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Ruminações Do Tempo E Da Memória Na Poesia De Paula Tavares

Escrito por  Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco
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Paula Tavares funda em Angola uma nova dicção poética que repensa a questão da sexualidade reprimida das mulheres.

Como beber dessa bebida

amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca, resta o peito

(...)

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

( Holanda e Gil, 1978)

Paula Tavares funda em Angola uma nova dicção poética que repensa a questão da sexualidade reprimida das mulheres. No entanto, não se exime de refletir sobre as desilusões sociais, mostrando-se contrária à opressão e à dor. Põe em cena uma voz poética feminina reveladora dos abusos de poder sofridos tanto pelas mulheres da tradição rural angolana, como pelas de vivência urbana. Sua poiesis opera com o exercício metalingüístico do escrever poético e, ao mesmo tempo, com a recuperação da oralidade dos povos do sul de Angola. A semântica de seus poemas se encontra voltada para essa cartografia pastoril do sul angolano, onde se encontram suas raízes. Desse modo, as águas que umedecem sua poesia são as das lágrimas femininas e as dos lagos de sua região natal. Águas doces, que, entretanto, se apresentam, por vezes, amargas em razão dos constantes sofrimentos vividos pelo povo angolano, em especial pelas mulheres que, além dos efeitos do machismo, são vítimas das guerras que perduram há mais de 30 anos em Angola.

Sangue e amargor, voz e silêncio, amor e catástrofe, ritos e tradições, vida e morte, tempo e exumação _ alguns dos vetores alegóricos que perpassam pelos poemas de «Dizes-me coisas amargas como os frutos» (Tavares, 2001), terceiro livro de poesia da escritora angolana Paula Tavares, quarto título de sua obra constituída por «Ritos de passagem» (Tavares,1985, poemas), «O sangue da buganvília» (Tavares, 1998, crônicas) e «O lago da lua» (Tavres1999, poemas).

"Dizes-me coisas amargas como os frutos", epígrafe do primeiro poema que dá título ao seu último livro, é um provérbio do repertório das tradições dos Cuanhamas, etnia do sul de Angola que habita uma zona vizinha à Huíla, província localizada no sudoeste angolano, região dos povos Muílas, onde nasceu, em 1952, na cidade do Lubango, Ana Paula Tavares, cuja descendência mescla as origens portuguesas da mãe e as cuanhamas advindas de sua avó paterna. Criada desde os nove meses de idade pela madrinha que, embora vivesse em Angola, cultuava em casa hábitos e costumes trazidos de Portugal, Paula foi conhecer mais profundamente as tradições de sua terra por intermédio de leituras e de projetos de investigação histórica e arqueológica em que trabalhou tanto na capital angolana, como em várias cidades do interior de Angola. Apesar de haver recebido uma educação portuguesa e só ter deixado o lar da madrinha para casar, pôde, durante a infância e a adolescência, observar, a uma certa distância, o universo das etnias locais à sua volta, mundo este que também ficou registrado nos desvãos de sua memória. A poesia angolana, em geral, se tece pelo diálogo entre a oratura africana e as heranças deixadas pelos portugueses. No caso da «poiesis» de Paula Tavares, predominam elementos do imaginário cultural do sul de Angola, recriados por uma linguagem estética de intensa elaboração e condensação poética que opera com as formas fixas da tradição oral, entre as quais: os provérbios, as frases curtas, as metafóricas lições morais. Ao enveredar pelos caminhos literários, Paula optou por trabalhar com essas fórmulas da oralidade, reatualizando-as, em seus poemas caracterizados pela economia e síntese verbal. Reinventa, desse modo, provérbios cuanhamas e ensinamentos da tradição dos povos da Huíla, efetuando um ritual de reencenação das vozes dos antigos «griots» que se valiam da narratividade oral como meio de organizar o caos, legando às novas gerações os mitos fundacionais de suas culturas. Seguindo o exemplo desses mais-velhos, a poesia de Paula Tavares se faz também guardiã da palavra e da memória ancestrais, embora estas sejam estética e criticamente sempre recriadas. O lirismo de Paula se engendra, pois, como uma rede múltipla que conjuga signos da modernidade e da tradição. Um dos eixos que permeia sua trajetória poética é a consciente opção por romper o silêncio que, em grande parte, envolve as mulheres angolanas, em particular as originárias das etnias do sul de Angola, onde a pastorícia e a agricultura definem o modo de vida, os ritos, os contratos, enfim, os costumes e a história desses povos. Desde seu primeiro livro, «Ritos de passagem», o eu-lírico assume a rebeldia do grito e denuncia práticas autoritárias oriundas tanto dos valores morais lusitanos herdados, como dos preceitos ditados pela tradição angolana. Em relação a esta, por exemplo, critica o alambamento, que prescrevia a troca das noivas por bois ou cereais. Insurge-se também contra outros costumes cerceadores da liberdade feminina como o uso da tábua corretora que obrigava, nessa etnia, as meninas e moças a uma postura ereta, perfeita:

