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"Os Pequenos Botões" E O Desesperado Desabrochar De Uma Jovem Poesia

Escrito por  Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco
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Entre catástrofe e desespero, gritos e suspiros, lágrimas e sombras, também desabrocham Os pequenos botões sonham com o mel, de Carla Queiroz, jovem poeta angolana, vencedora do Prêmio António Jacinto/ 2001.

Entre a estrada e a catástrofe

entre a sombra e o naufrágio

as abelhas descobrem a espuma

azul e solitária

(...)

E das lágrimas da garganta sem

universo

Vejo os crepúsculos que se diluem em

penumbra

E dos dias tristes, das noites que

murmuram

Dores e suspiros rampantes

Apenas sobressaíram corpos envoltos

em gritos

Doces gritos que escorrem pela estrada.

JOÃO MAIMONA*

Entre catástrofe e desespero, gritos e suspiros, lágrimas e sombras, também desabrocham Os pequenos botões sonham com o mel, de Carla Queiroz, jovem poeta angolana, vencedora do Prêmio António Jacinto/ 2001. Assumindo uma dicção lírica semelhante, em alguns aspectos, à de João Maimona, Fernando Kafukeno, Paula Tavares, entre outras vozes representativas da poética angolana contemporânea, o poemário de Carla trilha o "caminho doloroso" da denúncia dos sofrimentos de Angola e declara uma descrença em relação às questões sociais do país. Mas, ao mesmo tempo que não se escusa de dizer "coisas amargas como os frutos", se coloca, como Paula Tavares em sua poiesis, sob "os auspícios da lua e da poesia" (QUEIROZ, Carla, p.26), sonhando com o mel das palavras, com a metalinguagem das abelhas, às quais João Maimona recorre para metaforizar o ofício poético de descobrir e inventar o "azul da espuma solitária".

Reafirmando várias tendências da lírica angolana dos anos 1990, Os pequenos botões se inserem no âmago do desespero, revelando um desencanto e uma incerteza frente ao presente e aos destinos futuros de Angola. Etimologicamente, o vocábulo desespero significa o estado de quem já não espera, de quem perdeu as esperanças. Entretanto, o sujeito lírico dos poemas de Carla Queiroz faz do "desepero um projeto", dos próprios "pés e suspiros" caminhos de sua determinada "pretensão". Reside aí a originalidade dessa poiesis que, contraditoriamente, a par da desesperança que a dilacera e mobiliza, ainda consegue sonhar, acreditando na própria proposta literária engendrada. Talvez, por isso, em entrevista a Mateus Valódia, no jornal Angolense, de 24 de novembro de 2001, a autora tenha declarado que seu lirismo foi poderosamente marcado pelo de Agostinho Neto, António Jacinto, Alda Lara, poetas que abraçaram com vigor os ideais de seu tempo, construindo poemas mensageiros das utopias dessa época. Embora o projeto poético de Carla Queiroz se afaste radicalmente do desses mais-velhos que lutaram pela dignidade do homem africano e imaginaram uma Angola e uma África totalmente livres, há no desespero dos versos do poemário da autora uma indignação profunda, uma decidida vontade de acusar o sem-sentido atual da realidade de guerra, fome e doença de seu país.

A voz lírica de Os pequenos botões sonham com o mel, ao declarar: "Perdi a certeza e a vontade de largar" ( QUEIROZ, C., p. 21), se mostra distanciada da semântica da "esperança" e das "certezas", conforme estas foram concebidas pela poética libertária de Agostinho Neto, Alda Lara e outros poetas de então. Subverte a espera em desengano, pois já não aguarda um Messias. Transforma as velhas crenças em dúvidas; os slogans e sonhos de independência, ouvidos durante a infância, em gemidos de desalento e decepção; o nós, tão empregado pela antiga geração de poetas, num eu que sofre o tempo todo, mas brada, com veemência, lucidez e poesia, sua angústia, reivindicando uma significação mais humana e poética para sua existência e a de seus semelhantes. Nesse ponto, também guarda alguma ressonância em relação à poesia de Agostinho Neto, só que despe inteiramente o humanismo pregado por Neto do caráter coletivo e utópico dos anos 1950 e 1960, preocupando-se com a defesa da subjetividade de cada cidadão e com a acusação do degradante estado em que vive o seu povo. Conforme bem sintetizou Adriano Mixinge, no excelente prefácio ao livro de Carla Queiroz, a poiesis da autora "traz ao de cima o único e verdadeiro problema filosófico de todos os tempos: o homem".

