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Fazendo Um País Uma Leitura Possível De Dois Poetas Angolanos

Escrito por  Laura Cavalgante Padilha
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“... a poesia é, literal e propriamente falando, “incriticável’’. Criticar poesia, fazer crítica de poesia com aquela confiança e tradicional boa consciência nossa conhecida, é o mesmo que criticar o Sol e as estrelas”.

A literatura angolana nasce sob o signo do anseio de libertação e, consequentemente, do desejo de reconstrução nacional. Diz António Jacinto, um dos poetas escolhidos como base destas reflexões:

“Literatura é isto. Não existiria se não existisse luta de libertação nacional. E na Reconstrução Nacional, como existiria literatura se não colocássemos “ pedras nos alicerces do mundo ’’? O braço que é aço carreia pedras para esses alicerces. É isso a literatura. Sempre e sempre. (Entrevista concedida a Lavra & Oficina, 1981)”.

Observe-se que a tomada de posição crítica se dá em 1981, portanto, seis anos depois de promulgada a independência nacional, quando o processo reconstrutor estava em pleno andamento.

Partindo daí, quero percorrer com dois poetas - esse mesmo António Jacinto, recentemente falecido, e João Melo - duas trilhas da produção poética das últimas décadas que nos permitem surpreender uma encruzilhada de sentidos possíveis para o desejo contido na expressão «fazer um país», que ganha força naquela mesma produção desde os anos quarenta. Entre 61 e 75, essa poesia mostrará instigantes feições, jorrando indomada no tempo subsequente, até chegar à nossa época, cada vez mais liquefeita em seiva, pólen ou sémen, sempre pulsão erótica, busca de vida.

1º Movimento

Prometeu - eterno jogo morrer/renascer - acorrentado no alto do monte, recebendo «sempre» a visita devoradora da águia de asas abertas, fígado em frangalhos e «sempre» recomposto. Tomo o arquétipo, para por ele reescrever a saga dos poetas, dublês de revolucionários, a morrer/renascer a cada novo dia, seja no tempo - espaço da luta, seja no da prisão, que é exílio, no «Campo do Tarrafal», «Chão Bom», «Santiago», «Cabo Verde». Em “Dois momentos ’’, poema contido na colectânea sintomaticamente chamada «Sobreviver em Tarrafal de Santiago», António Jacinto metaforiza esse estado, mostrando um eu-lírico aguilhoado, naquele confinamento, por outras espécies de águias de asas abertas. A data, via de regra marcação extra - textual, incorporada ao poema como elemento produtor de sentido, mostra a dimensão do acarretamento:

Ontem

Despertar aqui

é como morrer

sem ter vivido

15.5.70

Hoje

despertar aqui

é como ressuscitar

sem ter morrido

16.5.70

Este poema, como outros da obra, foi escrito nos tempos do desterro quando, despaisados, intelectuais e/ou líderes angolanos se encontravam em Cabo Verde, corpos confinados, horizonte barrado pelo monte e pelo mar.

É tão forte a metáfora de Prometeu no imaginário de Jacinto que ele dará a uma de suas produções o nome do mito. Dos quatro textos nela contidos – um conto e três poemas - , três reforçam o tema recorrente, recebendo sempre o mesmo título. Os dois poemas assim nominados trazem, nos subtítulos, a marca diferenciadora: “ Prometeu (Canto interior de uma noite fantástica)’’ e “ Ainda Prometeu (Musseque Prenda )’’. O terceiro é o conto, primeiro na ordem do texto, sem qualquer subtítulo. A constelação textual obsessiva reforça a imersão no corpo mítico e a força daquele sentir prometeico. Cito o quarteto final de um dos poemas: Somos! Existimos!

Que o peito se ofereça às balas desesperadas E os gritos fiquem, porque sentimos. (1987) p.31

A dor e a resistência, marcas de Prometeu, varam as páginas das obras produzidas nos duros tempos da guerra. Disso resulta uma poesia que é denúncia de mortes, perdas, exílios. Poesia que se tece de fogo, o maior de todos os sinais: com ele, os heróis buscam tornar vida o que antes era pura morte. Poesia entretecida por fios de sangue, a tingirem, na branca página, as linhas dos versos:

Pomos doiro são? Não são.

As palavras?

As palavras são carne

E esqueleto

E sangue

Sobretudo isso – sangue.

(Sobreviver) p.52)

O sangue se tempera «pela» e tempera a humanidade do eu-lírico, consciente de seu oficio de poeta e da força do que cria no processo de mudança que ele busca,

O poema é uma resolução gráfica

Uma frémita resolução gráfica

O poeta circuncentro

da presença geométrica polidimensional

-HUMANIDADE!

(idem) p.53

Jacinto, com a consciência do momento agudizada pela repressão, capturado insecto na teia do exílio, tendo à sua frente, irónicamente, a Ilha do Fogo, liberta-se pelo imaginário e se faz, sobretudo, um ser de poesia. O poema que já houvera sido assim definido.

o meu poema é um poema que já quer

e já sabe

o meu poema sou eu-branco

montado em mim-preto

a cavalgar pela vida.

