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Kasakas & Cardeais: Três Alegorias de Angola

Escrito por  Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco
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"À Giovanna, com sua força nascente, gerada com a paz, para saber mais tarde que, apesar de tudo, ainda há muitos como Tyl em Angola e no mundo".

"A alegoria, segundo Walter Benjamin, não tem apenas o sentido tradicional que a Retórica lhe atribuiu. Possui um significado subjacente, sendo capaz de, figuradamente, "dizer o outro", desvelando criticamente aquilo que se encontrava reprimido".

 

É justamente com o sentido alegórico definido na epígrafe acima que o livro Kasakas & cardeais, de Jacques Arlindo dos Santos, revisita criticamente a história angolana, discutindo a questão do poder e do autoritarismo, questionando a corrupção instalada, nas últimas décadas, em Angola, também dominada pela política neoliberal de globalização econômica. Este é um dos fios a unir as três estórias. O outro é a saudade dos tempos éticos da luta pela independência, dos sonhos libertários de construção da nação, sob a égide da igualdade e justiça sociais. A preocupação em resgatar esses princípios é tão forte, que aparece não só no corpo das estórias, mas vem destacada, no pórtico do livro, na epígrafe de Freud e na dedicatória ao amigo Gabriel Leitão, com quem o autor confessa ter aprendido a entender a batalha pela libertação e os passarinhos _ estes aqui usados como metáfora da liberdade.

As três estórias aproximam-se do lado "inverossímil" da própria realidade angolana: ou através de caricaturas grotescas de tipos sociais, como na primeira narrativa, "O Coronel do Prédio do Cão", ou por meio de fábulas e mitos modernamente recriados, conforme ocorre nos dois últimos contos respectivamente intitulados "Kasakas & cardeais" e "A Praga de Ngana Zuá Diá Kimuezu". A segunda narrativa é a que dá título à obra, encontrando-se estrategicamente colocada no meio desta, entre os outros dois contos, fazendo, assim, uma espécie de ponte, em termos da coesão semântica do livro, cujas mensagens nucleares são: a denúncia da ambição e desonestidade desmedidas e a crítica a qualquer forma de arbítrio ou exacerbação do poder. A primeira estória, "O Coronel do Prédio do Cão", é, conforme considerou, com bastante acuidade, João Melo, "um microcosmo da sociedade luandense, um verdadeiro missosso moderno", pois reúne pequenas narrativas que se entrecruzam, saídas umas das outras, revelando as mazelas de personagens que representam classes sociais de uma Angola desencantada e desencontrada de seus antigos sonhos. O riso trágico e o grotesco são os vetores estruturadores desse primeiro conto, que oscila entre inusitadas situações cômicas e outras de melancólica e ácida ironia. O autor trabalha com mestria os elementos risíveis, não permitindo que a narração descambe em pura comicidade catártica. Ao contrário: usa o riso como estratégia de reflexão social. O riso é irônico, cortante, revelador de profunda amargura, apesar de, em algumas passagens, se disfarçar num humor leve que atenua a crueza e a pungência de certas cenas.

Em praticamente todo o conto, o riso trágico alterna-se com o cômico. Há um jogo interessante entre estes, assim como entre o narrador que conta a estória e uma voz intrusa a interromper, com constantes reflexões e comentários irônicos, a narração do primeiro. Tais cortes se delineiam visualmente na linguagem do conto, pois o discurso dessa voz intrusa _ que funciona como a de um alter-ego do narrador _ é grafado com letras menores e vem em parágrafos destacados.

