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"Emoções", Uma Grande Renovação Temática, Estética E Técnico-Formal

Escrito por  Inocência Mata
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De «Voz da Terra» (1974) (1) a «Emoções» (1988) passando por «Células de Ilusão Armada» (2) (1983), uma primeira constatação se pode fazer sobre a poesia de Adriano Botelho de Vasconcelos: o escritor é um poeta em procura, em construção!

A assunção de uma incidência social, de um compromisso com a problemática social, de um compromisso com a problemática histórico-social e ideológico-cultural, evidenciada de «modo combativo em Voz da Terra», vai cedendo lugar a uma interrogação sobre a (fragilidade da) condição do homem em confronto com a sociedade e consigo próprio e atinge a sua plenitude de interrogação angustiante em «Emoções». Reflictamos sobre o seguinte percurso:

Boca da terra

raízes de desgraça,

Sementes de ódio.

as vozes de além – Túmulo

escravidão

estilhaçou na terra

séculos de suor e fome.

(«Voz da Terra», in Voz da Terra)

porquê que a voz se cobre de imagens evadidas

da materialidade das mão e os soluços

anunciam a prece

das desilusões?

(« Encontro», in Células de Ilusão Armada)

a nossa ilusão entre antiguidades

de cinzeiros onde repousa a escrita que perdera

a memória. O rosto entre argilas de sensações

fundas de um livro de psiquiatria por onde

se engrossam nos hálitos das plantas

apodrecidas no interior

das pedras

em teus punhos cacos de luto

que multiplicam a submissão do

itinerário do sonho

(«Recados de amor», in Emoções)

Se em «Voz da Terra», A.B.V. fez uma «poesia de combate», um discurso de assumido compromisso social e político, discurso dilacerante de denúncia da situação de submundo de seu povo (Cf «o que somos?»), em Células de Ilusão Armada a voz do poeta, enquanto sujeito, continua a contextualização histórica de situações vivenciais que referenciava em «pá Kandengue Kitumba», «Pá prostituta nga Joana», «Kiuáias», «Levaram nosso irmão» ou «Mas...é escravo» ou ainda a trilogia poemática da prostituição – 1.ª/2.ª/3.ª «Poesia pá Ximinha» (in Voz da Terra). Desta feita, porém, a voz poética do sujeito emerge numa ambiência de quase – angústia sobre o homem, questionando-o enquanto fazedor de (determinado) mundo contra o qual se ergue – e questionando-se ora pela sua passividade ora pela sua cumplicidade. E neste enquadramento (auto) censório é significativo o poema de Rui Augusto, «Confissão» que fisicamente – em epígrafe! – inicia a antologia:

fui um estado

a meu favor

decretei

leis de excepção

e vivi numa legalidade

arbitrária

estou velho.

E mais do que as rugas

que trago no rosto,

dizem-me aquelas

que transporto curvado

na intimidade

Curiosa e significativa ainda é a reiteração de outra «Confissão» que abre a antologia poética que poderia ser número dois, Emoções, essa do próprio Adriano.

Confissão

é ter que percorrer os húmidos escolhos

de meu ser, despedir-me do «eu»

crescido no teatro

da vida, despedir-me

de identidades estranhas

que moldaram o meu

rosto.

Da denúncia à confissão, esta epígrafe poemática pode «definir-se» como manifesto estético e temático das preocupações poéticas em que o eu é objecto de interrogações quando confrontado consigo mesmo mas sempre perante o outro: «Caros amigos, meus pés tenho-os redes

em mares amantizados de luas e barcos que me

têm inumado em luzes mansas de ouro

a seguir o que me é

olvidado, por não

me dar a viver.»

(«Confissão», Células...)

Período intervalar do canto à «terra mártir/homens morrendo/ (...) a revolução / nos braços do povo / enraizado de sacrifícios / na luta pela libertação (« O que somos?»), Célula de Ilusão Armada anuncia, no processo de individualização, melhor descolectivização dos problemas humanos, Emoções.

Efectivamente, nesta presente antologia, a preocupação do sujeito poético já não é de «natureza concreta». Já não é porque resolvida e ultrapassada? De modo algum. Da pseudo – abstractização da temática poética de Emoções pode dizer-se que é, afinal, a escrita da proscrição da precariedade da existência enquanto um acto apenas material, físico. Significativo é o facto de ser o Amor o elemento recorrente em todo o processo. Todavia, o amor na poesia de A.B.V. não constrói um discurso lírico ou erótico mas se pensa como meio de humanização da vida que o sujeito poético propõe:

o amor não cabe na sanga das palavras

que abrem as persianas da manhã

e à travessia das cores é só

um quissange nas bocas iluminadas

de voos suaves e de inesperadas águas

por onde deslizam os países

(«como falar de amor» in Emoções)

como falar de amor se em teus

braços o vento deixara uma pedra

que nos diz das ilhas, em cinza, amputação

e no abrigo o movimento dos dias

são um encontro de lenços

que devido à humidade

deslumbram a palavra.

amar

(...)

é entrarmos

pelo elevador do amor até termos

a nosso pés a desilusão

vencida e meu-diga.

Porquê essa reiteração da espiritualidade, da sentimentalidade? Porquê essa «imagética abstractivista», construída de elementos não palpáveis, não identificáveis, indefinidos, ainda que em si os elementos sejam «concretos» ? - como por exemplo em «razões estranhas...»:

(...)

o amor que criara quintais

de alegria tão

longe das

crostas.

o amor

desde esse dia ficara sem creche

onde cresce e chora

sem «parar à porta»

da manhã.

