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O Aspecto Fragmentário Da Poesia De Bonavena

Escrito por  Elizabeth Hazin
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Dentre os numerosos estudos dedicados ultimamente à Literatura Angolana, muitos são os que lentamente têm ajudado a compor o seu quadro de fundo, na medida em que deixam entrever as perspectivas com que os contemporâneos souberam apreender os significados nela contidos.

Entretanto, a preocupação central desses estudos tem sido, via de regra, a abordagem do significado ideológico dos poemas, contos e romances desse povo. E não poderia ser de outro modo. A Literatura Angolana tem sido menos uma literatura de forma que de conteúdo. De tal maneira aos angolanos se incorporou a luta pela liberdade, que esta contamina tudo o que escrevem. Não é sem razão que os escritores reunidos um mês após a independência de Angola, ao proclamarem a sua constituição em União dos Escritores Angolanos, afirmem que a literatura escrita de seu país emergiu não apenas como uma necessidade estética, mas sobretudo como arma de combate pela afirmação do homem angolano (1).

Bonavena não surge desvinculado dessa realidade. Antes se insere numa literatura já existente, é herdeiro de uma tradição, de uma história. Todavia, acrescenta a essa herança algo que a enriquece, na medida em que se exprime de forma inovadora - em consonância com seu próprio tempo - integrando, assim, uma nova etapa da poesia de seu país.

Devido à dificuldade de encontrar dados a respeito desse poeta, terminei por não me valer subsidiariamente de pormenores biográficos para datar o texto, explicar esta ou aquela circunstância de ordem literária.

O livro que me chegou às mãos despretensiosamente, através da Embaixada de Angola em Portugal - «Ulcerado de míngua luz» -não oferece sobre o autor senão pouquíssimas informações. Trata-se de um jovem ensaísta, pesquisador da História da Literatura Angolana. Além de mais algumas poucas palavras sobre a poesia contida nessa sua primeira colectânea de poemas, nada mais esclarece a contracapa do volume editado pela União dos Escritores Angolanos, em 1987. É, portanto, unicamente centrado na utilização da linguagem pelo poeta, que se desenvolveu este trabalho.

Bonavena é para poucos: não é um poeta que percorre efeitos fáceis. Numa tentativa de apaziguar seus próprios fantasmas interiores, mergulha no “rio manso da infância’’ - conforme vem anunciado desde a página de abertura - para trazer à tona “a frustrada nostalgia do passado ao pastar o presente gosto a fel na corda da zagaia’’.

Em três momentos diversos estrutura o livro, dedicado aos intelectuais e aos camponeses de seu país: “Flor malcastrada do tempo algemado’’, “Ulcerado de míngua luz’’ e “Canção do mar e do bronze’’, todos apresentando acabamento poético singular.

O primeiro desses momentos - flor malcastrada do tempo algemado’’ - chama-nos a atenção, de imediato, por seu aspecto fragmentário: quebradas as cadeias sintácticas, as palavras brilham livres, soltas, imensas no papel.

Talvez se possa perseguir ao longo de todo o livro desse autor, como corrente constante, subjacente, essa sua preocupação com o fragmentário. Todavia, é na primeira parte do livro que se encontram os mais perfeitos exemplos dessa quase obsessão do poeta. Cito alguns:

Ventos

trazidas palavras gordas

na boca

púrpura

orgia de Kimbombo

em peito leve

mente aberto(a).(p.13) pedra

cinzel burilando preciosa

brilha

o sol espelhado dardeja

nas algemas(p.14)

