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Um Inquietante Objecto Pós-Moderno

Escrito por  João Melo
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A benevolência de alguns amigos e a expectativa compreensivelmente ingénua de alguns jovens candidatos a escritores têm-me levado, nos últimos tempos, a revestir-me desta estranha pele de apresentador e crítico de livros, o que, confesso, me tem forçado, vez por outra, a delicados exercícios entre a norma social da cordialidade e o imperativo intelectual do rigor analítico.

Assim, tinha decidido para mim mesmo passar a recusar esses convites, afora alguns compromissos já anteriormente assumidos e ainda pendentes. Escritor que é escritor deve escrever livros e ponto final.

Entretanto, não hesitei um minuto sequer quando o Jacques dos Santos, na sua pele de editor da Chá de Caxinde, me disse: -“O Agualusa quer que sejas tu a apresentar o livro”. Ou seja, aceitei na hora.

Fi-lo não apenas porque qui-lo, como diria o ex-presidente brasileiro Jânio Quadros. É que, em primeiro lugar, eu sou amigo pessoal quer do editor, quer do autor; ora, como sabem, as verdadeiras amizades são mais sólidas do que as próprias paixões.

Em segundo lugar - e esta razão faz-me, hoje, não estar de modo algum arrependido, antes pelo contrário, da volúpia com que aceitei o convite para estar aqui hoje -, O Ano em que Zumbi Tomou o Rio, que eu li praticamente em 24 horas, é um romance politicamente polémico, intelectualmente provocador e formalmente inventivo e ousado, o que o transforma, desde logo, num instigante desafio para qualquer leitor.

Começando, portanto, a descascar este gostoso abacaxi (diga-se logo: meio acridoce, como todos os bons abacaxis), parece pacífico começar por afirmar que qualquer obra de arte pode ser apreciada sob diversos ângulos, mais particulares ou mais abrangentes, utilizando-se, por isso, as mais diferentes ferramentas analíticas.

Um livro, por exemplo, pode ser tecnicamente apreciado, em princípio, à luz de disciplinas específicas, como a história, a política, a ideologia, a sociologia, a psicanálise, a lingüística, a semiótica e tantas outras. Pode também ser comparado com outros livros, com base nessas disciplinas ou não.

Tendências mais recentes, em voga desde o fim dos anos 70 e início dos anos 80 - o que não é uma mera coincidência! -, esforçam-se, com o por vezes formidável aparato de legitimação intelectual de que dispõem, em especial a academia e a mídia, por defender que um livro deve ser analisado apenas e exclusivamente do ponto de vista literário. O problema é que o conceito de “literário” é de tal maneira reduzido e castrado, que se transforma, muitas vezes, numa realidade asséptica e anódina.

Acontece que, como angolano que sou, tenho alguma relutância em comer funje sem jindungo e, sobretudo, sem um bom kindungo. Por isso, e embora não seja um crítico profissional, atrevo-me a dizer que qualquer livro, para ser plenamente entendido, deve ser lido o mais abrangentemente possível, pois, a rigor, aquilo a que se dá o nome de texto, sendo um acto de criação individual e possuindo uma estrutura própria, sem o que não será literatura, não deixa de ser um objecto sócio-histórico. Para tranqüilidade geral da nação, posso afirmar que o meu atrevimento tem o beneplácito de um grande crítico literário de língua portuguesa: o mestre brasileiro Antônio Cândido.

A verdade é que a própria maneira como o livro é acolhido pelos respectivos leitores, presentes ou futuros, também pode ser - como diria, esdruxulamente, qualquer bacharel em Direito - chamado à colação da crítica literária. É por isso que uma das mais promissoras vertentes dos estudos literários é, hoje, a chamada estética da recepção.

Este é, precisamente, o primeiro corte analítico a que vou submeter, a partir de agora, o novo romance de José Eduardo Agualusa. Com efeito, a pergunta que se coloca imediata e inevitavelmente ao crítico, face ao tratamento dado pelo autor a certos acontecimentos da recente história política angolana, é a seguinte: como é que este livro será recebido pelos leitores angolanos, em Angola?