(Poemas, 1985.p.51)

agora é pura África, monoliticamente África. Uma África presa no reino da necessidade. Adia-se, nos anos da luta, o prazer que cede lugar à dor, ao desespero, à angústia que advém, quando o sujeito se sabe impotente frente ao fato consumado da devoração impiedosa. O grito do poeta ecoa, então, recuperando o sentido da identidade. Estar em Cabo Verde é, assim, estar em casa, em certo sentido:

Penso África, sinto África, digo África Odeio em África

Amo África

Estou em África

Eu também sou África.

(Sobreviver) p.71)

Nesse mundo a ruir, o poeta se deixa levar pela pulsão tanática, dizendo:

Olho-me

Serenamente

Morri

Alguém morreu de mim dentro.

(idem, p.51)

O poema, pois, grito de ser-morrente, tinto de sangue, poema-África, leva o sujeito a conscientizar-se da ameaça representada pelo processo opressivo e, consequentemente, da necessidade de resistência que traz embutida dentro de si mesma a promessa da vitória final

- digo-vos que sou perigoso quando

na força viril do meu verso

espero!

(idem, p.51)

Esperando, reafirma-se o mais que humano que o habita e o poeta pode, em ritmo de certezas, afirmar: “humano sou e permaneço’’(ibidem, p.18). Ou seja: que no alto do monte, Prometeu continua a jogar o jogo de sua heróica resistência.

Interlúdio

Entre os movimentos, o interlúdio. No caso presente, o motivo está no fato da consciência de que nem tudo pode ser apenas dor.

Para Jacinto, o oásis de prazer se abre quando rememora e essa rememoração se faz o núcleo do poema. Retornam, nas rodas da memória, Luanda, o Golungo, a infância, a figura materna, poderosas inscrições no imaginário. A espera - ainda passividade - se transforma em desafio, em “O grande desafio’’, através do qual se aposta na volta das buganvílias, metáfora por excelência da força do novo tempo, embora tudo seja ainda “talvez’’,

Mas talvez um dia

quando as buganvílias alegremente florirem

(...)

quando a sombra das mulembeiras for mais boa

(...)

e unidos nas ânsias, nas aventuras, nas esperanças

vamos então fazer um grande desafio...

(poemas, p.55)

Também a memória o leva a falar de seu desejo erótico, momento em que Prometeu cede lugar a Orfeu e se podem entoar outras espécies de canções, aqui seguindo o que postula Marcuse em Eros e Civilização. Nessas canções, a dor cede lugar ao prazer. A descontinuidade clama pela continuidade e, no interlúdio, o som marcial se faz uma fuga. De Bach.

E agora que nos temos

toda me tremes

fremes

(Oh! Jardim de delícias e...)

Delírios de beijos tactos

(... de loucos cansaços!)

(Sobreviver, p.86)

Esse mesmo canto órfico, que só o pacto com Mnemosine torna concreto, será o objecto do desejo de outro poeta, João Melo, sobretudo depois de sua terceira obra - Poemas Angolanos (1989). Antes, porém, de se entregar a esse canto órfico, Melo evoca, na primeira obra , Definição (1986), a dureza da guerra, o não - sem - tido das perdas, a confiança na luta, clamando em sua “Arte poética’’, de 1972:

A minha poesia é angolana ferozmente

Escrevo com medo e com raiva

e força e ritmo e alegria

Escrevo com fogo e com terra

Escrevo sempre como se comesse

funje com as mãos

mesmo quando utilizo

garfo e faca (p.21)

A escrita traçada a “fogo e terra’’, os sinais de Prometeu. Reforçam-se, no corpo simbólico do poema, as marcas da heróica cidade que trazem em si a forja do ferro das palavras mais velhas que antes dele e com ele já haviam cantado ou contado o desespero – e cito seus versos – daquele “povo inteiro’’ a morrer “ a morrer “à sombra da milenar mulembeira’’ (Definição p.23)

2º Movimento

Ao contrario do primeiro onde se invocaram mitos arquetípicos, como prometeu ou Mnemosine, agora convoco, para mudar o tom, a leveza de dois versos do «corpus» da música popular brasileira contemporânea, compostos por Marina e António Cícero. Aqui, os versos: “Você me abre seus braços / E a gente faz um país’’(“Fullgás’’).