No entanto, acercando-se desses fragmentos dispersos, o leitor é capaz de surpreender o processo a que foram submetidos e de atingir, sob a aparência caótica do texto, uma organização consciente. A poesia que surge aqui estilhaçada - metáfora da própria realidade do poeta - é o caminho mais seguro por ele encontrado para comunicar coerente e ordenadamente sua visão de mundo. Trata-se de palavras soltas, é verdade, mas são essas palavras os elementos que emergem formulados na obra. Lembrando Dufrenne, é graças “a esta sábia desorganização da sintaxe, que a poesia aumenta em quantidade de informação’’(2). Seus poemas são - como queria Mallarmé - feitos de palavras. De ponta a ponta, todavia, são percorridos por uma lógica interna que, somente aos poucos, vamos penetrando. Da assonância das pouquíssimas rimas à concisão dos versos, tudo é convite ao leitor que se transforma, aqui, em co-autor, pois é de sua leitura, da forma como ele dispõe as pedras do «puzzle», que emerge a significação.

Assim, ventos são palavras gordas trazidas, as palavras são trazidas na boca púrpura; ou na boca púrpura, na orgia de Kimbombo; ou a orgia de Kimbombo em peito levemente aberto; ou em peito levemente aberta; ou tudo isso junto, pois as diferentes leituras são complementares e podem ser acopladas umas às outras em função da totalidade. Ao leitor cabe a escolha, porém nunca será uma escolha arbitrária.

Observe-se o aspecto especular do segundo poema citado. Ocorre aí processo metaforizante absolutamente inesperado: a visível equivalência entre as duas metades exactas em que se divide o poema - tanto no nível formal, quanto no de seu conteúdo - se dá, paradoxalmente, a partir de um dado sintáctico. O verbo «brilhar», em sua ambivalência - proposto ao sujeito, no caso da primeira metade; a ele anteposto, no caso da segunda (numa das diversas possibilidades de leitura) - aproxima do sol a pedra. Esta é aquele.

As dez partes que compõem esse primeiro poema do livro dão conta, em sua grande maioria, de elementos e seres da natureza: ventos, pedra, nuvens, montanha, pássaro, flor, mar, rãs e em todas elas vamos surpreender o mesmo recurso de privilegiar o léxico em detrimento da sintaxe:

montanha

útero canção

cerzideira

vontade.(p.16)

Na realidade, o que acontece - à medida que lemos os versos - é a troca de significado de cada palavra com a que imediatamente lhe segue: a montanha é útero que é canção que é cerzideira vontade ( se leio «cerzideira» como um adjectivo). Essa sequência de palavras pode parecer aleatória. Mas não o é poema algum o é. Tal entrelaçamento de nomes semanticamente dissociados sugere a possibilidade de aproximação entre realidades que podem possuir, latentemente, alguma coisa em comum. É como se um fio mágico atasse seres e objectos diferentes apenas na superfície.

A poesia dessa primeira parte surge e se alimenta de coisas substantivas, palpáveis, concretas, elevadas ao nível poético pelo processo a que são submetidas pelo autor: todos os seres e elementos existentes podem ser nivelados pela linguagem despojada que os reúne. Quase se pode dizer que o verdadeiro conteúdo de seus poemas é, aqui, a multiplicidade de sentidos propiciada pela justaposição de palavras. A poesia de Bonavena é bem - como já afirmei antes - a metáfora de seu mundo: fragmentado, mas com tantas possibilidades de organização, quantos são seus múltiplos significados. Assim, a fragmentação mesma é, aqui, um elemento de sentido. Resultado mais em subtracção do que em acréscimo, transmite à poesia desse jovem autor um tom próprio, que a singulariza.

Esta poesia mantém com a oriental laços muito estreitos. Está impregnada daquela depuração formal, da comunhão com a natureza que caracterizam esta última.

As partes em que se divide esse primeiro momento do livro são, na realidade, simples anotações, composições brevíssimas, descritivas, reticentes, pejadas de concretude (embora contenham algo de inapreensivel), onde raramente há lugar para rimas. Como o «haiku» de Bashô, sua poesia não entrega tudo: mas o que aí lemos nos desperta para o que não foi escrito. Nos versos à p.20,

mar

olhar

prisão

evasão

homem adiado.

É tão rígida a depuração que resta apenas o essencial. Um essencial que suscita no leitor um mundo de sugestões e de associações.

