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Ndunduma

"Nasci na Mupa, no Evale, na Jamba,
nasci no Lépi, em Xá Muteba, no Cazombo,
nasci em Sanza Pombo, no Miconge, na Chibia,
no Ebo, em Cassoneca, no Ninda.
Nasci para viver depois da morte
nas ruinas de Ongiva que não morre".

Extractos de “Nasci....” In: Costa Andrade. O Cunene corre para o sul. Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1981, Cadernos Lavra & Oficina, 37, p.13.

Francisco Fernando da Costa Andrade, nasceu no Lépi, Huambo a 12 de Abril de 1936. Fez os estudos primários e liceais no Huambo e Lubango, indo depois para Portugal onde cursou até ao 3º ano do curso de Arquitectura. Exerceu diversas profissões ao longo da sua vida. É jornalista, foi director do Jornal de Angola após a independência, bem como exerceu cargos directivos na área da informação e da cultura. Actualmente é deputado à Assembleia Nacional pela bancada do MPLA.

“Nunca pensei ser escritor, nem acredito sê-lo. Escrevo versos ou outros géneros de vez em quando, como realizo tarefas que entendo e alguns mais, também, que podem ser úteis à revolução. Antes da minha própria consciencialização cultural escrevi versos, sempre que entendi que os mesmos podiam contribuir para a satisfação, a felicidade, ou até um simples sorriso, ou ainda, quantas vezes a raiva, daqueles a quem os dedicava. Creio tê-lo feito pela primeira vez aos 12 anos para a colega que se sentava na carteira à minha frente...” Extractos de uma entrevista à Gazeta da UEA, Lavra & Oficina, nº 8, Maio, 1979, p.4.

Em Lisboa participou nas actividades culturais na Casa dos Estudantes do Império, organizando em parceria com Carlos Ervedosa a Colecção «Autores Ultramarinos» que divulgou em terras portuguesas a literatura africana de expressão portuguesa; participou na organização da revista Mensagem, pertenceu à geração de Cultura (II). O seu pseudónimo literário mais conhecido é o de Ndunduma, nome de guerra que adoptou nos tempos de guerrilha no leste de Angola. Já usou outros pseudónimos como Andrade, Nando Angola, Africano Paiva, Flávio Silvestre, Fernando Emílio, Ndunduma we Lépi e Wayovoka André.

Antes de se tomar parte na luta de libertação como guerrilheiro no MPLA andou por diversos países como Brasil, Yoguslávia e Itália, onde prosseguiu os seus estudos e proferia conferências. Foi activista político.

A sua obra encontra-se dispersa em jornais e revistas, estando representado em várias antologias. É membro fundador da UEA. Além de escritor, poeta e ensaista, é também artista plástico. Está incluindo na generalidade das colectâneas nacionais e estrangeiras de literatura africana em língua portuguesa, como Contistas Angolanos (1960), Contos d’África (1961), Poetas Angolanos (1962), Poetas e Contistas Africanos (1963), Literatura Africana de Expressão portuguesa (1967).

"Leio nos teus olhos
a minha infância
como quem olha um retrato
envelhecido e mudo...

Os teus olhos parados
claros de luas passadas
não são mais que pedras frias
onde perpassam cacimbos...

...no entanto leio neles
todo esse mundo querido
de mistérios
assombrações"
“Poemas para um tocador de quissanje”. In: Terras das Acácias Rubras. Lisboa, Edição do Autor, 1961.

As suas principais obras publicadas são: Terras das Acácias Rubras (1960), Tempo Angolano na Itália (1962) Um Ramo de Miosótis (1970), Armas com Poesia e uma Certeza (1973), Poesia com armas (1975), O Regresso e o canto (1975), O Caderno dos Heróis (1977), No Velho Ninguém Toca (1978), O País de Bissalanka (1979), Estórias de Contratados (1980), O Cunene corre para o sul (1981), Ontem e depois (1985), Falo de Amor por Amar (1985), Lenha Seca. Fábulas Recontadas na Noite (1986), Os Sentidos da Pedra (1989), Limos de Lume (1989), Memória de Púrpura (1990), Lwini (Crónica de um amor Trágico) (1991) Luanda. Poema em movimento marítimo (1997).

Do seu livro No Velho Ninguém Toca disse Basil Davidson “... é um hino a Angola, animado pela coragem e pela confiança daqueles que se detêm para contemplar o caminho já percorrido, e o caminho que agora tem de ser percorrido; e que sabem, com Ndunduma, que o caminho será percorrido: através dos montes e para lá deles. É um hino para Angola,e mbora, a meu ver, Ndunduma tenha escrito um hino para todos nós. Devemos-lhe por isso a nossa gratidão.” In: Costa Andrade. No Velho Ninguem Toca. Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1978, p.9.

Luanda é a cidade
da cultura que é feita de culturas
Luanda a cultura vária
feita das culturas que se cruzam
do Sangadombe aos Axiluanda
De Jinga Ana Joaquina a Massangano
Do Sanbizamga a todas as Mayangas
Ingombotas os Faróis diversos

Extractos do poema “Luanda é a cidade”. In: Luanda. Poema em movimento marítimo. Luanda, Executive Center, 1997.

Mário de Andrade ao prefaciar “Poesia com Armas” escrevia: “Costa Andrade ocupa na literatura angolana e particularmente no seu espaço poético um lugar de relevo, que lhe advém tanto das suas qualidades intrínsecas de artista como da dimensão nacional da sua obra...Quando o poeta der a público o conjunto da sua produção poética, será possível desenhar fielmente a linha imagética, compreender cabalmente o tecido organizado das suas obsessões, penetrar enfim no jogo simbólico com as suas formas de permanência e de ruptura... Como alguns dos seus contemporâneos, atravessou as fases da literatura, a partir do grupo Cultura, colocando a sua personalidade e a sua obra em harmonia com o próprio desenvolvimento do movimento nacionalista.” In: Fernando Costa Andrade. Poesia com Armas. Poemas. Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1975, p.1-17.

 

Informação Adicional

  • Nascido em: 1936-04-12
  • Naturalidade: Lépi, Huambo
  • Gênero literário: Poesia, Prosa