Porquê essa constante insinuação da desilusão, do cepticismo e da procura, essa imagética da destruição a coexistir com a simbólica da vida? Veja-se, por exemplo, o poema «destruição» e toda a ambiência, mais do que do efémero, do escatológico; escatologia das palavras e do próprio ser que se prolonga na Natureza (« o Verão é breve / e longo como um pátio / de girassóis») e que gráfica e conceptualmente se completa no ciclo da cosmogonia no poema seguinte intitulado « Vida»:

entre óbitos sanguíneos

onde as máscaras são uma loucura

acelerada de sombras, com kotas dançando

entre sílabas de luto

presas no luando pegajoso

de batuques, a húmida força

das cores da ilusão que tornam

ainda possível o óvulo

redondo da

vida.

(desilusão / máscaras / loucura / sangue / óbitos / luto: uma completa escatologia! (note-se a propósito o esfacelamento do próprio corpo disseminado na macropoema: lábios, língua, boca, olhos, braços, mãos, pés, deixando o sujeito poético «nu entre conchas / de prazer / de dor onde nasceu uma canoa / à roda da / alegria?»)

Gratuita, essa destruição? Não! À dor segue-se a alegria, note-se ainda. Ao luto e ao óbito, seguem-se os batuques, a húmida força e as cores que tornarão possíveis o óvulo redondo da vida - disse-o o poeta no supracitado poema e bem explicitamente num outro poema:

(não

não há tumbas para

o futuro).

Portanto, ao nomear a morte, segundo um principio metonímico ( no sentido de ser a metonímia uma associação por contiguidade), dir-se-ia que o sujeito poético «se limita» a nomear o simples cumprimento do natural, cultural e antropológico ciclo dialógico Morte / Vida. Todavia, uma leitura mais atenta revela a metaforizarão na dupla conceitação de metáfora: transferência / transição de significado e associação por semelhança subjacente a todo o processo. É que se trata de uma morte provocada - em última instância, de uma morte das ilusões, das esperanças, dos sonhos e dos desejos qualquer segmento do macrotexto que é esta colectânea é disso revelador) e porque esse processo metonímico tem uma vertente metaléptica, na medida em que o sujeito « confunde » a causa da desilusão / da loucura / do desamor / do luto e da morte, da dor e da alegria com o seu efeito, misturado-os (a causa e o efeito), tomando um pelo outro, sempre em busca de um sentido para tudo.

Na verdade, a interrogação do sujeito poético de «Emoções» já não é sobre o seu lugar sócio-histórico. É ontológico. Embora as suas motivações subtextuais sejam sociológicas (e não dizemos sociais). Talvez por isso, os poemas surjam como um monólogo interior verbalizado, apesar, por vezes, da aparência de um diálogo marcado sobretudo pelo imperativo vamos / oiçam, etc. ou o vocativo de uma segunda pessoa que mais parece ser ele próprio, numa «conversa» consigo próprio o que é determinante no texto são as marcas da primeira pessoa. Daí o hermetismo que o texto por vezes acusa, porque nessa constante interrogação, reflexão e procura, confluem silêncio expressivos, alusões, imagens lúbricas de termos semanticamente paradoxais, cruzamento de discursos e fragmentos discursivos que fazem dos poemas objecto linguístico-semiótico. Disso resulta que o poema se revela mais como estado de alma do que como produto ou resultado de qualquer reflexão ou proposta. Aliás, para Jean Ricardou, em Problémes du Nouveau Roman, o escritor não tem a pretensão de comunicar um «saber prévio» mas sim a de explorar a linguagem como espaço particular. A linguagem - a poesia, no caso - para A.B.V. já não é um instrumento de comunição, não contém nada atrás. É sua própria expressão.

A esta altura do seu trabalho poético, afigura-se-nos temerário tirar conclusões sobre a poesia de A.B.V. «Sente-se», tal como o A. parece sentir quando escreve, a sua poesia como um campo de experimentação, um espaço de verificação de novidades, até técnico-formais. Muitas vezes é difícil ler essas tentativas de contemplar a linguagem como espaço lúdico, (para além da sua própria tematização e da sua percepção, o que já insinuámos), gerando uma espécie de autonomização de processo que ecoam como simples jogos e que se manifestam até na apresentação gráfica: o não - aproveitamento do espaço da folha, a indefinição estrábica, a ausência de maiúsculas, a escassez de títulos, o jogo com os caracteres tipográficos (a translineação, os parêntesis), etc. Todo um conjunto legível como marcas físicas de uma conturbada reflexão prenhe de interrogações, hesitações, silêncios, descontinuidades... a sugerir, na sua estruturação, uma complementaridade entre a comunicação verbal e a visual; enfim, elementos de grande inventividade que, chamando a atenção do leitor, conferem ao texto uma significação especial, mas ambígua. A.B.V. valoriza e explora a liberdade linguística do poeta e isso é uma características da sua poesia no contexto angolano, oscilando entre a tradição poética e a inovação.

Emoções contêm de facto, uma grande renovação temática, estética e técnico – formal.

Notas

1- Voz da Terra, Malange, tip. e Liv. Nova. 2- Células de Ilusão Armada, (antologia poética nº1), Luanda, INALD, 1983.

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