Há em seus versos, ainda, uma indisfarçável tentativa de atribuir conceitos a cada um dos elementos da natureza com que se iniciam: pássaro

verde arbusto

picando

olhos em alfinetes(p.17) nuvens

tortulho fermento

oh! ânsias contidas

no veneno.(p.15)

Observe -se o poema de Yosa Buson,

Chuvisco: palestra

da capa de palha

e da sombrinha(7)

onde vamos encontrar a mesma economia de palavras associadas a uma intenção também definitória.

Ao longo de toda a primeira parte do livro de Bonavena, o eu encontra-se exilado, ou diluído num mundo excessivamente concreto ou fragmentado nos diversos elementos que a compõem. A segunda parte, ou segundo momento, no entanto -“Ulcerado de míngua lua’’, que faz seu aparecimento ligado ao tema da infância - é a contrapartida dessa ausência. Aqui, o «eu» irrompe já no primeiro verso

desperto

nuvens carregadas

levo a fraqueza das hastes

para brilhar, com intensidade, mais adiante: sendo apenas Eu - e não outro

entregue de pedra e alma à Terra,

sensualíssimo, a este sémen que me enche

as bilhas deste mel primeiro

entre as mãos. (p.25)

É a explosão afinal do «sujeito lírico», em um livro que se define antes pela ausência dessa manifestação que por sua presença.

O poeta agora se volta para dentro de si mesmo e, mergulhando na subjectividade, fragmenta-se: descobre-se criança e adulto. É precisamente nessa interiorizarão que ele vive ou reinventa a infância, medindo o seu palmo a palmo, para dela resgatar a imagem distante de vovó Nzenze, a memória da sombra e a transpiração matinal da goiaba. Reviver implica uma certa nostalgia, manifestada através de versos como “ cheira a fruta romã tua lembrança’’(p.30), “havia vôo de pássaros /sorrisos meninos e frutos ’’(p.30) ou, ainda,

procuro a tua voz

no olvido algemado da noite

sabia a sal/gema a madrugada

e a fogueira não trazia mutopas

paradas nas bocas Kabobas dos velhos.(p.31)

Trata-se de outra forma de fragmentação. Ou talvez, até, da fragmentação propriamente dita, de que a primeira forma a que aludi - a da linguagem - seja nada mais que reflexo. No poema que se lê à p.28,

o poder tangente

a memória de um povo

no pulmão entre fusil

rente as águas profundas

descem as rãs

a montanha

tão grávida de sol

de sol nascente e arco-íris.

e que sabemos tratar-se - nesse contexto - de transpiração lírica de lembranças do poeta, vamos encontrar concentrados elementos que aparecem dispersos e isoladamente na primeira parte do livro: águas profundas (vale por mar), rãs, montanhas, sol. É como se através da memória, o poeta se fragmentasse e ao reflectir depois sobre cada um dos fragmentos, se expressasse com uma linguagem capaz de representar essa fragmentação primordial.

É a memória, portanto, que dialeticamente fragmenta o poeta e ata todos os fragmentos do livro, transformando-o em um todo harmonioso e bem estruturado. Um livro cuja poesia é feita de palavras soltas, postas em liberdade, demonstrando o aspecto criador da utilização da linguagem.

Aqui, a expressão verbal, o campo semântico em que esse autor se move, constituem um idioma à parte, um verdadeiro idioleto. Não é sem motivo, pois, que este livro de Bonavena - transposição poética de suas reminiscências - pode ser apontado como um momento importante na Literatura Angolana de hoje.

Notas

1.Cf Carlos Ervedosa, Roteiro da Literatura Angolana, Luanda, UEA, 1985, P.153. 2.Mikel Dufrenne, O poético, Porto Alegre, Globo, 1969, P.55. 3.Cf. Otávio Paz, A poesia de Matsúo Bashô in Signos em rotação, São Paulo, Perspectiva, 1976, p.163.

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