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Tradições Orais, Experiência Poética e Dados De Existência

Escrito por  Ruy Duarte De Carvalho
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O facto de ser chamado a depor num encontro de professores e especialistas das literaturas africanas de língua portuguesa dá-me a garantia de que, não podendo incluir-me em nenhuma destas categorias ao abordar a questão da intervenção das chamadas expressões tradicionais nos domínios da produção literária.

O facto de ser chamado a depor num encontro de professores e especialistas das literaturas africanas de língua portuguesa dá-me a garantia de que, não podendo incluir-me em nenhuma destas categorias ao abordar a questão da intervenção das chamadas expressões tradicionais nos domínios da produção literária, me cabe prioritária e fundamentalmente facultar o meu testemunho de poeta em cujo trabalho pode assinalar-se ou reconhecer-se um comércio assíduo e aturado com essa modalidade do património das nações. Excluo portanto toda a interpretação mais ou menos equivocada que pudesse admitir a expectativa de um trabalho de análise. Se as tradições orais, na realidade, em algumas circunstâncias me tem imposto um esforço de análise, isso acontece exclusivamente na medida em que certas informações que veiculam podem concorrer para o esclarecimento de problemáticas em outras áreas, preservar uma talvez suposta mas ainda assim sincera inocência de produtor ou de consumidor, sem fazer apelo a outras razões que não sejam as da sensibilidade ou da fruição. E ainda quando o meu ofício de antropólogo me conduz, o que não pode deixar de acontecer frequentemente, às paragens da linguística, por exemplo, eu peço desculpa à ciência que teme que os dispositivos da análise venham a interferir com os caudais da espontaneidade.

Não hesito assim em disponibilizar alguns dos termos da minha contestação pessoal quando convidado, como agora, a deter-me sobre a incidência das expressões artísticas de natureza oral e tradicional na minha própria experiência de poeta. Serei obrigado a produzir-me de uma sucinta que não perca de vista as condições do momento. O tema afigura-se-me logo a partida de uma aliciante complexidade e a isso terei de resistir condicionando a minha intervenção à enunciação apenas de alguns tópicos que a intuição, mais que a reflexão, me sugere como eventuais pistas para um tratamento que, mais desenvolvido em outras circunstâncias, poderia revelar-se adequado.

Referirei em primeiro lugar de que forma a leitura, a frequência, a intimidade com o registro fixado, que é afinal a forma mais comum de lhe ter acesso, da poesia veiculada através de expressão oral e produzida em contextos metodologicamente caracterizados, arbitrariamente ou não, como tradicionais, constitui para mim, e de há muito tempo a esta parte, uma via privilegiada e sempre tida como a mais segura de acesso a uma noção a mais depurada e justa possível do que tinha. E não me refiro aqui apenas à expressão oral africana. Estou a ter em conta toda a produção universal que emerge de sistemas globais de interpretação e representação do mundo, e do homem no seu mundo, em que o instrumento mental ou intelectual prevalecente é o da razão analógica, simbólica, substitutiva. Afigura-se-me extremamente estimulante poder conjecturar, e com uma certa fundamentação teorizáveis a posterior, que em tais circunstâncias a expressão poética emerge de um discurso global, social portanto, em sua própria natureza e a mais de um título poético em si mesmo. As relações entre tudo o que se propõe à razão do observador e do sujeito, do locutor, portanto, tidos como indissociáveis o pensamento e a linguagem aí apreendidas, avaliadas, integradas e traduzidas mais que em termos de causa-efeito, antes pela via das convergências, das divergência, dos paralelismos, das substituições dos. É um mundo urdido através da multiplicação infinita dos símbolos, e que de tal complexificacão, e a uma escala infinitamente humana e infinitamente cósmica, extrai a sua própria legibilidade. É o império, socialmente viável, da imagem e da metáfora. Universo utópico, bem entendido, paraíso perdido, traído assim, ironicamente e de propósito, pelo ênfase do meu próprio delírio poético.

Mais o que eu quero fazer partilhar é a percepção de que mesmo de um tal substrato universal, que é já o do entendimento analógico e simbólico, surge ainda assim uma forma que sublima o processo. E que essa forma é a poesia, revelada como tal desde o princípio e até os dias de hoje, mesmo após ter-se a inteligência operativa das coisas e dos fenómenos transferido para o domínio da realidade e da lógica dedutiva. O facto é que, tendo embora cedido à escrita a função de eleger para reter, memorizar, codificar, a poesia tem preservado através dos tempos a originalidade do seu procedimento de origem, quer dizer, exprimir sem designar sem nomear, visar a apreensão do que se situa para além do sentido estrito e útil das palavras, dar uma oportunidade à evidência das emoções, das intuições e das impressões, a palavra tida mais como ponto de partida para a imaginação do que ponto de chegada para a inteligência. Servida pelo exercício selectivo dos recursos fonéticos da língua, os sons primeiro, a palavra depois, adoptando desde sempre, mais nem sempre, os artifícios da versificação, tais como a rima e a métrica, a viabilização da apreensão poética através da linguagem constitui-se como um domínio em que a virtude e o papel da imagem são insubstituíveis. E daí que a poesia seja traduzível de uma língua para outra, o que seria impossível se a poesia se tratasse apenas de um programa de musicalidade vocal.

