Bio Quem

Roderick Nehone

“ ... do ballet dos teus dedos
apenas ficou a flor
ainda te amo
muiiinnnto e melhor...

Extractos de “Artesã”. In: Roderick Nehone. Peugadas de Musa. Luanda, Editorial Nzila, 2001.

Roderick Nehone é o pseudónimo de Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso, nascido em Luanda a 26 de Fevereiro de 1965. Fez os seus estudos primários e secundários em Luanda. Terminou em 1989 o curso de Direito na Universidade Central de Las Villas – Cuba. Em 1994 obteve o FCE da Universidade de Cambridge. Desde 1991 que lecciona na Universidade Agostinho Neto.

Exerceu vários cargos entre os quais Assessor Jurídico do Secretariado de Conselho de Ministros, Vice-Ministro da Educação para a Área da Cultura, sendo neste momento Secretário-Adjunto do Conselho de Ministros.

“O animal circulava inquieto sobre a cama. Quiçá circunscrevesse àquela fofa altura os limites do seu domínio, estava acima do chão, o que lhe dava certa afirmação. Estava sobre um colchão, o que já era digno de consideração. Já não era um cão qualquer. Cão qualquer dormia na rua e no chão. Esta noite, se mantivesse a firmeza inicial, poderia dormir mais cómodo. Havia conquistado o lugar à custa de muito latido perspicácia e perseverança. A presença distante daquele outro animal bípede e medroso pouco poderia perturbar o seu reinado. Ainda que dormisse de bruços o sapiente suspeitaria sempre que ele estaria acordado. E, por esse simples facto, jamias ousaria aproximar-se. Por que razão preocupar-se então?!” In: Roderick Nehone. O Ano do Cão. Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1999, p. 76.

É membro da UEA desde 1996. Ganhou em 1996 o Prémio António Jacinto. Por duas vezes, em 1996 e em 1998 ganhou o Prémio SONANGOL de Literatura. As suas obras publicadas são: Génese (1996), Estórias Dispersas da Vida de um Reino (1996), O Ano do Cão (1999), Peugadas de Musa (2001).

Sobre o seu último romance de ficção, escreveu o crítico Jorge Macedo: “Pode considerar-se uma obra de intervenção social, literatura «engagée», visto reflectir as preocupações sociais do autor em alusão a um tempo histórico angolano, para lá de cronologias de mera citação biográfica do personagem, mexe períodos de luta anti-colonial (1960-1961, 1974), de pós-independência (1975), da chamada era da Queda do Leste (1992, 1994)... É que em matéria de cronometria literária a Roderick Nehone apaixona trazer no pulso e impulso de dinamismo literário este relógio criativo, cujos ponteiros andam para diante para trás, em beleza retrospectiva da desconstrução cronométrica dos fusos horários de Greenwish. Em pura apologia a uma temporalidade estética que não obedece ao determinismo da decadência da vida imposta pela ditadura dos segundos que envelhecem as estações do ano... Relativamente à estrutura tradicional da narrativa, subdividida em exposição, enredo e desenlace, o autor desvia-se da rigidez dessa ordem, tendo optado, pelo vaivém, em locomoção de caranguejo, preferindo contar as «histórias» em fios espirais de trajecto.” In: Jorge Macedo. O Ano do Cão de Roderick Nehone. Romance de grande intervenção social. O Angolense, 26 de Fevereiro de 2002, p.19-20.

“Com o ponteiro percorrendo o mapa hidrográfico, viajou estático por todas as bacias e estuários do Reino. Percebera então que havia nascido num país que tinha tantos rios como ele veias no corpo. Sózinho, o reino absorvera um terço das águas da parte austral do continente. Tanta fora a benção de Deus sobre aquelas terras que pouca água benta restara pró resto. Mas o Senhor, que entrara de visita à Terra que criara pela porta meridional, percorreu-a toda e decidira morar no Norte. Lá acima do Sahara. Nunca mais regressou ao Sul. Isto é geoteologia. Pura invenção. Voltemos à hidrografia. Tanta água para um só país! Saíra da escola quando o Sol olhava prà terra na vertical. À sua frente desfilava um cortejo interminável de mulheres e crianças com baldes vermelhos, azuis, de todas as cores, à cabeça. Mais um dia sem água. O líquido do Lengo e do Lwanza, que cercavam a capital fazendo fronteiras aquáticas, há quinze anos que desconseguia chegar às torneiras de sua casa. A tubagem ganhara ferrugem e o seu velho não se cansava de dizer que no dia em que bombearem água para cá esta casa vai pingar por tudo o que for canto. Só que não estarei aqui para ver!” In: Roderick Nehone. Estórias Dispersas da Vida de um Reino. Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1998, p.15.

Francisco Soares escreveu a propósito de “Peugadas de Musa”: “A originalidade deste livro consiste em nos mostrar que não é o exercício formal que limita ou prejudica a dicção poética. Nem o recurso a tradições endógenas ou exógenas. É a particular maneira pela qual as componentes do poema se relacionam entre si e com as expectativas dos leitores. O que se pode esperar do desenvolvimento desta proposta é o aprofundamento da liberdade do poeta, a síntese entre a habilidade e a imaginação, bem como a personalizada mistura de ingredientes exóticos em relação às tradições dos restantes recursos usados, ou seja, uma poética híbrida. O perigo por ela representado corresponde à dificuldade da tarefa, que exige uma atenção superior para, remexendo nas cinzas, acordar nelas o fogo original. O ganho é imprevisível. Boa viagem para o poeta!” In: Francisco Soares. A propósito de Peugadas de Musa de Roderick Nehone. Pegadas e caminhos. Angolense, ano V, nº 177, semana de 6 a 13 de Abril de 2002, p.22.

“Uma década depois de ter regressado ao Reino nada nele mudou. Relativamente. Saiu daqui pequeno. Pioneiro. Era o tempo em que as euforias dividiam o mundo em «ismos». Lá foi ele. Pioneiro ingénuo, mas militante. Acreditava numa causa e queria fazer-se homem para colocar-se ao serviço dela. Tão tenro e já tinha as suas convicções. Certamente imitava o seu pai. O velho era um homem de profundas e firmes crenças. E marchou. De barco. Apesar do visto-mau dos seus tios e avós, bazou. Sua mãe chorou no dia da partida. De lá do chão olhava para ele, de bruços na janelinha da nave e não conseguiu conter a pressão das lágrimas. O passarinho lhe estava a fugir do ninho. Num voo com regresso incerto. Seu pai, a fonte das suas convicções, lhe encorajou. E o barco lentamente se afastou do cais. Era noite. Buzinou um adeus prà cidade e zarpou.” In: Roderick Nehone. Estórias Dispersas da Vida de um Reino. Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1998, p. 27

 

 

Informação Adicional

  • Nascido em: 1965-02-26
  • Naturalidade: Luanda
  • Gênero literário: Prosa

Contacto

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