Em Os pequenos botões sonham com o mel, o tema do regresso, tão caro à poesia de Alda Lara e à de Agostinho Neto, também se encontra subvertido. A volta à terra não mais se manifesta recoberta de um telurismo celebratório; é, ao contrário, perpassada por um atroz realismo focalizador das paisagens incineradas da nação, envoltas em odores putrefatos de morte e abandono, corroídas pela urina e pela violência das constantes guerrilhas, as quais espalham enfermidades, miséria e frustrações tanto no plano social e político, como no cultural e existencial:

Beijei

Os lábios da flor

Onde encontrei a apologia da vida ultrajada

e por isso enfermiça

Enunciei

Os pretextos dos meus temores

Temidos e gemidos

Anunciando o retorno ao mato

e a condição de minhocas carcomidas pelo

mijo ( QUEIROZ, Carla, p. 19)

A voz lírica, associando-se metaforicamente, desde a epígrafe, às minhocas, se assume como "bicho da terra", anunciando sua presença rastejante, sua condição subhumana de verme, que funciona como metonímia da vida atualmente levada pela maioria dos habitantes de seu país. A poética de Carla Queiroz empreende, desse modo, uma dessacralização dos sentidos utópicos de pátria e regresso, este não mais se afigurando como telúrica quimera, porém como resoluto e lúcido projeto de retorno crítico ao solo ultrajado.

Polissemicamente, a alegórica imagem das minhocas significa também adubo e fertilização para o chão angolano que, no decorrer da história, sofreu inúmeras formas de opressão, tornando-se pútrido e árido. Assim, nas entrelinhas do poemário de Carla, podem ser depreendidas, entre outras, as seguintes mensagens: é preciso exorcizar o cheiro acre de Angola, "carcomida" pelo ácido "mijo" dos tempos... É preciso erotizar o solo apodrecido de sangue e cadáveres, penetrando até o âmago do que restou invulnerável nas camadas mais profundas. É preciso imitar o percurso das minhocas, em sua tarefa de arejar e adubar a terra e a pátria corrompidas por tantas guerras, cobiças, arrogâncias e desmandos.

O canto de Carla se assemelha mais a um pranto, não tendo o tom laudatório e o ritmo caudaloso da poética dos anos heróicos caracterizada por versos de grande retórica. É forjado num compasso sincopado _ o do arfar de seus suspiros crispados pela dúvida e angustiados pelo talvez identitário que circunscreve em indefinição o universo angolano dos últimos anos, vítima de moléstias as mais variadas e de completa ausência de perspectivas.

Os semas mais recorrentes no poemário de Carla são "desespero" e "suspiros". Estes, segundo as acepções dicionarizadas, tanto remetem, polissemicamente, à "respiração entrecortada produzida por desgostos" e aos "sons melancólicos denotadores de imensa tristeza", como ao "ar, à vida, à ânsia, aos desejos ardentes" e a um "merengue de açúcar feito no forno", cujo sabor é doce como mel. Constata-se, desse modo, que a linguagem poética da autora se tece de contraditórias emoções: ao mesmo tempo que exprime sua desesperança em relação ao social, não perde os sonhos e os planos em relação ao próprio fazer poético. Os sujeitos líricos dos poemas de Carla têm a consciência de que operam com a "inglória", com a "errância", com os signos vadios do quotidiano angolano de fome, com a embriaguez de pássaros cujos vôos se encontram impedidos pela violência. Por essa lucidez, a escritura poética de Os pequenos botões se erige sob o signo do esgarçamento que dilacerou Angola:

Tentei descobrir

O trajecto do sonho «serigrafado» nas minhas mãos

(...)