A primeira estória é uma caricatura de uma Angola desfigurada por longos anos de opressão, vítima tanto do arbítrio colonial, como do perpetrado por um autoritarismo de feição stalinista, manifestado, durante um certo período, após a independência. A princípio, aparenta ser uma narrativa policial, tendo em vista começar com o mistério da morte do coronel Kimbango que despencara de seu apartamento e caíra no estacionamento do Prédio do Cão sobre o carro do protagonista, o Zeca Fernandes, a voltar, naquele momento, de um show do grupo musical As Gingas, também conhecido pelo nome de As Meninas do Maculusso. Através de personagens bufas, grotescas, o autor traça um perfil da sociedade luandense dos tempos neoliberais: são as catorzinhas _ meninas prostitutas _ vendendo seus jovens corpos; é a velha Isa das Panelas com suas kimbandices, é o casal Tavares com seus privilégios, são, enfim, todos os outros que formam uma galeria de tipos representativos das incoerências e contradições existentes no presente histórico angolano. Ao final, o mistério da morte do Coronel não é deslindado. O que o autor ressalta é o fato de o prédio ter deixado de ser edifício, pois dele havia desaparecido a antiga harmonia. O conto demonstra como esse prédio se convertera em metonímia do país, onde muitos dos cidadãos, para sobreviverem, foram obrigados a adotar esquemas e a sufocar velhas utopias, tornando-se egoístas, corruptos, individualistas. Personagens pertencentes a diferentes classes da sociedade angolana desfilam, no espaço ficcional, descaracterizadas pela perda das tradições, pela ausência de ideais, pela anulação das práticas democráticas. Disso é alegórica metáfora o cartaz luminoso, no alto do prédio, com a imagem do cão São Bernardo, que, num período anterior à independência, apresentava a sugestiva legenda "Fidelíssima" e, no presente, tinha iluminadas apenas as cinco letras iniciais: "Fidel". Essa fina ironia, significativamente, tanto remete aos tempos coloniais, como insinua que a justiça social e a palavra revolucionária difundidas durante as lutas libertárias em Angola nem sempre foram cumpridas integralmente. Há aí uma velada acusação às transformações sociais que se fizeram sem uma politização maior do povo. O prédio mantém-se conhecido como o do cão, por causa do anúncio do São Bernardo em seu cimo, mas, ambiguamente, há também uma ironia subjacente nessa designação, uma vez retratar, metonimicamente, o mundo cão vivido por uma Angola de guerras, fome, desencanto e mortes.

A linguagem desse primeiro conto é ágil, engraçada, resgatando com criatividade certas gírias do universo social luandense, ao mesmo tempo que, inventando expressões e jargões coloquiais, instaura um tom jocoso de crítica. A par do constante travo de ironia, há no discurso do autor, nessa estória, uma dialética utópica que transforma o risível em motor de reflexão, questionamento e resistência, sugerindo, nas entrelinhas, a existência, ainda, de consciências pensantes como, por exemplo, a da voz intrusa que, insistentemente, vai problematizando o narrado. O riso, portanto, funciona aí como um "salto do possível no impossível _ e do impossível no possível", acenando para a possibilidade de os homens serem capazes, apesar de tudo, de pensar e ultrapassar os problemas.

Nossa análise, optando por uma ordem não linear, deixará a segunda estória para ser focalizada ao final e abordará, a seguir, "A Praga de Ngana Zuá Diá Kimuezu", o último conto do livro, que se caracteriza como uma alegoria mítica da história de Angola, desde as antigas origens _ o tempo do mukulukulo _ passando pela época dos sobas, pela chegada de Paulo Dias de Novais, pelo período de dominação colonial, pelos ventos de novembro que trouxeram a independência. Reinventando mitos da tradição dos povos quimbundos, esta estória, em particular, faz a denúncia de sofrimentos dilaceradores do território angolano em diferentes épocas e, simultaneamente, procura resgatar traços culturais e lingüísticos que o colonialismo e a guerra silenciaram.

Nesse conto, o animismo africano vem à tona, fazendo emergirem figuras das crenças locais: mulheres-kazumbi, kalungangombe, as pragas e punições dos espíritos, a ação religiosa dos kimbandas. É um universo de fantasmas e pesadelos que se desafivela da boca de um narrador-sobrenatural, o Imuariakimi Zekêza, entidade com cerca de duzentos anos de existência. As personagens femininas do conto são violentadas sexualmente, alegorizando a própria Angola esgarçada não só pelos conquistadores brancos, mas também por sucessivos conflitos entre etnias e exércitos autóctones. Imuariakimi Zekêza narra a história das três mortes do senhor João das Barbas, isto é, Ngana Zuá Kimuezu. Figuradamente, tais mortes podem simbolizar as muitas perdas ocorridas em Angola, vítima da impiedosa colonização e de sangrentas e longas guerras que retalharam seu corpo social e político.