Eis, nos braços do outro, no gozo erótico, uma forma também possível de se “fazer um país’’. Este outro país já não se permite reger pelo principio da necessidade, mas só aceita o primado do puro prazer. Estamos frente à frente com uma imagem que nos remete à “alegria’’ e à “plena fruição’’(Marcuse, ao falar das “imagens de Orfeu e Narciso’’, s/d p.140 e 150). Ouve-se uma voz, porém “voz que não comanda, mas canta, ’’ ao cumprir-se o “gesto que oferece e recebe’’ (ainda Marcuse, p.142). Ou seja: estamos no soberano reino de Narciso, duplo de Orfeu, no tempo chegado em que o herói cultural, Prometeu, cede seu espaço ao eros órfico, para sempre reconciliadas vida e morte. Cito fragmentos de um poema de João Melo:

Flor de água no centro das pernas

púbis vivificada pelo desejo

e donde emana um estranho odor a maresia

(...)

Pleno e vivo

eis teu ventre:

água flor ritmo

acre per fume luz

terra fogo paixão

Poesia (Tanto Amor,1989, p.50)

João Melo - mais acirradamente depois de Tanto Amor – abre uma clareira erótica, desvelando uma face pouco explorada na literatura angolana de hoje. O ato erótico, o outro da morte, como ensina Bataille, é plenamente traduzido em linguagem poética;

Chego condevagar no teu corpo,

bebo o maruvo adocicado dos lábios

queimo os dedos na raiz da pele

mergulho na noite luminosa do ventre

como se quisesse romper

o invólucro do tempo que o protege

- e capto o teu grito terrível

com a minha boca espantada’’

(“Assim te amo’’, inédito)

Ultrapassa-se o corpo colectivo, cantado pelos poetas precedentes, e o corpo erótico explode em força, buscando, no outro, a continuidade perdida. O sujeito apaixonado “abisma-se’’, no sentido barthesiano; deixa-se sucumbir, levado por uma “lufada de aniquilamento’’ (Fragmentos de Um Discurso Amoroso, 1981, p.9). E o canto órfico aponta o outro - lugar com que só o erotismo é capaz de brindar o ser:

Canto

a subterrânea pulsação

do sangue

crescente irrevogável

Canto a paixão intensa

deste amor carnal

inaudito único

irrepetível

(Tanto Amor, p.45)

Depois desse mergulho, o eu-lírico reassume-se como sujeito histórico determinado, redimensionando o seu próprio conceito de nação. A voz, que em Definição cantara com ira e orgulho o país por fazer, agora propõe outros desenhos, mistura matizes, cria, enfim, outra via expressional, buscando uma relação dialógica com textos que mais directamente precederam sua produção. Rasteai-se o avesso dos mitos e procura-se um sentido novo para o gesto poético, pelo qual se traça também a nova imagem do país:

Um pais lambido por mil línguas de fogo

(...)

Há muito é pútrido o incenso das buganvílias

Os mitos desmoronam-se

imperceptivelmente como acontece

a corrosão histórica dos metais

para angústia dos poetas A infância

é demasiado distante (as crianças são patéticas

como peixes boquiabertos) O presente é

inabarcável Mas o futuro medra

nos dedos esfarelados dos homens abre caminho

como um cego de olhos inúteis

(“Um país ’’, inédito)

Chega-se ao fim do segundo movimento, com os fragmentos desse “outro” país em que os sinais de esperança do mundo dos poetas já antigos – como buganvílias, infância – ganham tom patético. Escondem-se, sob o texto novo, os anteriores, mais velhos. Propõe-se o palimpsesto. Há que se buscar, na cera do bloco mágico, o vestígio do que lá se escreveu. Soterra-se o “país’’ antigo, lançado-se para os mitos um olhar menos inocente. Fim, repito, do segundo movimento.

Acordes Finais

A cena do meu próprio texto está prestes a ficar vazia e nenhum canto a habitará. Proponho, à guisa de acordes finais, um duo dos dois poetas, respeitada a ordem de sua entrada naquela mesma cena. O país que agora se busca é o que, tecido pela alquimia da linguagem artística, se nomeia de poesia ou seja, com Otávio Paz, o “lugar onde os nomes e as coisas se fundem e são a mesma coisa: a poesia, reino onde nomear é ser’’ ( O arco e a lira, 1982, p.129):

António Jacinto

“Ofício

Começo o poema:

O coração é uma seta apontada ao centro do poema.

Não, não está bem;

Risco ou rasgo o papel.

Recomeço o poema:

O Homem é uma espada a fender em dois o Amor.

Não, não gosto;

Apago de novo.

Ou então:

O Amor é uma chama árdua a arder em breve pira.

Pior prosa:

Quebre-se a lira.

Recomeçarei:

No primeiro Apollo vou à lua

E cantarei.

(Sobreviver, p.63)

João Melo

“para que conste

busco a poesia no âmago da vida

ou nas esquinas

ou nas curvas e

contracurvas.

Em todo o lado há luz

ou merda. E tudo

é poesia.

Não tenho escolas,

nem gurus.

A linha da poesia é a linha

da vida.

(Inédito)

E concluo: Angola, apenas assim: trançado de letras, em forma de poesia que une o antes ao depois, nomeando e nomeando-se, para ser. Puro canto.

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