O Ano em que Zumbi Tomou o Rio é - antecipe-se já - uma espécie de dois-livros-em-um. Com efeito, a partir de certos rumores surgidos sobretudo na imprensa brasileira, mas também angolana, segundo os quais haveria angolanos que venderiam armas aos traficantes de droga que controlam os morros do Rio de Janeiro, Agualusa escreveu uma estória que se desdobra, frenética e, por vezes, alucinantemente, entre Angola e o Brasil.

Embora o seu objectivo confesso tenha sido resgatar a estória de Zumbi dos Palmares - ele próprio um herói brasileiro descendente de angolanos -, a verdade é que o autor não resistiu, mais uma vez, a passar para o papel, como se ficção fora, algumas das suas obsessões políticas, posicionando-se abertamente contra o actual regime angolano. O que ele faz, no fundo, é uma espécie de epitáfio desse regime, que não terá estado à altura das suas promessas históricas. Episódios como o 27 de Maio ou a chamada batalha de Luanda, em Outubro de 1992, são abordados no livro exclusivamente a partir da óptica - vamos dizê-lo, sem pretender ofender ninguém - dos perdedores.

Tenho de fazer aqui um parêntese, para afirmar que tenho perfeita noção de que a aceitação de um convite para a apresentação pública de um livro contém aspectos, digamos assim, protocolares, que deverão ser escrupulosamente respeitados. Além disso, já disse que me unem laços de amizade ao autor de O Ano em que Zumbi Tomou o Rio. Mas, e como diz, afinal, uma das personagens do livro, não deve haver lugar, nas verdadeiras amizades, para qualquer tipo de mentiras, nem sequer para as ditas mentiras piedosas.

Esta explicação prévia serve apenas para justificar o que vou dizer imediatamente. A opinião geral do autor - ou de qualquer outro cidadão - sobre a situação política do país é perfeitamente legítima e não deve, obviamente, ser objecto de qualquer tipo de questionamento. Mas o modo como um escritor transporta para a ficção acontecimentos históricos já pode ser, naturalmente, alvo de discussão. Nesse sentido, O Ano em que Zumbi Tomou o Rio vai certamente causar algum mal-estar entre muitos leitores angolanos, como, aliás, já havia notado a professora Inocência Mata, em relação a um livro anterior de José Eduardo Agualusa.

Por exemplo, o 27 de Maio. Este assunto terá um dia, possivelmente, de ser discutido de forma global e desapaixonada entre nós, angolanos. Mas, desde logo, manda pelo menos o rigor histórico que seja necessário destrinçar os condenáveis excessos repressivos do governo daquilo que aconteceu antes e até depois.

É que, por um lado, os tanques revoltosos não saíram à rua, seguramente, para participar em algum desfile carnavalesco, mas para derrubar o governo. Por outro lado, o facto - paradoxal embora, mas indesmentível - é que a influência política e ideológica do movimento revoltoso - fortemente baseada no estalinismo - sobreviveu ao seu próprio fracasso militar, de tal maneira que, após o 27 de Maio, o regime virou ainda mais à esquerda e estalinizou-se de vez.

Quanto à batalha de Luanda, a mesma não pode, de modo algum, ser dissociada pelo menos de dois outros factos: o primeiro é que, espalhados pelos comités pilotos da Unita, havia na capital do país milhares de homens das tropas de elite de Jonas Savimbi, fortemente armados; o segundo é, desde um mês antes, logo após as eleições de 1992, a Unita vinha ocupando sistematicamente diversos municípios e comunas no interior do país, no âmbito da sua estratégia para asfixiar Luanda.

Reconheça-se que o tratamento do material histórico pela ficção é altamente problemático e delicado, em especial quando se trata de acontecimentos recentes, cujos participantes e testemunhas, de um modo geral, estão vivos. Mas, quanto a mim, essa é mais uma razão, justamente, para que o escritor procure abordar os acontecimentos históricos da maneira o mais abrangente possível, mostrando-os em todos os seus ângulos e revelando, inclusive, as suas contradições e paradoxos. Um cuidado particular deveria ser, sempre na minha opinião estritamente pessoal, evitar fontes selectivas.

