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Angola: Pátria e Nação - Um Olhar do Discurso Feminino

Escrito por  Lourenço do Rosário
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Esta comunicação representa, antes de tudo, uma tentativa de resposta a uma preocupação que invariavelmente surge nos cursos de literatura, principalmente aos níveis mais avançados.

Neste caso vertente, ao nível do Mestrado: haverá efectivamente um discurso especificamente feminino na abordagem dos diversos temas literários?

Na Literatura Africana escrita em Língua Portuguesa, o caso angolano, a par do cabo-verdiano, já conta com um número de escritores relativamente numeroso para uma abordagem desta natureza, de forma a aventar-se algumas hipóteses.

Partindo do princípio que historicamente Angola foi um espaço dominado essencialmente por homens, será o homem, por consequência, o protagonista dos principais conflitos que vão corporizar a evolução da sua história. Deste modo, o papel reservado à mulher na vida angolana acompanhou, naturalmente, esse protagonismo masculino. A literatura, de certa forma, reflecte essa situação, mesmo em casos em que à mulher é reconhecido um papel relevante e fundamental; é como se se tratasse de um “ travestismo”, pois as qualidades evidenciadas são-no em função das características masculinas. Não constitui excepção, neste caso, a natureza da protagonista do romance Lueji, a rainha do mesmo nome, última obra publicada, do escritor Pepetela.

Por outro lado, as teorias que defendem a visão feminina do mundo, através da literatura, afirmam que não basta ser-se mulher escritora para a obra produzida evidenciar um enfoque diferente. Assim, o que se tenta aqui é, na verdade, levantar a questão em si, de modo a permitir que, a partir do desenvolvimento que o ensino das literaturas africanas tem conhecido nas academias, se não esqueça que pode ser também importante e interessante, virar-mo-nos para o discurso das mulheres como matéria de reflexão e estudo.

As mulheres que em Angola produziam obras literárias acompanharam, tal como os homens, a evolução histórica da sociedade. Deste modo, não é na questão temática que vamos tentar determinar a diferença, mas sim na focalização dos conflitos e na movimentação das personagens.

Se considerarmos a existência de uma literatura colonial e outra nacional, tendo em conta a deslocação do protagonismo da vida angolana da sociedade colonial para o todo nacional, veremos que as mulheres, nos últimos quarenta anos, tomaram parte activa na produção literária, tentando contribuir escrevendo, na constituição de uma ideia de Pátria e Nação.

Dos anos 40 aos 80, isto é, da Angola colonial à Angola independente, diversas mulheres escreveram contos, poemas ou histórias para crianças, empenhado-se elas também em dar a sua perspectiva dos principais conflitos da sociedade angolana. Deste modo, a ideia de Pátria e Nação, na literatura, é tributária das mentalidades prevalecentes e decorre da correlação de força. É nossa intenção determinar a linha de continuidade que especifique o enfoque feminino dos problemas de todos.

O período em apreço corresponde a uma fase da história da sociedade angolana particularmente importante:

1 - Como consequência dos consulados do general Norton de Matos, a política colonial de Portugal em relação a Angola ganha um impulso diferente. A população branca cresce vertiginosamente, quer nas cidades do litoral, quer nas zonas rurais, e crescem também as cidades do interior.

2 - Com a revisão constitucional de 1951, o Governo de Salazar transforma as Colónias em Províncias Ultramarinas, tentando com isso subtrair-se da função fiscalizadora da O.N.U quanto ao processo de autodeterminação a que estava obrigado como potência colonial.

1 - Com o início da luta armada de libertação nacional em 1961, os conflitos sociais, e políticos radicalizam-se de tal forma que as questões são encaradas de uma maneira geral sob o prisma maniqueísta.

A literatura, quer a colonial quer a nacional, reflectiu este estado de factos. Podemos afirmar que a ideia de Pátria e Nação evolui desde a seguinte concepção: Portugal em Angola, como duas realidades diferentes ligadas por laços de dominação colonial e a Angola Portuguesa, na expressão mais genuína da política integracionista do Estado Novo, isto como linha de força presente na literatura colonial.

Em contrapartida, uma outra ideia de Pátria e Nação desponta numa Angola nacionalista e depois independente, onde, cortados os laços com Portugal, surge a Angola das diversas raças e etnias, com novas propostas de estruturação, novos conflitos, muitos deles constituindo sequelas da ordem anterior.

A produção literária decorrente da concepção colonial de Portugal em Angola, apresenta a vida dos portugueses num território estranho, como se não tivesse havido essa deslocação no espaço. Toda a vida das personagens se processa dentro dos parâmetros da vida de qualquer aldeia portuguesa. O angolano negro é ignorado ou então aparece como uma referência pitoresca, que enriquece o colorido das descrições, a par da fauna e da flora. Neste «corpus», os valores culturais são aqueles que permitem a reconstrução de uma epopéia portuguesa, transportando a sua coragem para os quatro cantos do mundo.

Passando para a concepção de uma Angola portuguesa, podemos afirmar que se desenvolvera uma consciência crítica ao sistema colonial. Contudo, essa crítica não visava a emancipação do território numa perspectiva nacionalista, mas sim a libertação das teias da administração colonial, visto que impediam o crescimento e a expansão dos interesses dos filhos da terra. Os conflitos inter-raciais já são referidos. A matriz das propostas do realinhamento cultural permanece essencialmente portuguesa, mas manifesta-se já a integração folcloricista de alguns valores indígenas, embora as personagens negras permaneçam na penumbra com o estatuto de simples figurantes.

Quer numa, quer noutra concepção, a realidade da luta armada é tratada de uma forma traumática, vista fundamentalmente como uma obra demoníaca que veio perturbar a harmonia paradisíaca em que se vivia, apesar dos conflitos e problemas que no essencial valorizavam a heroicidade dos protagonistas.

Mesmo a literatura infantil produzia segundo este modelo, preconizava uma ideia de Nação e de Pátria em que as crianças se reviam e se reconheciam nos heróis do período áureo da história de Portugal.

Passando para a concepção de uma Angola independente, a proposta literária apresenta-nos um povo lutando pela unidade nacional, pela erradicação das sequelas coloniais, pela expurgação dos novos conflitos decorrentes do divisionamento racial regional e étnico, e pelo caldeamento dos valores culturais ocidentais e urbanos com os valores tradicionais e rurais.

Apesar do panorama aqui apresentado ter sido tematicamente fonte tratada por homens e mulheres, importa-nos destacar que do discurso feminino sobressai o tratamento destas matérias a partir do universo familiar ou íntimo, evoluindo depois para os aspectos sociais e até políticos.

Na literatura colonial abundam as histórias que se centram nas relações entre o homem e a mulher ou de uma personagem que se movimenta no seio de uma família simbólica, como, por exemplo, uma missão cristã. As narrativas centram-se num conjunto de relações supostamente intemporais e que têm na família a garantia da sua preservação. Na literatura nacional, principalmente na produção para crianças, as questões políticas que são a principal preocupação didáctica, são trazidas para a ambiente familiar.

Supomos que condições sócio-culturais terão condicionado o enfoque das mulheres na apropriação do espaço intimista e privado, deixando para os homens o espaço público. Pátria e Nação surgem assim com uma conotação mais intuitiva, telúrica e emocional, expressando uma ligação sentimental à terra e ao grupo a que cada autora, por razões históricas, pertenceu.

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