Cresce comigo o boi com que me vão trocar

Amarraram-me já às costas a tábua de Eylekessa

Filha de Tembo

organiza o milho.

Trago nas pernas as pulseiras pesadas

Dos dias que passaram...

Sou do clã do boi (Tavares, 1985, p.27)

Declarando-se desse clã de pastores, o sujeito lírico reconhece que sua identidade se acha intimamente vinculada aos signos do gado e aos sabores, fragrâncias, tatos característicos dessas terras do sudoeste angolano. O odor do couro de boi se desprende dos três livros de poesia de Paula Tavares. A partir de «O lago da lua», esse cheiro aparece associado sempre às sandálias do amado falecido e passa a impregnar suas entranhas de poeta e de mulher, marcando "com o seu perfume as fronteiras do seu quarto" (Tavares,1999, p.19) e os sentidos profundos de seus versos. Essa presença bovina é tão forte, que, em «Dizes-me coisas amargas como os frutos», o sujeito poético, em meio ao caos em que se encontra, invoca o "boi verdadeiro" (Tavares, 2001, p.7) e a "vaca fêmea" (Tavares, 2001, p.29) como figuras-tutelares que o poderão guiar pelos meandros da poesia, fazendo despertar, novamente, a inspiração estética, adormecida pelos sofrimentos coletivos, causados pelas guerras desencadeadas em Angola nos últimos vinte anos, e pela dor individual provocada pela ausência definitiva do amado. Assim, na antecena do primeiro conjunto de poemas desse livro, clama pelo boi mítico, cuja simbologia polissêmica aponta para a calma, a doçura, a força pacífica, a bondade, a capacidade de trabalho e de renovação necessárias ao seu país destruído por tanta fome, tanta miséria, tanto sangue derramado:

Boi, boi,

Boi verdadeiro,

guia minha voz

entre o som e o silêncio (Tavares, 2001, p.7)

Boi, "boitempo", "boi da paciência", metáfora das ruminações da memória. Alegórica imagem de uma história de silêncios, de sons que se perderam através dos séculos, pelos planaltos da Huíla e pela areia do deserto vizinho. Ligado também aos ritos da lavoura sagrada, da fecundação da terra, o boi é um dos animais sacrificiais oferecidos aos deuses do panteão religioso dos povos pastores dessas regiões angolanas, sendo considerado intercessor entre os vivos e os antepassados. O culto a esses é uma prática comum aos povos «bantu» de Angola, os quais sempre acreditaram no poder advindo dos mortos, em termos de aconselhamento e de circulação da força vital.

Para enfrentar a catástrofe pessoal e social, o sujeito lírico de «Dizes-me coisas amargas como os frutos» realiza, literariamente, uma espécie de "cerimônia do adeus", dando a esta não a conotação funérea que a morte tem para o Ocidente, mas, sim, a significação angolana dos rituais de óbito tradicionais, através dos quais empreende uma catarse da amargura, da "escarificação das lágrimas" e das feridas gravadas na própria pele, para que vida e morte voltem a se entrelaçar em ciclos míticos de eterno retorno, conforme a cosmovisão africana da existência.