Não posso deixar de dizer, portanto, que, na minha opinião, essas falhas, digamos assim, metodológicas, na abordagem de algum do material histórico que usou, constituem o único pecadilho (o diminutivo, aqui, não é mera figura de estilo) deste magnífico romance de José Eduardo Agualusa. Certas analogias e alusões políticas são mesmo demasiado óbvias e, por vezes, de gosto duvidoso, o que empobrece o texto.

Considerando-o apenas com o um objecto estético, direi que O Ano em que Zumbi Tomou o Rio é um romance tipicamente pós-moderno. Todas as possibilidades abertas pelas profundas transformações ocorridas no nosso planeta, sobretudo desde a segunda metade dos anos 70, mas também as suas misérias, estão presentes neste livro.

Como se sabe, essas transformações assentam numa nova revolução tecnológica, gerada e conduzida pelo casamento entre as tecnologias de comunicação e a micro-informática, cujas conseqüências óbvias foram o enfraquecimento do conceito de fronteira, a aceleração do tempo e a transnacionalização, em especial do capital e das ideias (dominantes), mas também, mal ou bem, dos homens. A globalização - iniciada há cinco séculos, na verdade, pela expansão marítima européia - acelerou-se e acentuou-se, graças às suas novas ferramentas (desregulamentação, privatização, regionalização, etc.).

Paradoxalmente, entretanto, essa nova revolução não solucionou as desigualdades antigas e trouxe, inclusive, novas desigualdades. As grandes ideologias do passado, as chamadas meta-explicações (socialismo, liberalismo, nacionalismo, etc.), incapazes de abarcar essas mutações, entraram em crise ou foram transformadas em meros simulacros, como o afro-estalinismo, o neo-liberalismo ou o terrorismo.

Isso teve duas conseqüências básicas no plano social, incluindo o político, o moral e o cultural. A conseqüência positiva é que surgiram novos actores e novas formas de luta (mulheres, índios, ambientalistas, favelados, gays e todos os tipos de marginalizados), ao mesmo tempo que aumentou o fluxo de informações, abrindo possibilidades concretas de um maior conhecimento mútuo, à escala planetária, assim como novas oportunidades de diálogo. A negativa é o individualismo exacerbado, o cinismo, o niilismo, o endeusamento do mercado, a primazia da imagem e dos simulacros, a anomia ética, a mera estetização do social.

Em O Ano em que Zumbi Tomou o Rio encontramos tudo isso ou quase. A própria dualidade da estória (como já disse, não se trata de uma estória ambientada em diversos cenários, mas de duas estórias que se tocam, aqui ou ali, porque algumas das suas personagens são comuns) é um sinal da transnacionalização dos tempos que correm. Esse carácter do livro confunde-se, por vezes, com referências, descrições ou episódios de elegante sabor cosmopolita.

Outra hipótese é que o autor tenha decidido escrever um livro passado no Brasil e Angola, mas também em Portugal e também em outros cenários, motivado por mais duas razões: a primeira é a sua própria vivência pessoal (afinal, e como ele mesmo já disse, José Eduardo Agualusa é uma espécie de cidadão transnacional com um endereço virtual, ou seja, um simples e-mail); a segunda terão sido - como bom caluanda, não resisto a uma leve provocação... - ditames de mercado.

Possivelmente foi pensando nesta última hipótese que o jornalista brasileiro Mário Osava (ou Mário Japa, para os seus inúmeros amigos angolanos) escreveu que “Agualusa tem sido notado pela sua capacidade de transmitir a sua condição de cidadão da comunidade de países de língua portuguesa, beneficiado pelas suas estadas em Lisboa, Luanda e Rio de Janeiro”.

O que se pode acrescentar é que o autor de O Ano em que Zumbi Tomou o Rio é conhecido, igualmente, pela eficiência e eficácia com que cuida do seu marketing pessoal. Isso - note-se - é um elogio, de profissional de comunicação para profissional de comunicação.