E «anunciei o meu lugar no estupro» (...)

( QUEIROZ, C., p.25 - grifos nossos)

Eu,

«Que habito na poesia insossa

No grito da corda que arrebenta» (...)

( QUEIROZ, C., p.25 - grifos nossos)

Com clareza de que o único lugar possível para sua poiesis é o da ruptura, Carla trama sua lírica com o esgar da dor e com os fiapos do que sobrou. Entretanto, apesar de admitir insossos os seus versos, aspira ao sabor do mel no trajeto que inventa para seus poemas. Estes, metaforizados pela imagem do "sonho serigrafado", se imprimem, num processo semelhante ao da arte da serigrafia, com letras e tintas que vazam pelos claros de máscaras impostas por uma absurda história de sofrimentos imputados ao povo angolano. A escrita de Carla Queiroz reinventa, assim, não só as lacunas do contexto histórico de seu país, mas principalmente os interstícios textuais de uma poesia tecida de brechas e vazios, que, conhecedora da própria metalinguagem, opta pela desobediência formal e pela dissonância dos versos, ciente " da vírgula que oprime o texto/, (...) da víbora que espreme a razão" ( QUEIROZ, C., p.47). Os versos de Carla são curtos e entrecortados como seus suspiros, contundentes e redundantes para acentuar o tom grave da própria revolta: "insultei o insulto". ( QUEIROZ, C., p.47). Valem-se também de jogos paranomásticos: "sombras" / "sobras" ( QUEIROZ, C., p.36 ) para ressaltar as carências do presente; de ferino escárnio para denunciar as corrupções atuais em Angola:

Crucificaram a verdade

Enganaram os enganados governos sacrilegiados (vírgula)

e endinheirados (ponto)

Fanatizaram os crentes,

Os (des)baptizados

E (des) protegidos pela

Fatalidade obscura do lixo

(QUEIROZ, C., p.39)

Recriando crítica e ironicamente o uso da pontuação e da gramática, invertendo slogans, ultrapassando o engajamento de poéticas que apenas "faziam o elogio do martelo"(QUEIROZ, C., p.36), a poiesis de Carla Queiroz se constrói "sobre a credibilidade perdida dos homens e dos textos" (QUEIROZ, C., p.36 ). Embora sabedora da "perda do cachimbo" e dos sonhos, ainda "deseja erguer-se no vôo da andorinha" (QUEIROZ, C., p.31 ), pássaro anunciador da primavera, símbolo de renovação e florescimento. O lirismo de Carla opera com motivos oníricos, mas estes se acham dissociados dos ideais utópicos, ou seja, da "sagrada esperança" cantada por Agostinho Neto, pois o sujeito lírico tem consciência de que:

Algo morreu

Morreu a flor e a coisa sagrada

Morreu a razão

(QUEIROZ, C., p.45 )

Os sonhos, em Os pequenos botões sonham com o mel, germinam como "botões desprezados", instaurando-se, na linha fundada pelas Brigadas Jovens de Poesia, sob o desenho da catástrofe e do desassossego que caracterizam, por exemplo, as poéticas de João Maimona, Fernando Kafukeno, entre outros. É interessante notar que o lirismo de Carla Queiroz dialoga com essa atual geração de poetas, contudo traz impressos na sua memória lírica o som e o "suor do imbondeiro", "o esperma viril da poesia do cágado" (QUEIROZ, C., p.33), "a lembrança daquela festa/ o encontro dos amigos que aplaudiam os guerrilheiros"(QUEIROZ, C., p.21 ). Assim, confessa com profunda sinceridade o emaranhado de contradições que permeiam sua poiesis:

Confesso

No fundo, no fim

Que «vivo no texto cônscio e sábio do herói»

Na tagarelice das «vísceras da minha desilusão»

(QUEIROZ, C., p.40 - grifos nossos)

Conforme afirmação de Adriano Mixinge no Prefácio ao poemário de Carla Queiroz, os vinte e nove poemas escritos em versos livres patenteiam uma grande maturidade poética: "Ousada e miúda. Terna e visceral. Aguda e simples. Precoce e feroz". Com esses oito substantivos, Adriano consegue definir a poesia da autora, chamando a atenção do leitor para "a consternação e a raiva" que se alternam na voz lírica dos poemas, cuja "inconformidade com a letargia e a mediocridade" contemporâneas do país é gritante.