"A Praga de Ngana Zuá Diá Kimuezu" é uma espécie de saga angolana, pois narra a história de crueldade praticada por várias gerações de dominadores brancos. O mítico participa do histórico, ambiguamente registrando tanto as pérfidas traições do poder, como a força das tradições que persistem, afirmando diferenças culturais próprias de etnias angolanas. O narrador conta como Ngana Zuá Kimuezu lançara sua maldição aos dominadores e a seus descendentes que venderam a alma ao diabo para terem poder e riqueza. A primeira morte de Ngana Zuá remonta ao tempo dos sobas; a segunda, refere-se à época de João Dias, que chega com colonos, operários, tratores. A terceira morte de Ngana Zuá ocorre quando cessa o conflito armado. Há, através da figura do General Cyrus Dias Matapau _ cujo último sobrenome semanticamente conota as idéias de morte e violência _ , uma crítica contundente ao sem sentido das guerrilhas que destruíram o país.

Neste conto, entidades míticas das crenças dos povos quimbundos intervêm como expressão da sacralidade primordial que precisa ser revivida para que os angolanos reinventem a própria identidade adormecida por séculos de arbítrio e censura. De acordo com Óscar Ribas e Virgílio Coelho, Kalungangombe é um ser sobrenatural do além-túmulo que tem o poder de suprimir a vida, julgar e punir os mortos. Observa-se aí que o imaginário mitológico, de forma figurada, resiste à colonização e aos conflitos armados, deixando ensinamentos sobre originárias e fundantes condutas culturais. Pode-se concluir que este terceiro conto, operando com o maravilhoso mítico, realiza uma volta crítica às origens angolanas, ao mesmo tempo que empreende um alegórico repensar da história de Angola.

Dario de Melo, em sua bem conseguida apresentação deste conto, afirmou que "Cyrus Dias Matapau é e não é João Dias - mas seu filho; que é e não é o diabo, mas a continuidade de um pacto que com ele se cumpre (...), porque a febre do poder que pretende não se compadece como outro tipo de comportamento".

Matapau morre ao final e uma chuva fininha cai, anunciando uma paz que o povo pensou ser para ficar: "Lá fora, na velha estrada, o povo aglomerara-se para comemorar. Juntava seu cântico ao dos kasakas que em brincadeiras esvoaçantes pareciam saltitar sobre as pessoas. Festejavam todos o grande dia de Ufolo."

O episódio dos kasakas faz gancho com a segunda estória do livro: "Kasakas & cardeais". Só que essas aves, no conto que dá nome ao livro, não mais vivem o sonho da libertação, nem festejam o "grande dia" _ como no exemplo da estória anteriormente analisada _, mas se encontram, em plena época atual, inseridas num contexto de globalização e desencanto.

O narrador desse segundo conto é "o pássaro sabido" que, bem ao jeito da oratura angolana, reafirma a veracidade do que é por ele contado. Narra a estória de Tyl, um passarinho nascido com "bico aberto", natural de Bansaka, metonímica cidade que remete a Angola das últimas décadas. Gerado em um ovo podre, esse pássaro fora escorraçado pela própria mãe, tornando-se, desde a infância, um "cisne negro na história", um "gauche na vida". A ave narradora relata a trajetória vivenciada por Tyl e seus familiares, mostrando como este passarinho chegou a cardeal e acabou abandonando o cargo, porque não ficava calado ao presenciar cenas com as quais não concordava.

Atribuindo voz a personagens que são pássaros, "Kasakas & cardeais" se instaura, por conseguinte, como uma fábula moderna que se assemelha, em alguns aspectos, ao livro A Revolução dos bichos, de George Orwell. Alegoria à exacerbação do poder na União Soviética comandada por Stalin, a estória do escritor inglês condena qualquer forma de totalitarismo. Revela a fragilidade de sistemas políticos desse tipo, através de uma fabulação em que os próprios bichos que lutaram contra a opressão, ao se tornarem dirigentes da "Granja Solar", se transformam em novos tiranos. A estrutura fabular de "Kasakas & cardeais" é bem parecida, na medida em que, por intermédio do ponto de vista lúcido e contestador de Tyl, vai sendo também efetuada, alegoricamente, uma denúncia ao autoritarismo e à corrupção surgidos no contexto do governo angolano pós-11 de novembro de 1975. Coerente com os ideais da Revolução libertadora, Tyl estranha e questiona certas contradições, relembrando aos pássaros cardeais os princípios éticos revolucionários:

Na verdade, Tyl não compreendia como se dispunha um cardeal da categoria de Lim a afundar-se na onda de actos desprezíveis que estranhamente tinham invadido os hábitos de uma boa quantidade de responsáveis, desvirtuando os valores mais nobres da família kasaka, desprezando o interesse do nosso bando e a vida de nossos amigos e parentes, pensando unicamente neles próprios, querendo para si apenas mais territórios e mais árvores para dominar (..) [ Kasakas & cardeais, pp. 75-76] Tyl toma consciência de que Lim e vários dos outros antigos combatentes pela liberdade de Bansaka haviam-se tornado verdadeiros déspotas, olvidando-se das tradições, dos cultos às árvores sagradas como o muzozeiro, a gajajeira ["planta dotada de virtudes mágicas, usada para amuletos e para atrair sorte"], a mulemba, esta, principalmente, considerada um local sacralizado de saber, onde os mais velhos colocavam oferendas aos antepassados e recebiam conselhos, ensinamentos; lugar onde, segundo Óscar Ribas, os antigos sobas se reuniam para reflexão, antes de tomarem qualquer decisão.

Mesmo tendo chegado a cardeal, Tyl não se esquecera de que era um "pássaro eleito pelos ancestrais" e, por isso, nunca perdera a capacidade de "ter bem presente o antigamente" [Kasakas & cardeais, p. 64]. "A árvore em que fora gerado tinha raízes profundas, bem presas à terra". [ Kasakas & cardeais, p. 70]. Por essa razão, nunca se afastara de suas origens. Continuara a sonhar com um Ujulame [ local de ventura, sorte, felicidade] não só para os cardeais, mas para todo o povo kasaka. Nesta fábula angolana, os cardeais correspondem aos porcos que queriam se igualar aos humanos em A Revolução dos bichos, de Orwell. Tyl também coteja a sociedade dos homens com a dos kasakas comandada pelos cardeais e se entristece, quando vê que uma é reflexo da outra, em termos de egoísmo e ambição. Decepciona-se ao descobrir o despotismo de alguns dirigentes; os esquemas que imperavam no país; o modo como os poderosos cortavam as asas dos pássaros pequenos, impedindo-os de grandes vôos. Tyl, "no meio de inúmeras inquietações, de comparação em comparação, foi verificando que uma elite de passarões parecia nada perturbada com o modo fácil como alcançou o bem-estar." [Kasakas & cardeais, p. 69]. Contemplando os poderosos de Bansaka e sendo desfeiteado pela própria mãe, passou a se sentir diferente dos demais pássaros: percebeu uma desenfreada "proliferação de situações patológicas que solapa(va)m as sociedades africanas", de um modo geral. Perdeu, então, a altivez e o brilho dos tempos das utopias e resolveu despir-se das penas de cardeal. O novembro, durante anos cultuado, se desvaneceu tragicamente em sua memória e ele preferiu morrer: prendeu-se ao visgo da mulemba sagrada e esperou os famintos quissondes lhe devorarem a carne. Entretanto, estes só lhe comeram os olhos, deixando-o cego. A alegoria da cegueira é aí significativa, uma vez que "o cego é aquele que ignora as aparências enganadoras do mundo e, graças a isso, tem o privilégio de conhecer a realidade secreta, profunda, proibida ao comum dos mortais. O cego participa do divino, do sagrado, é o inspirado, o poeta, o traumaturgo, o Vidente (...), o dono de outra luz, o que detém as sabedorias veladas, o saber oculto dos magos e eleitos".

A imagem de Tyl cego ao final alegoriza, portanto, esse outro ponto de vista "gauche" que continua a contestar qualquer forma de tirania e que persiste sonhando com a igualdade para todos.

Tyl, mesmo sem enxergar, conservou a leveza de ser ave, porque "não é pássaro quem quer; é preciso, acima, de tudo sê-lo". [Kasakas & cardeais, p. 69]. E ser pássaro remete ao vôo da liberdade, à imaginação poética, à possibilidade de sonhar.

No cômputo geral da leitura deste conto, fica, apesar das críticas e frustrações de Tyl, a esperança de que nem tudo está perdido, a certeza _ como lembrou Carlos Ferreira _ de que "todos os Tyls do mundo saberão que valeu a pena a dor". Fica também em nós, leitores, uma certa confiança de que "os maus dias de hoje darão lugar a outros de paz" [Kasakas & cardeais, p. 89], pois, de acordo com a conclusão de Dario de Melo, "kasakas e cardeais somos nós também que, só na cegueira do desespero, conseguimos adivinhar a sementeira da mudança nos sonhos apetecidos de Novembro".

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