O único risco é, por vezes, abordar superficialmente determinados temas, por causa da pressa em corresponder aos apelos, inclusive político-ideológicos, do mercado. Seja como for, escrever pensando igualmente no mercado não é, em si mesmo, um crime. Como se sabe, a arte nasceu como uma actividade utilitária e só muitos séculos depois ganhou a aura romântica que, entretanto, a pós-modernidade se tem encarregado, nos últimos tempos, de desvelar. Quanto à pressa, é também, e como diria um filósofo italiano, um sinal caracteristicamente pós-moderno.

Mas, independentemente de todas as especulações ou amigáveis provocações, o que seduz no novo romance de José Eduardo Agualusa é, desde logo, a prodigiosa imaginação do autor e a sua extraordinária capacidade de lhe dar forma, isto é, de corporizá-la. A memória e a capacidade de registo (oral ou escrito), treinados por anos de exercício jornalístico, parecem, por outro lado, um fundamento essencial da capacidade de efabulação do autor. Enfim, não posso deixar de mencionar a limpidez e a fluência do texto, discretamente adornado, aqui ou ali, com certos laivos poéticos, a lembrar-nos que, além de ficcionista, José Eduardo Agualusa é igualmente poeta.

Mas onde a pós-modernidade de O Ano em que Zumbi Tomou o Rio se mostra em toda a sua plenitude e exuberância é na forma: na estrutura e na linguagem.

Escrito como se fosse uma grande reportagem jornalística, com capítulos titulados e as respectivas cenas, datadas, como se se tratasse do diário de um repórter, o novo romance de José Eduardo Agualusa não obedece a uma estrutura linear, nem espacial, nem temporalmente. As diversas partes que compõem o livro, embora possam, em alguns casos, ser lidas integralmente por si, apenas podem ser plenamente entendidas quando encaixadas umas nas outras, isto é, holisticamente.

O romance avança, pois, como uma espécie de puzzle em construção. O estilo é ágil, nervoso, às vezes frenético. As cenas mudam de Luanda para o Rio de Janeiro e vice-versa de maneira inesperada e alucinada. As diversas secções do livro jamais são demasiado longas. As frases são curtas, directas e incisivas, como ensina o bom jornalismo. É como se fosse um documentário.

Neste sentido, O Ano em que Zumbi Tomou o Rio foi feito ou, no mínimo, está perfeitamente apto a enfrentar a concorrência da linguagem simplificada (o que não quer dizer simplista), fragmentada e veloz da televisão, em especial dos videoclips, da coreografia de Michael Jackson, do rap e do kuduro, assente na estrutura binária da linguagem digital, essa gelatinosa realidade tecnológica do nosso tempo. Parece também bastante apropriado para a habitual falta de tempo dos leitores actuais.

Outro recurso pós-moderno: as referências e as citações. O livro de Agualusa explora esse recurso quase até à exaustão, em especial quando se trata de poesia. Vários são os autores, angolanos, brasileiros e portugueses, cujos poemas desfilam pelo romance. Um sensível preito à poesia, destacando-se, particularmente, a homenagem ao poeta-boémio angolano Ernesto Lara Filho, transformado numa das personagens do livro.

Rumores jornalísticos. Obsessões políticas. Vivências. Inquietações culturais. Paixões intelectuais e estéticas. Fidelidades pessoais. Referências. Citações. Em suma, com todos estes materiais, trabalhados com elegância e maestria, José Eduardo Agualusa escreveu este O Ano em que Zumbi Tomou o Rio, livro que recomendo vivamente a todos os presentes. Como estamos perto do Natal, sugiro, inclusive, que o elejam como uma das prendas a oferecer aos amigos.

Alguns sentir-se-ão incomodados, em diversos momentos da estória. Mas lembrem-se de Voltaire:-“Eu discordo das tuas ideias; mas lutarei até ao fim pelo teu direito de defendê-las”. Uma das personagens de Agualusa, neste livro, diz que a democracia plena em Angola é impossível. Mas eu estou mais com aquela outra que diz que os povos sofridos não se podem dar ao luxo de ser pessimistas. Como optimista profissional (ou cínico) que sou, acredito, portanto, que a democracia plena em Angola será, um dia, perfeitamente possível. Mas ela tem de ser construída todos os dias. Como, afinal, o estamos a fazer hoje.

Maculusso, 10 de Dezembro de 2002.

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