«Dizes-me coisas amargas como os frutos» pode ser lido, portanto, como um rito poético de exumação: do corpo do amado, do corpo de Angola, do corpo da própria poesia da autora, que, desde «O lago da lua», começa a "trocar de pele"( Tavares, 1999, p.15) e se abrir em carne viva a novas metamorfoses. O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, em seu livro «Boitempo II», onde também tece uma poesia da memória, atribui a esta a faculdade de ressuscitar o passado morto e por isso fala de "um tempo duplo da exumação". Seu olhar parado é pleno

de coisas que passam

(...)

e ressuscitam

no tempo duplo

da exumação

(Andrade, 1987. p.13)

É necessário, entretanto, atentar para o fato de que a palavra "exumar", geralmente associada, no Ocidente, à semântica fúnebre de "desenterrar ossos e cadáveres", apresenta também o significado de "tirar do esquecimento". E é justamente com base nessa última acepção que a poesia de «Dizes-me coisas amargas como os frutos» pode ser interpretada como um "duplo ato de exumação": no nível do enunciado, desenterra da memória as perdas sofridas pelo eu-lírico, porta-voz metonímico das dores do povo e das mulheres de Angola; no nível da enunciação, realiza uma procura arqueológica dos mitos, das formas fixas da oratura, dos ritos e costumes característicos de etnias do sudoeste angolano, reinscrevendo-os, de modo crítico, no corpo e no ritmo da própria linguagem poética que, embora busque recuperar as origens culturais, se revela, o tempo todo, moderna e transgressora. «Dizes-me coisas amargas como os frutos» não é só um diálogo com a memória do vivido e das tradições, mas também uma evocação intertextual permanente com os livros anteriores da autora. O olhar parado do eu-lírico que procede ao movimento de "dupla exumação" das lembranças, no último livro, se assemelha ao "cine-olho" (Tavares, 1985, p. 23) da "vaca que fotografa a morte e paralisa a eternidade" (Tavares, 2001, 1985, p. 23) em «Ritos de passagem». A distância temporal desfoca as coisas observadas e, como num «zoom» cinematográfico, fragmentos e ruínas do passado ganham uma dimensão de proximidade, sendo revistos à luz de um presente, cuja transparência deixa entrever camadas antigas da história inscritas nas crostas da memória. A escavação desta desloca o sujeito poético às matrizes étnicas primevas de sua terra, fazendo-o recuar a um tempo "vatwa, /um tempo /sem tempo,/ antes da guerra,/ das colheitas/ e das cerimônias." (Tavares, 2001, p.10). A referência aos «Vatwa», ancestrais dos povos de pastores que hoje habitam o sudoeste angolano, alegoriza esse outrora mítico e fundacional que a poesia de Paula Tavares busca apreender através das constantes ruminações do tempo e da linguagem. Desde «O sangue da buganvília» (Tavares,1998), os textos de Paula apontam para as "fissuras do sonho" (Tavares, 1998, p.49) que fragmentaram a sociedade angolana, envolvendo-a num clima de desencanto:

Diziam-nos, era preciso fundar a nação e nem percebíamos que, à medida que abandonávamos as cidades e os campos, íamos deixando a alma, partidas as redes e os barcos. Regávamos a terra com lágrimas e os cantos das mulheres como punhais nos dias e nas noites cravavam-se já, na denúncia de um tempo sem tempo que nos esperava (...) Passaram vinte e um anos e não se trata já de maioridade, a maioridade agora atinge-se mais cedo e em dor, trata-se sim de olhar no espelho a nossa própria velhice e a velhice da pátria apodrecida pela guerra, fermentada de fome, adiada de projectos. ( Tavares, 1998, pp. 72-73)