Nascido no "ventre desencantado da serpente"( QUEIROZ, C., p.40), o sujeito lírico de «Os pequenos botões» tem ciência de que só "o grito uníssono da fome dos anjos"( QUEIROZ, C., p.22) e "o grito dos pássaros vadios"( QUEIROZ, C., p.32) podem estremecer "a pequena dúvida/ Que inspira a poesia/ A mulher e o desejo"( QUEIROZ, C., p.41), acordando, assim, "o poema que renasce do (seu)sonho" ( QUEIROZ, C., p.22). Percebe-se a voz de mulher assumindo eroticamente seus versos e seu tempo. Os botões, uma das metáforas nucleares do livro, desabrocham em polissêmicos sentidos: podem ser lidos como embriões de flores a nascerem; como pequenos objetos usados para abotoar roupas _ talvez a própria blusa da autora, conforme esta deixa supor na já referida entrevista ao Jornal Angolense _; como peças para ligar aparelhos, luzes, computadores; como os próprios mamilos dos seios, significando o recuperar do próprio erotismo feminino. Além de todos esses significados, o Dicionário Novo Aurélio(1) registra que botão é, nos estudos caligráficos, "o espessamento ovalado da extremidade da haste de certas letras". Todas essas significações remetem metaforicamente ao poemário; as últimas expressam, respectivamente, a sensualidade verbal que a poesia de Carla busca restaurar, bem como a própria metalinguagem de sua poiesis que se centra num labor estético capaz de avivar cada botão da caligrafia de seus versos. Sonho e desejo viajam, assim, pelos meandros da escrita, recobrindo a realidade insólita e absurda, com a eroticidade de botões de seio, botões de uma jovem poesia que teima em germinar:

Viajo insistentemente

Sobre o meu seio

Pretendo encontrar

O sentido das minhas marchas

O valor

Do meu seio. ( QUEIROZ, C., p.42)

Outra metáfora tutelar do poemário é o mel, cuja significação simbólica o coloca dentro da mesma esfera semântica do erotismo que perpassa pela poesia de Carla. De acordo com Jean Chevalier, no seu Dicionário de Símbolos, esse alimento

" é iniciático; como o leite é a primeira fonte de energia. Ambos correm em cascatas em todas as terras prometidas. Símbolo de doçura, erotismo, sedução, vida, fertilidade e fecundação, é comparado ao esperma do oceano. Representa também sabedoria, purificação, conhecimento e proteção. Realiza a abolição da dor, fundando a felicidade dos homens e da sociedade. Além disso, purifica as falhas da língua e desperta o dom da poesia. É concebido também como resultado de um processo de elaboração do Self, enquanto conseqüência última do trabalho interior sobre o si próprio. "(2)

Perseguindo "pingos e respingos de chuva", metáfora cósmica da fertilidade africana ancestral, e o inebriante sabor do hidromel, símbolo de vida e imortalidade, a poiesis de Carla Queiroz tenta sobreviver à "traquicardia" dos tempos angolanos de fel. Os botões de sua lírica sonham também com o mar, não o negreiro que dividiu os homens, conforme Agostinho Neto denunciou em versos, mas o mar infinito, fonte do Eros primordial e do Self. Sonhando com o mal, seus poemas o transformam em mel, "doce desejo/ que maltrata a espera/ (...) pura verdade da intempérie" (QUEIROZ, C., p.49)... Adoçando o desespero, instigam a dúvida e acabam por inspirar e erguer o vôo dessa nova poesia.

*MAIMONA, João. trajectória obliterada. 2. ed. Luanda: INIC, 2001. p. 29.

(1) FERREIRA , Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio séc XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 324

(2) CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain.Dicionário de símbolos.RJ: José Olympio, 1988.pp.603-605

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