccionados contribuem para reforçar essa impressão, mais de trinta anos depois da produção destes textos: em primeiro lugar, o estilo claro e directo do autor e, em segundo lugar, a ideologia que perpassa a maioria deles. Nas actuais circunstâncias, quer externas, quer internas, não é fácil, eu sei, defender o papel histórico desempenhado por essa ideologia, depois dos aviltamentos sofridos pela mesma, inclusive na sua versão local (o afro-estalinismo). Mas o que dizer, então, do cristianismo, face à experiência da Inquisição? Ou do próprio liberalismo, perante a farsa actual do neo-liberalismo?

Devido, possivelmente, a esse incómodo de tipo ideológico, alguns dos críticos a que já me referi apresssar-se-ão a apontar ao dedo ao suposto carácter “extemporâneo”deste livro, ao seu “conservadorismo formal”, etc., omitindo deliberadamente o contexto em que o mesmo foi escrito. Uma coisa, porém, é certa: a leitura deste livro, mais de três décadas depois, ajuda certamente a romper o excesso de ruídos e o clima de anomia ética que caracteriza o actual mundo de imagens e simulacros, de hermetismos vazios, de solilóquios ocos e bem-pensantes, de inconseqüentes jogos de linguagem ou exercícios de estilo e de transformação da realidade em mero e pretensamente inocente show bizz.

Diga-se, a terminar, que essa atitude não é, em absoluto, de estranhar em António Cardoso, que é, para quem o conhece, um desses homens que sempre se recusou a pactuar com tudo aquilo o que violenta a sua consciência, tendo pago muito caro por isso. Afinal, em um dos mais belos poemas deste livro, ele glosa Machado e diz: - “É preciso não aceitar”. Ao que eu tomo a liberdade de acrescentar, aqui e agora, que, efectivamente, é preciso não aceitar nem as ficções nem as tergiversações que, externa ou internamente, querem restringir e mutilar a nossa integridade e humanidade, como cidadãos de Angola e do mundo.

Nesse mesmo poema, diz ele: - “Que cada um/lance a lenha que tiver”. A lenha que eu trazia, por agora, está esgotada. Seja como for, não posso deixar de encerrar a apresentação deste autêntico legado literário que António Cardoso nos quer deixar a todos com uma pergunta, que é, ao mesmo tempo, um desafio: então, Cardosinho, e os sonetos de amor?

Maculusso, 27 de Março e 4 de Abril de 2003.

*Texto de apresentação pública do livro Poemas de Circunstância, de António Cardoso, lançado pela Editorial Nzila, em Luanda, no dia 4 de Abril de 2003.

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