Segundo Laura Padilha, as crônicas desse livro falam da pátria adiada, dos projetos falidos. "Se em «Ritos de passagem», havia um sujeito em rito que procurava o seu lugar, em «O sangue da buganvília», o sujeito está em crise, em distopia, sem lugar"( Padilha, palestra UFRJ, 2000 ). Restam-lhe apenas as palavras-grito que buscam, apesar de tudo, semear a consciência crítica, a resistência metaforizada pela buganvília. Um profundo amargor assinala a produção literária de Paula Tavares a partir dos anos 90, estabelecendo, desse modo, uma diferença entre os seus três últimos livros e o primeiro. Este, publicado em 1985, ainda guarda a utopia das transformações sociais que as lutas pela Independência provocaram nas mentalidades do país, as descobertas do Amor e do prazer da mulher que queria sentir os cheiros do próprio corpo, os sabores do sexo e dos frutos da terra, a rebeldia feminina de transgredir as tradições e a linguagem. Nessa primeira obra, havia o sonho da "abóbora-menina"; o corpo pintado de "tacula" (Tavares, 1985, p.30); o tato macio e o paladar acre-doce do maboque, da manga, do mirangolo. Havia o cinto a não ser posto; o círculo e o cercado a serem ultrapassados:

Hoje levantei-me cedo

Pintei de tacula e água fria

o corpo aceso

não bato a manteiga

não ponho o cinto

VOU

Para o sul saltar o cercado

(Tavares, 1985, p. 30)

Em «O Lago da lua» e em «Dizes-me coisas amargas como os frutos», escritos, respectivamente, quatorze e dezesseis anos depois, há "um tempo de espera para lá do cercado" (Tavares, 2001, p.23). O presente, prenhe de sangue e morte, envolve, num "compasso de espera"( Lopes, 1997, 159 p.), o eu-lírico, cuja voz, entretanto, resiste, ainda, por intermédio da poesia que, apesar da dor, não esquece a "ciência de voar, a engenharia de ser ave" (White, 1992, 34 p.):

Aquela mulher que rasga a noite

com seu canto de espera

não canta

Abre a boca

«e solta os pássaros»

que lhe povoam a garganta

(Tavares, 1999, p.17) [grifos nossos]

Cabe observar que, embora em «Ritos de passagem» haja uma rebeldia maior do sujeito lírico feminino que se redescobre e se afirma, transgredindo padrões e linguagens, a arquitetura desse livro é muito mais elaborada, condensada e fechada do que a das obras seguintes, onde o discurso poético se torna mais solto, amadurecido pelos sofrimentos e pelo mergulho no âmago de seu próprio fazer que busca incessantemente novos caminhos estéticos. A dor e a amargura são, pois, os divisores de água das duas fases da trajetória poética de Paula Tavares. Há, entretanto, fios condutores de sua «poiesis», a qual opera com certas invariantes: o trabalho com a voz e a recuperação da memória ancestral através da reinvenção estética de mitos, provérbios; "o descascamento das palavras que trocam de pele, como frutos, num procedimento escritural que lembra a técnica usada por Clarice Lispector"(Padilha, palestra UFRJ, 2000), num constante desbastamento do verbo criador; a síntese e a condensação metafórica e metonímica que fundam, à semelhança da linguagem estética usada pelos poetas João Cabral de Melo Neto (brasileiro) e Arlindo Barbeitos (angolano), uma "poética do menos" (Secchin, 1985, 307 p.). Se em «Ritos de passagem», há no sujeito estético o gozo do mirangolo "que corta os lábios/ com sabor ácido/ da vida" (Tavares, 1985, p.12), o gosto doce do mamão que se apresenta metaforizado pela imagem da "frágil vagina semeada" (Tavares, 1985, p. 16), o tato macio da tez recoberta do pigmento encarnado da tacula, nos demais livros, a pele das palavras é arrancada, o "mirangolo passa a escorrer um sangue"( Tavares, 1999, p. 23) rubro e o rito de passagem da poesia se converte em uma cerimônia amarga de cópula com a própria dor:

Atravesso o espelho

circuncido-me por dentro

e deixo que este caco

me sangre docemente

Entre dia e espera

a história deste tempo

em carne viva.