Tenho produzido ao longo da minha experiência de poeta algum trabalho de tradução para a língua portuguesa de poemas da tradição oral já fixados em outras línguas e procedido a reconversão para a poesia de alguns materiais divulgados noutros contextos de proposta. Fi-lo em grande parte movido por uma irresistível atracção de ordem criativa e lúdica, estimulando pelo desafio de encontrar os meus próprios equivalentes poéticos para uma potencialidade imagística que me seduzia a partida. Constato agora que agi assim tendo também em conta uma atitude programática que o tempo haveria de revelar muito consciente e integrada no meu percurso não só de poeta mas de agente social em situação. A apreensão de um determinado imaginário, aquele precisamente a que a frequência da tradição oral me dava acesso, quer pela via da fruição imediata quer através de um labor de recriação poética, constitui, ou acabou por constituir-se, a pedra angular dos inevitáveis processos de ruptura que a vida, quer como criativo quer como cidadão do mundo, haveria necessariamente que impor-me.

Aqui, com a brevidade a que me sinto obrigado, eu gostaria de poder assimilar de que maneira, em meu entender, tais procedimentos de ruptura não podem na realidade deixar de corresponder à expressão de um fenómeno, ou de um conjunto de fenómenos, que acaba sempre por assumir os sinais e a força de uma atitude de natureza colectiva, generacional em primeiro lugar, nacional ou mesmo nacionalista, se quiserem, no nosso caso e por fim. Qualquer geração de autores, e cada autor dentro dela, se vê ou acaba por ver-se perante a necessidade imperativa de apropriar-se, para seu próprio reconhecimento e auto identificação, de referências que rompem com as propostas e as possibilidades que lhe foram legadas pelas gerações anteriores ou as alarguem abrindo assim as vias a uma originalidade capaz de constituir-se ela mesmo como a evidência de uma modernidade inerente à própria dinâmica da validade artística.

No meu caso e tendo em conta as informações que o tempo da minha vigência de perpétuo aprendiz do mundo haveriam de impor-me à percepção e às opções, estou em crer que uma projecção no sentido da apreensão e do culto, se assim me é permitido arriscar, da potencialidade expressiva da tradição oral, ocorre como uma resultante senão inevitável pelo menos razoável, quase lógica e coerente. Este nosso século vinte terá sido talvez universalmente marcado por um esforço de libertação do imaginário pela via do recurso à legitimação dos procedimentos específicos da arte, o que é dizer, a reivindicação de uma leitura do mundo tida por libertária mas que em muitos casos se iria fundamentar ou inspirar, em procedimentos mentais como perdidos, ou circunscritos, no presente, aos terrenos da prática social dos chamados “ primitivos”. Movimentos europeus tais como o cubismo, o futurismo, o dadaísmo e o surrealismo, tomadas de atitude e de prática como o modernismo brasileiro, a consciência de uma matriz africana ou africanizante procurada pelos fundadores da inovação temática e formal referenciada como negritude, uma certa opção populista e popularizante proposta a partir de um espaço caribenho, etc., encaminha a busca para uma atenção deliberada e afoitamente dirigida a dados e a marcas tidos até então como marginais a uma noção dominante de cultura e de expressão poética ou artística. Se acrescentarmos a este corpo de induções, ou sugestões, o facto de nos situarmos numa realidade angolana em que a ruptura, mais que um fenómeno de natureza literária ou cultural, haveria de revelar-se prioritariamente uma questão de ruptura histórica, política e social, uma ruptura com o passado que lançasse precisamente as bases de uma proposta de passado a reinventar, a reelaborar, a urdir a golpes de coragem, de lucidez e de determinação, nós entenderemos facilmente que da conjugação de tão específicas componentes haveria de resultar a apreensão e a integração pessoal da sugestão que me era legada geração imediatamente anterior à minha, aquela que arriscada e revolucionariamente adoptara como programa o arrojo de se impor “descobrir Angola”, e daí retirasse o ânimo para tentar levar tão longe quanto possível essa mesma tentativa de descoberta e reactualização, visando uma dimensão que a projectasse num tempo espaço que excedessem Angola enquanto realidade territorial e política tão desconcretantemente recente. Ocorreu-me assim, desde o princípio e com grande clareza, que da acção do intelectual e do escritor poderia resultar uma produto cujo efeito se alargasse para além da sua objectivação formal e imediata, que daí poderia advir a disponibilização de materiais capazes de concorrer para a inventariação e a sedimentarização de uma memória nacional e universal à nossa medida, que nós próprios teríamos que forjar, reabilitar, recitar. Por isso traduzi com grande empenho, e mesmo com uma determinação que excedia a minha condição de poeta para nela envolver a minha opção deliberada a cívica de angolano, propostas poéticas outras que me parecia, através da sua elaboração na língua que serve a e que sirvo, poderem adquirir um estatuto de referência que, quer pelos canais da comunicação directa quer pelos da acção diferida, acabasse por disponibilizar-se como substância patrimonial e veículo de conhecimento universal e universalista, a um nível de densidade e de inteligibilidade que não temesse o confronto com fontes de outra origem tidas como bens comuns a toda a humanidade.