(Tavares, 1999, p.24). Essa experiência de reavaliação dos sofrimentos não tem, entretanto, nada de masoquista. Ao contrário, fortalece o eu-lírico, dando-lhe uma compreensão mais humana da sociedade e de seus semelhantes, através do enfrentamento não só de sua dimensão existencial, ontológica, mas da análise crítica do contexto político de Angola. Também a preocupação em ressignificar o passado, outra constante da poética de Paula, não apresenta nenhum traço de saudosismo ou nostalgia. O outrora é repensado em seus cacos e ruínas, segundo uma perspectiva benjaminiana da história que desvela as "vozes dos vencidos" (Benjanin, 1984, 253 p.), cujas tradições foram olvidadas por séculos de colonização opressora e por anos de guerras dilaceradoras do território angolano. Principalmente a partir de «O lago da lua», publicado em 1999, a poesia de Paula Tavares reflete sobre a crise e o desencanto que se abateram sobre o corpo social de seu país. O eu-lírico, então, passa a expor o corpo ferido, a pele pintada não mais de tacula, mas de cicatrizes (Tavares, 1999, p.33), a voz transformada em "grito[que se] espeta faca/ na garganta da noite".( Tavares, 1999, p.33). Alcança, assim, uma contundência que lembra a de João Cabral de Melo Neto: a da "faca só lâmina", penetrando os subterrâneos da linguagem e da história: As mãos criam na água

uma pele nova

panos brancos

uma panela a ferver

mais faca a cortar

Uma dor fina

a marcar os intervalos de tempo

vinte cabaças de leite

que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

(Tavares, 1999, p. 15).

Na pedra em que se converteu o coração para resistir à "fina dor" que lhe atravessa o peito, o sujeito poético "afia a palavra" e esta, apesar de cortante, não perde o toque lunar, nem o paladar da infância nutrida pelos sabores do leite e da manteiga da Huíla. Há uma delicadeza e doçura extremas na linguagem poética de Paula que busca "o mel dos dias claros" e a vida simbolizada pelo "lago branco da lua onde depõe suas últimas reservas de sonho" (Tavares, 1999, p. 11). Reservatório da memória e espelho metafórico de sua própria «poiesis», esse lago se institui como local sagrado de ritualização do verbo criador. Ao evocar as tradições ancestrais, "a máscara de Mwana Pwo" (Tavares,1999, p. 25), usada nos rituais de puberdade dos povos lunda-txókwe, a voz lírica se mostra consciente da dupla trajetória de seu rito poético, declarando ser necessário a este "atravessar o espelho em dois sentidos" (Tavares, 1999, p. 25): o do presente e o do outrora, o do plano existencial e o do histórico-social, o do enunciado feito letra no poema e o da enunciação que reencena poeticamente camadas antigas da memória individual e mítica. De acordo com o ensaísta brasileiro Alfredo Bosi, a "resposta ao ingrato presente é, na poesia mítica, a ressacralização da memória mais profunda da comunidade"( Bosi, 1983. p.150 ) que trabalha, então, "a linguagem da infância recalcada, a metáfora do desejo, o texto do Inconsciente, a grafia do sonho" ( Bosi, 1983, p. 150) Seguindo o itinerário dos avessos, o lirismo de Paula Tavares mergulha na sacralidade do lago primevo, depositário das heranças culturais dos povos de sua terra natal:

No lago branco da lua

Lavei meu primeiro sangue

(...)

No lago branco da lua

Misturei meu sangue e barro branco

E fiz a caneca

Onde bebo

A água amarga da minha sede sem fim

O mel dos dias claros.

Neste lago deposito

Minha reserva de sonhos

Para tomar.

(Tavares, 1999, p. 11)

O sujeito lírico volta à adolescência, às águas onde guardou suas reservas de sonho e lavou seu primeiro sangue. Este, entretanto, em «Dizes-me coisas amargas como os frutos», não é mais só "um sangue de mulher", mas o de muitos angolanos que perderam entes queridos ou a própria vida em decorrência da fome e da guerra. O eu-poético contempla, então,

a superfície do lago

silêncio e lágrimas pesam-lhe as margens

Uma mulher quieta

enche as mãos de sangue

cortando o azul

da superfície de vidro.

(Tavares, 2001, p. 20).

A voz lírica feminina, neste último livro de Paula, tenta reconfigurar a memória das origens, o trabalho das mais velhas oleiras a quem cabia a modelagem, em terracota, das panelas onde inscreviam provérbios que deveriam ser transmitidos às gerações descendentes:

Onde está a panela do provérbio, mãe

a de três pernas

a asa partida

que me deste antes das chuvas grandes

no dia do noivado

(Tavares, 2001, p. 23).

Nesses versos, são evidentes o vazio e a perda das antigas referências comunitárias. O eu-poético capta o sem sentido e o caos dos novos tempos de barbárie, chamando atenção para o fato de que a "oleira continua a colocar os olhos no barro" (Tavares, 2001, p. 38), sem perceber a morte do "amado e do elefante" (Tavares, 2001, p. 38), sem notar a desarmonia instalada à sua volta. Todavia a poesia, possuindo atentas antenas,

resiste sempre à falsa ordem, que é, a rigor barbárie e caos.(...) Resiste ao contínuo ´harmonioso´ pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte (...) (Bosi, 1983, p. 148)

Esse caminho de resistência é, justamente, o trilhado pela «poiesis» de Paula Tavares, particularmente nos livros «O lago da lua» e «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Ferida de amor, a voz poética enunciadora oferece seu próprio corpo e sua angústia no altar sagrado ( cf. Tavares, 1999, p. 12) em que se converte o seu lirismo. Este, sob o signo de Mnemósine, alegoria mitológica da memória dos afetos, empreende o inventário crítico do passado pessoal e mítico. Efetua, assim, a catarse das lembranças mortas, procedimento de que se vale para ressignificar o passado e o próprio presente:

CAOS

CACTUS

CACOS

mãos feridas d´espinhos

pousadas pássaros

no meu rosto.

(Tavares, 2001, p. 21)

Sintomaticamente grafadas em caixa alta, essas três palavras-versos se apresentam como alegorias-chave de «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Os CACOS remetem à fragmentação interior do sujeito poético e às fraturas da história angolana. O CACTUS representa não só a mágoa plasmada em espinhos, mas uma forma de resistir e sobreviver aos desertos e às intempéries. O CAOS se faz expressão da crise e da catástrofe individual e social, apresentando-se também como zona informe aberta a transformações e novas descobertas. Para enfrentar e reordenar o caos, para continuar a saltar os cercados da própria linguagem, para reconfigurar a cosmicidade "perdida" _a da palavra e a da história_ , o sujeito poético de «Dizes-me coisas amargas como os frutos», na primeira parte do livro, rumina o tempo e a memória; em seguida, passa, no pórtico do segundo conjunto de poemas da obra, a uma invocação bastante significativa: Vaca fêmea, guia bem amada dos rebanhos

A que não salta, não corre

Avança lenta e firme,

Lambe as minhas feridas

E o coração

(Tavares, 2001, p. 29)

Símbolo da Grande Mãe, da fêmea misteriosa, a vaca, em quase todas as mitologias, é uma alegoria do leite primordial, do princípio feminino por excelência, da terra nutriz. "Patrona da montanha dos mortos" (Chevalier e Gheerbrant, 1988. pp.926-927), a qual tangencia as fronteiras entre o céu e a terra, este animal sacralizado por povos pastores representa, geralmente, a fertilidade, a lua cheia, a esperança de sobrevivência e renovação. Ancestral da vida, suas tetas úberes metonimizam a libido, a energia vital, a força cósmica da palavra. Ao convocar como guia essa "vaca fêmea" para "lamber-lhe as feridas e o coração" (Tavares, 2001, p. 29), a voz lírica de «Dizes-me coisas amargas como os frutos» firma um pacto com a vida, buscando, no calor da língua _ na do animal e na que se faz matéria vertente de sua poesia _ um bafo quente de resistência.