Dá-se finalmente o caso de que a produção literária ou artísticas moderna, aquela afinal que cada um de nós pratica, é intrinsecamente e por definição, um negócio ou um processo de acção pessoal, individual, e que só levada aos mais esforçados níveis de elaboração individualmente pode resultar numa expressividade que se projecte plural para além do incipiente testemunho de estados de alma intimistas e estéreis. Ora é sabido, julgo, embora estes sejam os domínios que eu prefiro delegar à ciência dos analistas da coisa literária, é sabido, dizia, que o processo de individuação poética implica a descoberta dos termos possíveis de uma transferência de captação e de projecção das experiências de que se urde o conteúdo subjacente a qualquer produção literária disponibilizada e tornada pública. São as questões da oralidade poética, da capacidade ou da possibilidade de assumir e de veicular como suas as percepções do outro em si mesmo ou do “OUTRO”, com letra grande, em que se explica ou refaz o “EU”. Também este processo, em mim (e bem que poderia ter sido de outra maneira), teve lugar nos terrenos do meu convívio com a expressão tradicional de fonte oral. E isto através da integração, levada aos extremos do que fui capaz, do que me foi possível e dado acontecer, de dois imaginários: aquela que me era intrinsecamente necessário extrair da minha potencialidade idiossincrática e aquele que o meu programa de individuação, situada e socialmente contingente, me impunha como condição vital de existência e de viabilidade cultural e cívica. E se é verdade que ao traduzir e adaptar, para a minha língua, fontes da expressão oral africana, eu lhes transferi a marca da minha própria linguagem poética, também é sem dúvida verdade que, ao fazê-lo, eu estaria introduzindo as marcas de um imaginário OUTRO ( com letra grande) na própria língua portuguesa e na minha própria produção poética, pessoal e intransmissível nos termos da sua forma e imagética específicas. De tal evidência viriam a resultar, constatei-o mais tarde, alguns equívocos de identificação e caracterização do meu trabalho. Como negar, no entanto, que alguns desses equívocos, apesar de o serem, se me revelaram muito gratos nalguns aspectos? Perdoar-me-ão sem dúvida que eu me sinta muito intimamente compensado quando, por exemplo, alguns dos meus textos poéticos, nomeadamente aqueles que constituem o livro «Sinais Misteriosos... Já Se Vê...», sejam tidos por alguns leitores precisamente como elaborações realizadas a partir de fontes alheias, da tradição oral, para o caso. Na verdade, por que não também dize-lo, nada ali provém de outra fonte que não seja a da minha mais pessoal elaboração imaginativa, fruto talvez, mas isso será, enfim, a marca de uma conquista, da intimidade do meu contacto existente com as próprias fontes da expressão oral, com a expressão oral enquanto forma vivida e tal como subsiste socialmente integrada em certos contextos, e com os actores sociais, em todas as suas manifestações, que os povoam o exacto tempo duma experiência quotidiana comum. Haverá aqui, estou em crer, a hipótese de várias pistas para uma nova linha de pesquisa dentro dos domínios das literaturas africanas de língua portuguesa. Mas eu entendo que não me compete arriscar-me em tais terrenos e de qualquer maneira queria encerrar esta minha condensada contribuição prestando uma homenagem à poesia brasileira, a que nós, Angolanos, tanto devemos. É que eu faço muita questão em defender para a poesia e para a experiência poética o estatuto de forma de conhecimento. E dá-me muito ânimo, em momentos difíceis que, como a todos, me ocorrem, poder pensar que o meu trabalho possa de alguma forma estar a concorrer para a formulação de uma angolanidade repensada e a salvo de interpretações mais ou menos circunstanciais ou episódicas. Nesse sentido, em suma, julgo ter procedido, sem o saber, enquanto Angolano, enquanto poeta e enquanto reformulador, actualizador e divulgador das expressões orais, segundo uma proposta que Drumund de Andrade, que é grande e vosso e também nosso, expõe da seguinte maneira:

“ se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida mas a poesia (inexplicável) da vida.” Substituo “vida” por Angola e declaro encerrado o que tinha para dizer.

Muito obrigado.

Luanda/Rio de Janeiro - Setembro de 1991.

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