A partir da compreensão dessa alegoria da "vaca", o amargo que atravessa os poemas de Paula Tavares ganha, para os leitores de sua poesia, nova conotação. Adquire os sentidos simbólicos do "fel produzido pelo fígado" (Chevalier e Gheerbrant, 1988, p. 427), o qual, em várias mitologias, remete também à coragem, à cólera, à indignação, sendo um elemento gerador da memória e das virtudes guerreiras, as quais, aliás, são um traço característico das etnias do sudoeste angolano, conforme explica o antropólogo e poeta Ruy Duarte de Carvalho ("um camba de Paula Tavares" _ como bem lembrou Rita Chaves em resenha sobre «O lago da lua», publicada na Revista Metamorfoses nº 1, 2000, p.273):

os pastores de animais de grande porte, e esse é o caso de grande parte dos pastores de África que mais de perto nos podem interessar, são de uma maneira geral, embora em maior ou menor grau, também povos mais ou menos guerreiros ou que preservam traços culturais, logo comportamentais, de uma vocação e de uma capacidade guerreiras. (Carvalho, 1999, pp.26-27)

Tal vocação subjaz aos poemas de «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Invocando «Kalunga» (Tavares, 2001, p.34), divindade da morte, o sujeito poético busca fazer a exorcização desta, clamando pela sorte que, nas crenças ancestrais dos povos pastores do sudoeste angolano, diz respeito ao "boi do fogo" (Carvalho, 1999, p. 368). Por isso, este é devorado, num rito sacrificial de esperança por tempos melhores:

Devorei a carne do boi do fogo

tudo até ao fim e o coração

No entanto

Kalunga, oh Kalunga,

Como estou necessitada

Como preciso de sorte.

Aqui a fome é tanta

Que as mulheres devoraram a carne dos bois dos homens

E as que eram virgens envelheceram

Ninguém cumpriu os preceitos

E agora somos viúvas da floresta

E temos os sonhos perdidos

(Tavares, 2001, p.34)

Conquanto se mostre consciente de as hienas ainda continuarem a uivar e a agourar guerras e sangue, de a mãe ter vindo sozinha com os seios murchos e secos de leite, de o amado não mais poder regressar com suas sandálias de couro, a voz lírica procede à exumação de suas tristezas e, através do lento exercício da memória, consegue transformar o gosto amargo da vida no fruto acre-doce de uma indelével poesia, que sangra e arde, mas se mantém acesa e intrépida, iluminando não só o luto e "os gritos espetados na garganta da noite", mas também o tenso presente angolano saturado de espera:

Faz falta a palavra grito a crescer por cima desse silêncio todo, construída livremente com o respeito antigo pelo lugar, mas trazendo as novas do tempo, dos participantes e das promessas. É preciso que a palavra acolha esta mais-valia de tantos anos de espera e silêncio e se solte e proteste e renasça na plantação das consciências. (Tavares, 1998, p. 33)

BIBLIOGRAFIA

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  • SECCHIN, Antonio Carlos. «João Cabral: a poesia do menos». São Paulo: Duas Cidades; Brasília: Instituto Nacional do Livro, Fundação Pró-Memória, 1985. 307 p.
  • TAVARES, Ana Paula. «Ritos de passagem». Poemas. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1985, 37 p. ( Cadernos Lavra & Oficina, 55)
  • «O Sangue da buganvília». Crônicas. Praia; Mindelo: Centro Cultural Português, 1998, 163 p.
  • «O Lago da lua». Poemas. Lisboa: Ed. Caminho, 1999. 55 p.
  • «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Poemas. Lisboa: Ed. Caminho, 2001. 46 p.
  • VICTORINO, Shirlei Campos. "Entre a semente e a palavra: a buganvília do corpo em Paula Tavares". In: _____. «Poesia e corpo: a questão da diferença na obra poética de Adília Lopes e Paula Tavares». Dissertação de Mestrado defendida na UFF. Niterói, UFF, 1999. Pp 74-103.
  • WHITE, Eduardo. «Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave». Lisboa: Ed. Caminho, 1992. 34 p.
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